Review – Michiko to Hatchin (Anime)

Michiko to Hatchin
Michiko to Hatchin.

Quando se fala sobre representações do Brasil nos animes, é quase inevitável que cedo ou tarde surja o nome de Michiko to Hatchin. Uma história original em 22 episódios do estúdio Manglobe, de 2008, a obra tem roteiro de Takashi Ujita e direção de Sayo Yamamoto, se passando em um país fictício canonicamente localizado na América do Sul. A inspiração no Brasil dos anos 1960 e 1970, porém, é mais do que evidente. Da língua escrita à geografia, população e música, a representação do nosso país que esse anime dá seria de fazer inveja a muitas novelas nacionais, e eu digo isso sem um pingo de exagero. Isso dito, a obra também se reserva ao direito de tomar certas liberdades, e se o cenário é majoritariamente inspirado no Brasil ainda existem partes claramente baseadas em outros países da América latina.

Mas vamos à sinopse logo: na história, Michiko Malandro acaba de fugir da prisão de Diamandra, após onze anos presa. Ela parte em busca da menina Hana Morenos, de nove anos, e após resgatá-la de seu lar adotivo abusivo, diz para ambas partirem em busca do pai de Hana, Hiroshi Morenos, antigo namorado de Michiko, ex-integrante da organização criminosa Monstro Preto, e que havia sido dado como morto desde que Michiko estava presa. As duas então partem em uma viagem através do país, enquanto são perseguidas pela detetive Atsuko Jackson, que está decidida a colocar Michiko de volta atrás das grades. É um anime bem divertido, e quem não viu ainda eu recomendo que ao menos dê uma olhada. Até porque, a partir daqui, o texto terá spoilers, então siga por sua conta e risco.

Michiko Malandro
Michiko Malandro.

Bom, acho que podemos começar aqui falando justamente daquele que é o maior diferencial do anime: o seu cenário. Como eu disse, ele é fortemente inspirado no Brasil dos anos 60 e 70, mas o quão inspirado pode chegar a ser surpreendente, e mostra que a equipe por trás da obra soube fazer uma pesquisa profunda por trás. Por exemplo, temos a variedade de locais que Michiko e Hana visitam. Ao longo da obra, passamos por regiões que vão do mangue ao sertão, e vemos desde favelas e pequenas cidades até enormes centros urbanos, como a cidade de São Paraíso, que bem pode ter sido inspirada na cidade de São Paulo. É uma variedade de cenários que cumpre muito bem a sua função de mostrar aquilo que aquele país parece ser: um território de dimensões continentais.

A variedade populacional também é impressionante, especialmente quando observamos os tons de pele. Quase sempre brasileiros são retratados nos animes como pardos, mas o espectro de cores de Michiko to Hatchin vai muito além disso. Negros, pardos, mas também brancos e até eventuais orientais: é um país etnicamente diverso a um nível que mesmo o nosso cinema raramente mostra. Mas não só desses detalhes mais aparentes o cenário do anime se constrói: a língua escrita é sempre o português, as musicas que tocam são todos ritmos variados do Brasil dos anos 70, até o uso do fusca como carro de polícia é preciso dentro da época em que se passa o anime (embora a pintura, com seu esquema de cores preto e laranja, lembre muito mais a do Ford Corcel 1976, usado pela polícia militar do estado de São Paulo a partir da década de 70).

É um cenário claramente inspirado no Brasil dos anos 60 e 70.
É um cenário claramente inspirado no Brasil dos anos 60 e 70.

Claro, como eu disse no primeiro parágrafo, o anime ainda se reserva o direito de tomar certas liberdades. Oficialmente o canário ainda é um país fictício, e os produtores souberam se aproveitar disso para inserir elementos que certamente pareceriam no mínimo estranhos caso esse país fosse o Brasil. Exemplos máximos disso sendo o episódio da tourada e, um pouco mais pra frente, o episódio no qual Atsuko é mandada para fazer a guarda de algumas ruínas aparentemente maias ou astecas. Já nas sutilezas que vão nesse sentido temos até a moeda do anime: a Arca, cujo nome parece uma sutil referência ao Cruzeiro (arca, cruzeiro… por favor digam que não fui só eu quem viu essa semelhança), mas cuja aparência é muito mais próxima do Real moderno.

