Omoide wa Okkusenman: Uma Música Nascida da Internet

Omoide wa Okkusenman é uma música no minimo curiosa.

Em si mesma, é uma canção que eu gosto bastante. Sua letra é uma mescla de nostalgia e melancolia, cantada do ponto de vista de um adulto que relembra alguns momentos de sua infância, jogando videogames e imitando o popular herói Ultraman Seven.

O contraste então se estabelece entre o passado idílico e o presente acelerado, conforme a criança de outrora se tornou um assalariado que constantemente corre contra o tempo. Que houve com os amigos de antigamente? O narrador não sabe dizer.

É um tema bastante batido, sem dúvida nenhuma. Mas um que sempre rende sobre o que se pensar. É evidente que ninguém pode permanecer uma criança para sempre. Crescer é necessário, bem como assumir cada vez mais responsabilidades. Faz parte.

Mas onde deste contrato há uma clausula demandando a infelicidade? Abandonar a infância precisa, necessariamente, ser também abandonar a alegria daqueles tempos? Se a nostalgia da música vem de referências a Ultraman e a Rockman (ou Mega Man, como é conhecido no ocidente), a sua melancolia vem justamente dessas últimas duas perguntas.

Como eu disse, é uma música que eu gosto bastante. Mas francamente falando, e enquanto eu aprecio a sua letra, diria que o que me faz gostar tanto dele nem é tanto a música em si, mas sim a história de como ela veio a ser.

Então deixem-me contar essa história.

Ela começa quase trinta anos atrás, com o lançamento do jogo Rockman 2: Dr. Wily no Nazo (Mega Man 2) em dezembro de 1988, para o console NES. O importante de destacar aqui é uma OST em particular, uma que toca como música de fundo no primeiro estágio do castelo do vilão titular, e que foi composta por Takashi Tateishi.

Agora, aqui a cronologia fica um pouco nebulosa, mas duas coisas precisam ficar claras:

Primeiro, em algum momento não especificado, alguém conhecido apenas pelo username Aoi Kiba (Preza Azul) faz uma remixagem dessa música do Rockman 2 e publica na internet.

Em segundo lugar, também em algum momento alguém (talvez até mais de uma pessoa) compõe uma letra para a música, e presumivelmente a publica também em algum canto da internet.

Daqui em diante as coisas já voltam a ter uma cronologia mais clara. A começar com 14 de fevereiro de 2007, quando um usuário do YouTube, PiggKingg, faz o upload da música contendo a letra. Notem que o usuário não cantava a música: a letra simplesmente aparecia na parte de baixo da tela, como uma legenda.

Cinco dias depois, em 19 de fevereiro, outro usuário da plataforma, Gomu, faz o upload de sua própria versão, agora sim cantando a letra em questão, e é aqui que a música ganha o seu título: Omoide wa Okkusenman, grosseiramente traduzido por algo como “110 Milhões de Memórias”.

Do YouTube, passamos então ao seu quasi-equivalente oriental, o Nico Nico Douga.

A primeira versão da música a aparecer na plataforma vem em 6 de março de 2007, sendo cantada pelo grupo CHROMES. No mesmo dia, Gomu faz o upload da sua versão.

Em 27 de maio do mesmo ano, outro usuário do Nico Nico Douga, DNA no Douro, faz o upload da música. Até então, o vídeo que acompanhava a canção era usualmente uma colagem de cenas do jogo em si, mas DNA no Douro substituiu esse vídeo por uma animação em flash própria, que melhor ilustra a letra. Por outro lado, nessa versão não havia ninguém cantando a música.

Desde então, Omoide wa Okkusenman se tornou um popular meme no Japão, aqui no sentido mais estrito do termo, de uma ideia que segue se propagando (e não no sentido de uma piada repetida à exaustão e além dela, como normalmente são os memes da internet).

Inclusive, acho que nada ilustra melhor essa popularidade do que o fato de que, em 2008, o grupo JAM Project contribuiu com um cover próprio da música para o álbum CD de Kiite Mite.: Nico Nico Douga Selection.

Legal, não?

É… Mas e daí?

Imagino que muitos que leram até aqui devem estar se perguntando isso. Digo, é uma curiosidade legal, caso você ainda não conhecesse toda essa histórias, mas e daí? O que há de mais aqui?

De fato eu não disse nada de impressionante. Bem francamente, eu apenas repassei a informação que estava na página da música na Wikipédia. Mas há um motivo pelo qual eu acho essa trajetória tão fascinante.

Ela é… Bonita. De certa forma.

Digo, o que ela representa. Pedaço a pedaço, diferentes pessoas dão pequenas contribuições a um mesmo projeto. Sem obrigação ou pressão, apenas porque querem, e esse projeto vai então escalonando. Seu final é certamente muito diferente do que primeiro se visionou, mas tudo bem. Não falta quem dirá que ficou melhor assim.

Há algo de mais… “honesto” nesse tipo de música, por assim dizer. Talvez inclusive porque o que moveu a sua criação foi o mesmo sentimento expresso por ela.

Digo, a música muito possivelmente começou como um leve exercício de nostalgia, uma remixagem de uma trilha sonora popular de um jogo já à época antigo. A letra segue no mesmo sentimento, e a combinação de ambos é o que termina por inspirar outros a cantarem a canção.

Talvez porque aquilo do que a letra fala é tão fácil de ressoar com as pessoas.

Você talvez não tenha crescido com figuras como Ultraman ou Rockman – eu sei que eu não cresci. Mas sentimentos como a nostalgia, a lembrança de um passado de brincadeiras em contraste com um presente de correrias, é algo com o qual qualquer um com certa idade vai se identificar (e eu nem chutaria muito alto não: tem muito adolescente que pode se identificar com essa música).

É uma canção ela própria capaz de evocar diversas memórias. 110 milhões, talvez? (piegas demais?).

Ao final do clip feito pelo DNA no Douro, o protagonista adulto olha pela janela do trem e vê o que mais parece uma versão de si próprio quando criança, brincando pela rua. A visão traz algumas lágrimas aos seus olhos, o que faz uma das passageiras se levantar e lhe emprestar seu lenço. Um final de certa forma otimista: um lembrete de que mesmo no mundo acelerado de hoje ainda há espaço para a gentileza.

Eu vejo essa música como um lembrete semelhante. Um de que para tudo de ruim que a internet pode trazer, ela também possibilita a criação de peças verdadeiramente únicas, capazes de ressoar com qualquer um e em qualquer lugar. Okkusenman não poderia existir não fosse o nosso mundo moderno – e fico feliz por ser assim.

Se você ainda não conhecia essa música, vá dar uma olhada. E se já conhecia, mas não sabia da história por trás dela, espero que este texto tenha dado um pouco sobre o que pensar.

E hey, se mais nada, ao menos é uma boa música pra se recomendar.

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Imagens: Omoide wa Okkusenman

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