Sobre argumentos vazios.

Sword Art Online // Ensaio 20/10/2017 // 1
“Ah, mas o protagonista desse anime é muito overpower”. Ta… E daí?

No meu ensaio Tropes e clichês: nada é original, mas isso não é desculpa para não tentar eu procurei argumentar sobre como alguns autores se deixam levar pelos clichês, adotando-os sem reflexão e, nisso, gerando histórias que mais parecem cópias de alguma outra coisa. Aqui, eu quero argumentar que escritores de ficção estão bem longe de serem os únicos afetados por esse tipo de mentalidade, e que em fato muitos de nós se deixam levar por lugares comum inclusive na hora de se analisar ou comentar uma obra.

Algo que vem me incomodando nas discussões sobre anime e mangá é como parece ter despontado nos últimos tempos uma série do que eu vou chamar aqui de “argumentos vazios”. “Vazios”, no caso, eu digo de sentido mesmo. São argumentos que, se tivessem o contexto adequado, poderiam ser críticas e apontamentos bastante válidos, mas como isso raramente acontece nós terminamos com uma série de buzzwords que as pessoas apenas repetem acriticamente. Nisso, a própria discussão vai se tornando menos e menos significativa.

O ponto que eu quero trazer aqui é que não importa qual seja a sua crítica a uma obra, você precisa deixar bastante claro porquê ela é válida em primeiro lugar. Dizer que um personagem é “overpower“, por exemplo, não significa absolutamente nada se você não puder explicar porque isso é um problema naquela história em específico. Mais nisso em breve, mas antes de mais nada eu quero deixar claro o seguinte: eu não faço essas considerações para uma pessoa ou grupo de pessoas em particular, mas sim para todos aqueles que comentam, debatem e criticam animes.

One Punch Man // Ensaio 20/10/2017 2
Em que momento um personagem ser muito forte se torna um problema?

Vamos retomar o exemplo do personagem overpower. Eu gosto desse exemplo porque enquanto ele é quase sempre apontado como um grave defeito, ele também possui um contra-exemplo: Saitama, de One Punch Man. Consegue explicar por que um dado personagem qualquer ser “overpower” é um problema, mas o Saitama o ser não é? Não entendam mal, existe uma diferença ai. O ponto é que saber explicar essa diferença é crucial para a argumentação. Você precisa saber explicar porque algo é um defeito na história que analisa, do contrário o seu argumento perde a força. E notem que eu digo “explicar”. Duncan J. Watts tem um livro intitulado Tudo É Óbvio, Desde que Você Saiba a Resposta. Francamente, eu nunca li esse livro, embora pareça ter uma premissa interessante. Mas eu absolutamente adoro esse título, e acho que a frase se aplica muito bem aqui. Talvez internamente você saiba porque um dado personagem ser overpower é um defeito, mas se não souber comunicar esse motivo e só jogar o termo achando que isso encerra a discussão então não faz muita diferença.

O que caracteriza um defeito em uma obra de ficção? A verdade é que isso pode variar muito de caso a caso. Via de regra, normalmente é considerado um defeito aquilo que quebra a imersão na história. Por isso furos de roteiro são talvez o exemplo máximo do que é uma falha em uma ficção. Um furo de roteiro nada mais é que uma contradição interna na narrativa, onde algo muito destoante do que a obra estabeleceu até então acaba sendo não explicado, vagamente explicado, ou tão mal explicado que a explicação faz menos sentido que o evento em si. Essa contradição não apenas põe em evidência a “mão do autor” como ainda deixa claro que tal autor não teve maestria o bastante sobre a sua obra para evitar contradições. Dito isso, há duas coisas que precisam ser apontadas: primeiro, que nem toda quebra de imersão é um defeito em si mesmo, e segundo, que nem todo defeito possui o mesmo peso em diferentes obras.

Kino noTabi // Ensaio 20/10/2017 // 3
Nem toda quebra na imersão é uma falha, ou se quer um erro.

Meu primeiro ponto eu poderia exemplificar inclusive com o meu anime favorito: Kino no Tabi: The Beautiful World [review]. Toda a estética do anime existe para criar uma sensação de distanciamento entre a obra e o espectador, isso desde o cenário que imita uma aquarela de tons melancólicos até as filtro imitando uma televisão de tubo. Mas aqui esse distanciamento funciona porque Kino no Tabi não é sobre seus personagens ou o seu mundo, ao menos não ao nível de tentar nos fazer imergir naquela obra. Ele é muito mais sobre seus temas e ideias, sobre as questões que levanta e que deixa para o espectador responder por si mesmo, e nisso algum distanciamento é bastante bem vindo.

