Review – Sakura Quest (Anime)

Sakura Quest

Lançado em abril de 2017, Sakura Quest é a mais nova produção do estúdio P.A.Works a se focar no cotidiano de um grupo de jovens adultas. Com roteiro de Masahiro Yokotani e direção de Soichi Masui, nossa história começa quando Koharu Yoshino recebe uma proposta de emprego vinda do ministério do turismo da cidade interiorana Manoyama. A garota aceita com relutância: vinda ela própria de uma cidade pequena, seu grande sonho era fincar raízes na megalópole que é Tóquio, mas a dificuldade de conseguir um emprego na cidade a faz recorrer a pequenos bicos para pagar suas contas. O problema surge, porém, quando Yoshino descobre que a proposta é para um pouco mais do que um bico. Embora ela inicialmente acreditasse que seu trabalho seria breve – ela deveria posar como rainha do “Reino do Chupa-Cabra”, uma atração turística da cidade que já viu dias melhores -, logo a garota descobre que seu contrato deveria durar um ano. Surpresa, ela imediatamente tenta resignar de seu novo “posto”, mas acaba sendo convencida a ficar. Aqui começa um novo capítulo na vida de Yoshino, que será também um novo capítulo para a pacata cidade de Manoyama.

Ao longo do anime, somos introduzidos a uma miríade de outros personagens, quatro dos quais sendo as jovens que se tornam as “ministras” de Yoshino, cada qual com seus próprios talentos e problemas pessoais. E, é lógico, somos também apresentados à cidade, incluindo ai aos problemas e dificuldades pelos quais ela passa. É certamente um anime bem leve, mas nem por isso sem substância. Enquanto otimista em essência, ele ainda se mostra capaz de abordar desde questões tão tipicamente japonesas quanto os problemas advindos do envelhecimento populacional, como questões bem mais universais, como a busca de um local ao qual pertencer. A isso adicionamos os belos cenários que já se tornaram praticamente a marca registrada dos animes da P.A.Works, além de uma trilha sonora que, se não fenomenal em todos os seus momentos, ainda apresenta algumas músicas verdadeiramente marcantes. Uma obra descontraída e séria na medida certa, é um anime que vale muito a pena conferir. E aqui cabe o aviso de sempre: spoilers abaixo, então sigam por sua conta e risco.

Korahu Yoshino.

Algo que precisa ser destacado logo de início é o fato de Sakura Quest ser um slice of life, um gênero que eu sinto receber mais críticas do que seria justo. Vezes demais há quem critique histórias desse tipo como sendo “sobre nada”, mas um comentário do tipo é meio que completamente ignorar todo o ponto do gênero. Histórias desse tipo são sobre os seus personagens, como eles agem e interagem uns com os outros e como mudam – ou não – ao longo da trama. De fato, muitas dessas histórias são, na verdade, compilados de histórias menores, breves momentos nas vidas cotidianas de um grupo de personagens quaisquer: e Sakura Quest não é diferente. Sua estrutura beira o episódico, e seus maiores arcos mal passam dos dois episódios. Ainda quando a obra começa a desenvolver uma trama mais consistente, que vem com a ideia das garotas de restaurar um antigo festival da cidade, mesmo essa trama acaba entremeada por arcos menores, que tomam o primeiro plano narrativo enquanto a trama do festival é deixada não exatamente de lado, mas certamente em segundo plano.

Mas tudo bem! Como eu disse, histórias assim não são sobre alguma grande narrativa que perpasse e mova toda a trama, mas sim sobre o desenvolvimento de cada personagem. E nisso Sakura Quest definitivamente acerta. Não há como negar: os personagens carregam esse anime nas costas, e são todos surpreendentemente carismáticos e memoráveis. E acreditem, esse “todos” não é um exagero. Mesmo secundários e figurantes recebem a devida atenção, e alguns até recebem um bom desenvolvimento, o que serve para dar muito mais “vida” à cidade. E o impacto disso vem sobretudo no final do anime, quando temos Yoshino se despedindo das pessoas de Manoyama. Conforme a primeira música de encerramento – Freesia, da banda (K)NoW_Name – toca ao fundo, vemos cada personagem dando o seu adeus à garota, e é impossível para o espectador não se emocionar com essa cena, sentindo ele também o fim dessa breve estadia em Manoyama.

