História – VOCALOID: Surgimento e Popularização de um Fenômeno Mundial

A história dos vocaloids.
A história dos vocaloids.

Hatsune Miku. Se esse nome lhe soa familiar, saiba que ele bem que deveria. No primeiro semestre de 2016, mais especificamente entre abril e junho, a cantora fez um tour por dez cidades dos Estados Unidos, o que atraiu alguma atenção da mídia. O site Houston Press publicou um artigo de autoria de Cory Garcia sobre um dos concertos, e mesmo aqui no Brasil o site Expresso fez um artigo sobre a cantora, se aproveitando do – à época – iminente início do tour. Mas claro, essa não é nem de longe a primeira vez que Miku chama a atenção. Em 2011, ela foi garota propaganda de uma série de comerciais da Toyota dos Estados Unidos, ao passo que no ano seguinte, 2012, ela serviu para promover o navegador Google Chrome, no Japão. Isso sem mencionar 2014, quando ela abriu alguns dos shows da turnê da Lady Gaga, iniciados em maio daquele ano. Ela inclusive já integrou um dos rankings da revista Time: o de personagens fictícios mais influentes de 2014. Ela ficou em 8º lugar, à propósito.

Hatsune Miku (初音ミク), cujo nome significa algo como “O Primeiro Som do Futuro”, não é real. Ou, no mínimo, não é de carne e osso: antes, trata-se de um programa, um software. Mais especificamente, uma voz sintética, que qualquer um que compre o programa pode usar, normalmente para criar musicas. E acreditem: pessoas compram. Lançado em 31 de agosto de 2007, em apenas 12 dias Miku já havia se tornado o software número 1 em vendas na Amazon japonesa, e só em seu primeiro ano totalizaria mais de 40.000 cópias vendidas. De lá até aqui, a personagem certamente percorreu um longo caminho, com sua popularidade aumentando cada vez mais. Uma realidade que, inevitavelmente, nos faz perguntar: como, exatamente, chegamos até aqui? E mais importante: como pôde uma voz artificial despertar tamanho interesse nas pessoas? Bom, é para abordar estas questões que decidi pela elaboração deste artigo. Assim, vamos falar um pouco sobre um fenômeno que vem impactando – em maior ou menor grau – ao mundo inteiro. Esta é a história do projeto VOCALOID.

Hatsune Miku
Hatsune Miku.

Antes de mais nada, vamos entender melhor sobre o que, exatamente, nós estamos falando. Segundo seu site oficial em inglês, VOCALOID é “uma tecnologia e software de sintetização de voz” [1], com sua criação sendo creditada à corporação Yamaha, um conglomerado multinacional que oferece uma vasta gama de produtos, incluindo ai instrumentos musicais, equipamentos eletrônicos e, como alguns já devem imaginar, motos. Já o próprio site da Yamaha é ligeiramente mais prolixo, afirmando que VOCALOID é “uma tecnologia de sintetização de voz para canto e seu software de aplicação” [2]. Agora, é importante também apontar que essa tecnologia, em si, não é vendida como um produto comercial. Antes, ela é licenciada para empresas que então a usam para criarem os seus próprios produtos. Hatsune Miku, por exemplo, é uma criação da empresa Crypton Future Media.

E como exatamente as empresas usam dessa tecnologia? Honestamente, é um processo bem mais complicado do que parece. Quem se interessar por detalhes, eu recomendo lerem o artigo de 2007, “VOCALOID – Commercial singing synthesizer based on sample concatenation” [“VOCALOID – Sintetizador comecial de canto baseado em concatenação de amostras”, em tradução livre], de Hideki Kenmochi e Hayato Ohshita, do Center for Advanced Sound Tecnologies [“Centro para Tecnologias de Som Avançadas”, também em tradução livre], pertencente à própria Yamaha. Para este texto, porém, será suficiente que o leitor saiba que a tecnologia funciona obtendo uma amostra de voz humana, com a pessoa que fornece a amostra sendo normalmente chamada de provedor, que é então “quebrada” para formar os diversos fonemas (normalmente sílabas) que irão compor o voicebank (literalmente, “banco de voz”) do produto final: um vocaloid.

Interface do software VOCALOID.
Interface do software VOCALOID. Quando você compra um voicebank, o software vem junto, já que é ele permite a manipulação das vozes.

Agora, para fins de distinção, eu quero deixar claro uma coisa: ao longo deste texto, sempre que eu usar o termo “VOCALOID”, em letras maiúsculas, estarei me referindo à tecnologia e ao software pertencentes à Yamaha, ao passo que quando usar do termo “vocaloid”, em letras minúsculas, estarei me referindo aos produtos finais, os voicebanks comercializados, feitos a partir dessa tecnologia e pertencentes a diferentes empresas, como a própria Hatsune Miku.