Mas não só uma história mais séria como Kino no Tabi pode se beneficiar de uma quebra na imersão. História de comédia que se utilizam da chamada “quebra da quarta parede” também podem. Peguem como exemplo obras que usam e abusam de referências, algo como Lucky Star ou o recente Anime-gataris. O uso constante de referência é algo que, bem ou mal, deixa bastante evidente a mão do autor, mas nem por isso trata-se de um demérito, e pode mesmo entregar alguns dos momentos mais engraçados da obra.

Eu vou admitir que nesse ponto bem poderíamos entrar em uma questão semântica de se esses meus exemplos realmente contam como “quebra de imersão” ou se o fato de ser esperado deles que ajam da forma que agem não tecnicamente significaria uma manutenção da imersão, mas aqui eu estou pensando no termo apenas nos moldes que eu descrevi inicialmente: algo que deixa evidente a “mão do autor”. Em todo caso, não vale a pena me estender muito no que é, afinal, apenas um exemplo.

Animegataris // Ensaio 20/10/2017 // 4
O uso de referências é uma forma bastante comum de quebra da quarta parede. Isso pode ser considerado uma quebra de imersão, mas nem por isso é um defeito.

Ponto é: o que é defeito em uma história não necessariamente o é em outra. Esse é um conceito que todo mundo diz conhecer, mas que frequentemente parecem não aplicar. Quando você decide que algo é um defeito independente do contexto, então você está indo contra aquela máxima, e a abundância do uso de termos como overpowerplot holedeus ex machina, cliché e semelhantes denuncia exatamente essa atitude. Por que o protagonista ser overpower é ruim? Por que a não explicação de um dado elemento é um plot hole? Se você não souber explicar o seu argumento, talvez fosse melhor nem tê-lo feito. Houve um tempo no qual essas palavras, sozinhas, possuíam algum sentido, mas o seu uso excessivo e indiscriminado fez elas lentamente irem se afastando de um significado mais consensual e “objetivo” para um cada vez mais etéreo e “subjetivo”, e é nesse processo que esses argumentos se tornam vazios.

Peguem o exemplo do deus ex machina. Idealmente, o termo se refere a um milagre, algo que parece fazer as próprias regras do universo da obra se dobrarem para favorecer o protagonista. Que fique claro, isso não é necessariamente um defeito em si mesmo. Histórias que usem do conceito de destino ou predestinação podem usar de algo assim como um reforço de suas mensagens, só para dar um exemplo. Mas em tempos recentes o termo foi perdendo esse significado e se tornando cada vez mais “qualquer coisa de positivo que aconteça aos protagonistas”. Spoilers de Made in Abyss a seguir, mas vale apontar como a reação ao episódio 10 do anime evidencia isso. Nele, a protagonista, Riko, foi terrivelmente ferida, e eis que surge uma nova personagem, Nanachi, para ajudar. Mas a ajuda que ela promove é tão somente propor uma respiração boca-a-boca e, depois, levar a Riko para sua cabana para ser tratada com plantas medicinais locais.

Made in Abyss // Ensaio 20/10/2017 // 5
Deus Ex machina? Discordo.

Muita gente reagiu de forma negativa ao episódio, argumentando que tratava-se de um deus ex machina, sendo que em momento nenhum a história dobrava as regras estabelecidas. De certa forma o momento até serve para a caracterização da própria Nanachi, que decidiu esperar para aparecer, então não é como se a sua função fosse a de ser um milagre ambulante – coisa que ela não é. Na definição tradicional a aparição dela talvez pudesse ser considerada uma pequena conveniência no roteiro, mas nunca um deus ex machina. Mas porque o termo perdeu o seu significado, agora ele pode ser encaixado acriticamente em qualquer situação, desde que essa situação seja favorável aos protagonistas. É a ilusão de que “realismo” equivale a trágico e cruel, ao passo que qualquer sinal de positividade é visto como forçado e irreal, um problema que também assolou o final de Tsuki ga Kirei e que eu já discuti no meu ensaio Sobre realismo, pessimismo e otimismo.

