Lista – 5 Adaptações Melhores que o Original

Quase sempre, a obra original é melhor do que qualquer uma de suas adaptações. Isso não é necessariamente um demérito para a adaptação em si: ao passar uma história de uma mídia para outra há tantos fatores a se considerar que pode parecer inevitável que uma adaptação saia pior que o original. E, ainda, muitas adaptações conseguem ser realmente boas por si mesmas, mesmo que ficando abaixo do original se comparados. A palavra chave aqui, porém, é “quase”: se essa máxima vale para a maioria das obras, ainda existem algumas exceções bastante notáveis.

Para essa lista, então, eu selecionei algumas dessas exceções. Agora, para ser bem sincero, o meu escopo de obras do tipo é até que bem pequeno. É raro eu consumir a mesma história em mais de uma mídia, então normalmente eu nem tenho o que comparar para dizer qual versão é a melhor. E nos raros casos em que eu de fato consumo ambas as versões, bom, normalmente fica aquela máxima: o original é melhor. Ainda assim, consegui reunir alguns exemplares aqui, e no final do dia essa lista é menos sobre essas obras em si e mais sobre o que faz suas adaptações tão melhores que o original. E feita essa ressalva, vamos então à lista.

5) Ghost In The Shell (de Mangá para Anime)

Adaptação do mangá de 1989, o filme Ghost In The Shell chegou aos cinemas em 1995.

Essa muito provavelmente será a entrada mais polêmica dessa lista, e por um bom motivo. Eu mesmo relutei um pouco em adicioná-la aqui, não só pela obra original ter qualidades inegáveis como também por ser um pouco complicado falar em “adaptação” aqui. Isso pelo fato de que o filme de 1995 Ghost In The Shell, uma produção do estúdio Production I.G. dirigida por Mamoru Oshii, adapta apenas alguns capítulos bastante pontuais do mangá Kokaku Kidotai Ghost In The Shell, escrito por Masamune Shirow e lançado na revista semanal Young Magazine entre 1989 e 1990.

E detalhe que mesmo a parte que foi adaptada o foi com mudanças importantes. Enquanto a estrutura e as ideias básicas se mantiveram, não seria totalmente errado ver ambas as obras muito mais como entradas independentes em uma mesma franquia ao invés de como uma sendo uma adaptação direta da outra. Em última instância, porém, é exatamente por isso que decidi colocar essa obra aqui: em meio a todas as mudanças que faz, eu diria que o filme consegue melhorar bastante a história contida nos esparsos capítulos do mangá que adapta.

A mudança de tom é talvez a mais importante alteração que o filme faz na história do mangá.

Uma história futurista sobre uma divisão do governo japonês especializada em lidar com o cyber-terrorismo, a Seção 9, a trama começa a girar conforme surge um perigoso Hacker, o Mestre dos Fantoches. A premissa é a mesma em ambas as obras, mas o tom delas é radicalmente diferente. O mangá original é absurdamente mais leve, inclusive com momentos de comédia explícita, enquanto que o filme de 1995 toma uma abordagem bem mais séria à coisa toda. E é por isso que eu o vejo como melhor que o mangá: lendo a este, diversas vezes fiquei com a impressão de que o tom mais leve e as piadas eventuais impediam que certos momentos tivessem o impacto que deveriam, com o tom mais sério do filme sendo muito mais adequado ao tipo de história que se está contando.

Claro, como eu disse o mangá tem qualidades incontestáveis, e mesmo faz algumas coisas melhor do que o filme. O trato com os personagens, por exemplo, que, justamente por conta do tom mais leve do mangá, conseguem aqui ser bem melhor trabalhados e bem mais humanizados. Ainda assim, no final do dia ainda achei o filme uma experiência melhor de forma geral, e mesmo sabendo que haverá quem discorde ainda acho que vale a pena incluí-lo aqui.

4) Shingeki no Kyojin (de Mangá para Anime)

Mangá lançado em 2009, Shingeki no Kyojin recebe sua adaptação para anime em 2013.

