Review – Dennou Coil (Anime)

Dennou Coil
Dennou Coil

É difícil encontrar uma história que faça real jus à classificação de “livre para todos os públicos”. Os piores exemplos podem se mostrar um insulto à inteligência até de bebês de 3 anos, mas mesmo bons exemplos podem se mostrar bons apenas para o seu público alvo: normalmente crianças. O que não é um problema em si, e se as crianças estão recebendo um bom conteúdo acho que já é algo a se comemorar. Mas é preciso dizer: é incrivelmente satisfatório encontrar estas raras obras que realmente conseguem transcender o seu público alvo original, se revelando verdadeiramente livres para todos os públicos, ao menos em questão de idade. Lançado em 2007, Dennou Coil, uma produção original do estúdio Madhouse, dirigida por Mitsuo Iso, é um destes casos. Uma história que eu me sinto tentado a descrever como basicamente “Ghost In The Shell para crianças” (e acreditem: essa comparação se sustenta mais do que você talvez esteja imaginando).

Se passando no futuro próximo, onde a invenção de óculos de realidade aumentada cada vez mais atenua a linha que divide o real e o virtual, a história se foca na garota Okonogi Yuuko, que acaba de se mudar com sua família para a cidade de Daikoku. Logo, porém, ela descobrirá que essa cidade guarda muito mais segredos do que parece. Uma quantia anormal de “espaços obsoletos”. A existência de misteriosas criaturas virtuais conhecidas como “Illegals”. Uma entidade cujas lendas dizem ser capaz de levar a alma das pessoas para o “outro lado”. E estranhos acidentes relacionados aos óculos de realidade aumentada. Um anime que consegue manter um bom balanço entre a leveza infantil e a seriedade devidamente madura, essa é uma obra capaz de agradar à crianças e adultos por igual. Infelizmente, eu não posso falar muito mais do que isso sem começar a entrar em spoilers, então considere este o seu aviso. Se você ainda não viu este anime, fica aqui a minha recomendação. E dado o aviso, vamos à review.

Okonogi Yuuko, nossa protagonista.
Okonogi Yuuko, nossa protagonista.

Agora, eu quero começar essa review me focando num adjetivo que usei no parágrafo anterior: “maduro”. Isso porque existe uma tendência a associarmos o termo “maduro” com a ideia de “conteúdo adulto”, algo que já discuti em mais detalhes no meu artigo “‘Adulto’ não quer dizer ‘maduro’ (e nem ‘bom’)“. E também lá eu procurei argumentar como essa associação era falha, com a maturidade de uma obra se dando não pelo seu conteúdo tão somente, mas sim pela sua abordagem ao seu conteúdo e pelo respeito tanto aos seus temas quanto à sua audiência. Execução prevalece sobre o conteúdo, para encurtar. E Dennou Coil é um ótimo exemplo disso. Mesmo sendo uma obra para crianças, esse é um anime extremamente maduro na abordagem a seus temas. E em nenhum momento isso fica mais claro do que naquele que é o tema central de toda a obra: a morte. Ou, mais especificamente, a perda de um ente querido.

Pelo menos três personagens centrais passam por um arco no qual precisam lidar com a perda de alguém. Começamos com o Ken’ichi, que quando o anime se inicia já estava tendo de lidar com a perda da amiga, e possível interesse amoroso, Kana. Em seguida temos Amasawa Yuuko, que mais para o final do anime descobre que o irmão que ela sempre acreditou estar em coma, na verdade estava morto. E por último temos a protagonista, Okonogi Yuuko, que precisa lidar com a perda de seu cyberpet Densuke. Em todas essas instâncias, aceitar a perda e seguir em frente é parte essencial do desenvolvimento destes personagens, e é justamente o não o fazer que causa a maioria dos problemas. As ações da Amasawa e a imprudência perigosa do Ken’ichi sendo os melhores exemplos. E enquanto superar a perda não é algo fácil – e o anime nunca faz parecer que é fácil: pelo contrário, vemos de forma bastante clara o sofrimento e a tristesa pela qual passam os personagens -, o anime a coloca como necessária para que a pessoa possa seguir em frente.

A morte é um tema recorrente em Dennou Coil, a começar pelo Ken'ichi, que precisa lidar com a perda da Kana.
A morte é um tema recorrente em Dennou Coil, a começar pelo Ken’ichi, que precisa lidar com a perda da Kana.

E vale dizer: quisesse o anime ter sido mais “leve”, diversas foram as oportunidades. Como eu disse, no começo pensávamos que o irmão da Amasawa estava em coma, não morto. E o Densuke sendo um programa de computador, não é difícil imaginar uma solução que permitisse recuperar seus dados, ou qualquer coisa do tipo. Mas ao invés de usar disso para dar um final que, admitamos, seria o mais feliz, a obra escolhe escolhe o caminho mais duro: e também o mais maduro. Priorizando ao seu tema e à mensagem que deseja passar, ao invés de, talvez, o que agradaria mais ao público. Porque, algumas vezes, as histórias não estão aqui para passar a mensagem que você quer ouvir, mas sim a que você precisa ouvir. E isso é válido qualquer que seja a classificação indicativa dessa história.

