Review – Tsuki ga Kirei (Anime)

Tsuki ga Kirei

Romance é um gênero que não costuma me despertar a atenção, em boa parte devido aos clichês sempre presentes. Francamente, histórias românticas tendem a ser bastante formulísticas, além de ridiculamente previsíveis. O casal principal se conhece – ou se reencontra, caso já fossem conhecidos -, se apaixonam sem nunca admitir um ao outro, algum tipo de desentendimento faz eles se afastarem, talvez apareça algum triângulo ou mesmo quadrilátero amoroso ai, e a história vai enrolar até o último minuto para encerrar quando os dois trocarem o primeiro beijo. Obviamente nem todas as obras do gênero irão seguir essa fórmula, mas a questão é que simplesmente me falta vontade de separar o joio do trigo. Não vejo porque assistir dezenas de histórias clichês na (talvez vã) esperança de encontrar algo diferente. Sobretudo porque, vale apontar, quando aparece algo diferente as pessoas normalmente comentam: e foi assim que eu conheci a maioria dos romances que efetivamente assisti.

Tsuki ga Kirei foi um caso do tipo. Anime original do estúdio Feel, com direção de Seiji Kishi e roteiro de Yuuko Kakihara, a obra foi bastante comentada justamente por fugir de diversos clichês do gênero. Sua história narra o romance que desabrocha entre Azumi Kotaro e Mizuno Akane, dois adolescentes introvertidos que estão às portas de entrarem no ensino médio. Se conhecendo em seu último ano de ensino fundamental, eles se apaixonam, se relacionam, e lentamente vão se abrindo cada vez mais um para o outro, resultando em um romance maduro, realista e bem trabalhado, além de absolutamente fofinho [rsrs]. Ideal para quem procura algo no gênero que saia um pouco daquelas convenções já tão abusadas, esse é um anime que eu definitivamente recomendo, sendo provavelmente uma das mais positivas surpresas que 2017 nos trouxe. Dito isso, spoilers a partir daqui, então siga por sua conta e risco.

Mizuno Akane

Agora, para falar desse anime nós precisamos primeiro falar de seu título. Nisso, temos de começar com uma curiosa anedota envolvendo ao escritor japonês Natsume Souseki (1867-1916). Assim, segundo se conta, certa vez um dos alunos de Souseki durante o período em que ele dava aulas teria traduzido a frase “I love you” (“eu te amo”) para o japonês de maneira literal. Souseki teria então colocado que tal tradução não estaria de acordo com as sensibilidades do povo japonês. Para o escritor, se duas pessoas estão apaixonadas não há necessidade de uma frase assim tão direta, ao que ele decidiu propor uma outra tradução para a expressão inglesa, algo mais sutil e indireto. E a frase que ele escolheu foi “a lua está bonita”. Em japonês: tsuki ga kirei. E se eu conto toda essa anedota é por um motivo só: a comunicação indireta e sutil entre o casal protagonista é no anime uma de suas características definidoras.

Como eu disse antes, tanto o Kotaro quanto a Akane são introvertidos. Tímidos, quietos, falam pouco mesmo quando em meio a seus amigos mais próximos. Kotaro inclusive tem vergonha de mostrar seus escritos para qualquer pessoa, ao passo que Akane demonstra vergonha em ter a família vendo-a correr. Apesar de praticarem passatempos cuja profissionalização bem poderia trazer bastante atenção a ambos – escritor e atleta -, nenhum dos dois realmente almeja qualquer holofote. Sendo assim, é natural que mesmo a interação entre eles começa de forma bastante hesitante, com ambos tendo dificuldade de se abrir e de se expressar para o outro. Todo o desenvolvimento que estes personagens terão vem no sentido de se abrirem mais, mas até lá a comunicação entre eles se dá, quase sempre, de forma indireta.

Kotaro Azumi

Expressão corporal e facial têm nesse anime um papel importantíssimo, e frequentemente é possível entender o que um personagem sente, pensa ou diz apenas observando a sua postura ou o seu rosto. No meu texto sobre o que faz um personagem “humano” eu comentei justamente como sutileza nas expressões é um fator importante, e eu posso dizer que, nesse sentido, Tsuki ga Kirei apresenta personagens incrivelmente humanos, a um nível que pouco vemos nos animes. Mas vale apontar que a comunicação indireta não se dá apenas pelo corpo ou pelo rosto. LINE aparece nesse anime como um serviço análogo ao nosso WhatsApp, permitindo às pessoas criarem chats grupais no qual você entra usando do seu número de telefone, e que também permite enviar mensagens privadas para o mesmo número.