Se Ghost In The Shell seria a entrada mais polêmica, imagino que praticamente ninguém irá discordar da inclusão de Shingeki no Kyojin aqui. Começando como um mangá, escrito por Hajime Isayama e lançado na revista mensal Bessatsu Shounen Magazine desde 2009, a obra foi adaptada em anime para a TV em 2013, sendo uma produção conjunta dos estúdios Wit e Production I.G.

Agora, é importante apontar que o anime possui um problema fundamental: ele não adapta toda a obra. Nem poderia, claro, com o mangá ainda em lançamento no momento em que escrevo esta lista. Mas se ela eventualmente irá é algo complicado de prever. A primeira temporada, com 25 episódios, foi um sucesso mundial, mas seria preciso esperar 4 anos para uma segunda temporada, que desta vez viria com apenas 12 episódios. Assim, enquanto podemos ter relativa certeza de que eventualmente veremos algum final no mangá, a coisa é bem mais dúbia quando falamos do anime, e não seria surpresa se ele acabasse por integrar a já longuíssima lista de obras com final em aberto para uma próxima temporada que nunca veio.

Animação, trilha sonora: o anime sabe como usar das especificidades de sua mídia.

Nesse ponto, os leitores mais assíduos, que sabem o quanto eu particularmente valorizo um bom final, talvez estejam se perguntando porquê adicionei Shingeki a essa lista. Bom, simples: enquanto essa questão do final é um problema, o que o anime adapta ele o faz de forma absurdamente melhor do que o mangá. A começar, claro, pela arte: enquanto os traços do Isayama podem tornar a simples distinção dos personagens uns dos outros uma tarefa hercúlea, o anime é visualmente muito mais agradável. Obviamente, porém, não para ai: animação, trilha sonora e direção ajudam a entregar aqui uma experiência bem mais estimulante do que a que o mangá oferece.

Se fosse para eu dizer o que faz uma boa adaptação, a resposta seria que ela será tão melhor na medida em que souber usar dos recursos e ferramentas próprios de sua mídia. Afinal, se for para fazer essa transição, de uma mídia para outra, que o resultado ao menos tenha a sua própria identidade. E isso Shingeki no Kyojin definitivamente consegue, sabendo fazer essa passagem de forma a criar algo único. Perfeito? Há, nem de longe. Mas bom, e definitivamente melhor do que a obra original.

3) Summer Wars (de Anime para Mangá)

Um caso curioso: enquanto o filme só chegaria aos cinemas em agosto de 2009, em julho do mesmo ano já começa a sair o mangá.

Eis aqui uma entrada que muitos talvez nem saibam que exista, embora a obra original seja até que bastante conhecida. Summer Wars é um filme em animação de 2009, produzido pelo estúdio Madhouse e dirigido por Mamoru Hosoda.  Acontece que ainda em 2009, mesmo alguns meses antes do lançamento do filme nos cinemas, uma adaptação em mangá do mesmo começou a ser lançada na revista mensal Young Ace, ficando a cargo de Iqura Sugimoto. Obviamente que nesse ponto o filme provavelmente já estava praticamente pronto, tanto é que o trailer do mesmo saiu em abril daquele ano, bem antes do mangá, daí eu considerá-lo uma adaptação mesmo tendo tecnicamente saído antes da obra original.

Em ambas as entradas, a história é praticamente a mesma. Em um dia de verão, Kenji Koiso é chamado por sua colega de classe, Natsuki Shinohara, para ir com ela ao aniversário de 90 anos de sua bisavó. Prontamente aceitando a oportunidade de, essencialmente, passar algum tempo com a garota por quem tem certa paixonite, durante o passeio um incidente acontece. No mundo da obra existe essa espécie de mescla de rede-social e realidade-virtual conhecida como Oz, que age aqui essencialmente como a própria internet daquele mundo. Antes de sair, Kenji trabalhava realizando a manutenção dos servidores de Oz, como um bico de férias, mas agora parece que sua conta foi roubada e usada para causar o caos em Oz.

“Tempo” foi certamente a maior vantagem do mangá sobre o filme.