Já outro tema que merece alguma consideração é a relação entre o real e o virtual. Dennou Coil é, afinal, uma história de ficção científica. Embora, em uma nota lateral, eu provavelmente o classificaria mais como uma Fantasia Científica do que como uma Ficção Científica de fato. A um nível superficial, a tecnologia do anime certamente parece pender mais para a ciência, e chega mesmo a soar como profética. Sendo lançado em 2007, ele precede em aproximadamente 6 anos a primeira versão comercial do Googla Glass, e seria possível argumentar que algo como Pokemon Go em muito se aproxima da ideia geral de “realidade aumentada” que o anime possui. Mas vamos lá: esse ainda é um mundo no qual a separação entre o “corpo físico” e o “corpo virtual” faz a criança entrar em coma. E até que o Google Glass venha com um aviso de “pode causar a perda da sua alma”, eu acho que podemos concordar que, quando entramos nos detalhes, o anime se distancia um pouco da “ciência” em “ficção científica” [rs].

Na superfície, a tecnologia de Dennou Coil é sem dúvida bastante realista. Mas apenas na superfície.
Na superfície, a tecnologia de Dennou Coil é sem dúvida bastante realista. Mas apenas na superfície.

O que não é realmente nenhum demérito, exceto quando o anime tenta fazer a sua parte fantasiosa soar menos fantasiosa. Mais para o final, a tia do Ken’ichi despeja uma boa quantia do que eu só consigo entender como tecno-bla-bla-bla, que é quando a obra usa um monte de termos que parecem científicos para tentar explicar algo que claramente não tem nenhuma base científica real. Honestamente, para mim aquela cena foi muito mais distrativa do que qualquer outra coisa, e eu me pergunto se realmente foi melhor do que algo como “ainda não sabemos porque isso acontece” logo de cara. Mas eu reconheço que uma explicação do tipo talvez soasse em aberto demais, e no fim o que saiu foi uma tentativa bem intencionada de explicar o inexplicável da forma mais satisfatória possível (jogando um monte de termos que ninguém entende na esperança de que ninguém pergunte [rs])

Mas pondo de lado esse pequeno nitpicking para com o worldbilding do anime, voltemos à questão temática. Porque, para todos os efeitos, Dennou Coil é talvez um daqueles casos onde a obra se mostra ainda mais relevante do que quando foi produzida. A forma como essas crianças são incapazes de se desfazer dos óculos, até esquecendo que podem desligá-los (!), enquanto que a geração de seus pais mal os usa, em muito paralela com a situação atual dos computadores e smartphones. E é assustador o quanto a repercussão do atropelamento da Kana – que os jornais noticiam como culpa dos óculos – em muito se assemelha com as notícias que víamos sobre acidentes envolvendo Pokemon Go até algum tempo atrás. E claro, temos toda a discussão sobre a distinção entre o real e o virtual, com o amor de Yuuko pelo são cyberpet Densueke sendo o exemplo máximo da mensagem que o anime tenta passar desse aspecto.

Despedida de Yuuko e Densuke. Não é porque algo não é real, que nossos sentimentos por ele não são.
Despedida de Yuuko e Densuke. Não é porque algo não é real, que nossos sentimentos por ele não são.

Pegando nesse último ponto, até pela importância que ele tem para o desenvolvimento da personagem Yuuko, é interessante ver a conclusão à qual o anime chega. Densuke podia ser um animal virtual, um programa para todos os efeitos, mas isso não diminui a dor que sua perda causa na menina. Nós inclusive temos uma cena na qual a mãe da Yuuko tenta confortá-la, pedindo que ela se importe mais com coisas reais, coisas que ela possa tocar e sentir de verdade, apenas para a Yuuko, mais no final, perceber que também podia sentir o Densuke. Certamente é uma resposta bastante alegórica, e não acho que o anime quis igualar plenamente o real e o virtual. Mas acho que ele quis apontar que aquilo com o que nos importamos é decidido apenas por nós. Real ou virtual: nossos sentimentos por não são menos intensos só porque talvez não possamos tocar.

Mas deixando questões temáticas um pouco de lado, vale a pena dizer algumas palavras sobre a história. Isso porque Dennou Coil é um anime muito mais “plot driven“, ou seja, uma obra cujo foco está mais na sua história. Que sim: está ali desde o começo, mesmo que talvez não pareça. Os primeiros episódios de fato tem um enfoque maior em mostrar os personagens e explorar aquele mundo, mas pequenos indícios da trama maior já são espalhados aqui e ali bem cedo. Em fato, rever o começo do episódio 1 após ter visto todo o anime pode se mostrar uma experiência bem interessante, dado que ele já começa com a Yuuko estranhando um espaço obsoleto quando olha da janela do trem que chega à Daikoku, e, um pouco depois, quando a Yuuko está na estação telefonando para os pais, nós vemos as costas tanto da tia do Harake como do Nekome, personagens que só conheceríamos bem depois).