Tanto Kotaro como a Akane começam sem mal conseguir falar um com o outro, mas isso apenas quando face a face: no LINE, ambos conseguem conversar com muito mais naturalidade. O que, sinceramente, é bem interessante. O fato de que agimos diferentemente quando estamos na internet, atrás de um monitor, é algo já bastante comentado, e quando aparece na ficção é quase sempre de forma negativa. Aqui, porém, temos uma luz muito mais positiva incidida sobre esse fenômeno, que no anime permite que dois introvertidos se comuniquem melhor e se abram um para o outro. E, com o tempo, a naturalidade da conversa no LINE vai se transferindo também para o mundo real. Nunca completamente, é verdade, mas ainda assim ambos terminam o anime muito mais dispostos a se expor do que quando começaram.

LINE: a rede social em muito ajuda aos personagens a se comunicarem melhor um com o outro.

Nisso, abre-se um bom gancho nesse texto para falar do ponto central da obra: o romance. Francamente, na grande maioria dos casos, o romance da ficção nunca me parece lá muito… romântico. Casais na ficção tendem a ter basicamente dois templates: o do casal apaixonado que nunca se declara um para o outro e que o destino parece conspirar para mantê-los separados até os últimos minutos da história, e o do casal já estabelecido (podem estar namorando ou mesmo já estarem realmente casados) que aparentemente se odeia e só fazem se meter em brigas constantes. Francamente, a ficção faz parecer que o amor possui três etapas básicas: sofrimento, primeiro beijo, e mais sofrimento. E enquanto eu não duvido que os mais cínicos talvez digam que “mas é assim mesmo”, é sempre uma lufada de ar fresco quando alguma obra tenta fazer algo um pouco diferente.

Em Tsuki ga Kirei Kotarou convida a Akane para um encontro ainda no terceiro episódio, e antes da metade da história o casal já está bem consolidado. Claro, eles ainda passam por tribulações e pequenas brigas, mas mesmo isso só tende a tornar a relação dos dois mais forte. O relacionamento deles certamente não é perfeito, mas ele nunca deixa de parecer… verdadeiro. Você nunca duvida que esses personagens realmente se amam, e que estão se esforçando para manter o seu primeiro namoro. E, inclusive, esse relacionamento se mostra bastante positivo na vida de ambos. Conforme vão se abrindo um para o outro, um se torna o suporte emocional do outro. Desabafam, se encorajam, se ouvem. E eu vou dizer: em meio a tantas histórias nas quais todo mal entendido poderia ser resolvido se dois personagens parassem cinco minutos para conversa um com o outro, esse último elemento citado me soa como especialmente bem vindo.

Episódio 3 e o Kotaro já convida a Akene para um encontro. É bom ver um romance que não enrola, para variar um pouco.

Nesse ponto do texto talvez seja redundante dizer isso, mas ainda assim eu gostaria de sublinhar o quão bem construídos, trabalhados e desenvolvidos são os personagens de Tsuki ga Kirei. Todos são bastante humanos, com personalidades distintas, objetivos e desejos próprios, e por ai vai. Mesmo secundários recebem algum nível de desenvolvimento, sobretudo através das curtas sketches que aparecem ao final de alguns episódios, e que trabalham de forma cômica com o dia a dia e os problemas pessoais de personagens sem grande importância para a história. O que, vale dizer, só faz o mundo do anime parecer tão mais vivo. Fica claro que existe muito mais aqui do que apenas os dois protagonistas. O mundo não gira em torno deles, e personagens que podem parecer puros figurantes possuem vidas próprias para além do que vemos no episódio normal.

Aliás, mesmo o cenário de Tsuki ga Kirei consegue parecer vivo. Eu vou dizer, se eu tive um problema com o anime foi com o seu uso de computação gráfica para os figurantes de plano de fundo. O uso de CG não costuma me incomodar, e muitas vezes eu nem reparo nele, então isso deve dar uma noção do quão distrativo ele foi nessa obra. Mas, eu tenho de reconhecer que há ai um outro lado, pois graças a esse uso de CG Tsuki ga Kirei consegue criar cenários que estão sempre cheios. Há sempre pessoas andando e caminhando por perto, sejam alunos no campus da escola, sejam transeuntes nas ruas e calçadas. Isso é algo que torna mesmo aquele mundo muito mais verossímil.

Um ótimo final

Agora, há de se comentar também o final do anime, isso porque ele parece ter dividido um pouco as opiniões. Muitos gostaram bastante, como seria de se esperar, mas outros apontaram o final como demasiado inverossímil e irreal, e que faria muito mais sentido os dois se separarem e seguirem com as suas vidas longe um do outro. Honestamente, eu me encaixo no primeiro grupo. Eu gosto de finais felizes, e bem francamente eu não vejo nada de inverossímil nisso. Por algum motivo em tempos mais recentes as pessoas parecem ter decidido que “realista” significa basicamente “o pior resultado possível”, e enquanto, novamente, os mais cínicos talvez digam que “é assim mesmo”, eu ainda vejo bastante valor em algo mais… otimista. Nem sempre a realidade será horrível, e acho que a ficção pode e deve reconhecer isso também. Mas esse já é um assunto que provavelmente mereceria um texto próprio [rs].

