Vamos falar de traps (o termo…)

Kinoshita Hideyoshi

Trap. Palavra da língua inglesa que literalmente se traduz por “armadilha”, no meio otaku ela é normalmente usada para descrever um personagem que, embora de aparência feminina ou andrógena, acaba por se revelar, no decurso da história, como masculino. Isso, claro, sendo apenas uma apropriação do termo, muito usado na internet como reação a fotos de transexuais ou crossdressers, uso esse sintetizado em memes como “it’s a trap“. O espírito aqui sendo óbvio: a pessoa crê estar olhando para uma figura feminina, apenas para depois descobrir que não se trata de uma mulher “de verdade”.

Justamente por conta desse significado, o termo já foi bastante criticado como sendo transfóbico, e isso baseado em sobretudo dois argumentos: primeiro, o de que o termo faz parecer que mulheres trans estariam tentando “enganar” os outros, ao invés de estarem apenas sendo elas mesmas; e segundo, o de que ao criar uma divisão entre as mulheres trans e as mulheres “de verdade”, o termo acaba por lhes negar parte de sua identidade. Mantenham isso em mente pois será relevante depois, mas por agora fica então a pergunta: e quanto ao meio otaku?

Que o termo é no mínimo “politicamente incorreto” se aplicado a pessoas reais é uma espécie de regra não dita já bastante consolidada. Por conta disso, vez ou outra surge no meio otaku o debate de se é ou não certo seguir usando do termo mesmo que para personagens fictícios. Afinal, se ele é assim tão ofensivo, não seria melhor abandoná-lo, talvez trocando por algum outro menos problemático? Até porque, não é como se perdêssemos qualquer coisa ao fazê-lo, não é? Bom… É complicado. Ou, pelo menos, mais complicado do que poderia parecer a princípio.

Shiota Nagisa

Vamos começar de um ponto de vista mais pragmático. Vamos, por um segundo, assumir que todos concordamos que precisamos mesmo abandonar o termo. Pois bem: puro abandono está absolutamente fora de questão. Juízo de valores posto de lado, o termo trap em si é, para todos os efeitos, útil. Aplicado à ficção, ele descreve um certo tipo de personagem, que certamente não deixaria de existir só pelo termo não estar mais ali. Assim, já de antemão fica claro não podemos pura e simplesmente deixar de usar o termo: algo precisaria ser posto em seu lugar. Vem, então, a pergunta óbvia: o que? Assumindo que todos estivéssemos super dispostos a trocar o termo por algum outro, o que exatamente nós colocaríamos em seu lugar? Se a resposta for um puro e simples “não sei”, a conversa morre aqui, e podemos retomá-la quando alguém souber: até lá, o termo fica.

Mas para que o texto não acabe aqui, vamos falar um pouco sobre qual o principal problema de se tentar achar um substituto adequado para o termo trap: a sua natureza de “termo guarda-chuva“. Isso porque em si mesmo, o termo se refere a pelo menos três categorias de personagens: aqueles transexuais de fato, aqueles que apenas praticam o crossdressing (sem que possuam problemas de gênero explícitos), e aqueles que são puramente andrógenos. É essa característica que possibilita colocar baixo uma mesma denominação personagens tão absurdamente variados quanto Kinoshita Hideyoshi, de Baka to Test to Shoukanjuu, Felix Argail, de Re:Zero Kara Hajimeru Isekai Seikatsu, e Urushibara Lukade Steins;Gate: três personagens que, sob qualquer outra visão, teriam bem pouca coisa em comum.

Felix Argail

O impulso inicial provavelmente seria o de perguntar porque seria necessário substituir o termo trap por um único outro, em primeiro lugar. Afinal, com a descrição que dei acima parece que há uma saída bem fácil: ao invés de chamarmos de “trap“, chamemos a esses personagens de “transexuais”, “crossdressers“, ou “andrógenos”, a depender do caso. Até porque, certamente muitos argumentariam que estas três características se quer deveriam estar baixo um mesmo termo para começo de conversa. Mas enquanto eu entenderia um argumento do tipo, uma tentativa dessa natureza já surge imediatamente fadada ao fracasso, por mais de um motivo, inclusive. O primeiro deles sendo bastante simples: trocar um termo por três é puramente contra-intuitivo. É muito mais fácil usar um termo só, e essa facilidade precisa ser reproduzida por qualquer novo termo que venha a substituir o anterior, do contrário as pessoas simplesmente não o irão usar. Pode não ser o ideal, para alguns nem mesmo o correto, mas é como eu disse: estou tentando dar aqui uma visão pragmática dessa problemática toda.

