Uma Breve Análise – Gamers: Como Criar Desentendimentos.

Nenhum clichê é ruim se você souber como utilizá-lo.

Dentre os tropes que mais me irritam na ficção, “constantes desentendimentos que poderiam ser resolvidos com uma simples conversa” é um que está bem próximo do topo da minha lista. Não diria que é que mais me irrita (acho que personagens femininas arquetípicas ainda tomam o primeiro lugar), mas definitivamente é um trope do qual eu prefiro distância. O que torna bastante surpreendente o fato de eu ter adorado um anime que se baseia exatamente nisso.

Anime de 2017 do estúdio Pine Jam, adaptando a light novel homônima escrita por Sekina Aoi e ilustrada por Saboten, a trama de Gamers! começa quando a idol do colégio, Tendou Karen, tenta convidar o introvertido Amano Keita para o clube de videogames da escola. O que começa de forma bastante inocente – mesmo um pouco genérica – logo, porém, espirala em uma constante de hilários desentendimentos amorosos envolvendo o quinteto principal da história.

Falando assim não parece grande coisa, e mesmo os primeiros episódios do anime não são exatamente uma obra prima, mas o saldo final dessa obra ainda é um bastante positivo, não apesar dos constantes mal entendidos, mas inclusive por conta deles e da forma como o anime os utiliza. Quem ainda não o assistiu eu definitivamente recomendo que ao menos dê a ele o teste dos três episódios, mas se quiser decidir após ler a análise fique a vontade: desta vez não há spoilers aqui.

É um anime bem divertido, além de ter um elenco bastante carismático.

Qual o grande problema com mal entendidos? Digamos assim: muita gente conhece a expressão deus ex machina, usada para descrever quando o roteiro parece se dobrar em favor dos protagonistas, faça isso qualquer sentido ou não, mas tão problemático quanto é o diabolus ex machina, quando o universo parece conspirar para fazer algo dar errado. E boa parte dos mal entendidos dos animes são exatamente isso: situações absurdamente artificiais e forçadas criadas especificamente para gerar conflito.

Gamers! resolve esse problema na medida em que é, antes de mais nada, uma comédia. O gênero já é naturalmente muito mais aberto ao absurdo do que qualquer outro, de forma que você ter situações forçadas não chega a quebrar tanto a imersão quando elas são o set up para uma piada. Nisso tanto o deus ex machina quando o diabolus ex machina se tornam muito mais aceitáveis.

Gamers! tem ainda outro ponto importante: a recorrência. Na enorme maioria dos casos, você ter constantes desentendimentos que atrapalham o progresso dos relacionamentos seria um defeito, mas Gamers! consegue tornar isso em uma qualidade. Parte do motivo é que as relações progridem, mesmo que as suspeitas causadas pelos desentendimentos não desapareçam, mas parte disso também se deve ao anime fazer desses desentendimentos algo essencial à sua própria identidade.

Desentendimentos são uma parte importante do que torna esse anime o que ele é.

Gamers! é sobre desentendimentos tanto quanto (ou talvez até mais do que) ele é sobre os seus personagens. Se você tira esse elemento você perde algo de essencial à obra, o que a torna bem diferente de séries que usam de desentendimentos apenas quando as coisas estão indo bem e o autor quer estender a história por mais alguns capítulos. Nesse exemplo, o desentendimento parece fora do lugar, ao passo que em Gamers! ele é esperado. Nisso, quando ele vem a nossa imersão não é quebrada.

Mas há um outro detalhe que merece menção, que é como os desentendimentos são usados para desenvolver os personagens. Um dos maiores problemas do uso de mal entendidos é que na maior parte das vezes eles poderiam ser facilmente resolvidos se os personagens sentassem por cinco minutos para conversar. Mas Gamers! exclui essa possibilidade já na medida em que lida com temas que são muito difíceis de você simplesmente conversas.

Relações amorosas são complicadas, e mesmo aqui no ocidente existe o acordo tácito de não se meter no relacionamento dos outros, então imaginem como deve ser no Japão. Você não simplesmente chega para um conhecido e casualmente pergunta se ele está traindo a namorada, e você definitivamente não chega para a sua namorada e casualmente pergunta se ela está te traindo, ou ao menos não sem iniciar uma discussão que pode, ai sim, levar ao fim de um relacionamento.

Os desentendimentos enfatizam a distância que existe entre estes personagens.