Ao final, eu retomo o que disse na introdução: Tsuki ga Kirei foi uma das minhas maiores surpresas de 2017. Como alguém que ativamente evita romances eu me surpreendi com o quanto consegui gostar desse anime. Seus personagens são carismáticos e bem desenvolvidos. O romance consegue ser, ao mesmo tempo, realista, maduro, e excepcionalmente fofinho. O visual é muito bonito (bom, com exceção dos figurantes em CG, claro), e a trilha sonora é simplesmente fantástica. Um anime leve e divertido, mas também tocante e emotivo, é certamente uma obra que eu fico feliz de ter acompanhado até o final, e uma prova de que mesmo nos gêneros mais saturados ainda é possível fazer algo de interessante.

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Imagens (na ordem em que aparecem):

1 – Tsuki ga Kirei, episódio 1

2 – Tsuki ga Kirei, episódio 1

3 – Tsuki ga Kirei, episódio 1

4 – Tsuki ga Kirei, episódio 2

5 – Tsuki ga Kirei, episódio 2

6 – Tsuki ga Kirei, episódio 12

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2 comentários sobre “Review – Tsuki ga Kirei (Anime)

  1. Na nossa sociedade, até parece inverossímil casar com o namorado(a) do ensino fundamental. Mas quando ae trata de romance, esquecemos frequentemente das diferenças culturais.
    Eu amei esse anime, um dos melhores romances que vi em muito tempo. Fiquei feliz com o final, até pq meus ships, por mais sólidos que pareçam, no final andam afundando kkkkk. Que bom que pelo menos esse casal eu tive a alegria de ver se encontrar, crescer e ficar feliz junto.

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  2. Tsuki ga Kirei foi uma grata experiência para mim! Assim que começou a ser lançado, vi ótimas críticas sobre o estilo artístico, os personagens, o clima, o romance mesmo, feito de maneira menos caricata, sendo meigo e real, por assim dizer, etc. Contudo, decidi esperar a obra ser finalizada porque, por mais que eu goste bastante de histórias envolvendo romances e suas diversas características, uma que sempre me deixa “mal” é o cliffhanger. Sempre existe uma situação que pode abalar o romance do casal principal e ter de esperar uma semana pra saber o desenrolar é algo que eu não gosto. Tá, poderia-se aplicar essa lógica para várias outras obras, mas por algum motivo os romances sempre mexem mais comigo. Sempre fico mais emocionado (em vários sentidos) com esse tipo de história.

    Dito tudo isso, ter assistido-a ao meu ritmo foi extremamente prazeroso e concordo com quase toda a sua opinião. Não foram apenas uma ou outra coisa que fizeram esse anime se destacar, e sim o conjunto de vários aspectos muito bem trabalhados, fugindo e muito de “tropes” bobos usados demasiadamente por aí (mesmo que, como uma história de relacionamentos, algumas coisas sejam sempre um padrão, assim como a vida real, oras).

    Acho que só não concordo mesmo com o final, mas não exatamente o final, final mesmo. Não gosto de como sentiram a necessidade de enfiar um dramalhão no último episódio, sendo que a série estava se desenvolvendo extremamente bem com os poucos que tiveram (de maneiras mais verossímeis também). A necessidade de uma provável separação, que leva ao já batido acontecimento de alguém correr desesperado para gritar suas últimas palavras ao amado, antes do mesmo partir, me tirou um pouco do lugar. Gostei de ver por aquelas imagens finais um desenvolvimento posterior que liga-se à mudança, ao uso da internet constante para manter contato, aos problemas do colegial, faculdade, trabalho, etc. Tudo, novamente, bem verossímil. E (esqueci de citar antes), o fato do Azumi ter falhado no teste para ingressar na escola da Akane também ter sido outra decisão verossímil. E por isso acho que esse dramalhão no último episódio não era necessário. Claro que precisaria existir algo catártico para finalizar a obra, mas não acredito que havia a necessidade desse recurso específico.

    Enfim, já me estendi demais. Acho que preciso agradecer-lhe por ter sido um dos que falaram bem da obra em seu início (sempre dou mais créditos às suas opiniões, haha) e espero que mais obras como essa (no sentido de fugir dos padrões bobos de seu gênero) ganhem mais e mais espaço nessa mídia.

    Curtido por 1 pessoa

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