Algumas críticas aos serviços de streaming de anime.

No passado, a televisão era nossa fonte primária de animes. E conforme esse papel passa para a internet, novos problemas vão começando a surgir.

Falar sobre serviços de streaming, ou mais especificamente sobre os problemas e defeitos que eles possuem, é quase sempre um tópico espinhoso. As pessoas tendem a ficar bastante defensivas discutindo esse tópico, e não raras vezes qualquer crítica a esses serviços é tratada como apologia à pirataria travestida. Isso muito possivelmente é fruto da retórica moralista que normalmente se usa para defender esses serviços, sendo muito mais comum ouvir que as pessoas usam deles por ser “o certo” ou para “ajudar o mercado” do que realmente por serem um bom produto. O importante, assim, se torna mostrar que você é moralmente superior, pouco importa a real qualidade do produto que você consome: um comportamento tóxico não apenas para o meio de fãs de anime e mangá, mas também para os próprios serviços de streaming. Afinal, uma retórica do tipo nada mais é do que uma carta branca para a estagnação, na medida em que se espera que você use desses serviços não pelo mérito de suas qualidades, mas sim tão somente pelo mérito da sua pura existência. Um ideal que vai se tornar cada vez mais difícil de se sustentar em uma industria em franco crescimento, onde novos serviços do tipo vão surgindo regularmente.

Sim, existem aqueles que simplesmente não possuem o capital necessário para investir em um serviço do tipo, e sim, existem aqueles que não o fazem por questões muito mais ideológicas. Para esses dois grupos nenhuma melhora desses serviços será o bastante, mas vale também dizer que nenhum argumento moral os irá convencer. Em todo caso, um cenário do tipo ainda não significa que devemos ser complacentes com os problemas que cercam os serviços legais de streaming, muito menos significa que eles próprios não deveriam buscar melhorar como puderem. Antes de mais nada, eu quero pedir ao leitor que deixe as suas noções pré-concebidas de lado e não veja este texto como uma defesa da pirataria – ele não o é. O que eu quero fazer aqui é tão somente apontar algumas áreas nas quais eu gostaria de ver os serviços de streaming melhorarem, bem como reais problemas que precisarão eventualmente ser resolvidos de alguma forma se os serviços hoje existentes esperam continuar ativos daqui alguns anos. Assim sendo e finalizado todo esse preambulo, vamos então ao texto.

Nem toda crítica aos sites legais de streaming é um convite para se navegar os sete mares, se entendem a metáfora.

Eu quero começar já com o que eu percebo ser o maior problema dessa industria: seus números. Atualmente, se você é um fã de anime que mora no Brasil, existem basicamente dois serviços que apelam para o seu gosto: Crunchyroll e Netflix. Um terceiro que mereceria menção talvez fosse o HiDive, mas enquanto a plataforma de fato possui alguns animes com legenda em português, o fato de que o inglês ainda predomina tanto nas legendas quanto na própria interface do serviço já coloca ai uma barreira a muitos possíveis consumidores brasileiros. Ainda, vale também mencionar que existem outros serviços de streaming atuantes no Brasil, mas com catálogos de animes que variam do inexistente ao escasso. Em todo caso, como podem ver trata-se ainda de uma industria pequena, o que vem com a sua própria leva de problemas, começando pelo fato de que mesmo combinando os catálogos de todos esses serviços nós ainda só temos acesso a uma pequena fração de tudo o que a industria de animes já produziu em suas décadas de existência. Paradoxalmente, porém, esse talvez ainda seja um cenário melhor do que o que existe lá fora…

Se no Brasil nós estamos limitados a dois, talvez três serviços de streaming, no exterior a coisa está um pouco mais desenvolvida. Funimation, Hulu, Amazon Strike, fora ainda outros tantos serviços tornam mercados como o dos Estados Unidos, Canadá e partes da Europa muito mais diverso – o que é tanto uma benção quanto uma maldição. Sim, diversidade garante que mais e mais animes estejam disponíveis, mas também garante a necessidade de se pagar por cada vez mais e mais serviços diferentes, as vezes talvez por conta de um ou dois animes que você queira ver. É só uma questão de tempo até que tamanha diversidade comece a pesar mesmo no bolso dos mais ávidos consumidores, um problema que mesmo nós aqui no Brasil teremos de lidar conforme esses serviços vão se ampliando também por aqui. Pense por um momento na sua televisão, e imagine que você tivesse de pagar uma assinatura em separado para cada um dos canais que o seu pacote oferece, e acredito que assim entenderá a problemática dessa situação toda.