Além disso, outro motivo pelo qual isso não funcionaria é que o termo trap consegue ser estranhamente paradoxal. De início ele parece englobar um espectro bastante amplo de personagens, mas a um segundo olhar ele pode se revelar bem mais restrito do que parecia a princípio. Isso porque o termo parece trazer consigo um certo ar de fetichização (não necessariamente sexual: também isso, mas também no sentido de romantização ou idealização), que faz com que diversos personagens fiquem “de fora”. Por exemplo, personagens como Shuuichi Nitori, de Hourou Musuko [review], dificilmente seriam considerados como traps, na medida em que são, em fato, transexuais. Falta a personagens do tipo o elemento de fetichização que parece caracterizar o termo, de forma que ele puramente “não encaixa”. Assim, se abandonássemos ao termo trap em favor dos três mencionados (transexual, crossdresser e andrógeno), correríamos o risco de, ai sim, colocar em um mesmo balaio personagens fetichizados e personagens mais realistas ou mais bem caracterizados.

Shuuichi Nitori

Obviamente, e só para que isso não fique sem menção, o leitor talvez esteja se perguntando do caso de Luka, então, personagem efetivamente trans, mas que é por vezes mencionada como trap no meio otaku. Acho que isso se deve ao fato da personagem ser uma espécie de desconstrução do arquétipo, “desconstrução” aqui no seu sentido mais descritivo. Steins;Gate é um anime que se comunica bastante com a cultura otaku, não a toa seu cenário é o bairro de Akihabara (o “bairro otaku” de Tokyo). Nesse sentido, ter uma personagem inicialmente apresentada como o seu arquetípico trap apenas para depois revelá-la como de fato transexual, e usar disso para o desenvolvimento da personagem, é uma forma de subverter expectativas e de dar um ar mais realista ao trope (dai eu chamar de “desconstrução”).

Muitos talvez já saibam disso, mas o termo trap não existe no Japão. Antes, os personagens que nós aqui chamamos de “trap“, lá costumam ser chamados de “otokonoko” (男の娘), sendo a palavra na verdade uma espécie de trocadilho com uma outra, que soa igual, mas é escrita diferente. “Otokonoko” (男の子), o termo original, é escrito com os kanjis de “homem” (男) e “criança” (子), podendo ser traduzido por “menino”, “garoto”. Já o trocadilho “otokonoko” é escrito com os kanjis de “homem” (男) e “filha”, ou “garota” (娘), resultando em algo como “garoto-afeminado” (ou mais literalmente, algo como “garoto-garota”). Olhando assim, é curioso como o termo “trap” parece ser uma tradução bastante precisa desse “otokonoko“, inclusive em seu caráter de trocadilho. Mas mais do que isso, eu acho interessante como o termo coloca em cheque o principal argumento contra o uso do termo “trap“.

Arikawa Hime

Como eu disse no começo deste texto, o principal motivo pelo qual o termo “trap” é visto como transfóbico é o fato de que ele nega a identidade da pessoa, ao estabelecer uma distinção entre o que seria uma “mulher de verdade” e uma “trap“. Isso é um argumento perfeitamente válido para o mundo real, mas sua transição para a ficção é tênue na melhor das hipóteses. Pois, como o trocadilho acima mencionado bem explicita, essa ambiguidade “homem-mulher”, “garoto-garota”, é todo o ponto desses personagens. Nesse sentido, chamá-los de “trap” não seria uma negação de qualquer pretensa identidade feminina que o personagem possa ter, mas sim um reconhecimento das intenções do autor, que criou o personagem justamente para que fosse, bom, trap. Lógico: fica aberta a discussão de até que ponto personagens assim são algo positivo ou negativo, mas permanece o fato de que, para todos os efeitos, “trap” parece ser uma descrição bastante precisa deles.

E só a título de adendo, eu acho interessante apontar que parte desse argumento talvez se estenda também ao mundo real. Otokonoko (男の娘) parece ser uma sub-cultura própria no Japão, caracterizada por jovens do sexo masculino que praticam o crossdressing por variados motivos (muitas vezes com o propósito de cosplay). É possível, mesmo provável, que algumas dessas pessoas sejam trans? Sem dúvida. Mas eu não descarto a priori a existência de homens cis que simplesmente gostam de se travestir de vez em quando. É preciso lembrar que o oriente possui uma relação completamente diferente com o crossdressing do que o ocidente, algo que logicamente acaba também refletido na arte que aquelas culturas produzem. Em todo caso, isso talvez levante a possibilidade que, mesmo para o mundo real, o uso do termo “trap” possa ser encarado não como “errado em todos os momentos”, mas mais como “errado, exceto quando explicitado o contrário”.

Kobayashi Yoshio

Em todo caso, existe ainda um último problema que precisa ser levado em conta. Vamos dizer que até aqui todos ainda concordamos que o termo precisa mudar. Tudo bem: mas como evitar que a nova palavra, qualquer que seja ela, tome para si todas as conotações negativas da palavra anterior? Isso é algo extremamente comum em situações do tipo, na qual busca-se um termo mais ameno para substituir a outro mais agressivo, e esse é um erro que se comete por esquecer-se da natureza fluida da língua. Palavras não possuem significado intrínseco: elas adquirem um de acordo com seu uso. Você substituir uma palavra por outra pode mudar a palavra em si, mas não seu uso. Vimos isso já com diversos exemplos, um relativamente recente sendo o termo “especial”, que veio como tentativa de substituição de termos muito mais pejorativos e agressivos, como “retardo mental”. A intenção foi certamente positiva, mas agora basta algum tempo na internet para encontrar alguém chamando a outra pessoa, sarcasticamente e com o claro propósito de ofender, de “especial”.

