Review – Yuru Camp (Anime)

Yuru Camp

O gênero nichijoukei (ou moe, ou slice of life, ou cute girls doing cute things, todos termos que possuem as suas próprias especificidades, mas que no vernáculo tendem a ser usados como intercambiáveis) surge como o conhecemos hoje lá pela metade dos anos 2000, e nessa quase uma década e meia de histórias do tipo nós já pudemos acompanhar toda sorte de variações da ideia de quatro ou cinco garotas do ensino médio interagindo umas com as outras. Por conta disso, não poucas pessoas tendem a simplesmente ignorar animes desse tipo, descartando-os como apenas mais uma ligeira variação em uma premissa já bastante conhecida. Dito isso, de quando em vez surgem aqueles animes que nos lembram que uma boa obra é determinada 10% pela sua premissa e 90% pela sua execução. Na temporada de inverno de 2018, dois foram os títulos que nos trouxeram esse lembrete, um deles sendo o aclamado Sora Yori Mo Tooi Basho, cuja premissa “quatro adolescentes indo para a Antártida” se desdobrou em um bonito coming of age que trouxe não poucos de seus espectadores às lágrimas.

Mas é ao segundo título do tipo que eu gostaria de dedicar uma reviewYuru Camp, uma produção do estúdio C-Station com direção de Kyogoku Yoshiaki, que adapta ao mangá homônimo de Afro, publicado na revista seinen mensal Manga Time Kirara Foward. A obra contou com um total de 12 episódios, cuja história começa em uma noite de inverno, quando a campista solo Shima Rin encontra com a hiperativa Nadeshiko. Um encontro fortuito, causado pela segunda ter se esquecido de ir para casa antes de anoitecer, e que termina com a Rin abrigando-a em seu acampamento até que a irmã mais velha da Nadeshiko viesse buscá-la. Daqui em diante vamos acompanhando as pequenas desventuras delas e algumas outras garotas mais, numa estrutura bem típica de um nichijoukei moderno. A força da obra, porém, está na sua execução, sobretudo no quão consistentemente ela consegue evocar um sentimento de conforto e relaxamento em seus episódios. É um anime que realmente vale a pena conferir, mas dito isso fica aqui então o aviso de sempre: spoilers a frente, então siga por sua conta e risco.

Shima Rin

Começando então a review, eu preciso primeiro me retratar. Eu disse no parágrafo anterior que Yuru Camp segue a estrutura convencional de um nichijoukei moderno, o que é verdade, mas é verdade com um asterisco. Um dos aspectos mais interessantes do anime, e também aquele que parece ter chamado a atenção de não poucas pessoas, é a demora da obra em reunir o seu elenco principal. Usualmente, um anime de tipo “garotas fofinhas fazendo coisas fofinhas” terá seu elenco reunido já no primeiro episódio. Não poucos títulos já começam com as quatro ou cinco garotas sendo amigas – ou pelo menos conhecidas – de longa data, e aqueles que se demoram um pouco mais nisso geralmente ainda terminam de introduzir todas as personagens principais ainda em seu primeiro episódio. Mesmo Sora Yori Mo Tooi Basho, que também foge aos estereótipos mais comuns do gênero em diversos aspectos (ele é, afinal, muito mais um drama do que um nichijoukei) ainda termina de reunir as quatro garotas que compõem o elenco principal já em seu quarto episódio.

Em contraste, Yuru Camp até começa com um pequeno vislumbre das suas cinco protagonistas acampando juntas, mas este é um cenário ao qual só voltaremos de fato em seus episódios 11 e 12. Durante a vasta maior parte do anime, as personagens ficam separadas em dois núcleos mais ou menos distintos: de um lado, temos a Rin, e suas ocasionais interações com a Ena e a própria Nadeshiko, enquanto que do outro temos as garotas do clube de atividades ao ar livre, Aoi e Chiaki, às quais se junta a Nadeshiko. Mais nesse caráter transiente da Nadeshiko em breve, mas por agora vale apontar como essa decisão de postergar o encontro das cinco garotas é uma com desdobramentos em todo o anime, servindo a diversos propósitos. Por exemplo, ela permite ao anime trabalhar o contraste entre o acampar solo da Rin e o acampar em conjunto das garotas do clube de atividades ao ar livre, trazendo uma temática que parece ter chamado a atenção de boa parte da sua audiência: a ideia de que não tem problema ficar sozinho quando se quer estar sozinho.