Posso não ter chorado com esse final, mas olha, foi por pouco [rs]

Aliás, e já que o gancho surgiu, permitam-me um breve desvio no texto para dizer isso: que endingÉ muito difícil eu dar atenção aos encerramentos de qualquer anime, como imagino que seja o caso para muitos. Mas esse em especial já se colocou como um dos meus favoritos de 2017. É como eu disse: Sakura Quest pode não ter a melhor trilha sonora da história, mas onde ele acerta ele realmente acerta. Suas aberturas e encerramentos, bem como a insert song dedicada ao mitológico dragão que teria visitado Manoyama, são todas músicas bastante memoráveis, e também muito se ligam ao próprio anime. Freesia em particular pode ser lida como um belíssimo resumo da obra, se você entende o eu-lírico como a Yoshino e o “você” constantemente mencionado na canção como a própria cidade de Manoyama. Dois lados aparentemente opostos – a garota da cidade que rejeita o campo e o campo fechado que rejeita o que é de fora -, de seu encontro ambos podem crescer e avançar em direção ao caminho que lhes for melhor.

Mas antes que eu ceda à tentação de fazer uma longa análise de cada música em Sakura Quest, voltemos afinal aos personagens. Desta vez, porém, para falar de questões mais temáticas. Isso porque o desenvolvimento dos personagens está intimamente ligado às ideias e mensagens que o anime tenta passar. Tais mensagens, por sua vez, podem ser divididas em dois “grupos”, cada qual vinculado a um núcleo de personagens. Com as cinco garotas que perfazem o grupo protagonista do anime, a obra trabalha temas mais universais intimamente ligados à juventude, sobretudo o tema da busca por um lugar ao qual pertencer. Já com a vasta miríade de personagens de Manoyama, o anime trabalha com temas bem mais locais, e bem mais específicos ao Japão atual. Aqui, questões ligadas ao envelhecimento populacional tomam o primeiro plano, conforme boa parte dos problemas pelos quais passa Manoyama estão ligados a uma população mais velha que não vê motivo para buscar qualquer mudança.

Trabalhando os problemas e dilemas de sues personagens, Sakura Quest também nos traz uma miríade de temas interessantes.

O moderno e o tradicional. O jovem e o idoso. A cidade e o campo. A correria e a calmaria. O estrangeiro e o local. Sakura Quest nos apresenta uma vasta miríade de dicotomias, mas ao mesmo tempo a obra completamente rejeita qualquer divisão maniqueísta. Pelo menos duas de nossas protagonistas, Sanae e Maki, chegam à Manoyama praticamente fugindo de Tóquio, e a própria Yoshino só vem à cidade por não conseguir um emprego numa megalópole que ela própria descreve como um centro de oportunidades (uma ironia que o próprio anime faz questão de apontar). Mas nem por isso a cidade é retratada como inerentemente ruim, e aqueles que a ela se adaptam podem encontrar a felicidade ali. É o que vemos justamente no episódio em que Sanae e Maki retornam à Tóquio para suas férias, e ali conversam com amigas e antigas colegas de profissão. Há coisas boas na cidade, ela só não é o melhor ambiente para essas duas pessoas em particular. Ao mesmo tempo, não é como se o campo surgisse como o ideal idílico de um pequeno paraíso. Manoyama certamente possui defeitos, a começar pela sua estagnação tanto econômica como social.

Que fique claro: não é também como se o anime fosse neutro. Ao menos na oposição entre Tóquio e Manoyama, Sakura Quest claramente toma partido do segundo. Mas o faz sem precisar demonizar ao primeiro, e mesmo reconhecendo alguns dos seus atrativos. Nesse sentido, este anime é certamente um produto de seu estúdio, P.A.Works, ele próprio sediado na pequena cidade de Nanto, na prefeitura de Toyama, uma cidadezinha de pouco mais de 50 mil habitantes. Mas mesmo que tomando o partido de Manoyama, a obra também reconhece que a cidade precisa mudar. Precisa “acordar”, como o Kadota costuma dizer. A única condição que o anime coloca é que tal mudança precisa também levar em conta o que os habitantes querem. Kadota passou a vida tentando impor a sua própria visão sobre a cidade sem nunca perguntar o que a própria queria para começo de conversa, um erro que a própria Yoshino volta a cometer e uma pequena hipocrisia que a personagem Chitose aponta mais de uma vez. Sakura Quest não é contra a mudança e a modernização, mas é contra uma mudança que eclipse a própria população.

