Review – Mahoujin Guru Guru (Anime)

Mahoujin Guru Guru

Em 1992, a revista Gekkan Shounen Gangan começava a seriar o mangá de Hiroyuki Eto Mahoujin Guru Guru. Em publicação até 2003, o mangá resultou em um total de 16 volumes encadernados, e teve sua primeira adaptação para anime já em 1994, pelo estúdio Nippon Animation. Essa adaptação correria por 45 episódios, sendo finalizada em 1995, e excetuando-se um filme de 30 minutos em 1996 a franquia só teria um novo anime em 2000, quando é lançado Doki Doki Densetsu Mahoujin Guru Guru, agora com 38 episódios e finalizando ainda em 2000. Com o fim do mangá, nove anos se passam antes que, em 2012, começa a ser seriada a continuação do mesmo: Mahoujin Guru Guru 2, em publicação até hoje. Assim, após todo este histórico nós finalmente chegamos na obra foco dessa review: o reboot de 2017 do anime, agora uma produção em 24 episódios do estúdio Production I.G.

Na trama, o Rei Demônio Giri acaba de se libertar após 300 anos selado. Partindo para derrotá-lo temos o relutante herói Nike e a ingênua, ainda que adorável, maga Kukuri, a última remanescente do clã Migu Migu, cuja magia, o Guru Guru, foi o que selou Giri no passado. Percorrendo dungeons, enfrentando monstros e fazendo novas amizades, ambos terão muito de evoluir antes de confrontarem o vilão final. E se isso pareceu um tanto quanto clichê e infantil, bom… esse é meio que o ponto. Mahoujin Guru Guru é uma paródia dos jogos de RPG do final do século passado, e uma muito bem feita, diga-se de passagem. É um anime hilário, que funciona mesmo para aqueles nada familiarizados com o gênero que está sendo parodiado (tipo eu). Uma recomendação fácil para literalmente qualquer um, tenham em mente que a partir daqui a review contará com spoilers da série toda.

E assim começa a jornada desses dois.

Agora, eu disse no parágrafo anterior que Mahoujin Guru Guru é uma paródia, mas eu não tenho certeza de que o termo realmente faça jus ao anime. Não entendam mal, num sentido estrito ele definitivamente é uma paródia, e uma muito bem feita. Mas aqui está um outro lado: como gênero, a paródia é sempre referencial, muitas vezes dependendo de um conhecimento externo para ter graça. Mahoujin Guru Guru certamente tem piadas que são muito mais engraçadas – e fazem muito mais sentido – quando você tem não apenas o contexto maior dos antigos RPGs, como também o contexto maior dos animes de forma geral. Mas essa é também uma obra que consegue ir muito além da simples referência ou do puro ridicularizar de outros gêneros e clichês. Muitas de suas piadas não realmente dependem de um contexto mais abrangente, fazendo deste anime uma comédia capaz de fazer praticamente qualquer pessoa rir alto.

Por conta disso, há certa atemporalidade aqui, por assim dizer. Sem tê-lo lido, é difícil dizer se isso é um mérito do mangá original ou um daqueles responsáveis pela adaptação, que podem muito bem ter modernizado algumas piadas a fim de ressoarem melhor com o público atual. Mas ainda assim, o ponto que eu quero trazer é que este é facilmente um anime com potencial para integrar o roll das melhores comédias que a mídia teve a nos oferecer, e que seguirá sendo tão engraçado daqui alguns anos quanto foi assistindo-o conforme lançava. O que não significa, também, que ele não tenha mais a oferecer do que a sua comédia: nem de longe. Complementando-a, e muito servindo para desenvolver os personagens e as suas relações, o anime consegue ter momentos genuinamente tocantes, por breves que talvez possam ser. É uma mescla que nem sempre funciona, sobretudo se não for muito bem executada, mas que Mahoujin Guru Guru consegue fazer funcionar.

Hilário e tocante: uma mescla que nem sempre funciona, mas que Mahoujin Guru Guru executa com maestria.