Alguns dos serviços de streaming disponíveis no Brasil.

Pessoalmente falando, algo que eu certamente gostaria de ver ocorrer no futuro seriam pacotes de assinatura para diversos serviços de streaming, algo de fato similar aos nossos pacotes de televisão: uma assinatura mensal que lhe garantiria acesso a um bom número de serviços do tipo, e que obviamente fosse bem mais barata do que pagar por cada um desses serviços individualmente. O problema é até que ponto algo do tipo é de fato viável. A televisão pode se safar com algo assim por tirar a maior parte da sua renda de seus anunciantes e investidores, mas serviços de streaming dependem bastante de sua base de assinantes para conseguir algum retorno financeiro. Mais do que isso, os dois maiores atrativos desses serviços frente à televisão são justamente a praticidade de se poder assistir o que quiser quando quiser mais o fato de que você não precisa ver comerciais. Uma assinatura unificada mais barata do que a assinatura padrão de cada serviço provavelmente significaria menos retorno financeiro para cada serviço, o que significa que a própria natureza da mídia dificulta algo do tipo – e leva a industria cada vez mais em direção a um ponto onde simplesmente existem serviços demais.

Existe, porém, uma outra solução, não tão boa para os serviços, mas definitivamente mais interessante para o consumidor: menos licenças exclusivas. Para quem talvez não saiba, quando se trata de direitos de exibição de um anime existem basicamente dois tipos de licenças: aquelas mais simples, onde você recebe justamente o direito de exibir o anime, e a licença exclusiva, onde só você terá o direito de exibir o anime. Se você já se perguntou porque certos animes só tem no Crunchyroll ou só tem no Netflix, esse é o motivo. Para a empresa, isso é ótimo, já que você força o consumidor a assinar o seu serviço de streaming ao invés do da concorrência. Para o consumidor, porém, essa é uma prática que força justamente o cenário descrito acima, onde você precisa assinar uma multitude de serviços diferentes para se ter acesso a tudo o que está disponível. Mas se acabasse esse tipo de licença e todo site pudesse comprar os direitos de exibição de todo anime, talvez fosse possível ter acesso à maioria deles assinando apenas dois ou três serviços, ao invés de meia dúzia.

O fato de que Violet Evergarden será transmitido pelo Netflix já começou desagradando muitos fãs que não gostam do sistema de streaming da empresa. Sem licenças exclusivas, cenários assim certamente seriam menos problemáticos.

Outros problemas dignos de menção são muito mais específicos a cada serviço, de forma que antes de seguir a eles eu gostaria de falar de algo que não chega a ser de fato um problema, mas sim uma situação que eu certamente gostaria de ver mudada no futuro: a perenidade inerente a esses serviços. É preciso apontar que esses serviços não fornecem um produto, eles são o produto, de forma que tecnicamente falando eles não possuem obrigação nenhuma de manter disponível no seu catálogo – de fornecer ao seu consumidor – esta ou aquela obra em específico. Séries, filmes e animes podem sair de catálogo com a mesma facilidade com que entraram, e enquanto isso não tem sido um grande problema nos últimos anos, ainda é um tanto quanto desconfortável a perspectiva de que aquela obra que você tanto amou pode ficar indisponível sem nenhum aviso prévio. Isso não é tanto um problema no exterior, novamente em regiões como Estados Unidos, Canadá, Europa e mesmo o próprio Japão, onde se você gostou muito de uma série basta ir comprar o DVD ou Blue Ray, mas é um problema aqui no Brasil, onde esses produtos são virtualmente inexistentes.

