Uma Breve Análise – Re:Creators: Vocaloids, Originalidade e o Simulacro

Re Creators // Análise 09/10/2017 1
Qual o papel da originalidade na era do simulacro?

Eu quero já começar dizendo que essa análise vai ser um pouco mais densa e um pouco mais longa do que o normal. Mas Re:Creators abre tanta margem para discutir alguns assuntos em profundidade que eu não poderia fazer só alguns parágrafos curtos. Dito isso, eu ainda fiz o possível que o texto não fosse excessivamente confuso.

Vamos lá: para quem talvez não saiba, Re:Creators é a mais nova produção do estúdio Troyca, um anime original com roteiro de Rei Hiroe e direção de Ei Aoki. A premissa da história é a de que personagens das mais diversas mídias – anime, mangá, light novel, videogames – começaram a aparecer na Tóquio moderna, aparentemente trazidos pela misteriosa Princesa de Uniforme Militar. Quais os seus objetivos é um mistério que desvendamos conforme o anime avança, mas desde cedo uma coisa fica bem clara: se os personagens, aqui chamados Criações, não voltarem logo aos seus mundos, a própria realidade pode estar em perigo.

Agora, eu vou dizer que, modéstia à parte, eu provavelmente fiz o anime soar mais interessante do que ele realmente é. Ele tem bons momentos, mas que são exatamente isso: momentos. Há boas ideias e bons conceitos aqui, mas mais de uma vez a execução deixa a desejar. Não chega a ser um flop completo, mas digamos que a obra é, quando muito, mediana. Dito isso, ela levanta algumas questões que valem a pena comentar. Ah, mas antes, fica o aviso: spoilers a partir daqui, então sigam por sua conta e risco.

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Altair, a Princesa de Uniforme Militar.

Para começar, falemos um pouco sobre vocaloids. Eu não pretendo entrar em muitos detalhes aqui, tanto para não deixar esse texto excessivamente longo como também porque eu já tenho outro artigo onde explico detalhadamente o que são os vocaloids, como surgiram e como são usados. Mas um mínimo de informação sobre eles e sobre a comunidade que se formou ao entorno deles será necessária para a argumentação.

Vamos com o básico. “Vocaloid” é uma palavra surgida da contração entre vocalandroid, e designa tanto a um certo tipo de sintetizador de voz quanto a tecnologia usada para criá-lo. Se o leitor já ouviu falar da Hatsune Miku, então já sabe o que é um vocaloid: vozes artificiais, muitas vezes dotadas de um avatar em estilo anime, que as pessoas compram e se utilizam para criar músicas. E esses dois últimos detalhes são muito importantes, pois implicam em algo essencial para a mídia: qualquer um pode comprar um vocaloid e compor uma música com eles.

O que isso tem a ver com Re:Creators? Bom, embora não seja dito explicitamente, fica bastante indicado que Altair, a Princesa de Uniforme Militar, veio de um vídeo clip cantado por um vocaloid. A primeira pista disso vem do fato dela vir de um vídeo clip, e um ainda que foi publicado num site que é uma clara paródia do Nico Nico Vídeo, uma espécie de YouTube japonês que possui mesmo uma seção dedicada somente a músicas de vocaloid.

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O site onde o vídeo da Altair foi publicado.

Evidência um pouco mais concreta é a edição do vídeo, que do pouco que vemos muito se assemelha a como é normalmente feita a edição de vídeo clips cantados por vocaloid. Mas talvez a maior evidência venha da própria história de Re:Creators: Altair foi criada pela personagem Shimazaki Setsuna, e se você assistiu o anime deve achar no mínimo improvável que a menina tenha efetivamente cantado para seu vídeo. O uso de um vocaloid, aqui, simplesmente faz mais sentido.

Tendo explicado o que é um vocaloid e como o conceito se liga à Re:Creators, eu preciso agora explicar ainda outro conceito: o de simulacro. No caso, eu me refiro aqui ao crítico cultural Azuma Hiroki, e ao seu livro Otaku: Japan Databased Animals. No livro, Azuma recupera a ideia de simulacro do sociologista e filósofo francês Jean Baudrillard, e a descreve como um meio termo entre o original e a cópia, que surge justamente quando a divisão entre estes se torna demasiado nebulosa. Pense em um doujinshi, o exemplo clássico de Azuma, onde você tem uma série de paródias – muitas mesmo eróticas – de um trabalho qualquer que reaproveitam personagens e cenários, mas que fora isso possuem bem pouca relação com a obra original.