Nekome ao fundo, no episódio 1
Nekome ao fundo, no episódio 1

Mas conforme a história avança, a trama de fundo vai cada vez mais tomando o primeiro plano, e eu preciso apontar que ela é surpreendentemente bem amarrada. Sim, ela tem alguns problemas, e alguns elementos da cronologia ficaram no mínimo mal explicados (por exemplo, o espaço de tempo entre a morte do avô da Yuuko e o encontro dele com ela naquela parte mais profunda do ciberespaço simplesmente me parece curto demais para poder fazer sentido, a menos que estejamos assumindo que a morte, enterro e velório do homem acontecem num espaço de horas. Especialmente se a Amasawa viu a Yuuko dando um beijo na bochecha do seu irmão, coisa que o anime deixa bastante ambíguo e que apertaria ainda mais a janela de tempo se confirmado), mas como um todo ainda é uma história muito mais bem amarrada do que… bom… boa parte do que temos por ai. E justamente por isso ela é uma que faz um ótimo uso de reviravoltas no roteiro, com muitos twists que, honestamente, me impressionaram de forma bastante positiva, em boa parte porque eles eram anunciados há tempos, mas você ou não pegava a “dica” ou esquecia até a chegada do twist em si, o que fazia ele soar impactante ao mesmo tempo que crível.

Já com relação aos personagens, a coisa é um pouco mais complicada. Para todos os efeitos, essa é a história das duas Yuukos, Amasawa e Okonogui. “Yuuko to Yuuko” (“Yuuko e Yuuko”) é o título do episódio 3, que reverbera depois no do episódio final: Yasako to Isako (“A Menina Gentil e a Menina Corajosa”, em referência aos apelidos das duas garotas, um jogo com a leitura dos kanjis de seus nomes). E, de modo geral, elas são personagens bem construídas, bem definidas e bem desenvolvidas ao longo da história. E o mesmo eu poderia dizer do garoto Ken’ichi, o mais próximo de um “terceiro protagonista” que temos na trama. O problema está é com os demais personagens. Que fique claro: de forma alguma quero insinuar que eles são personagens ruins, e num geral eu os achei bem construídos para os propósitos da série. E personagens como a tia do Harake e a avó da Yuuko também receberam um bom enfoque. Ainda assim, num geral os secundários são bastante abandonados lá pelo terço final do anime, o que causa alguns problemas.

Yasako to Isako: essa é, afinal, a história das duas Yuukos.
Yasako to Isako: essa é, afinal, a história das duas Yuukos.

Por exemplo, no começo do anime, Fumie, Daichi e, mais para o meio, mesmo o Denpa recebem um bom tanto de atenção e foco, e mesmo iniciam sub-arcos próprios que, infelizmente, acabam não indo a lugar nenhum. Por exemplo, fica mais ou menos implícito que o Denpa poderia ser um Imago, dado que ele podia ouvir os sons saídos dos metabugs, mas isso é praticamente deixado de lado após o episódio do Illegal plesiossauros. E claro, temos a sub-trama da paixonite do Daichi pela Fumie (que, como toda boa personagem de anime, não a percebe mesmo que todos eu seu redor já tenham percebido…), que ao final do anime não leva a praticamente lugar algum. Acho que os criadores simplesmente não tiveram o tempo adequado para aprofundar mais nisso, e em qualquer caso teria sido estranho se todas as crianças passassem por um grande amadurecimento em seus… O que, 11 anos? Ainda assim, eu entendo se alguém ficar desapontado com a forma como os personagens são abandonados no final.

Ainda assim, para todos os pequenos defeitos que possa ter, Dennou Coil ainda me surpreendeu bastante positivamente, e olha que eu já fui para o anime com alguma expectativa. Não tanto aqui no Brasil, aparentemente, mas lá fora o anime tem um leve status de “clássico cult“, e foi bom ver que, ao menos dessa vez, a obra soube corresponder ao hype que eu tive [rs]. Personagens interessantes, temas bem trabalhados, uma animação fluida, trilha sonora fenomenal (que vale a pena escutar mesmo por si mesma, vale dizer) e uma narrativa muito bem amarrada, repleta de reviravoltas, Dennou Coil foi uma ótima experiência, e uma que eu recomendaria a qualquer um. Sim, eu sei: muitos acharão o anime bastante lento em seu começo, e eu vou admitir que algumas coisas demoram demais para serem explicadas. Mas ainda acho que é uma experiência que vale a pena ter. No mínimo, eu sei que eu gostei [rs].

Visite também: Facebook – Twitter – Youtube

Outros artigos que podem lhe interessar:

Review – Planetes

Anime e mangá são coisas de criança?

Sword Art Online – A Relatividade da Realidade e o Valor da Experiência

Imagens (na ordem em que aparecem):

1 – Dennou Coil, episódio 1

2 – Dennou Coil, episódio 1

3 – Dennou Coil, episódio

4 – Dennou Coil, episódio 1

5 – Dennou Coil, episódio 26

6 – Dennou Coil, episódio 1

7 – Dennou Coil, episódio 26

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s