Mas voltando ao tema, é válido ressaltar que o fato de cada vocaloid ter o seu próprio provedor (com uma só exceção notável: os vocaloids Kagamine Rin e Kagamine Len, dos quais falarei em mais detalhes em breve) permite que suas vozes sejam bem distintas. A manipulação da voz conforme o vocaloid é desenvolvido, ainda, permite ao produto final ter uma voz mais realista ou mais robótica, mais adulta ou mais jovem, mais masculina ou mais feminina, e por ai vai, de forma que raramente dois vocaloids soarão parecidos.

A título de curiosidade, a voz da Hatsune Miku foi modelada a partir da voz da dubladora Saki Fujita (voz da Ritsu de Ansatsu Kyoushitsu e da Ymir, de Shingeki no Kyojin, entre outros papéis), mas já saibam que nem todo vocaloid tem o seu provedor divulgado, algumas vezes por questões legais – sobretudo no caso de vocaloids cujos provedores ainda eram menores de idade na época que forneceram a amostra – e outras a pedido do próprio provedor, que prefere permanecer no anonimato.

OLIVER é um bom exemplo do porque alguns vocaloids não tem seu provedor revelado. Vocaloid ocidental da empresa PowerFX, seu provedor foi um garoto de 12, não identificado por razões óbvias.
OLIVER é um bom exemplo do porque alguns vocaloids não tem seu provedor revelado. Vocaloid ocidental da empresa PowerFX, seu provedor foi um garoto de 12 anos, não identificado por razões óbvias.

Agora, isso talvez surpreenda alguns, mas é interessante apontar que Hatsune Miku, ao contrário do que seu nome poderia sugerir, não foi a primeira vocaloid. Em fato, quando lançada, o software VOCALOID usado para sua criação já estava em sua segunda versão, VOCALOID 2, e pelo menos seis outras vozes precederam aquela que se tornaria o maior hit da marca. Sendo que, dentre estes seis vocaloids iniciais, apenas dois foram projetados para cantar em japonês, com os quatro outros tendo voicebanks em inglês. Pois é: para todos os efeitos, VOCALOID começou no ocidente, embora só tenha vindo a ganhar enorme popularidade quando chegou ao Japão. Dito isso, o local onde tudo começou é uma surpresa ainda maior. Apesar dos primeiros voicebanks serem em inglês, nem os Estados Unidos e nem o Reino Unido foram o palco de desenvolvimento da tecnologia. Antes, esse posto vai para a Universidade Pompeu Fabra, em Barcelona, Espanha.

Em primeiro lugar, é preciso apontar aqui que tecnologias visando criar vozes artificiais manipuláveis para propósitos de canto já haviam sido criadas anteriormente. Em 1961, cientistas da Bell Laboratory haviam conseguido fazer um computador IBM 704 “cantar” a musica “Daisy Bell”, e em 1984 o sintetizador CHANT era aquele de maior sucesso e credibilidade no ramo. Isso quem afirma é Jordi Bonada, segundo artigo de 2014 do site Red Bull Music Academy, “The Making of Vocaloid” (“A Criação do VOCALOID”, em tradução livre). E eu menciono esse nome, pois é com ele que tudo começa. Enquanto trabalhando na Universidade Pompeu Fabra, em finais dos anos 1990, Bonada recebeu uma proposta da Yamaha para o desenvolvimento de uma tecnologia de manipulação de voz que permitisse cantores ruins soarem um pouco melhor. O projeto teve início, e recebeu o codinome de “Elvis”, mas acabou durando apenas dois anos. Ainda assim, ele consolidou alguns dos princípios que depois norteariam a criação do que viria a ser o VOCALOID.

Mesmo durando apenas 2 anos, o projeto Elvis ajudaria a dar as bases do que se tornaria o princípio geral da tecnologia vocaloid (imagem acima), como a ideia de usar de amostras de voz para gerar uma voz artificial.
Mesmo durando apenas 2 anos, o projeto Elvis ajudaria a dar as bases do que se tornaria o princípio geral da tecnologia VOCALOID (imagem acima), como a ideia de usar de amostras de voz para gerar uma voz artificial.

O que o Projeto Elvis permitiu que Bonada percebesse é que seria possível gravar previamente uma quantia suficientemente variada de fonemas, e criar com isso um modelo capaz de cantar qualquer música. Assim, e ainda em parceria com a Yamaha, um novo projeto foi iniciado. E é aqui que entra em cena Hideki Kenmochi, que já trabalhava para a Yamaha há alguns anos, e que agora integraria esse novo projeto. Segundo Bonada, a maior parte da pesquisa foi realizada pela equipe em Barcelona, com o designe e desenvolvimento do produto final ficando a cargo da Yamaha. Aqui nós estamos nos anos 2000, e foi somente em 2002 que surgiu o primeiro protótipo para o software VOCALOID, que à época recebeu o codinome “Daisy”, inspirado justamente na musica “Daisy Bell”.