Mas aproveitando a deixa, falemos um pouco sobre esses personagens. Inegavelmente, grande parte da força do anime vem de sua dupla protagonista, Nike e Kukuri. Individualmente cada um deles é já um personagem interessante e bem construído, com traços de personalidade que combinam tanto com aspecto o heroico de uma dupla destinada a salvar o mundo quanto com o aspecto infantil de personagens que ainda são, para todos os efeitos, meras crianças que apenas começaram a amadurecer. Mas é a relação entre eles que torna ainda tão mais fácil de torcer por ambos nessa jornada, com Kukuri encontrando em Nike o herói que viria livrá-la de uma vida trancafiada, ao passo que Nike encontra em Kukuri alguém que ele deseja proteger. Soa clichê e talvez um pouco piegas? É, sem dúvida, e o Gipple não nos deixa esquecer. Mas ainda assim, mais de uma vez o anime consegue fazer com isso momentos genuinamente tocantes, e pelo menos para mim é o que cimenta essa série como mais do que apenas uma comédia.

Obviamente, não dá pra resumir os personagens de Mahoujin Guru Guru apenas à seus dois protagonistas, dado que o elenco acaba por se revelar incrivelmente vasto. Mas como seria de se esperar, a recorrência desses demais personagens varia bastante. Boa parte deles só dura pelo próprio arco, normalmente 1 ou 2 episódios, ainda que com algumas exceções notáveis – vide o Touma e a Juju. Falar de cada um deles tornaria essa review excessivamente longa, mas vale ressaltar o quão únicos e cheios de personalidade são até mesmo os personagens mais insignificantes. Planano, por exemplo, não deve ter nem dez minutos de tempo de tela em todo o anime, e ainda assim conseguiu conquistar um bom número de fãs dentre os que acompanharam a série, e o mesmo pode ser dito para ainda muitos outros personagens. O que é, de certa forma, uma faceta do que talvez seja a característica mais marcante de Mahoujin Guru Guru: a sua capacidade de fazer muito em pouquíssimo tempo.

Sem dúvida uma das maiores forças do anime é a sua capacidade de fazer muito com pouco tempo.

O canal no YouTube 2nd Look chegou a fazer um vídeo comentando sobre o quanto o anime de 2017 difere daquele do de 1994. Intitulado How it Evolved: Magical Circle Guru Guru (1994 – 2017), o que mais chama a atenção é a velocidade de adaptação de ambas as séries. Dois exemplos que mais se descaram para mim foram o fato de o primeiro episódio do anime de 2017 adaptar 4 capítulos do mangá original (lembrem-se que a Gekkan Shounen Gangan era uma revista mensal, e portanto cada capítulo provavelmente tinha ai em torno das suas quarenta páginas), bem como o fato de que o anime mais recente atinge, no episódio 7, o mesmo ponto na história que o anime de 1994 só vai atingir no episódio 29. Fazer um reboot mais rápido devido a já ter havido uma adaptação prévia não é nenhuma novidade, basta olhar a transição de Fullmetal Alchemist para Fullmetal Alchemist: Brotherhood, mas mesmo “acelerado” ainda mal começa a descrever o ritmo de Mahoujin Guru Guru.

Há sempre algo acontecendo, e o anime está constantemente movendo de uma cena para outra. Isso poderia eventualmente ser um problema em si mesmo: ser lento demais pode tornar uma obra tediosa, mas ser rápido demais pode torná-la praticamente impossível de seguir. Felizmente, não foi isso o que aconteceu. Em primeiro lugar, não é como se tivéssemos um constante influxo de piadas: como eu bem disso há também momentos mais sentimentais aqui e ali, por breves que talvez sejam. Mas mais do que isso, quando o anime decide que precisa tirar um momento para simplesmente parar, respirar, e trabalhar um pouco os seus personagens, ele o faz. O episódio 3 começa justamente com um pouco do passado da Kukuri, que trabalha em cima do seu isolamento e do seu desejo de fazer amigos, e no episódio 9 todos param em um momento para assistirem a Kukuri dançar uma música da sua infância, enquanto Nike pondera sobre a tragédia dela ser a última sobrevivente de seu clã em um mundo imerso em lutas.

Quando quer, o anime sabe dar uma pausa para respirar.

