O quão viável é uma revista sobre anime hoje?

Parte integrante da cultura otaku japonesa, no Brasil também já tivemos nossas revistas sobre anime e mangá. Mas seria possível elas voltarem um dia?

Quem viveu entre meados dos anos 1990 e meados dos anos 2000 pode presenciar o surgimento, boom e eventual declínio das revistas de anime. Tal como animes na televisão aberta, tazos de Yu-Gi-Oh! nos salgadinhos da Elma Chips e bonecos falsificados dos personagens de Dragon Ball Z, hoje essas revistas são lembradas com um misto de nostalgia e melancolia. Fizeram parte da infância e adolescência de muitos, sim, mas seu declínio é também um triste lembrete do declínio dos animes de forma geral aqui no Brasil. O ano de 2017, porém, viu até o momento deste artigo pelo menos duas iniciativas no mínimo inusitadas. De um lado, a revista Animax está para ganhar uma edição comemorativa especial, que poderá ser adquirida tanto em formato digital como em formato físico, ao passo que, do outro lado, temos o retorno da revista Ultra Jovem, em formato impresso. E ainda que pontuais, acho que esses dois eventos levantam uma questão que vale a pena ser discutida: o quão viável é uma revista sobre anime e mangá nos dias atuais?

Não podemos negar: o mundo hoje é um lugar muito diferente do que era algumas décadas atrás. Sobretudo o avanço da internet mudou bastante a forma como consumimos conteúdo, e também o tipo de conteúdo pelo qual estamos dispostos a pagar. Sites de notícias sobre anime e mangá já existem às dezenas, mais até se você souber outra língua para além do português, e há poucas informações mais gerais que não podem ser encontradas com apenas alguns minutos na Wikipédia. Nem mesmo os jornais, com sua periodicidades diária, conseguem competir com o ritmo frenético da internet, que chance então possuem as revistas de variedades ou de notícias? Por conta disso, quando surge o debate sobre revistas de anime e mangá há sempre aquele que faz uma pergunta talvez até mais pertinente que a do parágrafo anterior: como você justifica uma publicação do tipo?

O retorno das revistas Animax e Ultra Jovem levanta a pergunta: o quão viável é uma revista sobre anime hoje?

Há duas dimensões para a pergunta anterior, uma mais econômica e outra que eu vou aqui chamar, na falta de termo melhor, de mais “existencialista”. A primeira é talvez a mais auto-explicativa: em um mundo no qual uma imensa quantia de informação pode ser encontrada gratuitamente na internet, como você justifica pagar por uma publicação como uma revista sobre anime e mangá? A outra está ligada ao mesmo problema, mas diz respeito mais à própria natureza da revista: em um mundo de informação rápida e acessível, como você justifica a própria existência de uma publicação do tipo? A questão aqui é do quão redundante uma revista assim pode vir a ser: se tudo o que está nela pode ser encontrado na internet, então qual exatamente é o propósito da sua existência? Para que ela serviria? Ambas essas dimensões são importantes, e eu pretendo explorar a ambas ao longo deste texto, mas quero começar por essa segunda.

Redundância como um problema não é algo inerente à mídia impressa. Mesmo na internet o questionamento do propósito de uma nova empreitada pode ser feito a cada novo blog, portal ou canal que surja. Afinal, se toda informação já está largamente disponível, para que precisamos de ainda outro blog ou canal sobre anime? A resposta para isso está no diferencial que cada um desses espaços pode oferecer. O que impede o meu blog de ser redundante, por exemplo, são as minhas ideias e opiniões, algo que somente eu posso oferecer. Semelhantemente, o que impediria uma revista sobre anime e mangá de ser redundante frente a internet seria justamente as ideias e opiniões de seus redatores, algo que somente eles podem oferecer. As pessoas parecem ainda ter a ideia de que revistas servem para publicar notícias, e enquanto isso certamente faz parte da identidade de muitas publicações do tipo, esse está longe de ser o único conteúdo que elas podem oferecer.

Na era da internet, onde toda informação é facilmente acessível, o que resta para as revistas publicarem? Bom… bastante até.