Mas entrando no meu segundo ponto, defeitos não irão possuir sempre o mesmo peso. Uma obra de arte não é uma equação matemática na qual você pesa qualidades e defeitos e define se a obra pende mais para um lado ou para o outro. Um único defeito gravíssimo pode eclipsar quaisquer qualidades, mas o inverso também é verdadeiro. Peguem, por exemplo, Kimi no Na Wa [review], uma história que possui uma quantia considerável de furos no roteiro e situações mal explicadas, mas que ainda assim consegue ser emocionante e tocante ao ponto da maioria das pessoas não notar ou não se importar com esses defeitos. Vamos ignorar o quão mais importante é o que a obra fez de certo em prol daquilo que ela fez de errado? Provavelmente há quem defenda isso, que uma obra que não sobreviva a um maior escrutínio lógico deveria ser prontamente considerada como ruim. Mas eu pelo menos vejo algum valor em um maior impacto emocional. Para mim não existe obra perfeita, e a missão de uma boa história é ocultar os seus defeitos, algo que Kimi no Na Wa faz com maestria. Por isso discordo que aqui erros e acertos devem ter o mesmo peso.

Kimi no Na wa // Ensaio 20/10/2017 6
Erros e acertos não tem o mesmo peso em uma obra de ficção.

No fim do dia o problema que eu quero apontar é o de repetição acrítica de certos argumentos, a tal ponto que eles perdem qualquer sentido. É fácil dizer que um personagem foi mal desenvolvido e assumir que isso encerra a discussão, mas a verdade é que uma alegação do tipo apenas a inicia. O que você entende por “desenvolvimento de personagem”? Por que o personagem comentado não atende os seus critérios? Por que ele precisava atender, em primeiro lugar? Perguntas muito semelhantes bem poderiam ser feitas a cada um desses argumentos “enlatados”, e se você não souber respondê-las talvez seja melhor considerar que não é o outro lado que não consegue ver os defeitos da obra, mas sim você que não realmente entende as próprias definições de “defeitos” para começo de conversa.

Não levem a mal, esse texto não é para ser um ofensa gratuita. Eu mesmo já cometi e ainda eventualmente cometo muitos desses erros. No fim do dia essas expressões ainda são atalhos explicativos, e no mundo informatizado moderno, onde filosofias inteiras são resumidas a duas frases acopladas à imagem cômica da vez, a concisão vem cada vez mais sendo vista como um virtude. Mas eu sinto que ela também está prejudicando a nossa comunicação, na medida em que cada vez mais palavras vão perdendo o seu significado, se tornando apenas uma sombra do que um dia foram. Explicar é importante. Falar o óbvio é importante. Saiba muito bem porque você está usando o argumento que está, bem como o que ele significa. Não fale para encerrar a conversa: fale para continuá-la.

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Imagens (na ordem em que aparecem):

1 – Sword Art Online, episódio 4

2 – One Punch Man, episódio 1

3 – Kino no Tabi: The Beautiful World, episódio 1

4 – Anime-gataris, episódio 1

5 – Made in Abyss, episódio 10

6 – Kimi no Na Wa

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4 comentários sobre “Sobre argumentos vazios.

  1. Interessante o texto, principalmente pelos exemplos citados.
    Isso não faz parte do assunto, mas o parágrafo sobre Kino no Tabi resumiu bem o porquê de eu não estar gostando na nova adaptação. A propósito, tá faltando o nome de Kino no Tabi na lista de imagens no final.

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  2. Toda essa questão de argumentos vazios me remeteu à existência dos consensos. É consenso que Cavaleiro das Trevas do Nolan é incrível, é consenso que Watchmen de Alan Moore é excelente e por aí vai, pessoalmente não discordo desses consensos, porém uma galera adota isso com muita a força, o suficiente para barrar qualquer discussão simplesmente porque a obra É incrível, É excelente, logo não há abertura para outras interpretações ou divagações.

    Confesso que todo esse exercício de questionar sua própria argumentação é trabalhoso pra caramba. Falando pessoalmente, por mais que eu tente me policiliar, sempre acabo jogando argumentos assim simplesmente porque é mais fácil e não irá esticar demais a discussão. Por exemplo eu dizia: é falho os personagens de One Piece viajarem centenas de ilhas e não se desenvolverem em nada, somente em casos específicos e isolados. Mas agora penso: eles precisam mesmo se desenvolver amplamente? A história pede isso? Dentro desse contexto isso não significa algo tematicamente? E por aí vai…

    Penso que criou-se um repúdio desnecessário pelo ”óbvio” e também um pensamento de que o óbvio é inútil numa discussão, o que discordo. É pelo óbvio (e pelo questionamento do óbvio) que iremos destrinchar argumentos, analisar sua natureza e ver se ela é verídica, se tem alguma lógica. Além de continuar a discussão e torná-la mais reflexiva e abrangente.