Manoyama precisa se abrir para o novo, mas esse novo também precisa entender as pessoas que ali estão.

Exemplo emblemático disso é o pequeno arco que se passa na vila de Warayiba, uma vila isolada nas montanhas onde habitam alguns idosos. O problema é que a vila está para perder a única linha de ônibus que a liga a Manoyama. A solução vem justamente com a tecnologia: uma vez que os idosos são ensinados a usar da internet, se torna possível a instalação de um sistema de ônibus on demand que possa suprir as necessidades da vila. Já o contra-exemplo vem um pouco antes, quando as ações de Yoshino para revitalizar a cidade inspiram a ação de um ex-morador de Manoyama, que conseguira um emprego em uma emissora de TV em Tóquio. Ele decide ajudar arranjando para um banda famosa tocar no festival de aniversário da cidade, mas apesar de sua boa intenção a coisa acaba sendo bastante decepcionante. No final, ainda que a banda de fato tenha atraído um bom número de pessoas, foi a banda a estrela do festival, e não a cidade de Manoyama. A cidade precisa se abrir para o novo, mas precisa ser um novo que possa, de fato, lhe ser útil, e essa é uma lição que Yoshino e a cidade de Manoyama vão aprendendo conforme a série avança.

Aqui cabe também alguns comentários sobre a ideia de tradição do anime, ela própria bastante curiosa. Lá pela segunda metade do anime, começa um arco maior envolvendo o reavivar de um antigo festival, um que havia sido abandonado cinquenta anos antes. É interessante que esse reavivar é, ao mesmo tempo, antigo e moderno. Quando questionados sobre qual era o motivo da comemoração, ninguém em Manoyama soube dizer, e ainda adicionam que foi provavelmente por isso que o festival pode ser esquecido com tanta facilidade. Nesse sentido, aquele que Yoshino e sua equipe criam é em si mesmo um festival inteiramente novo, mas o respaldo da tradição ainda é buscado: daí a procura pelas três relíquias usadas no festival original. Mesmo a mensagem do festival é ao mesmo tempo antiga e moderna. Por décadas Manoyama possuiu a mitologia de uma dança feita para espantar um dragão, mas em um episódio Ririko descobre que junto daquela dança acompanhava uma música, que falava justamente sobre como a dança era para atrair o dragão visitante, não afastá-lo.

A canção do dragão e o festival: dois exemplos de como o antigo se mescla com o moderno.

É uma situação inusitada, e que pode parecer dissonante vista de fora. Ao mesmo tempo, há algo de inerentemente japonês nisso tudo. O novo, o antigo e o antigo re-significado passam a coexistir aqui, e nisso um retorno a um passado muito mais formal que real (a busca pelas três relíquias – material – é posta como mais importante que a busca pelo antigo significado – ideal – por trás do festival) é, ao mesmo tempo, um passo em direção ao futuro. Se isso parece confuso é porque é confuso mesmo, mas ainda assim tem lá o seu charme. Parte do que torna o anime tão interessante é justamente essa especificidade, conseguindo conversar com uma realidade que é bastante japonesa. Mas como eu disse no começo do texto, se o anime aborda temas que são bem mais próximos da realidade do espectador japonês, ele também aborda temas bem mais “universais” (digamos assim). E é aqui que vale mencionar as suas protagonistas.

Como eu já disse antes, todas as cinco protagonistas experimentam, de alguma forma, dilemas ligados à busca de um lugar ao qual pertencer. Shiori e Ririko enfrentam esse dilema de forma muito mais “geográfica”, digamos assim, ao longo da obra refletindo sobre como se sentem com relação à Manoyama. Shiori principalmente vê como diversas pessoas parecem querer deixar a cidade, e isso a faz pensar se seria estranho que ela mesma nunca tenha tido esse desejo. Já Ririko, após fazer amizade com um grupo de turistas estrangeiros que chegam à Manoyama, começa também a pensar se ela quer mesmo ou não continuar na cidade. E é interessante como ambas chegam em respostas bem diferentes. Shiori decide que sim, ela ama aquela cidade e não quer nunca deixá-la, ao passo que Ririko decide que, embora ela goste de Manoyama, ela não quer passar a juventude sem conhecer o mundo exterior, e nisso decide partir da cidade.

