O que faz uma boa paródia?

“Eu vou por fogo nessa p*rra”

No momento em que escrevo este texto, acabo de assistir ao 11º episódio do abridge de Sword Art Online, uma produção do canal no YouTube Something Witty Entertainment. Para quem não sabe o que é um abridge, a palavra vem da língua inglesa e literalmente se traduz por “encurtar”. Trata-se de um gênero de paródia na qual fãs redublam uma dada série de forma que seus diálogos se tornem mais voltados para a comédia, ao mesmo tempo em que editam a obra de forma a adicionar ou remover cenas. O produto final acaba sendo normalmente mais curto do que o original, daí o porquê do termo: o próprio SAO Abridge comprimiu os 14 episódios do arco de Aincrad de Sword Art Online, cada um com aproximadamente 22 minutos, em 11 episódios com uma média de 15 minutos cada (com alguns maiores e outros menores do que isso, o próprio episódio final tendo mais de 30 minutos). E que série foi essa… Impressionantemente melhor do que o original em praticamente todos os aspectos: personagens, história, desenvolvimento, com ainda por cima diversas piadas de ótimo timing. Tudo isso enquanto conseguindo trazer momentos genuinamente emocionantes, e completamente merecendo tais momentos!

Agora, para que esse texto não se torne essencialmente eu falando bem da minha nova série de internet favorita [rs], ainda que eu certamente vá retornar a esse abridge ao longo do texto, eu acho que esse tipo de obra nos permite refletir um pouco sobre um tipo bastante específico de comédia: a paródia. Afinal, séries do tipo são paródias por excelência e por essência, se definindo inteiramente no refazer de uma série prévia. E, ainda assim, conseguem se tornar imensamente populares quando bem feitas, além de muito bem recebidas. A pegadinha está, porém, nesse “quando bem feitas”: enquanto séries como DragonBall Z Abridged, do canal no YouTube TeamFourStar, ou Yu-Gi-Oh The Abridged Series, do canal Little Kuriboh, conseguem atrair centenas de milhares de pessoas, há também outras tantas séries similares que simplesmente não conseguiram atingir qualquer audiência. Então… O que os faz tão bons? Certamente há ai um aspecto técnico: enquanto a maioria das séries abridge tem uma produção bem mais amadora e rústica (são feitas por fãs como um hobby, afinal), as séries que mais se destacam são realmente bem mais profissionais, em praticamente todos os sentidos. Mas será apenas isso? Afinal: o que faz uma boa paródia?

“Então, você quer que vençamos um MMO?”

Bom, antes de responder a essa pergunta, vamos dar um pequeno passo para trás e perguntar: o que é uma paródia? Citando a entrada na Wikipedia em inglês da mesma, a paródia seria “um trabalho criado para imitar, ridicularizar ou comentar um trabalho original (…) através da sátira ou da ironia” [1]. Mas para o quão breve e simplista foi essa descrição, um ponto precisa ser deixado bem claro: a paródia é muito mais do que a pura e simples referência. Pois enquanto esta é apenas um aceno, por vezes mesmo uma singela homenagem, a uma outra obra, aquela existe, pelo menos no âmbito das narrativas ficcionais, com o específico propósito de comentar sobre o que imita. Por conta disso, a abordagem de ambas é absolutamente distinta, e nesse ponto talvez valha um exemplo que melhor explicite o que quero dizer. Assim, vamos dar uma breve olhada em duas cenas de dois animes diferentes: de um lado, uma referência ao mangá, anime e card game Yu-Gi-Oh! Duel Monsters no episódio oito do anime de No Game No Life; e do outro, uma paródia de Yu-Gi-Oh! no nono episódio do anime Akiba’s Trip.

No caso de No Game No Life, anime sobre uma dupla protagonista que acaba enviada a um mundo onde todo conflito é resolvido com jogos, a referência surge na forma de uma cena breve, na qual um dos protagonistas, Sora, aparece segurando 3 cartas que muito se assemelham, em design, às cartas de Yu-Gi-Oh!, para logo em seguida termos Shiro, sua irmão, “ativando” uma “carta armadilha” com seu “disco de duelos”. É importante ressaltar aqui que nada disso aconteceu “de verdade” dentro do anime. O contexto no qual essa cena ocorre é o de uma conversa entre Sora, Shiro, e alguns outros personagens, conversa essa que se quer era minimamente relacionada a Yu-Gi-Oh!. No caso, isto foi apenas um recurso para tornar a conversa – em fato uma longa exposição por parte de Sora e Shiro – um pouco mais visualmente interessante. É, assim, inconsequente, e pouco acrescenta na cena ou na história. Em fato, como eu disse, ela surge mesmo desgarrada da cena: é um nem-tão-sutil easter egg, um leve aceno de cabeça a uma outra obra sem, porém, comentar sobre ela. Nesse ponto, radicalmente diferente será a cena em Akiba’s Trip.

