Antiguidades – Namakura Gatana e o 100º Aniversário da Animação Japonesa

Namakura Gatana

Em 2017 os animes completam 100 anos de existência, ou ao menos é o que nos diz o site Japanese Animated Film Classics. O site foi criado pelo Centro Nacional de Cinema, do Museu Nacional de Arte Moderna de Tóquio, em comemoração a essa data. O propósito do mesmo é o de streaming de filmes clássicos da animação japonesa, sobretudo aqueles produzidos entre as décadas de 1920 e 1940, e segundo notícia do Anime News Network o site deve ficar no ar apenas até o final deste ano.

A data obviamente não foi escolhida ao acaso: 1917 foi certamente um ano seminal para os animes. Enquanto Katsudo Shashin demonstra que experimentos com a mídia já ocorriam há um tempo, 1917 foi o ano em que a animação japonesa efetivamente chegou ao cinemas, e isso graças ao trabalho pioneiro de três indivíduos que viriam a ser conhecidos como os “pais” do anime: Shimokawa Oten, Kitayama Seitaro e Kouchi Jun’ichi. Infelizmente, porém, quase tudo dessa época se perdeu.

Muito do que sabemos sobre os anos iniciais da animação japonesa vem de fontes secundárias. No melhor dos casos encontramos notícias da época anunciando a exibição de um ou outro filme, ao passo que em situações menos favoráveis só podemos contar com os relatos daqueles envolvidos na produção dos filmes, relatos estes muitas vezes dados décadas após o lançamento efetivo dessas animações. Há, porém, duas exceções notáveis, uma das quais sendo o primeiro filme de Kouchi Jun’ichi, Namakura Gatana.

Namakura Gatana

Também conhecido pelo nome Hanawa Hekonai Meitou no Maki, o leitor interessado pode encontrar o curta para streaming justamente no Japanese Animated Film Classics, que conta com a “versão mais longa e digitalmente restaurada” do mesmo, atingindo ali a casa dos quatro minutos de duração. Na história, temos um samurai que compra a uma nova espada e decide que quer testá-la, comprando briga com diversos transeuntes em seu caminho apenas para ser facilmente vencido por todos.

Ainda que esta singela comédia provavelmente não incitará altas gargalhadas num espectador moderno, a importância histórica desse curta ainda é inegável. Datado de junho de 1917, ele certamente não foi o primeiro anime da história: em seu artigo Some remarks on the first Japanese animation films in 1917, Frederick S. Litten inicialmente lista em ordem cronológica as animações lançadas em 1917, com pelo menos seis anteriores, mas o curta ainda fica como um importante exemplar – como o único exemplar – de sua época.

Talvez o que mais salte aos olhos de um espectador moderno é a animação de Namakura Gatana. Precisamos lembrar que estamos aqui no período inicial da animação, tanto no Japão como em todo o mundo, uma época ainda sem cânones e técnicas bem estabelecidas e na qual os autores ainda estavam experimentando com a mídia. No caso em questão, como Litten aponta Jun’ichi usou sobretudo a técnica da animação de recortes, com apenas pontuais momentos de animação 2D, e isso é bastante visível.

Namakura Gatana

Uma variante da técnica de stop motion que emprega recortes no lugar de massinhas e objetos – materiais pelos quais a técnica é mais conhecida hoje -, Litten ainda aponta como ela viria a se tornar o padrão da animação japonesa, demonstrando assim o pioneirismo de Jun’ichi.

Alguns números fornecidos pelo Japanese Animated Film Classics são também bem interessantes de se apontar. Em particular, temos que o curta rodava a 16 frames por segundo (fps), um número que seria considerado relativamente alto para os padrões modernos, onde o normal costuma ser 12, 8 ou mesmo 4 frames por segundo. Já outro dado curioso é o fato do curta ter sido produzido em filme 35mm, padrão no cinema moderno, mas que teve seu surgimento no final do século XIX.

Como esse curta chegou até nós, quando todos os demais de sua época se perderam no tempo? É difícil dizer. Segundo nos conta Litten, o curta foi redescoberto por Matsumoto Natsuki numa loja de antiguidades em Osaka, em 2007, junto ainda de outro curta: Urashima Taro, de 1918. Notícias sobre essa descoberta, porém, só começaram a circular no ocidente a partir de 2008, com o Anime News Network publicando uma matéria sobre o assunto em março daquele ano. Aparentemente, porém, essa é apenas metade da história – literalmente!

Namakura Gatana

Segundo o Japanese Animated Film Classics, a versão que eles tem disponível é uma restauração feita a partir de dois negativos, esse encontrado por Matsumoto em 2007, mas também um outro, descoberto em 2014. Cada um dos fragmentos continha metade do curta original, e combinados formam o filme que podemos ver hoje. Obviamente, o processo de restauro foi muito mais complexo do que apenas juntar as suas metades, mas para o interessado eu apenas recomendo que leia o descritivo no site.

A empresa produtora responsável pelo curta, também segundo o Japanese Animated Film Classics, foi a Kobayashi Shokai Ltd., sobre a qual eu não consegui encontrar muito mais além de uma breve menção na Encyclopedia of Early Cinema, que menciona que a empresa foi fundada por Kobayashi Kisaburo em 1916. E com isso acredito que atingimos um bom ponto para encerrar o artigo.

Cem anos depois das primeiras animações japonesas chegarem ao cinema, é no mínimo fascinante pensar no caminho que essa mídia percorreu. E enquanto olhamos para o futuro com um misto de ansiedade e apreensão, é também importante lembrarmos de olhar para o passado e para o quanto as coisas já mudaram. Foi o pioneirismo desses primeiros artistas do começo do século XX que deu o pontapé inicial no que viria a se tornar uma industria de força e poder a serem reconhecidos, e observar e entender essa trajetória é, ao menos para mim, simplesmente fascinante.

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