O próximo passo era justamente descobrir como vender o produto. A ideia original era que Yamaha vendesse ao próprio software, mas esta foi descartada dado que o que realmente interessaria às pessoas seria a voz, não o programa usado para criá-la. Assim surgiu a ideia de licenciar a tecnologia para empresas, e que estas criassem seus próprios produtos. Em 2003, “VOCALOID”, cujo nome foi uma combinação das palavras “vocal” e “android“, foi apresentado ao mundo na Musikmesse, uma feira de musica que ocorre na Alemanha. O próprio site da Universidade Pompeu Fabra chegou a publicar, em dezembro daquele ano, um pequeno artigo saudando seus pesquisadores pela criação da tecnologia, e já nele a universidade afirma que o software começaria a ser comercializado a partir de 2004, e que já havia sido adquirido por empresas do Japão, Estados Unidos e Alemanha.

Em 2004 chegavam os primeiros vocaloids de fato: LEON e LOLA.
Em 2004 chegavam os primeiros vocaloids de fato: LEON e LOLA.

Em janeiro de 2004, o evento NAMM Show, voltado para a industria de produtos musicais e realizado anualmente nos Estados Unidos, viu a divulgação daqueles que seriam, após mais de 3 anos do início do projeto, os dois primeiros vocaloids: LE♂N e L♀LA, ambos produzidos pela empresa britânica Zero-G, sendo o primeiro uma voz masculina e o segundo uma voz feminina. Três meses depois, em março daquele ano, ambos estariam disponíveis para comércio.

Ainda em 2004, Zero-G lançou a vocaloid MIRIAM, uma voz feminina que, assim como seus dois antecessores, foi criada para cantar em inglês. Nesse ponto, porém, é melhor eu deixar uma coisa clara: de forma alguma eu poderei falar em detalhes sobre cada vocaloid lançado desde 2004, em parte por uma simples questão numérica: são muitos vocaloids dos quais falar, e dar a devida atenção a todos eles seria uma tarefa legitimamente hercúlea. Ademais, o propósito desse artigo nunca foi entrar em detalhes sobre cada produto, mas antes apenas dar uma visão geral do surgimento e popularização dos vocaloids.

Assim, e talvez correndo o risco de diminuir demais a importância desses três produtos iniciais ao não entrar em maiores detalhes, eu quero avançar logo para o final do ano de 2004, quando foi lançada a primeira vocaloid produzida pela empresa japonesa Crypton Future Media: MEIKO. Que foi, para a época e considerando o retorno financeiro que seus antecessores ocidentais tiveram, um verdadeiro sucesso: mais de 3 mil cópias vendidas. Primeira vocaloid a cantar em japonês, ela trouxe também uma característica que se tornaria padrão em futuras entradas na franquia: uma personagem desenhada na capa de sua caixa.

Desenvolvidos ao mesmo tempo, mas lançados com mais de um ano de distância, MEIKO e KAITO foram os primeitos vocaloids japoneses.
Desenvolvidos ao mesmo tempo, mas lançados com mais de um ano de distância, MEIKO e KAITO foram os primeitos vocaloids japoneses.

KAITO foi outro vocaloid produzido pela Crypton Future Media, também criado para cantar em japonês. Ele foi desenvolvido ao mesmo tempo que MEIKO, e deveria servir como um complemento masculino à voz feminina do outro produto, mas seu lançamento acabou adiado até fevereiro de 2006, mais de 1 ano após o lançamento de MEIKO. Assim como sua contra-parte, KAITO trazia um personagem na capa, mas diferente daquele este vendeu bem mal, e foi talvez o primeiro efetivo fracasso comercial de toda a franquia.

No ano seguinte, em junho de 2007, a segunda versão do programa VOCALOID, nomeada de VOCALOID 2, foi lançada, trazendo diversas melhorias que não convém detalhar aqui. No mesmo mês, a empresa PowerFX, da Suíça, lança a quarta vocaloid da língua inglesa: Sweet ANN, primeira a usar da nova versão do software. E dois meses depois, a japonesa Crypton Future Media, se aproveitando do que aprendera com suas duas produções anteriores, lança a primeira vocaloid de sua série Character Vocaloid: finalmente entra em cena Hatsune Miku, e é por ser a primeira dessa série que ela recebeu o número 01 perto de seu ombro esquerdo..

Diferente dos vocaloids anteriores da empresa, a ideia por trás da série Character Vocaloids era que os produtos da mesma tivessem exatamente isso: characters, ou seja, personagens. Avatares, se preferir. Assim, Miku veio com muito mais do que apenas uma imagem em sua capa. Idade, altura e peso foram definidos para a personagem, algo que se tornaria padrão não apenas na série Character Vocaloid, como também em praticamente todo vocaloid lançado depois.