Agora, como eu disse na entrada anterior, eu penso que uma boa adaptação é aquela que melhor consegue usar as especificidades de sua própria mídia. Por conta disso, uma transição de uma mídia audiovisual para uma apenas visual pode se provar bastante difícil de terminar em algo melhor do que original. Afinal, estamos falando de subtrair animação, trilha sonora, mesmo colocarão, no caso de uma adaptação para mangá. Mas existe uma vantagem em específico que o mangá tem sobre um filme: o tempo.

O mangá de Summer Wars consegue ter um ritmo muito mais agradável do que o filme. Com 3 volumes a sua disposição, a obra consegue mesmo incluir cenas e momentos que acabam servindo de foreshadowing para o que viria pela frente na história, ou que melhor desenvolvem o relacionamento dos personagens, algo que o filme infelizmente não teve tempo de incluir. Por conta disso, a história do mangá soa muito mais fluida, mais bem contada e bem amarrada. E olha que o filme não é nem de longe ruim, muito pelo contrário! Ainda assim, esse tempo extra e essas adições de cenas fazem do mangá uma experiência muito mais “completa”, daí sua inclusão aqui nesta lista.

2) Byosoku 5 Centimeter (de Anime para Mangá)

Com o filme original saindo em 2007, em 2010 Byousoku 5 Centimeter ganha adaptação em mangá.

Mais conhecido no Brasil pelo título 5 Centímetros por Segundo, a obra original é talvez o filme mais icônico do diretor Makoto Shinkai. Lançado originalmente em 2007, em 2010 o filme recebeu uma adaptação em mangá escrita pelo próprio Shinkai e com arte de Seike Yukiko, sendo lançado na revista mensal Afternoon. Talvez por conta desse fato, de o filme e o mangá serem basicamente do mesmo autor, seria mais adequado considerar o segundo mais como uma expansão do primeiro do que como uma adaptação propriamente dita, mas ainda acho que vale a sua inclusão nessa lista.

Isso é provavelmente uma opinião impopular, mas pessoalmente falando eu realmente não consigo gostar desse filme. É, a meu ver, a pior dentre as obras do diretor, se sustentando muito mais em um melodrama forçado e em cenários detalhados do que realmente em qualquer outra coisa. Sim, eu sei, tem pessoas que realmente conseguiram se deixar levar pelo filme, que se emocionaram e choraram com a história, e que bom para elas. Eu, porém, só consegui passar tédio vendo essa obra, não conseguindo me importar ou me interessar por nada nem ninguém ali.

Mais uma vez, o tempo aqui é o fator fundamental, permitindo um melhor desenvolvimento da história e dos personagens,

Agora, enquanto o mangá não é nem de longe perfeito, e eu tenho a minha própria leva de críticas ao mesmo, ele ainda possui a mesma grande vantagem que eu mencionei na entrada anterior: o tempo. Tempo para melhor desenvolver a história, expandindo-a, sobretudo em seu terço final. Tempo para melhor trabalhar esses personagens e suas relações, para tirar um pouco o foco do melodrama e humanizar um pouco mais essas pessoas, o que torna muito mais fácil se importar com o que acontece na história.

Acho que meu único grande problema com o mangá é o seu final. Enquanto eu de forma alguma gosto de finais tristes, eu acho que o filme traz um ponto importante em sua mensagem, de que nem todo romance é para ser. Nem toda paixonite de infância vai se traduzir em uma vida juntos, e que as vezes é preciso deixar o passado para trás. O mangá eu sinto que “nega” um pouco essa mensagem em seu final, dando a entender uma conclusão um pouco mais esperançosa, embora eu não vá entrar em detalhes para não dar spoilers. Ainda assim, mesmo com esse problema, o fato de que eu ao menos não dormi lendo essa história já me é motivo o bastante para incluí-lo nessa lista [rs].

1) K-ON! (de Mangá para Anime)

Começando como mangá em 2007, em 2009 K-ON! ganhava sua primeira temporada em anime.

Finalizando a lista com um dos casos mais notórios de adaptação. K-ON! começou como um mangá yonkoma de autoria de Kakifly, sendo originalmente serializado na revista Manga Time Kirara entre 2007 e 2012. Em 2009, esse mangá recebeu uma adaptação em 13 episódios para anime, uma produção do estúdio Kyoto Animation com direção de Naoko Yamada e roteiro de Reiko Yoshida, que tão bem recebida foi que em 2010 o anime teve sua segunda temporada, desta vez com 26 episódios.