Pessoalmente falando eu absolutamente adoraria uma função de download nesses serviços, que inclusive forneceria a comodidade de poder assistir os animes independente de conexão com a internet. Ao mesmo tempo, eu sei muito bem que isso provavelmente seria pedir demais. Licenças podem ser incrivelmente específicas, e provavelmente a licença para se permitir o download de um anime é completamente diferente daquela que permite apenas o seu streaming via internet. Talvez algo do tipo tornaria o serviço impraticavelmente caro, e subir os preços é algo que sempre incomoda o consumidor. As melhores opções num caso do tipo seriam algo ao nível de venda individual de séries e episódios ou então um pacote premium especial que, enquanto consideravelmente mais caro, permitiria ao consumidor baixar qualquer episódio ou anime desejado. Há de se argumentar que isso ainda seria pior do que os serviços piratas oferecem, onde você baixa qualquer anime de graça, e portanto uma possibilidade de download pago não realmente atrairia muita gente, mas eu estou tentando ser prático aqui, e duvido que download gratuito, ou mesmo download para assinantes sem aumento no preço das assinaturas, seja se quer uma opção remota.

Em outros locais do globo, conseguir uma cópia mais “permanente” de um anime que você gosta é relativamente fácil. Já aqui no Brasil…

Última questão geral antes de entrarmos nas específicas: eu realmente gostaria de ver os serviços de streaming investindo mais em séries antigas. Novamente, isso é menos um problema de fato e muito mais uma situação que eu gostaria de ver mudar um pouco, mas do que percebo os atuais serviços de streaming disponíveis se focam demais nos animes da temporada e de menos naquilo que já está finalizado. Simulcast é talvez a palavra-chave que mais associamos ao Crunchyroll, ao passo que vemos uma clara preferência da Netflix em adicionar animes mais recentes – ainda que já finalizados – ao seu catálogo. Enquanto isso, obras imensamente populares mesmo uma década atrás podem se mostrar praticamente impossíveis de se encontrar legalmente, que dirá então algo dos anos 1990, 1980 ou mais para trás. Novamente esse é um problema muito mais específico aqui do Brasil, dado tudo o que o exterior possui a mais (mais serviços de streaming, catálogos maiores mesmo para os serviços que existem aqui, acesso a mídias como DVDs e Blue Rays, etc.), e é algo que eu realmente gostaria de ver remediado.

Infelizmente, mais uma vez eu sei que a situação não é tão simples quanto uma falta de vontade por parte da empresa. Pondo de lado o fato de que séries mais recentes atraem mais atenção do que séries mais antigas, e portanto são um investimento bem mais seguro do que elas, existe também a questão de que talvez esses serviços até quisessem disponibilizar esses animes mais antigos – eles só não podem. Licenças são incrivelmente complicadas, e eu nem de longe sou um especialista no assunto, mas é possível que o motivo pelo qual não vemos animes como Digimon Adventure [review], Cardcaptor Sakura ou Shaman King no Cruncrhyroll brasileiro seja porque talvez ainda existam empresas no Brasil que detém os direitos de exibição dessas obras – e que não estão fazendo nada com elas por não acreditarem que esses animes valem o investimento. A maior evidência disso, a meu ver, é a existência de algo como o region lock, onde uma plataforma só pode exibir um certo título em certas regiões do mundo. Podem ver que toda a franquia Digimon consta no catálogo do Crunchyroll – mas os animes não estão disponíveis para a nossa região.

Digimon Adventure até aparece no catálogo do Crunchyroll: só não para o Brasil.

Chegamos, então, aos problemas específicos de cada plataforma, que variam de questões técnicas até questões de políticas da empresa. Francamente esta será a parte mais curta do texto, porque as críticas aqui não apenas são bastante pontuais, como deveriam ser fáceis de resolver. O caso mais complicado ironicamente seria o HiDive, que, como eu disse, tem como maior problema a barreira criada pela predominância do inglês na plataforma. É um problema que se resolve contratando alguns tradutores competentes para traduzir a interface e ampliando a equipe de tradução das legendas para o português, mas até que ponto o serviço possui esse capital é que eu não sei dizer. Sendo relativamente novo, sobretudo no Brasil, eu ainda estou disposto a dar o benefício da dúvida ao serviço e aguardar para ver antes de declarar esse problema como franco conformismo por parte da plataforma (e quem sabe, talvez exista uma forma de passar pelo menos a interface para português e eu só não consegui descobrir). Crunchyroll e Netflix, por outro lado, tem problemas bem mais incômodos quando você considera o quanto essas empresas claramente faturam.