Em 2007, Hatsune Miku era lançada, criada com o VOCALOID 2.
Em 2007, Hatsune Miku era lançada, criada com o VOCALOID 2.

Podemos dizer que o sucesso estrondoso da Miku, do qual já falei melhor no segundo parágrafo deste artigo, foi o início de algo que se tornaria – na falta de palavra mais apropriada – enorme. Só para que o leitor tenha uma ideia, com a primeira engine, isto é, a primeira versão do software VOCALOID, foram lançados 5 produtos (LEON, LOLA, MIRIAM, MEIKO e KAITO). A segunda engine, VOCALOID 2, viu 22 lançamentos. A terceira, VOCALOID 3, lançada em 2011, bateu a marca de 42 produtos. E a engine mais atual, VOCALOID 4, de 2014, já viu 26 lançamentos até o momento em que escrevo esse artigo. Tudo bem que alguns dos vocaloids são, em fato, versões atualizadas para a nova engine de vocaloids anteriores. Assim, MEIKO V2 é a versão da MEIKO com VOCALOID 2, Hatsune Miku V3 é a versão da Miku com o VOCALOID 3, e por ai vai. Mas ainda assim é uma quantia bem impressionante, e que inclui vocaloids feitos para cantar em inglês, japonês, espanhol, coreano, chinês

Antes de avançarmos, porém, eu acho que vale a pena dar algumas rápidas palavras para a segunda entrada na série Character Vocaloid da Crypton Future Media: o set Kagamine, lançado em dezembro de 2007. Isso pelo quão “estranho” foi, e tecnicamente ainda o é, o set . Diferente não apenas de tudo o que veio antes, e também dos que vieram depois, o set Kagamine pegou o princípio de vozes complementares, uma masculina e uma feminina, que já norteava os pares LEON e LOLA e MEIKO e KAITO, e – possivelmente por medo de lançar um vocaloid masculino solo e esta fracassar como KAITO – decidiu incluir as duas vozes em um mesmo produto: Kagamine Len, voz masculina, e Kagamine Rin, voz feminina. Ambos, aliás, tendo o mesmo provedor de voz, a dubladora Asami Shimoda. Vale dizer, canonicamente a ideia é que Rin e Len fossem basicamente um genderbender um do outro. Em suma, seriam a mesma “pessoa”, mas com sexos trocados. O nome “Kagamine”(鏡音) vem de “espelho” e “som”, com os nomes Rin e Len sendo referências à Right (direita) e Left (esquerda), assim brincado com a ideia de ambos serem “versões espelhadas” um do outro.

Kagamines Rin e Len.
Kagamines Rin e Len.

Outros nomes que merecem menção seriam os vocaloid Gakupo, lançado em julho de 2008 pela empresa Internet Co. e o primeiro vocaloid masculino solo desde KAITO; Megurine Luka, terceira e última entrada da série Character Vocaloid da Crypton Future Media, tendo sido lançada em janeiro de 2009; e GUMI, segunda vocaloid da Internet Co. e lançada em julho de 2009. Embora nenhum destes tenha alcançado o sucesso estrondoso de Hatsune Miku, são todos nomes bem conhecidos dentro da comunidade de fãs de vocaloids, e frequentemente aparecem em shows, videogames (como a série Hatsune Miku: Project DIVA) e outros momentos do tipo. Com isso nós cobrimos os nomes de maior relevância até o momento em que escrevo este texto, embora um ou dois talvez tenham ficado de fora. Em todo caso, podemos agora nos voltar para o segundo ponto que merece atenção. Agora que sabemos de onde os vocaloids surgiram, fica a pergunta: como se popularizaram?

Originalmente, o público alvo dos vocaloids era claramente o de músicos profissionais, o que pode ser evidenciado em parte pela forma como os primeiros vocaloids foram anunciados – em feiras e eventos voltados para a indústria da música -, e que de certa forma explica a arte mais sóbria e – na falta de termo melhor – “madura” que estampa a caixa dos produtos iniciais, como LEON, LOLA e MIRIAM. Isso, claro, sem mencionar a voz mais adulta que tais produtos visavam ter. Hatsune Miku, porém, viria a mostrar que é possível atingir a um público muito maior do que apenas músicos profissionais, e após ela diversos vocaloids seriam lançados já visando os fãs da mídia ou ao público em geral, ainda que a ideia de produtos para músicos profissionais nunca tenha realmente desaparecido. Se tornou uma mídia com uma produção bem mais eclética, digamos assim. Mas para explicar de onde vem o enorme sucesso de Hatsune Miku, precisamos antes falar de um site que é muitas vezes saudado como o “youtube japonês”: Nico Nico Video.

