Sobre realismo, pessimismo e otimismo.

O quão realista uma história precisa ser?

Pergunta rápida: uma história precisa ser realista? Qualquer que seja a sua resposta, eu apostaria que você provavelmente caiu em um de três grupos: aqueles que prontamente disseram “não”, aqueles que provavelmente pensaram algo como “não, mas ela precisa ser verossímil e consistente consigo mesma”, ou aqueles que prontamente disseram “sim”. Mas quantos de vocês pararam para se perguntar o que essa palavra se quer significa?

Como movimento artístico e literário, o Realismo surge na França do século XIX como uma reação ao Romantismo, com a proposta de retratar a vida real de forma… bom, real. Mas isso é se quer possível? Nesse sentido, eu gosto de uma pequena fala de Vladimir Nabokov, nos comentários finais de seu livro Lolita. Ao falar sobre o cenário norte-americano de seu livro, o autor coloca: “a obtenção daqueles ingredientes locais que me permitissem acrescentar alguma ‘realidade’ (uma das poucas palavras que só fazem sentido entre aspas) no caldeirão de minha fantasia pessoal provou ser muito mais difícil, aos cinquenta anos, do que fora na Europa de minha juventude” [1]

Uma das poucas palavras que só fazem sentido entre aspas“. É, eu gosto dessa definição. E ela me parece ainda mais verdadeira atualmente, quando fica cada vez mais claro que o “realismo” do qual as pessoas falam é um tipo bastante específico de “realismo”. Mais especificamente, e sendo bastante direto, o termo deixou de se referir a obras que retratassem a realidade concreta e passou a se referir a qualquer história que seja “dark” , “pesada”, “cruel”, “brutal”, e por ai vai. Aparentemente, o único requisito atual para uma obra ser “realista” é ter personagens sofrendo e morrendo, preferencialmente de alguma forma absurdamente chocante.

Muitas obras são tratadas como mais “realistas” apenas por serem mais “dark”, mas o que “realismo” significa de fato?

Sobre esse assunto, eu frequentemente gosto de lembrar do vídeo Trope Talk: Realism, de um dos meus canais favoritos no YouTube: Overly Sarcastic Productions. Já de início, Red, a apresentadora do vídeo, pergunta: “por que nós achamos que realismo significa dark? A realidade pode ser muitas coisas, mas uniformemente horrível não é uma delas”. E ela está certa! Em seu vídeo Juvenoia, para o canal no YouTube Vsauce, o apresentador Michel traz algumas matérias bem interessantes, como este artigo da Vox intitulado “adolescentes de hoje são a geração mais bem comportada da história“, ou este da Vocativ intitulado “acabou que aqueles abaixo dos 25 estão mais inteligentes e seguros do que nunca“. E enquanto pode-se argumentar que estes dados dizem respeito aos Estados Unidos apenas, um pequeno documentário da BBC traz dados bem mais globais. Publicado em 2010 no canal no YouTube da empresa, o vídeo é intitulado “200 Countries, 200 Years, 4 minutes“, e nele o apresentador Hans Rosling mostra como, ao longo de 200 anos, a expectativa de vida e o salário aumentaram a nível mundial. E por maior que sejam as desigualdades de então, todos os países analisados estavam melhor em 2010 do que estavam há 200 anos. Sobre diversos aspectos, não seria exagero dizer que vivemos a melhor época da história humana.

Ainda assim, eu não duvido que alguns leitores rolariam os olhos ao ler algo do tipo. E é compreensível. A nossa imagem da realidade tende a ser bastante negativa, ao menos para muitos. Creio que isso seja em parte fruto do nosso mundo altamente informatizado. Praticamente desde que a imprensa existe, os jornais perceberam que notícias chocantes e preocupantes vendem melhor. Mas se até algum tempo atrás tudo o que tínhamos era algum jornaleiro gritando em praça pública a última tragédia, atualmente somos bombardeados com informação a todo instante. Televisão, rádio, internet: não é de se espantar que as pessoas sejam tão pessimistas quando toda mídia só sabe falar da última desgraça, qualquer que seja ela. E nisso parece que aviões são propensos a cair, que em cada esquina existe um assaltante ou um estuprador, que o mundo inteiro está imerso em guerras, e que é só uma questão de tempo até o saco de arroz custar todo o seu salário. Não que desgraças não ocorram ou que a mídia não deveria noticiá-las, muito pelo contrário, mas é um fato que a realidade não se resume a isso.

