Uma Breve Análise – Houseki no Kuni: Como Usar do Cliffhanger

Phosphophyllite, a protagonista de Houseki no Kuni.

Houseki no Kuni começou como um mangá seinen escrito e ilustrado por Haruko Ichikawa, sendo publicado na revista Gekkan Afternoon desde outubro de 2012. Exatamente cinco anos após o seu início, em outubro de 2017 o mangá recebe uma adaptação para anime na forma de uma série de 12 episódios, produzidos pelo estúdio Orange e contando com a distinta característica de se utilizar largamente da computação gráfica: com um excelente resultado, diga-se de passagem.

Dizer que Houseki no Kuni eleva o nível do que podemos considerar um “bom CG” seria ainda subestimar a produção. Com cenários absolutamente estonteantes, movimentos de câmera inovadores e personagens cujos belos cabelos lustrosos só poderiam existir graças à computação gráfica, esse anime faz tudo o que eu elogiei no CG de Seikaisuru Kado enquanto ainda sendo um anime muito, muito melhor do que aquele foi. Mas… seria uma pena se isso cerceasse demais a discussão sobre essa obra.

Por ser o que mais chama a atenção, sobretudo em um contexto onde pouquíssimos animes se utilizam da computação gráfica de forma se quer passável, que dirá então boa, é normal que o que mais se comente sobre Houseki no Kuni seja justamente o quão excepcional ele é nesse quesito, um ponto fora da curva no que costuma terminar sendo um festival do vale da estranheza. Mas há muito mais que se possa ser dito deste anime, e justamente por isso – e por já ter falado sobre CG com Kado – eu decidi me focar aqui em um outro assunto.

Se você não sabe do que Houseki no Kuni se trata, o melhor que eu posso fazer em termos de sinopse é dizer que a trama segue uma série de pedras preciosas e semi-preciosas antropomórficas e imortais que, ao longo dos milênios, estão em constante conflito contra o Povo da Lua, seres misteriosos que descem à Terra para tentar levar essas gemas com eles. É um anime fantástico, e que definitivamente vale a pena conhecer, se ainda não o fez. E a partir daqui, spoilers correrão soltos, então sigam por sua conta e risco.

Visualmente, é um anime que muito impressiona.

Basta ler o título para saber do que este texto irá tratar, então não há muito motivo para ficar de rodeios. Cliffhangers, o ato de terminar um episódio em um momento de clímax, é uma prática tão antiga quanto a própria mídia seriada, e é a forma que autores dos mais diversos encontraram para manter a sua audiência engajada e ansiosa por mais daquela história: afinal, seria bem ruim para as vendas se as pessoas assistissem apenas um episódio e nunca mais voltassem à obra.

Nos animes, não poucas séries já se valeram do recurso. Em 2016, Re:Zero Kara Hajimeru Isekai Seikatsu se tornou notório em parte justamente por isso, e ele serve tanto como um exemplo da força desse recurso, já que todos que acompanhavam o anime iam para o próximo episódio tão logo ele estava disponível, com medo de ver algum spoiler se demorassem a vê-lo, mas também serve de exemplo de como a prática pode começar a dar nos nervos daqueles que a veem como um recurso talvez um tanto quanto barato.

Tudo em excesso faz mal, e enquanto um ou outro cliffhanger pode animar o expectador a ver o próximo episódio o quanto antes, terminar todo episódio com um provavelmente seria uma má ideia… Ou ao menos é o que eu diria, não fosse por Houseki no Kuni. Terminando praticamente todos os seus episódios com um cliffhanger, mesmo o seu último episódio, essa é uma fórmula que deveria ficar cansativa bem rápido, mas que por algum motivo funciona aqui. Então… por quê?