Ainda assim, mesmo com todas essas liberdade essa ainda é provavelmente uma das mais precisas representações do Brasil já feitas em uma obra estrangeira, e a pesquisa que deve ter sido feita durante a produção desse anime é por si só algo que merece reconhecimento. Mas dito isso então, precisamos nos perguntar: passada a questão da precisão, tem esse anime algo mais a entregar do que apenas cenário? Bom: absolutamente sim! Embora ele também não seja desprovido de problemas. Mas vamos por partes.

Hana Morenos.
Hana Morenos.

Em primeiro lugar, é preciso ter em mente que Michiko to Hatchin é um anime de viagem. Um road trip, se preferir, no qual a busca por Hiroshi é apenas uma desculpa para colocar as personagens em movimento. Como tal, onde a obra realmente irá brilhar é no trato de seus personagens, desde as nossas protagonistas, Michiko e Hana, passando pelos personagens secundários, como Atsuko e Satoshi, até aqueles personagens que encontramos por apenas um episódio, em meio às viagens das garotas principais. E eu digo que aqui o anime brilha simplesmente pelo quão humanos conseguem ser os personagens, com exceção de um ou dois (vide a família adotiva da Hana, apenas o seu arquétipo exagerado de família adotiva sádica do mal, no melhor estilo madrastas dos contos de fadas).

É interessante. O mundo mostrado no anime é um mundo cruel, onde a pobreza é bastante visível, crianças ganham a vida roubando, tráfico de pessoas é uma realidade e o crime organizado controla vastos territórios. Mas apesar desse mundo terrível – e muito, muito mais real do que alguns gostariam de admitir – os personagens ainda são bastante multidimensionais, e a vasta maioria deles possui pelo menos algumas qualidades que os redimam. Mesmo Satoshi, o líder da Monstro Preto e uma figura que por um bom tempo parecia que seria o “chefão final” do anime, ganha um arco próprio que se não o redime completamente ao menos mostra um personagem muito mais complexo do que apenas um chefão do crime.

São personagens bastante humanos. Mesmo Satoshi, inicialmente pintado como uma espécie de "last boss", ganha seus momentos para mostrar outros lados de sua personalidade.
São personagens bastante humanos. Mesmo Satoshi, inicialmente pintado como uma espécie de “last boss”, ganha seus momentos para mostrar outros lados de sua personalidade.

Quando se fala em “realismo” e na “crueldade do mundo” existe certa tendência de se esquecer que, no final do dia, ainda somos todos humanos, dando o melhor que podemos para continuar vivendo baixo as circunstâncias em que caímos. E se algumas escolhas de vida podem ser reprováveis, precisamos ainda assim deixar para trás a ideia de que existe um “mal puro”. Mesmo o pior dos mundos ainda tem lugar para gentileza e compaixão, e mesmo as piores pessoas ainda são capazes de sentimentos como amizade e camaradagem, e isso é algo que Michiko to Hatchin conseguiu capturar muito bem.

E claro, eu não poderia falar dos personagens sem comentar das duas protagonistas. Ambas, aliás, ótimas personagens… individualmente. Michiko é o tipo de personagem que você simpatiza já de cara, de personalidade forte, decidida e, acima de tudo, proativa, sendo a principal responsável por mover a trama, inclusive arrastando outros consigo quando necessário. Já Hana é o esperado oposto, sendo mais introvertida, responsável e correta que Michiko, mas também demonstrando uma forte personalidade quando necessário, sendo também bastante proativa e no final se revelando mais parecida com a Michiko do que ela talvez gostaria de admitir [rs]

Michiko e Hana.
Michiko e Hana.

Mas é como eu disse, Michiko to Hatchin não é de forma alguma desprovido de problemas. E para o quão interessante é seu mundo, seus temas, seus personagens, e o quão boas é sua animação e trilha sonora, o anime ainda tem um problema crucial: seu ritmo. Porque, seja o foco do anime ou não, ele ainda tem uma história. Um objetivo a ser atingido: encontrar o Hiroshi. Fora todas as várias subtramas da relação da Michiko com a Atsuko, da história do Satoshi e a organização Monstro Preto, do passado da Michiko… O foco do anime pode ser a relação entre Michiko e Hana, mas conforme nos aproximamos do final seria de se esperar um maior foco na trama principal e nas subtramas da série, mas isso pode ser frustrantemente demorado em alguns momentos.