E notem aqui que eu disse “conhecido” no meu primeiro exemplo. O segundo motivo pelo qual esses personagens não podem simplesmente sentar e conversar é que eles mal se conhecem! Grande parte do elenco vai tomando consciência da mera existência um do outro conforme o roteiro anda, então ter uma conversa franca e aberta sobre um tema tão problemático quanto traição e interesse amoroso simplesmente está muito além do nível de intimidade que esses personagens possuem um com o outro.

Adicione a isso o fato do nosso elenco principal ser um bando de introvertidos propensos o chamado overthinking e podemos ver que não apenas os desentendimentos ajudam a estabelecer as relações de (falta de) intimidade entre eles, mas também ajudam na caracterização dos próprios personagens. Esse é outro motivo pelo qual os mal entendidos são uma parte tão essencial do que é Gamers!, bem como o motivo pelo qual o anime consegue usar desse clichê sem soar irritante além do razoável.

Clichês não são algo inerentemente ruim, e dizer isso já se tornou um clichê em si mesmo. Mas é preciso cuidado ao usar deles, e acima de tudo é preciso saber porquê se utilizar deles. E Gamers! sabe. Honestamente, eu entenderia se alguém me dissesse que se cansou dos mal entendidos conforme o anime avançava, mas eu ainda sustentaria que este é um dos poucos casos em que o clichê de fato foi bem utilizado.

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Imagens (na ordem em que aparecem):

1 – Gamers!, episódio 1

2 – Gamers!, episódio 6

3 – Gamers!, episódio 6

4 – Gamers!, episódio 8

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4 comentários sobre “Uma Breve Análise – Gamers: Como Criar Desentendimentos.

  1. Meu maior problema com essa obra é a forma com que o autor faz os mal-entendidos. O mundo inteiro conspira para o mal-entendido ocorrer e eu não tenho suspensão de descrença suficiente para aceitar alguns desses mal-entendidos, mesmo sendo uma comedia.

    Essa incessante busca pelos mal-entendidos culmina em várias situações ridículas. Por exemplo, quando o Keita e a Aguri estão comendo algo e a Chiaki vê eles. Naquele momento o Keita sai da lanchonete com o objetivo de esclarecer a situação a Chiaki, mas termina só falando o qual legal a Aguri é. Essa fala só faz sentido dentro da história se o protagonista for retardado, afinal o objeto inicial dele era completamente outro.

    No episódio dez o Uehara, que quando convenente entende o que está acontecendo, ligou para a Chiaki e falou “decidi que vou escolher você! ”, isso fala só pode ser mal-entendido por quem escuta a mensagem, independente de quem seja. O Uehara tinha o objetivo de passar a mensagem X, mas o autor faz ele falar Y para gerar o mal-entendido, o problema é que não faz sentido ele falar algo assim. Esse tipo de forçação que vai contra o que havia sido definido do personagem até o momento é uma das coisas que acho mais odeio nesse anime.

    A obra tratar o público como idiota, a repetição e a execução que me desagrada bastante transformaram esse no pior anime que vi esse ano dentre setenta outros.

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    • O anime definitivamente tem seus momentos forçados demais, sem dúvida nenhuma. Mas não acho que sejam tantos ao ponto de atrapalhar. De cabeça só me vem mesmo esses dois que você citou, com os demais sendo relativamente plausíveis. Não vou dizer que o anime é realista, isso ele não é mesmo, e totalmente entendo que ele seja forçado demais pra sua suspensão de descrença, mas ainda acho que ele fez o melhor que pode rs.

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      • Você considera amontados de acontecimentos improváveis algo ruim? Usando Gamers como exemplo, a Chika é a garota que faz os jogos que o protagonista gosta, é a mesma garota que joga com ele no celular e eles ainda estudam na mesma escola. Eu sou novo no blog, então, se eu perdi algum texto que você fala sobre esse tipo do acontecimento, me recomende ele, por favor.

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        • Nunca cheguei a comentar especificamente sobre isso. Mas vou dizer que a resposta, pra mim, é que depende muito. Eu não vejo problema disso em Gamers por ser uma série de comédia praticamente embasada nisso, mas uma sequência de coincidências poderia soar forçado numa série um pouco mais séria. Mas mesmo assim, no fim vai de cada um e de até onde vai a suspensão de descrença de cada um, e a minha tende a ser até que bem alta rs.

          Ah, mas embora eu nunca tenha comentado especificamente sobre acontecimentos improváveis, acho que esse texto mais antigo tangencia o assunto um pouquinho. Não sei até que ponto vai ajudar, mas meio que explica porque eu tendo a ser bem tolerante com acontecimentos improváveis: https://esoumdesenho.wordpress.com/2015/02/21/protagonismo-e-porque-ele-faz-mais-sentido-do-que-parece/

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