Referência a Yu-Gi-Oh! em No Game No Life.

Um anime sobre pessoas possuídas cuja única forma de acabar com a possessão é tirar a roupa da pessoa e expô-la ao sol, a própria premissa da série já deixa claro o tipo de absurdo que podemos esperar dela. Em seu nono episódio, temos uma cena que é uma clara paródia de Yu-Gi-Oh!, na qual o protagonista, Tamotsu, “duela” contra um outro personagem. Para além de ser uma cena bem maior, o tom aqui é completamente diferente daquela em No Game No Life. Continuamente vemos sátiras a eventos mundanos no anime e mangá de Yu-Gi-Oh!. Por exemplo, em dado momento Tamotsu fica surpreso com o efeito de uma das cartas do adversário, ao passo que a personagem Matome pergunta então se os efeitos não estão já escritos na carta, assim bastando lê-las para sabe-los. E um pouco antes disso, temos numa cena um cômico contraste entre a imaginação dos personagens, que se veem duelando como os personagens de Yu-Gi-Oh!, e a realidade da cena, de ambos sentados um na frente do outro, em frente a uma mesa, e jogando o jogo normalmente. São momentos que especificamente procuram apontar o ridículo de vários clichês comuns à franquia Yu-Gi-Oh!, nos dando assim uma legitima paródia: um comentário, de fato, em cima daquilo que se imita.

Que fique claro: não é meu intento aqui estabelecer uma hierarquia entre ambos, paródia e referência. Apesar de eu ter dito que a referência a Yu-Gi-Oh! é inconsequente na cena de No Game No Life, esta e várias outras referências a outras obras têm ainda um grau de organicidade. Sora e Shiro eram, afinal, hikkikomoris, que passavam a maior parte de seus dias jogando. Faz sentido, então, que esses personagens conheçam obras como Jojo’s Kimyou na BoukenTenkuu no Shiro Laputa ou Yu-Gi-Oh! Duel Monsters, todas obras referenciadas ao longo do anime. Assim, aqui a referência possui muito mais um sentido de definição e caracterização desses personagens, então não a colocaria como inútil ou desnecessária. Mas que a entendamos pelo que ela de fato é: uma referência, e apenas isso. E enquanto a lógica de caracterização certamente pode ser aplicada a Akiba’s Trip, o protagonista sendo, afinal, um otaku, seu objetivo aqui é claramente o de paródia. Mas eu pergunto então: essa cena de Akiba’s Trip é uma boa paródia?

Paródia de Yu-Gi-Oh! em Akiba’s Trip.

Honestamente: sim. E o motivo disso é um só: Akiba’s Trip entendia muito bem aquilo que estava parodiando. As piadas que o anime faz com Yu-Gi-Oh! estão todas em consonância com a série original: ele não exatamente inventa nada, mas sim aponta o absurdo e o exagero daquilo que imita. E, ao fazê-lo, de certa forma no faz lembrar do quanto nós por vezes deixamos passar baixo nossa costumeira “suspensão de descrença”. Essa, a meu ver, é a diferença entre uma boa paródia e uma paródia ruim: o quanto ela entende da obra que satiriza. Peguem, por exemplo, Shingeki no Kyojin Chuugakkou, paródia do anime de Shingeki no Kyojin na qual os personagens são colocados em um ambiente escolar do ensino médio. Enquanto certamente engraçado em alguns momentos, a obra pouco comenta sobre o anime original de Shingeki. Alguns poderiam apontar que o exagero com o qual os personagens de Chuugakkou reagem às coisas mais mundanas (o ódio pelos titãs do Eren vindo do fato do Colossal lhe roubar a merenda, essencialmente) seria em si um comentário sobre o quão exagerado é o próprio anime original, mas a isso eu diria que o contexto da paródia é tão radicalmente diferente que a piada por vezes nem faz lá muito sentido. Claro, é engraçado ver o Eren tão irritado por causa de uma marmita, mas como isso se traduz em comentário sobre ele ver a mãe ser devorada viva no original?!