Em uma sociedade na qual a mídia constantemente enfatiza a última tragédia, é normal ter uma visão mais pessimista da realidade.

Agora, o que me levou a querer escrever este artigo foi uma certa reação que eu vi ao final do anime Tsuki ga Kirei [review]. História sobre o romance entre dois adolescentes em seu último ano de ensino fundamental, Akane e Kotaro, o final do anime foi, para não dar muitos spoilers, feliz. Francamente, o tipo de final que você esperaria desse tipo de história. Mas enquanto muitas pessoas ficaram bastante satisfeitas com o fechamento da história, algumas outras comentavam como teria sido muito mais realista se os personagens tivessem acabado o anime separados. Agora, de forma geral Tsuki ga Kirei foi um anime bastante realista em seu retrato de um romance adolescente, então o clamor por “mais” realismo não é aqui o problema em si. O que eu vejo como problemático é o que as pessoas parecem entender por “realismo”: é realista que o romance não dê certo e o casal acabe se separando, enquanto que é irreal que o romance dê certo e o casal acabe ficando junto.

O problema é que as coisas não precisam ser assim! As pessoas parecem confundir realismo com pessimismo, quando você pode perfeitamente ter uma história realista e pessimista ou uma história realista e otimista. Nesse sentido, Tsuki ga Kirei representa essa segunda extremidade do espectro, uma obra que busca trazer a mensagem de que, algumas vezes, o amor de fato consegue superar problemas como o distanciamento no tempo e no espaço. Já para uma visão no mesmo tema, mas do outro lado do espectro, basta recordar do filme de Makoto Shinkai Byousoku 5 Centimeter, uma história justamente sobre como nem todo amor é para ser, sobre como o distanciamento nem sempre pode ser superado, e sobre como é preciso saber quando desistir e seguir em frente. São diferentes visões sobre um mesmo assunto, mas nenhuma delas é realmente mais realista do que a outra. Até porque, tecnicamente não existe nenhuma lei universal que impeça Kotaro e Akane de ficarem juntos. Se casar com a sua primeira namorada provavelmente não é o mais comum, mas não é como se fosse impossível.

Otimismo e realismo não são polos opostos de algum espectro. Tsuki ga Kirei foi um romance bem realista, e ainda assim essencialmente otimista.

E mesmo que seja incomum! No meu artigo “Protagonismo e porque ele faz mais sentido do que parece” eu procurei justamente argumentar que histórias tendem a falar sobre a exceção. Em certo sentido, toda história é contada em retrospecto, seu final já mais ou menos claramente definido no mínimo pelo seu autor. Se de cada mil casais que se formam na adolescência apenas um permanece unido até o fim da vida (estatística fictícia que tiro do mais absoluto nada, então por favor não levem esses números a sério), faz sentido então acompanhar esse um. Especialmente se a mensagem que se quer passar é que o amor pode superar qualquer barreira.

De certa forma, realismo como movimento literário e artístico tenta justamente quebrar com essa lógica da exceção, se atentando mais às vidas das pessoas comuns. Mas isso era apenas a visão de alguns autores em um determinado período de tempo, não uma regra universal baixo a qual deveríamos julgar toda e qualquer história, sobretudo quando as nossa definições atuais de realismo já nem mais batem com aquelas dos artistas e escritores do século XIX. E claro, não me entendam mal, toda história ainda precisa ser verossímil e coerente dentro de sua própria proposta, mas essas são coisas radicalmente diferentes de “realismo”.

Ponto é, uma história não precisa ser altamente pessimista para ser realista, e pensar assim é limitar as próprias noções de realidade. Não sou nenhum ingênuo, o mundo no qual vivemos está muito longo do ideal. Há muitos problemas nele. Sim, existem guerras. Sim, ainda há regiões nas quais a fome e a sede matam. Sim, muitos países são governados por corruptos, e outros tantos por tiranos. Machismo, racismo, homofobia e xenofobia existem, e nós estamos éons de distância do futuro utópico visionado por algum Star Trek. Mas isso não significa que nossa ficção precise mostrar um desmembramento a cada frame!