Reviews, por exemplo, tanto de séries antigas quanto de animes que acabam de finalizar. É um conteúdo inerentemente vinculado ao seu criador, dado que as opiniões expressas em uma review são – ao menos idealmente – únicas ao seu autor. É também possível seguir o caminho que a revista Neo Tokyo seguiu, onde cada uma de suas edições tendem a ser pequenos dossiês em um dado assunto, e o fato dela ser praticamente a única ainda no mercado talvez seja um indicativo de que foi uma boa decisão. Muito da informação ali presente provavelmente poderia ser encontrada na internet, sim, mas não deixa de ser conveniente ter todas em um só lugar. O que, vale dizer, é um dos grandes defeitos da internet: a dispersão. Sim, toda informação possível está disponível a um Google de distância, mas a verdade é que a maioria das pessoas é bem ruim em fazer pesquisa. Uma revista pode justamente capitalizar em cima disso, sendo um meio fácil e conveniente de consumo de informação por um grande público. Revistas de notícias podem estar obsoletas, mas o formato ainda tem para onde correr.

Dito isso, o maior problema é certamente econômico. Ainda que uma revista qualquer consiga juntar um grupo competente e bem articulado de redatores publicando textos de alta qualidade, a pergunta que fica é: alguém compraria isso? O fator nostalgia talvez alavanque um pouco as vendas dessa edição especial da Animax e do primeiro volume dessa nova Ultra Jovem, mas é evidente que apenas ele não poderá sustentar uma publicação contínua. Fora que esse fator não seria aplicável a uma hipotética revista que surgisse “do nada”. Agora, eu preciso confessar: sou formado em história, não em clarividência, então eu realmente não tenho como dar uma resposta concreta à essa pergunta. Apenas o tempo dirá se uma empreitada do tipo é rentável ou não, e se em alguns anos a Ultra Jovem ainda estiver por ai então talvez teremos a nossa resposta (assumindo, claro, que a revista esteja sendo planejada para durar mais de uma edição). Mas eu vou dizer o seguinte: se existe um momento no qual isso seria possível, esse momento é o agora.

Notícias estão longe de ser o único conteúdo que uma revista pode entregar. Exemplo é a revista Neo Tokyo, cujas edições vem cada vez mais assumindo o formato de pequenos dossiês.

Não estamos mais nos anos 1990. Isso é algo que eu já disse e que vale a pena repetir. Nesse meio tempo, é plenamente possível falar de um declínio dos animes no Brasil, como já explicitei no primeiro parágrafo. Porém, eu sinto que nos últimos anos essa mídia voltou a crescer em terrar tupiniquins. Ainda estamos bem longe da força que eles tinham mais de duas décadas atrás, é verdade. Mas considerem o seguinte: segundo dados da Netflix, o Brasil está entre os países que mais consomem animes no mundo, sendo que Nanatsu no Taizai (ou The Seven Deadly Sins) é a série mais maratonada pelos brasileiros. Nas bancas de revistas, há uma explosão de títulos de mangá a um nível que nunca vimos antes por aqui. E 2017 viu ainda um fenômeno inédito em décadas, que foi a exibição, nos cinemas do país, de um filme em anime não vinculado a uma grande franquia (Dragon BallSaint SeyaNaruto) ou ao estúdio Ghibli: Kimi no Na Wa [reviw]. Isso sem falar da internet, onde otakus parecem ser quase onipresentes, sendo fácil encontrar fãs de anime e mangá até nos locais mais inusitados (como grupos de Facebook nada relacionados ao tema ou, como descobri há pouco tempo, no grupo brasileiro no Reddit).

Lentamente (lentamente?) o anime e o mangá estão voltando a fazer parte da cultura pop brasileira. Se essa curva ascendente continuará ou se ela será bruscamente interrompida no futuro próximo, forçando ambas a mídias a caírem no esquecimento mais uma vez, eu não tenho como prever. Como eu disse, futurologia não é minha especialidade. Mas justamente por isso o cenário atual é talvez o mais propício ao lançamento de uma revista do tipo que estamos discutindo aqui no texto. Claro, nesse ponto é preciso perguntar se as pessoas que estão maratonando Nanatsu no Taizai na Netflix são as mesmas pessoas que passam em bancas de jornais – um espaço que, é bom atentar, está morrendo. Mas assumindo aqui que pelo menos em parte elas sejam: eis ai um público em potencial que, inclusive, possivelmente possui o capital necessário para pagar por uma revista aqui e ali (afinal, já pagam a assinatura da Netflix). O que talvez se ligue a outro ponto importante nessa minha argumentação: os otakus brasileiros estão envelhecendo.

