Quando a música de abertura toca como insert song.

Bungou Stray Dogs: batalha ao som de "Reason Living".
Bungou Stray Dogs: batalha ao som de “Reason Living”.

Eu preciso dizer: os quatro primeiros episódios da segunda temporada de Bungou Stray Dogs foram incríveis! Para uma série que teve uma primeira temporada divertida, mas em última instância esquecível, esses primeiros quatro episódios da segunda fora uma surpresa extremamente bem vinda. E, em última instância, foi o que me motivo a escrever esse artigo. Isso por conta de uma cena no quarto episódio – a qual não detalho para evitar spoilers -, onde temos o já tradicional momento no qual a música de abertura toca durante uma batalha. Possivelmente meu clichê favorito entre os animes – e um que eu certamente não me importaria de ver mais vezes -, foi após essa cena que eu comecei a me perguntar: por quê?

Cenas desse tipo tem uma espécie de “charme” especial próprio. Algo que, pelo menos na minha opinião, você não consegue atingir com uma trilha sonora mais convencional, e que é capaz de render algumas das mais memoráveis cenas dos animes. Critiquem Dragon Ball GT o quanto quiserem: é impossível não se emocionar ao menos um pouco com a cena final, do Goku caminhando enquanto passam flashbacks de diversos momentos da franquia até então, tudo isso ao som de Dan Dan Kokoro Hikareteku (ou Coração de Criança, na dublagem brasileira). Obviamente não é  a música o que torna essa cena tão memorável, mas ela certamente ajudou. E eu aposto que o leitor pode pensar em diversas outras cenas do tipo. Então… Por quê? O que há de especial nesse recurso?

Dragon Ball GT: final ao som de "Dan Dan Kokoro Hikareteku"
Dragon Ball GT: final ao som de “Dan Dan Kokoro Hikareteku”

Bom, antes de responder isso, eu acho interessante comentar como os animes são capazes de usar tal recurso em primeiro lugar. Porque, e não sei quantos já pararam para pensar a respeito, isso é algo bem único da mídia. Raríssimos são os exemplos de seriados ou mesmo desenhos animados ocidentais que usem desse recurso, em parte porque a maioria não é se quer capaz de o fazer. Isso porque enquanto a ideia de uma “abertura” para o episódio da vez é algo que perpassa praticamente toda mídia seriada áudio-visual, das novelas aos seriados britânicos e desenhos americanos, devo dizer que ela ganhou contornos bastante distintos no meio dos animes: uma importância que ela simplesmente não possui em outras mídias.

Parte disso já é visível na simples duração delas. Na maioria das produções ocidentais, a abertura tende a ficar abaixo da marca de um minuto. Muitas inclusive mal atingem aos 30 segundos, ao passo que as aberturas dos animes normalmente possuem em torno de uma minuto e meio. Mas o conteúdo também é interessante de apontar, músicalmente falando. No ocidente, grande parte das aberturas são puramente instrumentais, sobretudo em seriados. Desenhos animados até tendem a possuir uma letra, mas essa é normalmente uma espécie de sumário da premissa da história, servindo tão somente para situar ao expectador recém-chegado.

No passado, as musicas de abertura eram bem mais semelhantes ao formato ocidental, vide a abertura do primeiro "Astro Boy", de 1963.
No passado, as musicas de abertura eram bem mais semelhantes ao formato ocidental, vide a abertura do primeiro “Tetsuwan Atom” (“Astro Boy”), de 1963.

Drasticamente diferentes são as aberturas dos animes. Aqui, a vasta maioria possui algum tipo de letra, e enquanto obras mais antigas – sobretudo obras das décadas de 1960, 70 e 80 – também usavam delas para dar a premissa da história, atualmente o usual é que a letra seja um pouco mais… “vaga”, na falta de palavra melhor, apenas levemente referenciando os temas, ideias e premissas da obra na qual se insere. Mesmo, aliás, quando essa relação é óbvia. A música The Hero, da banda JAM Project, que serve de abertura para o anime de 2016 One Punch Man, é sobre a própria ideia de ser um herói: não sobre um homem chamado Saitama que vence a todos os inimigos com apenas um soco.

Em nenhum outro momento essa diferença de tratamento das abertura fica mais clara do que quando um anime ganha uma abertura nova no ocidente. Basta pensarmos na diferença abissal que existe entre Butterfly, música de abertura original da série Digimon Adventure [review], catada por Kouji Wada, e Digimons Digitais, abertura brasileira do mesmo anime – inspirada na abertura americana – e cantada pela Angélica. Chega a ser surpreendente o quão pouco a música original parece ter a ver com o anime, ao passo que a versão brasileira incessantemente repete o nome do mesmo, isso só para citar uma das diferenças entre as duas músicas.

Comparar as aberturas originais de alguns animes com suas versões dubladas pode dar bons exemplos de como o ocidente e o Japão trataram a ideia de uma "musica de abertura" de formas bem diferentes.
Comparar as aberturas originais de alguns animes com suas versões dubladas pode dar bons exemplos de como o ocidente e o Japão trataram a ideia de uma “música de abertura” de formas bem diferentes.