É verdade que o mundo está repleto de problemas, e que estamos bem longe de uma utopia. Mas nem por isso visões mais pessimistas da humanidade deveriam ser vistas como inerentemente melhores.

Mesmo uma das maiores críticas ao otimismo exacerbado não é nenhuma ode ao pessimismo ou ao niilismo. Lançado em 1759, Candide, ou l’Optimisme é um livro do filósofo francês Voltaire que brutalmente satiriza a filosofia do Otimismo. Agora, esse otimismo é um pouco diferente daquele que conhecemos hoje, e surgiu como uma tentativa de conciliar as imperfeições do mundo com a ideia de um deus onipotente e todo benevolente. Segundo tal filosofia, nós vivemos no melhor dos mundos possíveis, e toda e qualquer desgraça é basicamente um mal necessário para se chegar a um bem maior. De certa forma, é como diz o popular quote de Fernando Sabino: “no fim tudo da certo, e se não deu certo é porque ainda não chegou ao fim”.

Candide abertamente ridiculariza tal noção. O protagonista do livro, Candide, foi instruído em tal filosofia pelo seu professor e mentor, Pangloss, e começa a história crendo exatamente nisso: que vivemos no melhor dos mundos possíveis. Ao longo da trama, porém, o personagem passa por turbulência após turbulência, muitas vezes parecendo que vai se dar muito bem apenas para, na página seguinte, se dar muito mal. Nisso, encontrar o El Dourado e trazer consigo inúmeras riquezas é seguido por essas mesmas riquezas sendo perdidas ao longo da história. Mas não se enganem. Em primeiro lugar, Candide não é um livro depressivo: pelo contrário, como sátira a obra chega a ser hilária. Mas em segundo lugar, é como eu disse, ele não é nenhuma ode ao pessimismo.

Ao final do livro, Candide termina vivendo com sua amada – agora desfigurada – Cunégonde e com seu – ainda bastante otimista – mentor Pangloss (além de uma vasta gama de outros personagens) numa fazenda. Nas últimas frases da história, Pangloss reconta toda a trama apenas para a chegar à conclusão de que, sim, eles vivem no melhor dos mundo possíveis, e que tudo o que passaram era necessário para que terminassem vivendo onde agora estavam. Depois de passar por tudo o que passou, Candide é obviamente cético de tal filosofia, mas ele não chega a ser cínico. E ignorando a fala de Pangloss, ele termina o livro apenas dizendo que “é preciso cultivar o nosso jardim” [2]: e fica aberto ao leitor que interprete isso como preferir.

Voltaire, autor de Candide, ou l’Optimisme.

Eu acho que ainda outro fator que faz histórias mais violentas e pesadas soarem mais realista, além da já comentada questão da mídia, é uma espécie de desencantamento com o mundo que nós temos conforme crescemos, e passamos a perceber que “e viveram felizes para sempre” de fato só acontece nos contos de fadas. A vida real possui toda sorte de tribulações, e nem sempre as coisas saem como gostaríamos. Nesse sentido, ver histórias nas quais essa faceta mais dura da realidade é demonstrada pode se mostrar, a princípio, tanto uma lufada de ar fresco em relação às histórias mais otimistas dos desenhos e narrativas infantis, quanto uma espécie de validação das nossas próprias impressões sobre a realidade. E ao reconhecerem as tribulações do mundo, tais histórias nos soam mais maduras, mesmo mais reflexivas e provocativas. Não a toa boa parte dos mais amados e aclamados animes ao longo da história possuem finais que chamamos de “agridoce”, onde as coisas até podem acabar bem, mas apenas a um alto custo (não raras vezes a vida do protagonista). Neon Genesis EvangelionCowboy BebopCode GeassMahou Shoujo Madoka Magica, só para dar alguns exemplos.