Alguns fatores contribuem para isso, uns mais específicos da obras, e outros um pouco mais gerais. Nesse segundo grupo, o que talvez mais se destaque seja o pacing, o ritmo que conduz a história. Em nenhum momento ela soa rápida demais ou lenta demais, como se o diretor estivesse artificialmente arrastando ou apressando a trama só para poder terminar o episódio em um cliffhanger. E o fato da história nunca usar do mesmo cliffhanger múltiplas vezes adiciona ainda uma variedade bastante bem vinda.

Saber quando cortar é a chave para um bom cliffhanger.

Outros fatores, porém, são bem mais específicos a Houseki no Kuni. Por exemplo, algo difícil de se fazer quando se cria uma expectativa é justamente corresponder a essa expectativa. É onde alguns cliffhangers podem falhar, parando a história na “melhor parte” só para no episódio seguinte mostrar que não havia mesmo muito além daquilo. Mas em Houseki no Kuni cada episódio parece terminar com um forte baque no status quo da história, e quando entramos no episódio seguinte vemos que o baque foi bastante verdadeiro.

Acho que um bom exemplo vem dos episódios 6 e 7. No sexto, Phos é pareada com as gêmeas Amestistas. Quando vai se aproximando o final do episódio, temos a aparição de uma nova comitiva do Povo da Lua, que consegue de fato capturar as Ametistas sem que a Phos pudesse se quer se mover. Cortar o episódio quando as Ametistas são capturadas seria talvez o mais óbvio, mas tornaria a resolução dele, no episódio 7, um pouco insatisfatória, já que começaria com o Mestre chegando para salvar as gêmeas.

Justamente por isso, o episódio 6 termina após a chegada do Mestre e a derrota da comitiva do Povo da Lua, com a Bort então exigindo que a Phos se explique. O cliffhanger assim se torna menos o que vai acontecer com as gêmeas e muito mais o que vai acontecer com a Phos, com o episódio 7 vindo justamente para trabalhar em cima do sentimento de culpa que ela desenvolve por não ter conseguido fazer absolutamente nada – nem correr para chamar ajuda.

É só um exemplo, mas que mostra como os responsáveis pelo anime sabiam muito bem o que estavam fazendo. Se o objetivo do cliffhanger é fazer você continuamente voltar à obra que assiste ou lê, Houseki no Kuni certamente o atinge com maestria. Mesmo seu final, enquanto dirigido de forma a fechar um ciclo – o primeiro grande “arco” da história, digamos assim -, termina com o que só pode ser descrito como ainda mais um cliffhanger, que certamente me deixou com vontade de ler o mangá original.

E você, leitor, que também acompanhou Houseki no Kuni: que achou do anime e dos seus constantes cliffhangers? Sinta-se a vontade para descer um pouco mais a página e deixar um comentário.

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Imagens (na ordem em que aparecem):

1 – Houseki no Kuni, episódio 1

2 – Houseki no Kuni, episódio 2

3 – Houseki no Kuni, episódio 4

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10 comentários sobre “Uma Breve Análise – Houseki no Kuni: Como Usar do Cliffhanger

      • Opa Diego tudo bom? Entao, é mais questão do estilo do anime do que conteudo. Vi um post sobre uchuu patrol luluco e vi que postaram o curta sex & violence que curto muito. Gostaria que voces me recomendassem animes que tem o estilo de desenho desse curta, mais simples e puxado para o cartoon.
        Brigadão por responder, se não souberem nenhum obrigado assim mesmo.

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        • Entendi ^-^. Olha, algo nesse estilo em específico é complicado rs. Há vários animes que fogem do que pensamos como o “padrão” da indústria, mas raramente pendendo para esse lado mais cartoon. É o tipo de estilo que você teria mais sorte com outros animes da Trigger (como Little Witch Academia, que tem uma animação bem próxima do cartoon até, embora o visual ainda seja bastante anime) ou então com séries mais antigas (tipo, BEM antigas, coisa de voltar a Kimba ou A Princesa e o Cavaleiro, e mesmo assim acho que não é bem o que você está procurando rs). É, acho que não vou poder ser de muita ajuda nesse sentido, lamento XD

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