Novamente, o essencial da história aqui se mantém, e vemos as pequenas aventuras diárias de quatro garotas que decidem basicamente refundar o clube de música leve do colégio onde estudam, apenas para terminarem passando seu tempo mais tomando chá do que realmente ensaiando. O que muda, porém, é a forma como essa história é contada, e isso muito por conta da mídia de cada uma das versões. O mangá é uma série yonkoma, um estilo de comédia em tiras de quatro quadrinhos que seguem uma estrutura rígida de preparação e entrega de uma piada.

Melhor que o original em praticamente todos os aspectos, K-ON é um bom exemplo das vantagens de uma adaptação.

Por conta dessa sua natureza, o mangá é muito mais voltado para a comédia, com elementos como desenvolvimento de personagem sendo deixados de lado. O anime, porém, não tem as mesmas limitações. Em meio às piadas constantes, que ainda se fazem presentes aqui, a adaptação adiciona bastante em termos de expandir a obra, algo que muito ajuda a desenvolver as personagens e as suas relações umas com as outras. O resultado é uma obra que consegue entregar um espectro muito maior de emoções, e se pode fazer o espectador rir com suas piadas, pode também fazê-lo lacrimejar com seus momentos mais dramáticos.

Adaptações são, para todos os efeitos, oportunidades. Oportunidades de adicionar algo, de melhorar algo, mesmo de trazer algo novo a uma obra já conhecida. Todas as entradas nessa lista fazem exatamente isso: mais do que apenas copiar o que já foi feito e transportar isso para outra mídia, elas melhoram aquilo que adaptam, seja mudando um pouco o tom, adicionando cenas, ou pura e simplesmente sabendo como usar de boa animação e trilha sonora. Mas dentre essas obras, K-ON! é provavelmente a que foi mais longe em sua capacidade de melhorar a obra original, criando assim algo genuinamente memorável que mais que merece a sua menção aqui.

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Outros artigos que podem lhe interessar:

Review – Summer Wars (Mangá)

Review – K-ON! (Anime)

Debate – A Filmografia de Makoto Shinkai

Imagens (na ordem em que aparecem):

1 – K-ON!, episódio 1

2 – Ghost in The Shell (1995)

3 – Ghost in The Shell (1995)

4 – Shingeki no Kyojin, episódio 1

5 – Shingeki no Kyojin, episódio 1

6 – Summer Wars, capa dos volumes 1, 2 e 3. Edição brasileira pela editora JBC.

7 – Summer Wars, volume 1

8 – Byousoku 5 Centimeter, capa dos volumes 1 e 2

9 – Byousoku 5 Centimeter, volume 1

10 – K-ON!, episódio 1

11 – K-ON!, episódio 1

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2 comentários sobre “Lista – 5 Adaptações Melhores que o Original

  1. A adaptação de SnK é bem mais amigável, os traços do autor são muito ruins! O anime faz um ótimo trabalho até em tentar replicar as feições dos titãs e as caretas dos personagens.
    Já o mangá de Ghost in the Shell me surpreendeu, não esperava tanto humor e nem aquela arte. O quadrinho não é ruim, mas não passa nem perto da seriedade da animação.

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  2. Shingeki é realmente uma desgraça em questão da obra original. Eu já vi muito quadrinista ou até ilustrador, ficando meio puto por causa de Mob e shingeki. Pq né, apesar da historia ser muito boa, nem se compara ao anime. A anatomia é toda errada, perspectiva n exiate. Bizarro Hehehe Mas eu curto ;)
    5 Centimetros por segundo que vc comentou ai, nossa, que raiva que eu tenho desse filme. É sla, um problema meu com ele, eu n acho nada demais. E eu acho a historia bem idiota. Sla, ele n é como Paprika, Kimi no na wa, ou esses outros filmes que me deixaram mega empolgada

    Curtido por 1 pessoa

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