Isso ocorre porque, no Japão, a música de abertura ganhou um status de “produto próprio”. Não é a toa que muitas músicas são cantadas por artistas famosos por lá, e que se tiradas do contexto do anime ainda funcionam muito bem de forma isolada. Butterfly, para manter o exemplo, encaixaria perfeitamente bem em qualquer coletânea de musicas do Kouji Wada, sejam elas de Digimon ou não. Mas qualquer música de abertura ocidental soaria no mínimo estranha se vinda num CD junto de outras músicas do mesmo artista, mas sem relação direta com a obra da qual saiu aquela abertura. Elas não funcionam sozinhas, e por isso não podem ser comercializadas sozinhas: são dependentes do contexto de suas obras. As aberturas japonesas, porém, não o são.

É por esse motivo que elas podem ser usadas também como insert songs. Por funcionarem sozinhas, a transição da abertura para uma cena dentro do anime é bem mais “fluida”, ao passo que por ainda manterem uma espécie de rima temática para com os temas e ideias do anime em questão elas ainda funcionam no contexto da cena em que são colocadas. Mas se isso explica porque elas podem ser usadas assim em primeiro lugar, ainda fica em aberto o porque de parecerem ter um impacto tão único. Pois bem, a resposta para isso é uma só: repetição.

Digimon Adventure: crianças escolhidas voltam à Terra ao som de "Butterfly".
Digimon Adventure: crianças escolhidas voltam à Terra ao som de “Butterfly”.

Antes de explicar melhor o que eu quero dizer com isso, eu preciso apontar duas coisas: primeiro, enquanto ao longo desse texto eu tenho falado mais da música de abertura, tudo o que eu disse acima também poderia ser aplicado às músicas de encerramento; e segundo, também estas podem ser usadas para causar impacto ao tocarem como insert songs. Em fato, praticamente qualquer músicas pode ter esse mesmo efeito. Por exemplo, as tradicionais “músicas de batalha”, como Brave Heart em Digimon Adventure ou Gatchaman~In The Name of Love, em Gatchaman Crowds [review]. E, em fato, a música em questão não precisa se quer ter uma letra: como não lembrar o final do terceiro OVA de Baccano [review], ao som da música tema do anime, BACCANO!? A franquia Yu-Gi-Oh!, aliás, é especialmente assertiva nisso, dando uma música tema, normalmente instrumental, para o protagonista, e então a tocando durante uma cena importante.

Seja como for, o único critério é a repetição. A música precisa ser tocada com alguma frequência ao longo do anime, assim se tornando essencialmente parte dele: não como mera trilha sonora, mas como parte da própria identidade da obra. Coloque para tocar qualquer música de abertura, encerramento ou tema de qualquer anime, e você provavelmente irá imediatamente se lembrar do anime em questão. É uma repetição que cria associação: você liga a música ao anime e vice versa. E nisso você também liga a música às emoções que sente ao longo do anime, o que pode ser manipulado por um diretor habilidoso para gerar as reações desejadas.

Baccano: final do 3º OVA ao som de "BACCANO!"
Baccano: final do 3º OVA ao som de “BACCANO!”

Vejam, o uso desse tipo de música (aberturas, encerramentos, temas, etc.) no anime pode ter efeitos bem distintos, a depender da cena na qual a música toca. Por exemplo, muitos animes que fazem bastante uso de lutas e combates já possuem uma abertura mais “agitada”, musicalmente, feita para deixar o espectador animado pelo episódio que virá, e ao tocar essa música durante uma luta o espectador sente essa mesma animação. Temas de batalha funcionam mais ou menos da mesma forma: normalmente eles só tocam quando a situação vira em favor dos personagens principais, então quando ela toca o espectador já espera que a vitória virá: e fica animado com isso.

Curiosamente, isso pode ser usado até para subverter expectativas. Em Cardfight!! Vanguard [review], ao final de seu primeiro arco temos o confronto entre Aichi e Ren, no qual Aichi vence ao som da segunda música de abertura Belive in my Existence. Próximo do final do segundo arco, a mesma música é usada na luta entre Aichi e Leon, mas aqui Leon consegue bloquear o ataque de Aichi, e logo depois contra-atacar. E se precisam de um exemplo talvez mais recente, Re:Zero fez essencialmente o mesmo ao final de seu segundo arco, quando Subaru parte para enfrentar uma das bestas da Bruxa, apenas para logo descobrir que não é capaz de vencê-la sozinho.

Cardfight!! Vanguard: Aichi vs Ren ao som de "Belive in my Existence".
Cardfight!! Vanguard: Aichi vs Ren ao som de “Belive in my Existence”.