Vocaloids se tornariam tão predominantes no Nico Nico Video que atualmente eles recebem sua própria seção no site.
Vocaloids se tornariam tão predominantes no Nico Nico Video que atualmente eles recebem sua própria seção no site.

Em seu artigo de 2012, “Singing Synthesis as a New Musical Instrument” [“Sintetizador de Canto como um Novo Instrumento Musical”, em tradução livre], Hideki Kenmochi conta que após o lançamento de Miku “houve uma grande mudança no site japonês de vídeos Nico Nico Douga” (nome pelo qual é mais conhecido o Nico Nico Video). Ele comenta como algumas pessoas começaram a postar no site as próprias musicas feitas com a Miku, e como isso incentivou outras pessoas a irem adquirir ao software. Mas não só isso: “uma pessoa que gostou de um destes vídeos originais começou a adicionar voluntariamente um vídeo diferente às suas músicas favoritas, e republicou no site. Outra pessoa que gostou da musica mudou a letra, re-mixou e a repostou. Outra pessoa que gostou da musica a cantou e a republicou” [3]. Esse fenômeno, que Kenmochi chamou de “Nth Fanfiction“, demonstra o surgimento de uma legítima comunidade de fãs dessa então nova mídia, e uma comunidade ainda extremamente participativa. Mais sobre isso em breve, mas antes, façamos a pergunta que muitos devem estar pensando: onde isso começou? Qual o primeiro vídeo que fez dos vocaloids algo tão popular no Nico Nico Video?

Bom, antes de mais nada, vale algumas palavras de cuidado para com qualquer ideia de “o primeiro”. Existe uma certa tendência em nós, como seres humanos, a buscar por uma espécie de “original” ou “primevo” em praticamente qualquer coisa, mas a realidade muitas vezes não é assim tão organizada. Simultaneidade é algo que precisamos sempre levar em conta, e isso em praticamente todas as áreas. Dito isso, no caso em específico dos vocaloids, e mais específico ainda da Hatsune Miku, é de fato possível apontar para um vídeo em particular como sendo aquele que deu inicio ao “boom”. Aliás, não só ao “boom”, como também trouxe diversos elementos que viriam a se tornar comuns em todo o meio vocaloid, e que inclusive afetaram a imagem oficial da Miku. Publicado pelo usuário Otomania, em 4 de setembro de 2007, apenas alguns dias após o lançamento oficial do software Hatsune Miku, o vídeo em questão é o cover da Miku da musica Ievan Polkka. Sério.

Miku canta
Miku canta “Ievan Polkka”.

Isso vai precisar de um pouco de contexto. Ievan Polkka foi uma música escrita em torno dos anos 1930, na Finlândia. Nos anos 1990, a música foi “revivida” graças a um cover feito pela banda finlandesa Loituma. O próximo passo é certamente o mais estranho, mas em 2006, a musica foi usada no que se tornou um famoso meme na internet: um vídeo no qual Orihime, personagem do mangá e anime Bleach, fica girando um alho-poró. Nomeado Leek Spin e publicado no youtube pelo usuário Xylier, ainda hoje ele é um vídeo bastante reconhecido. E foi a inspiração para o vídeo de Otomania em 2007. Tendo esse contexto, é fácil de imaginar como se deu a sua popularidade, num movimento que me faz lembrar do conceito de meme tal como foi originalmente cunhado por Richard Dawkins, em seu famoso livro “O Gene Egoísta”, descrevendo uma ideia que se transmite de pessoa à pessoa.

E por mais simples, e até inocentemente bobinho (em um bom sentido), que seja esse vídeo, sua importância para o meio dos vocaloids foi enorme. Não apenas para a popularidade da Miku, ele ainda introduziu dois conceitos que se tornariam padrão por anos a vir. O primeiro deles sendo a ideia de “derivados oficialmente reconhecidos”, personagens com design inspirado ou modificado a partir de vocaloids existentes. Alguns são criações da própria empresa responsável, mas outras são produções dos fãs que eventualmente foram oficializados por conta da sua popularidade. Acredite se quiser, a Miku em estilo chibi que aparece no vídeo tem um nome próprio, e inclusive possui produtos oficiais: é a Hachune Miku. Outros derivados seguem o estilo de versões cômicas, deformadas ou exageradas de algum vocaloid existente, como é o caso de Tako Luka, uma “versão polvo chibi” da vocaloid Megurine Luka, mas alguns derivados podem até exigir um esforço maior para ver as semelhanças com o original, como é o caso de Akita Neru, inspirada pela Hatsune Miku.

Tako Luka de pelúcia.
Tako Luka de pelúcia.

Alguns desses derivados, inclusive, podem ter se originado de situações bem mais complexas do que apenas um fã querendo exercitar a sua criatividade. Akita Neru, por exemplo, veio ao final de uma série tão estranha de coincidências que vale à pena dedicar algumas linhas a ela.