Kagamihara Nadeshiko

Eu não realmente quero me estender demais nesse assunto, porque ele basicamente dominou a discussão a respeito do anime. Nada contra, eu só não realmente sinto que teria muito a adicionar a ele, mas o ponto em questão é que na oposição entre o acampar sozinho e o acampar em conjunto o anime não trata nenhuma das duas opções como a “certa”, apenas como formas diferentes de se aproveitar um hobby. Sim, a Rin precisa aprender que acampar com as demais também possui o seu mérito, que é possível se divertir estando em conjunto, mas essa realização em nada muda o seu aproveitamento do acampar sozinha. E como que querendo reforçar esse ponto, o anime termina justamente com a Nadeshiko indo acampar sozinha uma vez – e coincidentemente encontrando com a Rin, mas nesse ponto a ideia já foi passada. E claro, talvez o mais quintessencial dessa mensagem seja a própria personagem da Rin, uma introvertida, sim, mas nem por isso socialmente inepta ou desgostosa da companhia de outros, como personagens do tipo costumam ser retratados.

Estar isolado é quase sempre tratado como um problema nos animes, muito possivelmente fruto de uma cultura que incentiva – mesmo força – o indivíduo a se encaixar e não se destacar. Ficar sozinho é muitas vezes um medo comum em muitos personagens, e quando temos algum que se afasta do grupo por vontade própria ele é normalmente retratado como o “lobo solitário” que “não entende o valor da amizade”, ou que “se acha bom demais” para ficar com outras pessoas. Yuru Camp, porém, nos lembra que não tem problema ficar sozinho quando se quer estar sozinho, e que momentos de reclusão e solidão podem também ser apreciados por si mesmos, apenas de uma forma diferente daquela com a qual apreciamos momentos de reunião. É uma mensagem final bem “neutra”, mas num bom sentido, e uma que eu certamente não me importaria de ver mais vezes. Há, no entanto, muito mais que se pode comentar sobre Yuru Camp para além dessa sua bonita mensagem. E, aproveitando que já dediquei algumas linhas a falar da Rin, vamos começar a expandir a discussão justamente falando um pouco das outras personagens.

Saitou Ena

Enquanto eu digo que o anime possui cinco garotas principais – Rin, Nadeshiko, Ena, Aoi e Chiaki -, a verdade é que temos apenas duas protagonistas de fato, a Rin e a Nadeshiko. Justamente por isso, não há muito que eu possa falar das outras três, ainda que sejam, a seu próprio modo, personagens interessantes. É um elenco bem menos arquetípico e estereotipado do que estamos acostumados a ver em animes do tipo, com as personagens soando sempre como bastante… normais. Menos como personagens de anime e bem mais como pessoas de fato. Mesmo, aliás, em suas interações. Elas conversam e brincam com uma naturalidade impressionante – e suas conversas via mensagens de texto bem me fazem lembrar de conversas que eu mesmo já tive. A exceção a isso seria a Nadeshiko, que encarna bem o papel de “moe blob“, aquela personagem que mais parece feita pra ser uma bola saltitante de fofura – e se isso é bom ou ruim vai depender muito de pessoa a pessoa.

Pessoalmente falando, eu gostei da Nadeshiko, e gostei também do papel que ela executa na história. Ela é a figura do outsider, em mais de um sentido. Ela é nova na prática de acampar, então acaba sendo um bom veículo pelo qual o anime pode jogar eventuais exposições sobre a prática de acampar, mas ela é também nova na escola das demais personagens, tendo se mudado apenas recentemente. Justamente por isso, ela é a personagem que pode quebrar o status quo vigente, finalmente convencendo a Rin a experimentar acampar com as demais. É a personagem que, com sua extroversão e empolgação, acaba servindo como o eixo em torno do qual as demais personagens acabam girando, o que é interessante. Esse é o tipo de personagem que costuma ser a protagonista de fato em animes desse tipo, mas aqui ela precisa dividir seu tempo de tela com a Rin, que é basicamente a sua antítese – de novo a mensagem de que no espectro de introversão a extroversão não existe um lado “certo”.

Inuyama Aoi

Mas para mim de longe o aspecto mais interessante de Yuru Camp é a constante sensação de conforto que o anime consegue criar, e que advém justamente da obra colocar todos os seus recursos nesse sentido. O que é ainda mais interessante, dado que um passo em falso poderia muito bem fazer vários desses elementos trabalharem justamente contra essa sensação. Por exemplo, o próprio fato do hobby que as garotas aproveitam ser o campismo – uma atividade que está muito mais associada ao se mexer e ao se movimentar. Claro, o hobby ser esse tem um certo propósito dentro do tema da obra, sendo uma atividade que pode ser realizada tanto sozinho como em grupo, mas o que realmente faz ela funcionar em prol do sentimento de conforto que o anime tenta passar é o fato da história de Yuru Camp ocorrer no inverno. O que é, em si mesmo, outro elemento que bem poderia trabalhar contra a sensação de conforto, dado que as garotas muitas vezes enfrentam temperaturas quase que abaixo de zero.