O local ao qual pertencer e o que fazer da vida, dilemas pelos quais a maioria de nós passa ou passou.

Sanae e Maki já enfrentam problemas de ordem muito mais social. A primeira chega à Manoyama quando sofre de uma pequena crise existencial: reconhecendo que qualquer um poderia realizar o seu trabalho, ela se pergunta se ela mesma seria de fato necessária, e para esfriar a cabeça decide deixar Tóquio em favor de uma temporada em Manoyama. Já Maki havia nascido na cidade, mas deixa Manoyama para tentar uma carreira de atriz. Em meio a acertos e tropeços ela começa a repensar se vale mesmo a pena perseguir esse antigo sonho, e retorna à sua cidade natal para repensar os próprios objetivos de vida. Ambos chegam à Manoyama essencialmente fugindo de um meio com o qual não conseguiram lidar, e no fim sentem-se muito mais acolhidas na pequena cidade: Sanae opta por abrir um negócio próprio no distrito comercial de Manoyama, ao passo que Maki decide se tornar instrutora de um grupo de teatro da cidade.

E finalmente temos a Yoshino. Sua jornada é ao mesmo tempo geográfica e social. Ela começa rejeitando o campo em favor de uma cidade idealizada, e vai lentamente perdendo seus preconceitos, conforme se deixa capturar por Manoyama. Ao mesmo tempo, ela começa sem saber muito bem o que fazer com a vida, buscando por algo que só ela possa fazer, para no fim provar corretas as palavras de Kadota, que era justamente o fato dela vir de fora que a permitiria ajudar Manoyama. O fim da Yoshino é um pouco menos claro, mas eu interpreto que ela deverá continuar fazendo exatamente o que fez em Manoyama, viajando para ajudar na revitalização de qualquer cidade que possa precisar de uma opinião “de fora”.

A coroa fica bem na Yoshino… literal e metaforicamente falando.

Dilemas como os dessas personagens são bem mais “universais” na medida em que são questões que adolescentes e jovens adultos enfrentam  ou enfrentaram em praticamente todo o mundo desenvolvido, algo que torna Sakura Quest capaz de ressoar com um número bem grande de pessoas. A questão do identificar-se com um personagem é muitas vezes posta de forma negativa, e quando surge em uma luz mais positiva ela é muitas vezes limitada a uma questão puramente estética, de um personagem que possui o mesmo fenótipo que esta ou aquela pessoa. Mas uma identificação por circunstância, uma empatia que surge por ver no personagem os mesmo dilemas e problemas que você enfrente ou já enfrentou, é algo no qual eu vejo algum valor, parte da capacidade inerente da ficção de conversar com aquele que a consome. E vou dizer, como alguém morando em uma grande cidade e que encontra dificuldade para conseguir um emprego estável, os temas de Sakura Quest certamente ressoaram comigo, e não seria exagero dizer que essa identificação é talvez o que fez esse anime passar de bom para excelente no meu conceito.

No simbolismo japonês, a cerejeira (sakura) encarna muito bem o conceito de mono no aware, o conceito budista da impermanência de tudo. O belo é efêmero, e é belo exatamente em sua efemeridade. Tudo um dia muda, tudo um dia acaba. O tempo que Yoshino passou em Manoyama foi certamente breve, mas nem por isso sem significado. Deixando a cidade mais experiente e confiante, a garota encontrou ali as respostas que nem sabia que buscava. No fim, podemos dizer que Sakura Quest é uma obra essencialmente otimista, mas nem por isso menos sincera. Pelo menos para mim, é um anime que deixará saudades.

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2 – Sakura Quest, episódio 1

3 – Sakura Quest, episódio 25

4 – Sakura Quest, episódio 3

5 – Sakura Quest, episódio 3

6 – Sakura Quest, episódio 25

7 – Sakura Quest, episódio 25

8 – Sakura Quest, episódio 1

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