Em 14 de outubro de 2007, um programa na televisão japonesa fez uma matéria bastante sensacionalista a respeito dos fãs da Miku, atacando a estes como otakus desempregados. Três dias depois, se tornou impossível pesquisar por imagens da Miku em sites como Google e Yahoo!, e ainda dois dias depois disso a página da Hatsune Miku na Wikipedia japonesa saiu do ar. Agora, depois tanto Google como o Yahoo! anunciaram que foi um problema técnico, enquanto que a Wikipedia explicou que a página foi tirada do ar por questões de copyright. Tudo voltaria ao normal em questão de tempo, mas nesse ponto a internet japonesa já estava em alvoroço, com alguns fãs da Miku acusando a existência de alguma grande conspiração para apagar a personagem. O evento ficou conhecido como “O Desaparecimento de Hatsune Miku“, e é daí que saiu o nome da musica homônima, publicada no Nico Nico Video pelo usuário cosMo em 22 de outubro de 2007.

Obviamente, muitas pessoas, incluindo outros fãs da Miku, pediam por calma e paciência por parte destes fãs, e para não tirarem conclusões apressadas. Eventualmente, porém, ficou claro que era praticamente impossível discutir de forma sensata com eles, que inclusive acusavam aos mais calmos de serem “fantoches” da “industria da música”, e muitas pessoas começaram a simplesmente postar frases como “estou cansado, vou dormir”. Essa seria a inspiração para a criação de Akita Neru, pelo ilustrador Smith Hioka, com um design inspirado na Hatsune Miku e cuja personalidade é a de uma garota tsundere constantemente cansada e com sono. Uma clara brincadeira com a situação toda.

Inicialmente uma brincadeira, atualmente um produto oficial. O meio dos vocaloids está cheio de histórias como a da personagem Akita Neru.
Inicialmente uma brincadeira, atualmente um produto oficial. O meio dos vocaloids está cheio de histórias como a da personagem Akita Neru.

Mas voltando à Ievan Polkka, outra coisa que o vídeo introduziu foi a ideia de “itens” para os personagens. Isso talvez surpreenda alguns, mas o alho-poró nunca fez parte do conceito original da Hatsune Miku, e só se tornou a marca registrada da personagem, aparecendo inclusive em diversos produtos licenciados, por conta desse vídeo.

Com Miku tendo seu próprio item, fãs dos demais vocaloids começaram a querer um para eles também, e a internet japonesa entrou em discussão sobre quais itens dar para quem. Ao final, KAITO ficou com o sorvete e MEIKO com o sake. Megurine Luka foi lançada já com a ideia de ter um item, com seu perfil anunciando que ela gostava de peixe, mas o sucesso de sua versão polvo, Tako Luka, fez com que a pequena criaturinha se tornasse também um item oficial da personagem, aparecendo em produtos licenciados. Mas de longe o idem mais estranho escolhido foi para os Kagamines: um rolo de estrada.

Mais uma vez, é aos memes da internet que temos a agradecer. E sim, estou falando do popular meme envolvendo ao personagem de Jojo no Kimyou na Bouken, Dio Brando, usando de um destes rolos para atacar ao inimigo, ao som de seu icônico grito “wryyyy”. Com Miku tendo seu próprio item, foi sugerido, por brincadeira, que o item de Rin e Len fosse um rolo. A ideia pegou, e hoje até mesmo foram lançados produtos oficiais dos dois dirigindo rolos de estrada. Isso sem contar a icônica musica Ore no Roodo Roora da!, com os dois dirigindo um, lançada no Nico Nico Video em 3 de janeiro de 2008, com letra por Meiyokaichou-P, mas publicado no canal do responsável pela edição do vídeo e ilustração: merakia_niko.

Rin e Len com seu
Rin e Len com seu “item”.

Atualmente, a banana e a laranja são muito mais associadas ao Len e à Rin respectivamente, e de forma geral a chamada “guerra dos itens”, como ficou conhecido o período, já acabou, com Luka tendo provavelmente sido a última a receber um “item” dentro desses moldes. Ainda assim, histórias como essa e a do desaparecimento da Miku permeiam toda a comunidade de fãs dos vocaloids. E se por um lado podem garantir algumas boas risadas e curiosidades para se contar aos amigos, por outro eles mostram o quão “viva” é essa mídia, constantemente modelada pelos seus próprios fãs, em um grau de participação que é, ouso dizer, sem precedentes.

Sim, a opinião dos fãs sempre foi um fator que qualquer produto voltado para o grande público precisa levar em conta. Autores do mangá ao anime, dos seriados às novelas, dos livros às séries de filmes, certamente precisam estar atentos às exigências de seus públicos, com risco de perder esse público caso façam um movimento errado. Mas mesmo aqui o autor ainda tinha a real liberdade criativa. E mesmo quando entramos na cultura dos fanzines e dos doujins, por mais que sejam produções dos fãs, elas ainda carregam consigo a definição de “fan made“, por oposição ao cânone oficial e monolítico que é a história original.