Simbólica e mitologicamente, o inverno sempre esteve associado com a morte, que precede o renascimento trazido pela primavera. Não exatamente o imagético mais reconfortante, mas Yuru Camp resolve isso apelando justamente para o conforto que advém do se abrigar do inverno. Poucas coisas são mais confortáveis do que se enrolar em um cobertor em um dia frio, o que surpreendentemente torna a estação o momento ideal para evocar esse tipo de sentimento (até porque, todos sabemos que ligar um ventilador em um dia quente não traz a mesma sensação de conforto, nem de longe). Inclusive, mesmo as roupas que as personagens usam e as comidas que elas comem servem um propósito semelhante. E além disso, o campismo também funciona na medida em que possibilita o anime mostrar diversos cenários deslumbrantes, paisagens naturais que bem conseguem provocar um sentimento de calma, tranquilidade e isolamento das preocupações da vida cotidiana na cidade.

Oogaki Chiaki

Justamente por esse último aspecto, eu não teria problemas em considerar o visual de Yuru Camp como um dos melhores da temporada. Ele talvez não seja tão espetacular quanto alguns dos animes que estrearam na mesma temporada, como o próprio Sora Yori Mo Tooi Basho ou Violet Evergarden, nem a sua animação é tão consistentemente fluida quanto algo como Slow Start, também daquela temporada, mas seu visual é um que está sempre a serviço das sensações que o anime busca passar. E claro, eu não poderia deixar de mencionar a trilha sonora do anime, que igualmente cumpre muito bem o papel de acalmar e relaxar. Se eu fosse tecer uma crítica a algum desses aspectos, seria que a abertura do anime é um tanto quanto “energética” demais para o tipo de história que ele é, e justamente por isso esse fica como um dos poucos casos em que eu acabo preferindo bem mais o encerramento – Rin e Nadeshiko olhando o Monte Fuji ao som de Furu Biyori é uma combinação que muito bem encapsula o que “é” Yuru Camp.

Há ainda mais que eu poderia dizer desse anime. Sua comédia foi uma que me agradou bastante, e como esquecer a cena da Rin sendo atacada pelos dois cachorrinhos no episódio 2? A constante presença de comunicação via mensagem de texto é outra coisa que eu gostei, e que adiciona um nível a mais de verossimilhança à obra, ainda que a presença desse elemento seja uma tendência recente que bastante extrapola Yuru Camp. E provavelmente há ainda algumas coisas mais que eu me esqueci de mencionar. Mas acho que a review já está de bom tamanho. Ao final, Yuru Camp me foi uma grata surpresa, um confortável iyashikei capaz de relaxar qualquer um após um dia cansativo. Curiosamente, muitas de suas características mais distintas advém da quebra que ele fez com alguns dos padrões de seu gênero, mas a sensação de conforto que ele proporciona é uma que qualquer um pode apreciar, fazendo deste um bom anime quer você conhece bastante do gênero nichijoukei ou não. Um dos melhores títulos de 2018, é um anime que eu certamente não irei esquecer tão cedo.

E você, leitor, que achou de Yuru Camp? Sinta-se a vontade para descer um pouco mais a página e deixar um comentário com a sua opinião.

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Imagens (na ordem em que aparecem):

1 – Yuru Camp, episódio 1

2 – Yuru Camp, episódio 1

3 – Yuru Camp, episódio 1

4 – Yuru Camp, episódio 2

5 – Yuru Camp, episódio 4

6 – Yuru Camp, episódio 6

4 comentários sobre “Review – Yuru Camp (Anime)

  1. Você vai fazer uma review de Sora Yori? Queria ver uma, achei esse anime muito superestimado, queria entender o que o pessoal achou de tão bom nele, uma review sua seria bem esclarecedora.

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    • Pra ser sincero, eu não sei :P Sora Yori Mo Tooi Basho foi um dos animes mais populares da última temporada, sendo bastante comentado em praticamente tudo que é lugar – lá fora principalmente, o YouTube está *lotado* de vídeos sobre Sora Yori desde antes mesmo do anime acabar. Geralmente em casos assim eu evito de fazer uma review, por não realmente ter muito que acrescentar em cima de tudo o que já foi falado. Dito isso, esse foi um anime que eu pessoalmente gostei bastante, mas não sei se tenho o bastante a dizer pra uma review.

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