Nanatsu no Taizai é a série mais maratonada no Netflix brasileiro. Podemos não ter voltado aos anos 1990, mas os animes certamente estão retornando à cultura popular brasileira.

A criança que economizava o dinheiro do lanche ou a escassa mesada para comprar uma revista de anime nos anos 1990 ou um mangá meio-tanko no começo dos anos 2000 está agora entrando no mercado de trabalho – isso se já não entrou. Esse é certamente um fator que possibilitou às editoras de mangá lançarem tantos títulos em uma qualidade tão mais alta do que a de quinze anos atrás, com preços (e títulos) que claramente não são voltados para crianças. Ponto é, o otaku de hoje possui um poder aquisitivo significativamente maior do que há alguns anos. Dito isso, ainda é preciso perguntar: por que alguém compraria uma revista em primeiro lugar? Bom, há vários motivos. Nostalgia é um que eu já mencionei, sobretudo a depender da revista. Curiosidade é ainda outro: se a notícia se espalha de que há uma revista do tipo nas bancas, inevitavelmente alguns curiosos comprarão para ver como ela é. Mesmo colecionismo é um motivo válido. Ah, e podemos estar na era da internet, mas ainda há um bom número de pessoas que simplesmente preferem algo mais físico.

Sendo honesto, eu não sei se uma revista do tipo é mesmo viável nos dias de hoje. Mas eu gostaria que fosse. E, no fim do dia, o que eu de fato quis fazer aqui neste texto foi tentar talvez explicar um pouco do possível apelo que uma revista do tipo pode ter, bem como contra-argumentar alguns lugares-comuns que eu vejo aqui e ali. É óbvio que uma publicação física enfrentaria muitos problemas hoje, e é plenamente possível que meu otimismo se mostre completamente infundado com o passar do tempo. Ainda assim, eu continuarei gostando do formato. É sempre interessante, quando vou em alguma biblioteca, ou mesmo quando algum universitário tenta me empurrar uma Neo Tokyo de alguns anos atrás na fila de algum evento de anime, olhar para essas revistas e ver o que era moda no passado. A internet é ótima para divulgar informação rápida, mas ela é uma péssima, digamos, “capsula do tempo”. Em alguns anos muitos dos textos e vídeos de hoje provavelmente terão desaparecido, mas publicações como revistas e livros continuarão ai, como testemunhos de uma época passada.

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Outros artigos que podem lhe interessar:

Os animes estão morrendo? Não, mas a indústria está mudando.

História – Ontem e Hoje: Anime e Mangá em Solo Brasileiro (parte 1)

Review – Digimon Adventure (Anime)

Imagens (na ordem em que aparecem):

1 – Animegataris, episódio 3.

2 – Capa da revista Animax, número 51 e imagem de divulgação da nova Ultra Jovem.

3 – Danna ga Nani wo Itteiru ka Wakaranai Ken, episódio 1

4 – Capas das edições 117, 118 e 119 da revista Neo Tokyo.

5 – Nanatsu no Taizai, episódio 1.

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8 comentários sobre “O quão viável é uma revista sobre anime hoje?

    • Isso sem dúvida é um problema, mas também é válido para quase tudo. Nem todos podem pagar por sites de streaming, mas eles estão ai. Nem todos podem comprar um mangá sempre, mas as bancas ainda estão cheias deles. Nem todo mundo precisa comprar, a revista só precisa lucrar o bastante para se justificar financeiramente.

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  1. Há vantagens e desvantagens no impresso e na internet, há sites com bons textos, mas também há terríveis, há revistas que copiam material da internet e outras com textos mais elaborados.

    Há coisas que encontro na web que nunca tinha visto no impresso, a internet é democrática no sentido de que se escreve sobre tudo e ainda encontramos possíveis erros no impresso.

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  2. Para quem gosta de análises, reviews, notícias, etc. Tudo reunido em um só lugar, as revistas são ótimas. E ainda têm aquelas pessoas que gostam de ter o material em mãos, que compram livros e apostilas de estudo, mesmo com tudo disponível na internet (de forma dispersa, na maioria das vezes). Mas agora, essas revistas terão que sobreviver de um público bem menor do que antigamente.

    Tenho até hoje algumas Ultra Jovem, Neo Tokyo, Comix e principalmente Anime-Do, mas há muitos anos não compro publicações do tipo. A qualidade do conteúdo vai ser determinante, se forem superficiais demais (como a Anime-Do foi no seu final) não sobreviverão por muito tempo.

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