Radicalmente diferente é uma abordagem como a do youtuber Gigguk em seu vídeo Attack on Titan IN 9 MINUTES, no qual as piadas estão muito mais ligadas ao show original de fato. Aqui, o exagero da raiva do Eren não é passado com ele reagindo a um evento pouco importante, mas sim falando sem parar sobre o seu ódio por titãs após sua mãe morrer… por dois anos. Mais adiante, uma breve gag de todos os personagens gritando por sobre uma das músicas da trilha sonora brinca com a prevalência desta no anime, e ainda um pouco mais a frente no vídeo temos apontado o quão óbvio era a identidade do titã que salva Mikasa após a “morte” do Eren. Claro, ainda outras piadas são muito mais “meta”, se referindo à forma como o anime foi recebido pelos fãs (a exemplo de piadas como a Sasha se auto-declarando um meme de internet, ou de a apresentação do Levi ser seguida de um coro de garotas histéricas), mas este ainda é em essência um vídeo sobre o anime, que aponta para suas falhas e exageros, e isso enquanto ainda mantendo a estrutura central da história.

“Jesus, Eren, já se passaram dois anos, cale a p*rra da boca!”

SAO Abridged Parody em boa parte funciona baixo a mesma lógica. Muitas de suas piadas são, de fato, próprias, enquanto outras satirizam muito mais do que apenas Sword Art Online. Exemplo disso temos logo no começo, quando Kirito chega em SAO (o jogo) apenas para vê-lo repleto de anúncios: uma pequena cutucada no moderno cenário dos jogos – sobretudo aqueles de celular. Mas em sua essência a obra surge como um comentário sobre o anime. Por exemplo, Kirito, personagem longamente criticado por sua “falta de personalidade”, ganhou aqui contornos bem mais definidos de um adolescente com complexo de inferioridade que vê no jogo de morte que é SAO uma forma de ser uma “versão melhorada” de si mesmo. E no último episódio, Kayaba Akihiko faz um breve comentário do quão idiota seria ter feito tudo o que fez sem nenhum motivo, antes de prosseguir em uma longa explicação de como bugs no jogo e horas de privação de sono culminaram naquele cenário desastroso que foi o jogo SAO. Estes e outros momentos e elementos da história são comentários sobre o anime original, e nisso se tornam ainda mais engraçados para aqueles que de fato o tiverem assistido.

Infelizmente, de certa forma isso também revela os limites desse tipo de obra. Ainda que falemos que SAO Abridged Parody é melhor que Sword Art Online, tal afirmação ainda precisa vir acompanhada de um asterisco: o fato de que, enquanto o anime original pode se sustentar por si mesmo, sua paródia depende de um contexto maior para ser realmente apreciada. Sword Art Online pode ser apreciado sem que se assista SAO Abridged Parody, mas a recíproca não é verdadeira. Além disso, no final do dia ainda é preciso sempre lembrar que é muito mais fácil ridicularizar ou consertar algo já feito do que fazer algo novo do zero. Não querendo com isso desmerecer a paródia como forma de arte, mas acho que é importante ter em mente até onde ela pode ir. Mas claro, essa é uma ressalva que muito dependerá do que se satiriza. A paródia de uma obra de nicho, como um anime, é algo que só encontrará maior ressonância no dito nicho, mas uma paródia de uma obra mais conhecida e amplamente enraizada na cultura popular se mostrará relevante para muito mais pessoas por muito mais tempo. Pondo em outros termos, uma coisa é uma paródia de Sword Art Online, outra bem diferente seria uma paródia de algo como, digamos, Romeu e Julieta.

Ainda assim, paródias são, no final do dia, mais efêmeras que as obras originais. Mas tudo bem, porque eu acho que elas cumprem uma função importantíssima no meio da ficção. Como eu expliquei ao longo do texto, paródias são, afinal, um comentário, uma espécie de crítica bem humorada à obra que imita. Estabelecem, assim, um diálogo, capaz então de levar o consumidor a refletir tanto sobre a obra original como sobre essa espécie de “réplica” que é a paródia. Justamente por isso elas devem entender do que falam, e também justamente por isso elas podem ser tão divertidas de assistir e de analisar.

Notas:

1 – No original, em inglês, “A parody is a work created to imitate, make fun of, or comment on an original work (…) by means of satiric or ironic imitation”.

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Imagens (na ordem em que aparecem):

1 – SAO Abridged Parody, episódio 1

2 – SAO Abridged Parody, episódio 1

3 – No Game No Life, episódio 8

4 – Akiba’s Trip, episódio 9

5 – Attack on Titan IN 9 MINUTES

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