Embora Azuma nunca fale sobre eles – seu livro é de 2001, ao passo que o “boom” de vocaloids só foi ocorrer em 2007, com a Hatsune Miku -, eu apontaria que vocaloids são talvez a mídia mais propícia à criação de simulacros. Isso porque aqui não existe um original, para começo de conversa. Vejam o caso da Miku: a empresa responsável pela criação da personagem, a Crypton Future Media, a deu quando muito traços como idade e peso. Fora isso, Hatsune Miku é um papel em branco, que cada compositor pode preencher como achar melhor.

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O estilo de edição do vídeo lembra bastante o de um clip de vocaloid.

Em uma música Miku pode estar cantando sobre os pesares e augures da vida, enquanto que em outra ela pode estar cantando sobre as alegrias e felicidades da mesma. Em Party x Party ela aparece como uma aventureira em um mundo de fantasia, ao passo que em Kaitou F no Scenario ~Kieta Daiya no Nazo~ ela aparece como uma fotografa do começo do século passado. Em Eight Hundred ela canta sobre a perda de um antigo amor, ao passo que em Bakusai Pudding ela canta sobre o pudim que deixou cair.

Todas essas versões “são” a “Miku”, porque não existe uma definição sólida e concreta do que “é” a Hatsune Miku como personagem. E mesmo as poucas definições mais sólidas podem ser ignoradas se assim os fãs desejarem. Miku possui, oficialmente, 16 anos, mas o que não falta são músicas onde ela aparece como uma garotinha em idade pré-escolar ou como uma mulher trabalhadora.

Nesse ponto, quem assistiu Re:Creators já deve ter conectado os pontos. Altair é, ela própria, um simulacro, em mais de um sentido. Sim, ela o é no mesmo nível que um vocaloid o é: sua imagem foi adotada, re-significada e re-compartilhada internet afora, tornando a personagem muito mais um meme (tanto no conceito original, de Richard Dawkins, como na forma que o conceito tomou na internet) do que uma personagem de fato. Mas ela é um simulacro também no sentido que ela própria é uma fanfic! Shimazaki a criou baseando-se numa outra história, o que só enfraquece a ideia de “original” aqui.

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Criadora e criação?

O quanto de autoral há na relação entre a Shimazaki e a Altair? A segunda reconhece a primeira como sua criadora, mas diante do que o anime nos apresenta precisamos aceitar esse título com uma pitada de cinismo. Nesse ponto, talvez seja uma falha de Re:Creators insistir em uma espécie de “criador original” mesmo para uma personagem que é, claramente, uma criação compartilhada. Ou talvez seja apenas o reconhecimento de um ponto de partida: Shimazaki foi, afinal, quem desenhou a Altair e quem fez o vídeo que a popularizou. Nesse sentido, Altair foi uma criação da Shimazaki primeiro e da internet em segundo, embora o fato dela ser essencialmente uma fanfic complique um pouco essa situação.

Qual o papel da originalidade na era do simulacro? No final, eu não acho que possa dar uma resposta a essa pergunta, que fica para que cada um reflita a seu modo. Se essa reflexão era a própria intenção dos autores de Re:Creators (o que eu honestamente duvido), ou se é apenas fruto de uma leve superinterpretação minha, ainda acho que ela possui algum valor, e fica ai para vocês pensarem a respeito.

Como eu disse no começo do texto, Re:Creators não foi exatamente bom. Há muitas conveniências no roteiro que quebram bastante a imersão, e muitos diálogos que chegam a ser sofríveis de tão mal escritos. Sim, há bons momentos: lutas bem animadas, uma ótima trilha sonora, alguns diálogos legitimamente interessantes… Mas reitero o que eu disse no começo: o saldo final do anime é, quando muito, mediano. Ainda assim, eu acho que ele fez um bom trabalho em “capturar” o lado otaku da cultura pop japonesa moderna, talvez até mais do que a própria obra tenha tentado ou imaginado. Já vi melhores, já vi piores, mas ao menos rendeu um texto legal.

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Mark W. MacWilliams (org.) – Japanese Visual Culture

Uma Breve Análise – Seikaisuru Kado: Um Bom Uso de CG

Imagens (na ordem em que aparecem):

1 – Re:Creators, episódio 1

2 – Re:Creators, episódio 1

3 – Re:Creators, episódio 5

4 – Re:Creators, episódio 5

5 – Re:Creators, episódio 21

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