No meio dos vocaloids, porém, tal cânone simplesmente não existe. Toda musica é tão “oficial” quanto a próxima, e toda representação da Hatsune Miku – ou de qualquer outro vocaloid, vale lembrar – é tão “Hatsune Miku” quanto qualquer outra. E no mundo da participação ativa, das redes sociais, dos fóruns de discussões, da comunicação constante que a internet nos proporcionou, esse caráter “aberto” dos vocaloids possivelmente foi um dos fatores que ajudaram em seu sucesso.

Show
Show “ao vivo” de Hatsune Miku e Kagamines Rin e Len. O sucesso dos vocaloids é inegável.

Mas uma interessante hipótese sobre o que estaria no “cerne” do fenômeno que se tornaram os vocaloids vem do próprio Kenmochi, no já mencionado artigo de 2012, quando este se pergunta porque alguém usaria ou ouviria uma voz artificial. No primeiro caso, a conveniência é o motivo óbvio. A menos que você saiba cantar, após compor a música precisará de alguém que o faça, e mesmo que você de fato tenha alguém a quem recorrer essa pessoa certamente não estará disponível em tempo integral. Um vocaloid, por outro lado, pode ser usado a qualquer momento. A esse argumento, porém, eu pessoalmente adicionaria a liberdade criativa, já que aqui o compositor tem total controle sobre seu projeto, sem depender da aprovação de empresas, patrocinadores, etc., o que é certamente um atrativo.

Já sobre ouvir, Kenmochi propõe que, por ser uma voz artificial, acaba que o produtor da musica – normalmente chamado de producer no meio, dai a estrutura “[alguma coisa]-P” que muitos pseudônimos seguem – precisa colocar mais de suas próprias emoções ali, se tornando um reflexo das emoções do compositor sem a mediação das emoções do cantor. Kenmochi aponta que “nós não estamos familiarizados com uma comunicação musical tão direta”, e que por isso há a necessidade de um símbolo que faça a mediação entre o compositor e o público [4]. Vocaloids, como a Miku, são esse símbolo, que permitem ao público a ilusão de uma “idol” cantando enquanto ainda percebendo as emoções do autor real por detrás. E certamente há emoções por trás destas musicas. Basta olhar composições como Irony, cantada pela Hatsune Miku, ou mesmo algo mais leve e “cômico”, como Shineba Ii No Ni, cantada pelo KAITO, ambas musicas que soam como um leve desabafo de seus criadores (e que de forma alguma são a exceção em meio às produções na mídia).

Uma musica que certamente soa como um desabafo,
Uma musica que certamente soa como um desabafo, “Irony” é sobre uma garota que já cansou de andar a “longa estrada da vida”.

O canal no youtube Idea Channel, da PBS Digital Studios, fez em 2012 um interessante vídeo comparando a artificialidade da imagem de cantores pop reais, construída inclusive para parecer não artificial, com a artificialidade literal da Hatsune Miku, traçando o argumento de que, atualmente, a nossa capacidade de ter empatia por quem canta é talvez tão ou mais relevante quanto a musica produzida. Se for verdade, a hipótese de Kenmochi nos mostra que os fãs de vocaloid são capazes de ter uma dupla empatia: pela personagem que canta, mas também pelas emoções transmitidas pelo compositor.

Uma vez que a comunidade de fãs cresceu e se consolidou, muito mais surgiu. Algumas coisas, feitas por fãs, a exemplo do software UTAU. Seguindo o mesmo princípio tecnológico do programa VOCALOID, UTAU é gratuito, e por isso permite a qualquer um transformar a própria voz em um “utauloid”, como são chamados os voicebanks produzidos com UTAU. Atualmente existem literalmente centenas de utauloids, o mais famoso sendo a quimera-de-trinta-anos-com-cara-de-quinze Kasane Teto, que possui uma interessante história por trás de sua criação, mas que não compensa detalhar aqui. Ou ainda, outro exemplo de um produto feito por fãs é o Miku Miku Dance (MMD), que permite animar modelos 3D. Originalmente, ele surgiu para animar modelos de alguns vocaloids, mas atualmente ele é capaz de animar praticamente qualquer coisa, e já tivemos inclusive um anime feito com o software, Chokkyuu Hyoudai Robot Anime, que não tem absolutamente nenhuma relação com vocaloids.

Outras coisas, porém, foram desenvolvidas pelas próprias empresas envolvidas. Bom exemplo é o software VOICEROID, desenvolvido pela empresa AH Software (que inclusive já chegou a lançar alguns vocaloids) e voltado para a fala, ao invés da música.