No meu texto “‘Adulto’ não significa ‘maduro’ (e nem ‘bom’)” eu já comentei o quanto uma associação do tipo pode ser enganosa. Violência em demasia, crueldade em demasia, pessimismo em demasia podem também tornar uma história imatura, sobretudo quando esses elementos tomam o centro da narrativa – e nisso a história se torna sobre sangue e tormentos psicológicos, ao invés de usar disso para comentar sobre alguma outra coisa. Que fique claro: de forma nenhuma quero aqui advocar contra conflitos em uma história. Eles são parte integrante de qualquer narrativa, em maior ou menor grau, e certamente não há nada de errado em termos obstáculos com os quais os protagonistas precisam lidar. Semelhantemente, de forma alguma estou dizendo que a ficção não deve lidar com temas mais sérios e pesados, ou mesmo que ela não possa usar de um visual mais gráfico. Nem quero insinuar que histórias não possam ser pessimistas: há certamente valor em tramas que nos relembrem o quão cruel pode ser a realidade, seja como forma de aviso, seja como uma espécie de chamado à ação, a expectativa de que, ao mostrar a dura e cruel realidade, as pessoas se sintam mais compelidas a mudá-la. Tudo o que eu quero dizer com este texto é que se histórias pessimistas possuem o seu valor, histórias mais otimistas também merecem reconhecimento.

Maturidade não precisa ser sinônimo de pessimismo. Gatchaman Crowds é uma obra altamente madura e provocativa, e ainda assim essencialmente otimista.

Gatchaman Crowds [review] é um anime otimista por excelência. Em sua história, um grupo de heróis, os Gatchaman, protegem a Terra de ameaças extra-terrestres: um cenário propositadamente reminiscente dos desenhos infantis. Claro, não poderia ser diferente, dado que esta é uma re-imaginação de uma franquia já bastante antiga que começa com Kagaku Ninjatai Gatchaman, dos anos 70. Mas rapidamente fica claro que o real inimigo que os Gatchaman precisam enfrentar não são os ETs. Berg Katze é o grande vilão da série, e não seria nem um pouco exagerado compará-lo com o Coringa, especialmente a versão que Nolan deu do personagem, em Batman: The Dark Knight Rises. Longe de ser um vilão que busca dominar ou destruir o mundo, Katze tão somente quer ver o circo pegar fogo. Então ele vai de planeta em planeta causando intriga e discórdia entre os habitantes. E na Terra não seria diferente.

O interessante, porém, é que ele falha. Quando a desordem se instaura e algumas pessoas saem de controle, outras pessoas surgem em cena para ajudar a controlar a situação. Apesar de ser uma história de super-heróis, os heróis de Gatchaman fazem bem pouco em termos de simplesmente socar o vilão na cara. Eles inspiram as pessoas, ou dão as ferramentas para que a própria população aja ou pense por si mesma. Em meio a tantas histórias sobre heróis egoístas protegendo um povo ingrato, Gatchaman Crowds coloca os protagonistas face a face com o pior da espécie humana – egoísmo, violência, hipocrisia -, mas ainda assim termina retratando uma humanidade que não apenas vale a pena salvar, mas que também pode salvar a si mesma: basta um empurrãozinho.

Histórias mais otimistas poderiam soar a alguns como puro escapismo, como pura vontade de fugir de uma realidade imersa em toda sorte de problemas. E de fato muitas provavelmente o são. Mas eu não as resumiria a isso. Nem toda história otimista precisa fugir das dificuldades do mundo, ou fingir que a realidade não possui a sua parcela de problemas. Tudo o que ela precisa fazer é mostrar que, apesar de todas as dificuldades, ainda há motivo para seguir em frente. E o fato desse tipo de história fazer algumas pessoas revirarem os olhos, como que dizendo “é, ta, até parece que tudo poderia terminar bem assim” é justamente uma mostra do quanto elas são necessárias. Se histórias pessimistas são um lembrete de que a realidade pode ser dura e cruel, histórias mais otimistas são um lembrete de que, apesar de tudo isso, há ainda motivos para se persistir e ter esperança. Nenhuma das duas visões é mais ou menos realista do que a outra: elas apenas exploram facetas diferentes da realidade, e deveríamos aprender a reconhecê-las como tal.

Notas:

1 – Nabokov, Vladimir. Lolita. São Paulo: Folha de São Paulo, 2003. Pág. 314.

2 -Voltaire. Cândido, ou o Otimista. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012. Pág. 128.

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Imagens:

1 – Flag, episódio 1

2 – Mahou Shoujo Madoka Magica, episódio 4

3 – Mousou Dairinin, episódio 1

4 – Tsuki ga Kirei, episódio 4

5 – Ima Soko ni Iru Boku, episódio 6

6 – Retrato de Voltaire, por Nicolas de Largillière [Wikipedia]

7 – Gatchaman Crowds, episódio 12

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