    Enfim, acho que acabamos criando atalhos ”argumentativos” para adiantar o fim de uma discussão. É foda pensarmos que não há ”consenso”, regras para analisar uma obra, pensar que o que funciona em obra X irá ter o mesmo efeito numa obra Y. E essa ideia de ”erros e acertos não tem o mesmo peso em uma obra de ficção” com certeza é um pensamento que só iria continuar mais uma discussão, deixar a analise de uma obra mais complexa já que não teríamos uma cartilha do que é ”erro” e ”acerto” numa obra.

    No mais desculpe-me o texto gigante. Muito interessante a reflexão, questionei vários argumentos e pensamentos meus sobre várias obras.

    Curtido por 1 pessoa

  3. O problema dos argumentos vazios e etc não vejo como um problema do grande público, mas dos supostos críticos de animes, que acabam muitas vezes induzido esses tipos de comportamento.
    A crítica em geral, até mesmo a cinematográfica perdeu seu valor com a expansão da internet, hoje qualquer um pode se dizer “crítico”, fazer vídeos de análise e etc, muitas vezes não tendo a menor formação na área, além disso muitas pessoas se baseiam nesses sites coletivos: MAL, rotten tomatoes e etc Não é acusando ninguém, mas muitos desses que são críticos/especialistas não tem o mínimo de conhecimento para isso e acabam influenciando outros que seguem seus argumentos e frases e pensam: “Se eu falar que a animação não é fluída, que a história foi rushada,com protagonista overpower, vou mostrar que entendo”.

    Indo para o contexto dos animes,se você pegar boa parte dos que fazem análises e reviews e etc, você não vai encontrar críticas e análises, vai encontrar 2 outras coisas: 1) Justificativa de gosto: Escrevesse e gravasse vídeos pra tentar convencer as pessoas de que o anime tal é bom, anime tal é ruim, por isso cada vez mais tem a praga do clickbait: “Top 10 animes de todos os tempos, “Por que … é o melhor da temporada”, “Desabafo, detesto…” 2) Leitura de resumo: Não existe análise, simplesmente pegasse a sinopse lê e fala sobre o público que se interessaria pela obra.

    Gosto muito dos supostos mandamentos da crítica de cinema baseadas em André Bazin:
    1) Saber escrever. Hoje todo mundo acha que é crítico, ai surgem textos contraditórios, Ex:Vai fazer review de boku no hero, critica num parágrafo a duração longa do torneio e elogia no próximo que foi muito legal ter mostrado todas as lutas. Gente que grava vídeo análise falando fod. 20 vezes.

    2)Saber escolher o objeto que será analisado. A temporada tem uns 50 animes, de quais fazer análise? 2 pontos devem ser levados em conta: os que você irá assistir e os de interesse do público. Mas pouca gente faz isso, tem gente que faz enquete, dai acontece aquilo que estamos acostumado: ganha a enquete um anime que ele não queria ver, ele assiste obrigado e depois logicamente desconta a raiva de assistir no anime que será julgado.

    3)Saber ler a obra e seu contexto. O básico de toda crítica é compreender o propósito original da obra e avaliar sua execução, o que a sinopse e a descrição promete são entregues? O que é transmitido para o público? O que poderia ter sido diferente na obra? O que poderia ter sido melhor explicado? Quais perspectivas futuras? O trabalho aqui é propor alternativas, não é falar: é ruim, nota …, se tivesse feito isso seria um filme bem melhor…, são hipóteses, não quer dizer que a obra seria melhor se fosse diferente, apenas que são possibilidades que poderiam ter sido usadas,

    4) Saber articular o repertório em função da obra: Algo lógico mas que várias vezes esquecemos, se você não gosta de filme de terror, como irá criticar um? Se você só assiste ecchi, como analisará boku no hero, nichijou?

    5) Humildade: Saber que a indústria é muito maior que sua crítica, um anime, filme e etc não será bom ou ruim por causa da sua crítica.

    Curtido por 1 pessoa

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