Acho que o melhor exemplo do que eu quero dizer é o episódio 15. No episódio 13 tivemos a Atsuko decidindo retomar a busca à Michiko, com a cena em que ela fala com o Ricardo sendo talvez uma das mais legais do anime. Já o episódio 14 termina com Satoshi atropelando Shinsuke, sendo o ponto de início do que se tornará um conflito interno na Monstro Preto. Dai vem o episódio 15 sobre um garoto que trabalha em uma livraria e se apaixona pela Hana. Não entendam mal, o episódio 15 é legalzinho e seu final é até tocante, mas ele ainda parece muito mal posicionado, e não é  único do tipo!

Eu provavelmente teria gostado bem mais desse episódio se ele tivesse vindo um pouco antes na história.
Eu provavelmente teria gostado bem mais desse episódio se ele tivesse vindo um pouco antes na história.

Mas o maior problema da obra fica por conta das interações entre as protagonistas. Como eu disse, ambas são ótimas sozinhas, mas a dinâmica delas quando juntos é… problemática. Como seria de se esperar, dado o tipo da obra e as personalidades das personagens, a princípio a relação é bastante acidentada, num contante pendular de amor e ódio. O esperado seria que com o passar do tempo o laço entre as duas fosse se fortalecendo e as brigas fossem diminuindo, mas a realidade é bem diferente. O ciclo de brigas, separação, re-encontro e mais brigas segue incessantemente, e se no começo ele era crível, dada a natureza da forma como as duas se juntam, tê-lo ainda no final do anime faz protagonistas parecerem duas cabeças-duras que não sabem aprender com os erros. O que pode muito bem ter sido a intenção, não duvido, mas não muda o fato de que fica bastante cansativo.

O final e a revelação sobre a real personalidade do Hiroshi é algo que eu gosto e não gosto ao mesmo tempo. Por um lado, que ele era um irresponsável babaca e enganador já estava sendo construído há um bom tempo no anime, mas ainda é estranho ver a disparidade entre como a Michiko o descreve e como ele realmente é. Faz pensar se ele não teria mudado nesses onze anos, ou se ele realmente enganou a Michiko no passado, algo que poderia ter sido deixado um pouco mais claro. Ao mesmo tempo, é interessante ver a subversão da busca pelo “príncipe encantado”, mas também soa um tanto quanto insatisfatório após todo o trabalho para encontrá-lo. Mas essa insatisfação certamente era todo o ponto dessa trama… Diria que é um bom final do ponto de vista narrativo, mas ainda um pouquinho decepcionante, mas eu reconheço que isso é muito mais do meu gosto. Ao menos o final de fato do anime é bem tocante, e um fechamento mais que apropriado para a história de Michiko e Hana.

Michiko to Hatchin não é perfeito, mas ainda é extremamente divertido, e uma recomendação fácil para… bom, praticamente qualquer um. É uma produção bastante única no meio dos animes, e isso em praticamente todos os aspectos: animação, trilha sonora, ambientação… E mesmo que o roteiro seja a parte menos original da obra, ainda é uma boa história, que mantém o espectador curioso pelo que está por vir. Some a isso personagens bastante carismáticas e temos uma obra que, mesmo com todos os seus defeitos, ainda é bem gostosa de assistir.

Outros artigos que podem lhe interessar:

Review – Kino no Tabi (Anime)

Alguns pensamentos sobre animes de viagem.

Ontem e Hoje: A História dos Animes em Solo Brasileiro (parte 1) e (parte 2)

Imagens (na ordem em que aparecem):

1) Michiko to Hatchin, episódio 1

2) Michiko to Hatchin, episódio 1

3) Michiko to Hatchin, episódio 2

4) Michiko to Hatchin, episódio 2

5) Michiko to Hatchin, episódio 20

6) Michiko to Hatchin, episódio 2

7) Michiko to Hatchin, episódio 15

Anúncios

Um comentário sobre “Review – Michiko to Hatchin (Anime)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s