Dentre os dois, a Netflix tem provavelmente o problema mais frustrante para um fã de anime: a sua insistência em só adicionar séries completas ou semi-completas, algo que cria um distanciamento de meses entre a exibição de um anime no Japão e a sua adição ao catálogo da Netflix. É de longe uma das piores decisões que um serviço de streaming poderia tomar em se tratando de animes, e não a toa a maioria dos fãs simplesmente desiste de esperar e vai assistir a obra por algum serviço ilegal. Francamente eu adoraria entender porque a Netflix se mantém tão insistente nessa sua política, pois ela claramente não é benéfica nem para a empresa nem para os seus consumidores, além de completamente contradizer a própria natureza da industria dos animes, baseada na premissa de um episódio por semana. Já o problema do Crunchyroll é ao mesmo tempo menos frustrante e mais severo, que é o quão horrível é o seu player, que não possui se quer um indicativo de quanto do episódio já foi carregado – uma função tão básica que chega a ser difícil encontrar um player que não a possua.

Little Witch Academia precisou de alguns meses para chegar à Netflix,, período no qual quem quis acompanhar o anime certamente encontrou outros meios.

Há ainda problemas que afetam mais alguns serviços do que a outros, um deles sendo a questão dos benefícios que o pacote premium oferece no caso de serviços que também oferecem um pacote gratuito, com o problema sendo o quanto desses benefícios são de fato benefícios. Francamente falando, e olhando para os exemplos do Crunchyroll e do HiDIve, os pacotes premium parecem muito mais retirar incômodos do que realmente fornecer algum tipo de benefício. Não quer ver literalmente mais de uma dezena de comerciais em um episódio de apenas 20 minutos de duração? Bom, assine então o pacote premium. Em comparação, faz serviços como a Netflix parecerem mais “honestos” e menos desesperados em forçar o usuário a lhes dar dinheiro. Não entendam mal, a um nível puramente racional serviços como o Crunchyroll e o HiDive acabam sendo sim muito mais generosos na medida em que não tinham obrigação nenhuma de oferecer um pacote gratuito para começo de conversa, e eu certamente aprecio essa disponibilidade. Mas é difícil não se sentir manipulado ou passado para trás quando a versão paga apenas se livra de incômodos que um Add Block no seu navegador provavelmente já resolveria. Pelo menos há também a possibilidade de assistir os animes em alta qualidade.

Em todo caso, acho que podemos encerrar por aqui. Sim, há ainda outras questões que podem ser levantadas, mas creio que as que foram já bastam para iniciar a discussão. Novamente, peço ao leitor que não entenda essas críticas como algum tipo de apologia à pirataria, mas sim como elementos que eu gostaria de ver melhorados nos serviços de streaming atualmente disponíveis. Há espaço aqui para crescimento e aprimoramento, e muito me incomoda ver essas possibilidades sendo postas de lado como apenas nitpicking de gente que no fundo só quer justificar o seu consumo de pirataria, um excelente exercício da famosa “psicologia de boteco”. Como consumidores é importante não tratarmos empresas como se fossem nossas amigas, mesmo quando se trata de empresas ligadas a um produto ou a um mercado com o qual você muito se importa. Apoiar o mercado é um argumento que tem sim a sua lógica, mas que de forma alguma pode significar consumo acrítico de qualquer produto, ou a complacência para com defeitos só porque “pelo menos a gente tem o serviço”. Conformismo é um mal em qualquer cenário, e quanto antes nos livrarmos dele, antes poderemos avançar.

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2 – One Piece, episódio 1

3 – Logotipos da Netflix (Wikipedia), Crunchyroll (Wikipedia) e HiDive (Anime News Network)

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5 – Animegataris, episódio 4

6 – Digimon Adventure, episódio 1

7 – Posters de divulgação de Little Witch Academia (My Anime List)

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