Talvez justamente por conta disso alguns grupos se focam mais em modificar os significados do que as palavras em si. O movimento negro o fez com o termo “preto”, tomando-o para si como elemento identitário, não sem certo orgulho. E o movimento LGBTQ+ fez e faz o mesmo com termos como “gay”, “viado”, “sapata”, “queer“. Os resultados sendo inclusive bem mais sensíveis: hoje, usar “gay” como ofensa fará todos ao redor questionarem se você tem 12 anos ou menos. Mas claro, não sou ingênuo, o termo “trap” é um caso muito mais complicado. Um homossexual chamado de gay pode bater a mão no peito e dizer “sou mesmo, e daí?”, mas uma trans que seja chamada de trap jamais poderia fazer o mesmo. É como eu disse: o termo é uma negação da identidade da pessoa, o que o torna praticamente impossível de ser reapropriado de maneira positiva (exceto, talvez, por aqueles homens cis que eventualmente pratiquem o crossdressing, mas entrar nessa discussão já seria todo um desvio que realmente não cabe ao aqui e agora). Mas em todo caso, fica a reflexão de que é preciso pensar muito bem em como um novo termo seria recebido, do contrário corremos o risco de, como diz o ditado, trocar seis por meia dúzia.

Totsuka Saika

Ponto é: esta é uma situação complexa. E é por isso que acho tão problemático quando surge uma discussão sobre esse termo, pois ela frequentemente decai para extremos que fazem bem pouco em termos de entender a realidade concreta. De um lado, há aqueles que irão negar qualquer crítica como sendo “mimimi” ou “politicamente correto”, quando o termo de fato tem características transfóbicas evidentes. Isso não significa que você é uma pessoa ruim por usá-lo como uma piada aqui e ali: a maioria das pessoas provavelmente nem para para refletir sobre as implicações do termo, e apenas o usa porque, bom, é um meme. Mas as implicações estão sim ali. Só que o extremo oposto, de completa rejeição do termo, também não é a melhor posição, ao menos em se tratando de personagens fictícios. Existem questões bem mais amplas aqui, que precisam ser levadas em conta por qualquer um que ache de fato necessário mudar esse termo: coisa que raramente ocorre.

Se fosse para resumir o meu posicionamento nesse debate na forma de uma metáfora tosca, o resultado seria algo mais ou menos assim: imagine, por um momento, que há um buraco no meio da rua. Coloca-se, então, um compensado de madeira para tapá-lo. Essa não é a melhor solução e nem a mais adequada, mas ela é uma solução. Remover ao compensado só deixaria exposto o buraco, ao passo que substituí-lo por outro compensado pode ser ainda mais problemático, assumindo o risco de que o novo se quer consiga cobrir a todo o buraco. Claro, se eventualmente aparecer alguém com um pavimentador de estrada, disposto a tapar aquele buraco sem deixar ai pontas soltas, ai então poderemos atirar ao compensado na mais próxima lata do lixo. Mas até lá: ele fica.

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O que torna um personagem “humano”?

Hourou Musuko – Identidade de Gênero e Transexualidade

Imagens (na ordem em que aparecem):

1 – Baka to Test to Shoukanjuu, episódio 3

2 – Ansatsu Kyoushitsu, episódio 20

3 – Re:Zero Kara Hajimeru Isekai Seikatsu, episódio 12

4 – Hourou Musuko, episódio 1

5 – Arikawa Hime, episódio 1

6 – Rampo Kitan: Game of Laplace, episódio 3

7 – Yahari Ore no Seishun Love Come wa Machigatteiru, episódio 3

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5 comentários sobre “Vamos falar de traps (o termo…)

  1. Cena meio Bob Esponja: Um ano depois

    Enfim XD
    É um bom texto, concordo plenamente com isso e sou uma menina T, logo eu vejo esse lado da moeda, mas sou diferente de muitas que vê os dois lado da moeda (?) e esse termo para personagens na ficção não é transfóbico, é algo que pode sim generalizar os 3 tipos de pessoas afirmados no texto e até pode ser uma certa facilidade de entendimento que dizer que o Hime de Himegoto é um trap e a pessoa vai entender que ele se parece com uma menina, mas é um menino “fisicamente”. Mas tem esse fator de que não é só porquê um personagem faz cross-dress que ele é um trans, o próprio Hime e o Hideyoshi são exemplos, inclusive o próprio Baka to Test brinca com o fato de Hideyoshi ser andrógeno para fazer algumas cenas engraçadas.
    Alias, senti que faltou o personagem do Kanojo no Flag, esqueci o nome dele :x
    PS: Eu queria tanto ver Rampo Kitan por causa do Yoshio, mas não suporto terror/psicológico/suspense e sei que Ansatsu Kyoushitsu é livre disso por ser um shounen de lutinha.

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