De longe o meu momento favorito do tipo é todo o episódio 19, que destoa bastante do restante do anime. É um episódio mais calmo, quase sem nenhuma piada, com um estilo de arte ligeiramente diferente, e uma trama na qual os personagens ficam presos em uma espécie de looping temporal. Todo o episódio é construído em cima da revelação final de que aquilo era culpa da própria Kukuri, que inconscientemente ainda tinha medo de seguir em frente. Destoar tanto do restante da série poderia ser um problema, mas mais uma vez Mahoujin Guru Guru entrega mesmo mais do que promete. É, a lição final é clichê, você deve se arriscar e se errar aprender com seus erros e sempre seguir em frente, mas é a entrega que importa aqui. Há muito… “coração” nesse anime, por assim dizer. Uma capacidade de fazer com legítima honestidade – e uma pitada de cinismo ao mesmo tempo – mesmo o mais comum dos clichês, e justamente por isso entregando algo que soa especial. Mesmo, algumas vezes, um pouquinho profundo.

Guru Guru, a magia do clã Migu Migu, acaba por se revelar uma magia egoísta. Justamente por isso é uma magia fortemente ligada à infância, com seu usuário perdendo-a uma vez que se torna um adulto. Faz sentido: a infância é talvez a época em que somos mais egoístas. Mas é interessante que a magia final que a Kukuri precisa aprender, aquela que foi usada no passado para selar o Rei Demônio Giri, é chamada “Coração Apaixonado”. Há algo de egoísta no amor, nesse desejo de possuir a outra pessoa… Ah, mas não entendam mal, não é como se o anime estivesse criticando esse sentimento: bem longe disso. Acho que ele só está dizendo que existe algo de infantil nele, não de uma forma negativa, mas como um sentimento puro e inocente, egoísta na medida em que é honesto e verdadeiro. Não é exatamente algo pra se pensar muito, o próprio anime não exatamente se prende a isso, mas ainda é algo que me peguei refletindo a respeito.

A magia de um coração apaixonado.

Agora, tudo isso que eu disse significa que eu não tenha também críticas a esse anime? Bom, mais ou menos. Há certamente algumas coisas que não funcionaram comigo. Para começo de conversa, o anime é quase injustamente denso. Devido ao seu ritmo acelerado, ele não poucas vezes joga muita informação no começo que só será relevante de fato dali alguns episódios, e dada a pura quantia de coisas que acontece a cada episódio é bem fácil esquecer alguns detalhes. Não é nada que torne o anime difícil de se entender, ou coisa do tipo, mas digamos que ele não realmente pareceu pensado para ser visto semanalmente. Bom, ao menos vai ser um problema bem menor para quem decidir maratona-lo agora que terminou. Já numa outra crítica eu diria que as duas piadas recorrentes do anime – o Kita-Kira Oyaji (literalmente o Velho Norte Norte…) dançando e o Gipple tendo um ataque de cringe cada vez que algo sentimental acontece – foram bastante hit or miss pra mim. Algumas vezes davam certo, mas normalmente não, francamente falando.

Dito isso, esses são “problemas” que muito dependem da perspectiva de cada um. Se você tem um memória melhor do que a minha provavelmente não vai ter tido grandes dificuldades para se lembrar de detalhes mais antigos, e se achou as piadas recorrentes engraçadas (como muitos acharam) então provavelmente não vai ver ai nenhum problema. Mas críticas de lado, permanece o fato de que este anime é certamente excepcional. Como comédia é hilário. Como uma aventura mais leve temos aqui um grupo carismático de personagens percorrendo um mundo bastante imaginativo. Como um romance é impossível não torcer para que Kukuri e Nike terminem juntos. Com uma fantástica animação, uma trilha sonora muito bem utilizada, um ritmo frenético e uma história extremamente divertida, Mahoujin Guru Guru é um anime do qual eu certamente irei lembrar por ainda um bom tempo.

E você, leitor, o que achou de Mahoujin Guru Guru? Sinta-se a vontade para descer um pouco mais a página e deixar um comentário com a sua opinião.

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Imagens (na ordem em que aparecem):

1 – Mahoujin Guru Guru, episódio 1

2 – Mahoujin Guru Guru, episódio 1

3 – Mahoujin Guru Guru, episódio 1

4 – Mahoujin Guru Guru, episódio 1

5 – Mahoujin Guru Guru, episódio 9

6 – Mahoujin Guru Guru, episódio 24

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