Uma Breve Análise – Fate/Zero: Uma Tragédia

Fate/Zero
Fate/Zero

(Esta análise foi originalmente publicada na página do blog no facebook)

Antes de mais nada, eu preciso deixar avisado que o texto a seguir irá conter spoilers do final do anime Fate/Zero. Se você não viu o anime ainda e não quer saber como a história acaba, sugiro parar a leitura aqui. Embora… Esse é um anime que você talvez devesse saber o final de antemão.

Ao final de Fate/Zero, Emiya Kiritsugu finalmente alcança ao Santo Graal, o objetivo final do conflito envolvendo os sete magos e seus servos. Porém, em uma virada na história, descobre-se que o Graal está corrompido. Como consequência, Kiritsugu ordena à sua serva, Saber, que destrua o Graal. Após isso, porém, o que parece ser um imenso portal se abre nos céus, e desde desce uma substância que começa a devastar a cidade abaixo, matando sabe-se lá quantas pessoas.

Dizer que este é um final trágico talvez soe como óbvio, a princípio, mas a verdade não é assim tão simples. Bom, pelo menos a depender do que você entende por “trágico”.

O que eu vou falar agora talvez soe como uma surpresa, mas: finais trágicos não são comuns em animes. E eu sei que nesse momento o leitor deve estar pensando em uma dúzia de animes que já o fizeram chorar, mas a verdade é que provavelmente esses que você pensou não tem um final trágico, mas sim um que os americanos chamariam de “bittersweet”. Literalmente, “agridoce”.

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Fate/Zero

Finais desse tipo são aqueles que, apesar de não inteiramente positivos, também não são inteiramente negativos. Normalmente, aliás, o saldo final é positivo, ainda que triste. O final do anime de Madoka Magica sendo um bom exemplo: ainda que não inteiramente feliz, nem de longe, a situação geral da obra termina melhor do que como ela começou. Finais assim são, em essência, esperançosos, e fazem sentir que o sofrimento e os sacrifícios passados pelos personagens valeram a pena.

A tragédia de fato, porém, vai no sentido oposto. Peguem, a título de exemplo, talvez a mais famosa tragédia da antiguidade: “Oedipus Rex” (“Rei Édipo”, como a conhecemos em português) . Uma profecia que prenuncia a um rei que seu filho, Oedius, iria mata-lo e casar com a própria mãe, e é na tentativa de escapar a este destino que o rei coloca em marcha o próprio destino, que culminará com sua morte e seu filho se casando com a própria mãe (embora completamente ignorante do fato até perto do final da peça).

É uma obra que não tem lugar para a esperança, e que em última instância demonstra a futilidade de se tentar ir contra o destino. Ao tentar fazer o bem, Oedipus trouxe ainda mais desgraça, e o ponto aqui é justamente que sintamos pena daquele que sofre com a tragédia que, apesar de todas as boas intenções, ele mesmo causou. Soa familiar?

Tal como a de Oedipus, a história de Kiritsugu é a história do herói trágico, daquele que empreende uma luta fútil e termina, afinal, causando mais mal do que bem. Um final no qual o status quo geral da obra termina pior do que começou, eis aqui a efetiva essência da tragédia e o que a difere de um final apenas triste ou agridoce.

Mas há mais um elemento que vale a pena mencionar, e que é o principal responsável por aproximar Fate/Zero do espírito não da tragédia num geral, mas da tragédia grega em específico: o seu caráter de prequew.

Fate/Zero
Fate/Zero

Lançado em 2011, pelo estúdio Ufotable, o anime adapta a light novel de mesmo nome que serve de prequew à visual novel que inicia a franquia: Fate/Stays Nights. E que, o mais importante, adapta uma história diretamente ligada à de Stays Nights, onde nós vemos justamente, dez anos depois, algumas das consequências desse final de Fate/Zero.

Ponto é: para o leitor da light novel original, que teria jogado a primeira visual novel (e tecnicamente também para o espectador do anime, que teria assistido à adaptação de Stays Night de 2006, do estúdio Deen), o final de Fate/Zero já era anunciado, você já deveria saber como ele iria acabar, o que é também como funcionava, de certa forma, a tragédia grega.

As peças trágicas da Grécia antiga eram em sua maior parte baseadas em mitos e lendas já conhecidos pela população, então normalmente o público do teatro já saberia como a peça iria terminar. Não havia espaço para inovação, e o que tornava esta ou aquela tragédia melhor do que a outra era o quão bem o escritor e os atores conseguiam transmitir a história já familiar.

É por isso que no começo eu disse que você talvez devesse ver esse anime já sabendo de seu final. Ao vê-lo sem saber, o final pode soar abrupto, uma reviravolta forçada difícil de aceitar. Mas se você assisti-lo sabendo para onde a história vai, a futilidade do esforço dos personagens, que estão destinados a causar a efetiva tragédia que vemos ao final, se torna talvez bem mais aparente, e o final bem mais aceitável.

Não que este texto seja uma defesa de qualquer pretensa “ordem certa” de se assistir a franquia Fate – eu mesmo, aliás, assisti ao Zero sem saber nada, e num geral ainda gostei e entendi bastante da obra (e o que não entendi eu posso dizer que no mínimo Unlimited Blade Works não ajudou em nada a esclarecer, diga-se de passagem) -, mas antes foi apenas uma exploração do que me parece ter sido a ideia por trás da obra.

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