A música de encerramento, por sua vez, pode ser usada para evocar ainda outras emoções. Por exemplo: idealmente falando, a maioria das pessoas assistiria ao anime na televisão – onde você não tem o player com o tempo de duração do episódio -, e não estaria ativamente contando os minutos para um episódio acabar. Deixar o encerramento tocar durante a cena final do episódio serve de prenúncio justamente do final do mesmo, o que em torno já deixa o espectador animado pelo próximo antes mesmo daquele acabar. Fullmetal Alchemist: Brotherhood soube fazer isso com alguma frequência, e mesmo hoje talvez uma das cenas mais memoráveis do anime, ao menos para mim, tenha sido aquela na qual vemos os diversos personagens se preparando para o golpe de estado, conforme o episódio se encerra ao som de Shunkan Sentimental.

Para mim, porém, o melhor exemplo do que se pode atingir com esse recurso vem de quando a música – abertura, encerramento, tema, etc. – toca ao final do anime, durante a sua última cena, como o já citado exemplo de Dragon Ball GT. Isso porque nesse momento a música não é usada para evocar uma só emoção, mas antes para fazer o espectador se lembrar de todo o anime desde o seu início: quando aquela música primeiro tocou. Não a toa muitas vezes essa música é colocada sobre flashbacks da série, como no caso de GT, ou mostra os vários personagens que apareceram e como eles estão agora: o contraste entre o presente, evocado pela composição das cenas, e o passado, evocado pela música, traz consigo uma sensação de um ciclo que agora se fecha.

K-On! (1ª temporada): última apresentação das garotas ao som de Fuwa Fuwa Time.
K-On! (1ª temporada): última apresentação das garotas ao som de Fuwa Fuwa Time.

É o caso das crianças escolhidas deixando o Mundo Digital ao som de Butterfly, em Digimon Adventure. Ou de Nitori subindo ao palco ao som de Itudatte, em Hourou Musuko [review]. E para um exemplo no qual não foi a música de abertura a música usada, podemos lembrar de K-ON! [review], cujo penúltimo episódio se encerra com as garotas tocando Fuwa Fuwa Time. É impossível não sentir uma certa pontada de nostalgia quando passam essas cenas, mesmo que você tenha começado o anime há poucos dias. Isso porque essa é, afinal, a ideia. Fazer o espectador olhar para o final e pensar sobra a jornada que foi chegar até ali: e como ela valeu à pena.

Dentre todos os aspectos técnicos de um anime, como animação, direção, coloração, e por ai vai, a trilha sonora é talvez aquele que mais me chama a atenção, ao menos quando esta se destaca. É simplesmente impressionante como o bom uso da música pode drasticamente impactar a cena, e eu acho que em nenhum momento isso fica mais claro do que em cenas como as que passei este texto enumerando: dai eu ter decidido escrever um artigo só sobre isso. Certamente é um tema não muito convencional, e alguns talvez pensem que teria sido mais proveitoso um artigo sobre trilha sonora num geral, ou algo do tipo. Mesmo assim, acho que esse é um tema que merece algum comentário, até pelo quão específico ele é dos animes.

Não é segredo que as músicas de abertura e encerramento começaram como uma forma de baratear os custos de produção dos animes. E certamente existe um fator econômico em usá-las como insert songs, já que repetir uma música que você já possui é bem mais barato do que contratar artistas para gravar ainda uma nova música – uma lógica que obviamente vale também para as famosas “músicas de batalha”. Mesmo assim, não deixa de ser interessante pensar no ponto ao qual chegaram, e quais efeitos elas podem ter quando bem usadas.

Outros artigos que podem lhe interessar:

A importância do final.

Alguns pensamentos sobre a originalidade.

Review – AKB0048 (Anime)

Imagens (na ordem em que aparecem):

1 – Bungou Stray Dogs 2, episódio 4

2 – Dragon Ball GT, episódio 64

3 – Tetsuwan Atom, episódio 1

4 – Digimon Adventure, episódio 1

5 – Digimon Adventure, episódio 54

6 – Baccano, OVA 3

7 – Cardfight!! Vanguard, episódio 65

8 – K-On!, episódio 12

 

Anúncios

2 comentários sobre “Quando a música de abertura toca como insert song.

  1. Que interessante, eu nunca tinha pensado nisso apesar de realmente ser algo comum e efetivo.

    Algo que eu gosto também é quando transformam a música de abertura em uma versão mais triste e melancólica e tocam em cenas em que a original não encaixaria. Uma das minhas insert songs favoritas e que eu nunca consigo esquecer é a versão em piano da abertura de Ryuukendo que toca nos momentos mais tristes ou “bittersweets” da série e tem um efeito muito bom por que ela contrasta totalmente com a versão original que é agitada e exalta o herói. Então ao mesmo tempo que você lembra que o herói está lá para salvar o dia, você também lembra que ele não é onipotente e também falha.

    Muito bom artigo.

    Curtido por 1 pessoa

    • Eu ainda não cheguei a ver um exemplo do tipo, da musica tocar de forma mais melancólica (ou só não lembro… bem possível isso também… kkkk), mas é um ótimo ponto e realmente, mais um exemplo de como esse recurso pode ser usado para trazer as mais variadas sensações. Só queria dizer isso isso mesmo, gostei do acrecimo xD (e legal que curtiu o artigo o/)

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s