Kasane Teto, a mais popular das utauloids.
Kasane Teto, a mais popular das utauloids.

O que começou de forma ainda nebulosa no final dos anos 1990, e ganhou forma concreta com o avançar dos anos 2000, é hoje uma força que merece reconhecimento. Em todos os lados, diga-se de passagem. Às diferentes pessoas envolvidas na criação do software e dos diferentes voicebanks certamente, mas também aos fãs, eles próprios muitas vezes criadores e compositores, que conseguiram dar um ar humano mesmo a uma voz artificial. Quando nos diversos shows “ao vivo”, nos quais uma projeção de alguns vocaloids cantam para uma plateia de centenas de pessoas, os fãs gritam, comemoram e aplaudem, essa reação não é simplesmente para uma imagem projetada em uma tela, mas sim para tudo o que ela significa e representa: a própria comunidade.

producer 40meterP tem uma musica que parece perfeitamente “encapsular” o espírito por trás do que são os vocaloids. A musica se chama “Shounen to Mahou Robot (“O Garoto e o Robô Mágico”, em tradução livre), e fala sobre um garoto sem confiança na própria voz, que recebe então um robô capaz de cantar para ajudá-lo. E é a um trecho no meio desta musica que eu gostaria de chamar atenção, e que me parece a fala ideal para finalizar esse artigo: “ainda que soasse um pouco estranha, aquela voz ecoou pelo mundo. Ela certamente tocou o coração de incontáveis pessoas também” [5]. Hey, nada mal para um projeto que começou com a ideia de fazer cantores ruins soarem melhor, não é?

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Notas:

1 – No original, em inglês, “VOCALOID is a voice synthesis technology and software developed by Yamaha.”

2 – No original, em inglês, “Yamaha’s VOCALOID is a singing voice synthesis technology and its application software.”

3 – No original, em inglês, “A person who liked one of those original compositions began to add a different video to his/her favorite music voluntarily and reposted it. Another person who liked the music changed the lyrics, re-mixed the music and re-posted it. Another person who liked the music sung the song and re-posted it”.

4 – No original, em inglês, “However, we are not familiar with such direct musical communication. Therefore we need a symbol that connects creator and listener”.

5 – Tradução da letra em inglês na entrada da musica na Vocaloid Lyrics Wiki.

Imagens (na ordem em que aparecem)

1 – Caixas dos vocaloids Hatsune Miku, Kagamine Rin/Len, MEIKO e KAITO

2 – Hatsune Miku (vocaloid wiki).

3 – Screenshot da interface do software VOCALOID (wikipedia).

4 – OLIVER (vocaloid wiki)

5 – Diagrama do sistema VOCALOID (wikipedia)

6 – Caixas de LEON e LOLA.

7 – Caixas de MEIKO e KAITO.

8 – Caixa da vocaloid Hatsune Miku (wikipedia).

9 – Kagamines Rin e Len (vocaloid wiki).

10 – Screenshot da área “vocaloid” no site Nico Nico Video.

11 – Otomania, ft. Hatsune Miku – Ievan Polkka [cover].

12 – Pelúcia Tako Luka (vocaloid wiki).

13 – Akita Neru e nendroid dela (vocaloid wiki).

14 – Meiyokaichou-P, ft. Kagamines Rin e Len – Ore no Roodo Roora da!

15 – Hatsune Miku Magical Mirai 2016 (vocaloid wiki)

16 – Scop, ft. Hatsune Miku – Irony.

17 – Kasane Teto (vocaloid wiki)

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2 comentários sobre “História – VOCALOID: Surgimento e Popularização de um Fenômeno Mundial

  1. Sempre tive curiosidade sobre Vocaloid, mas nunca pesquisei sobre.
    Acabei caindo nesse ótimo post, e agora entendo, pelo menos um pouco, sobre o assunto.

    Nessa parte da interação com os fãs, e de como o fã interfere no produto oficial, Vocaloid é algo único. Daria um bom objeto de estudo, usando as teorias sobre os fãs, interação de mídias, inteligência coletiva, novas formas de produção…

    Ouvi a Shounen to Mahou Robot, e achei muito boa. Vou usar as listas que você postou para conhecer outras músicas.

    o/

    Curtido por 1 pessoa

  2. Olha, que artigo amigo!!
    Encontrei detalhes que não encontrei (olha que pesquisei as fontes japonesas junto), quando fiz meu TCC sobre a Miku.
    A CFM não tinha estrutura para lidar com a ascensão rápida do fandom, acredito até que o licenciamento de seus Vocaloids no Creative Commons seja uma resposta para “apaziguar” os ânimos da época onde a Miku-chan “estourou” de sucesso.
    Já tem meu +1

    Curtido por 1 pessoa

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