Criando um universo: considerações sobre mundos fictícios.

Refletindo sobre mundos fictícios.
Refletindo sobre mundos fictícios.

O que é preciso para criar um mundo? Ok, vamos por essa pergunta em contexto. Toda história, seja ela qual for, ocorre em algum cenário, seja ele qual for. Por vezes, esse cenário é bastante próximo da nossa realidade, quando não imitando-a diretamente. A Lawless Heaven do recente 91 Days, enquanto definitivamente não uma cidade real, é uma que perfeitamente poderia existir no nosso mundo, ao passo que animes de slice of life de estilo escolar, como K-ON! [review] ou Luck Star, por vezes ocorrem em localidades reais, que qualquer pessoa poderia mesmo encontrar em um mapa. Outras vezes, contudo, esse cenário é bem diferente. Seja o futuro próximo de Ghost In The Shell SAC, o distante futuro de Shin Sekai Yori [review], a secreta sociedade dos magos da franquia Fate, ou efetivamente um mundo que não tem qualquer relação com o nosso, como a Amestris de Fullmetal Alchemist, é para estes casos que eu dirijo aquela pergunta inicial. Quando o seu cenário é tão drasticamente diferente do nosso mundo, como você faz para ele parecer… Verossímil?

Bom, certo, vamos começar tirando isso do caminho: nem todo mundo fictício precisa parecer verossímil. A verdade é que isso vai depender muito do tipo de história que a pessoa deseja contar. O mundo de Kino no Tabi [review] faz pouco ou mesmo nenhum sentido, mas ele não precisa ser: como tudo no anime, o mundo de Kino no Tabi existe tão somente enquanto ferramenta para o autor transmitir as suas mensagens, então o chamado worldbilding é claramente secundário aqui. Vale mencionar, ainda, casos como Tenshi no Tamago [review] ou Aru Tabibito no Nikki, histórias mais focadas no quesito artístico da mídia do que no quesito narrativo, nas quais não faria se quer sentido esperar por um bom desenvolvimento de seu mundo. Mas vamos supor, por um momento, que o autor queira desenvolver o seu mundo, e fazê-lo soar o mais realista e verossímil possível, mesmo que talvez com suas particularidades mágicas ou tecnológicas. O que fazer? Bom… Vamos por partes.

Nem todo anime precisa ter um mundo bem desenvolvido, vide Kino no Tabi.
Nem todo anime precisa ter um mundo bem desenvolvido, vide Kino no Tabi.

Em primeiro lugar, o que eu vou falar pode parecer extremamente óbvio, mas é algo que eu vejo muitas histórias, muitas boas histórias inclusive, completamente negligenciarem: o mundo precisaria ser um mundo. Para ficar mais claro, peguem, por exemplo, o recente Re:Zero Kara Hajimeru Isekai Seikatsu. Até o episódio mais recente – 21, no caso – nós sabemos bem pouco de seu mundo no que tange à geografia. Em fato, as únicas duas localidades que nós sabemos existir são a capital do reino, a vila onde mora a garota principal, Emilia, e vagamente o trajeto que conecta ambos os pontos. Em fato, o único indicativo da existência de qualquer coisa que seja para além destas duas localidades, no que diz respeito a vida humana (A.K.A., outras cidades, vilas, etc.), é a existência de um grupo de mercadores itinerantes. Tirando isso, o mundo de Re:Zero é bastante… Reduzido.

Outro anime que cai nesse problema, ainda que um pouco menos que Re:Zero, é Fullmetal Alchemist: Brotherhood. Nós temos mapas de Amestris, então temos uma boa noção de onde cada vila e cidade no anime se relaciona com outras partes do país, mas também não vamos muito além disso. Sabemos da existência de Xing à leste, e de um país ao norte separado de Amestris pela muralha de Brigs, bem como eventualmente vemos mapas que mostram Amestris cercada pelo que podemos assumir serem outros países, mas ainda não fazemos ideia, por exemplo, de onde Amestris fica no globo terrestre, se é um país grande ou pequeno – ele parece pequeno, mas isso porque falta com o que comparar -, ou mesmo qual a sua relevância em termos de geopolítica. Ele possui aliados ao seu entorno? Como são suas relações econômicas com seus vizinhos e demais países?

Enquanto Amestris é até que bem definida em Fullmetal Alchemist, temos pouquíssima informação sobre o mundo externo.
Enquanto Amestris é até que bem definida em Fullmetal Alchemist, temos pouquíssima informação sobre o mundo externo.

Tudo isso pode parecer preciosismo de minha parte, mas é plenamente possível retratar como um país se relaciona e se posiciona em relação aos demais de forma devidamente orgânica dentro da narrativa. Magi: The Labyrinth of Magic é um bom exemplo, onde temos um mapa-múndi muito bem definido, bem como temos estabelecidas as formas como cada país se relaciona com os demais, seja a forma militar-expansionista de Kou, a parceria mercantil e econômica de Sindria, ou o isolamento voluntário de Magnostat. Claro, Magi tem a vantagem de que seus personagens estão em constante movimentação, viajando pelo mundo e por isso vendo seu funcionamento, mas não é necessário fazer isso para dar a impressão de que o país – ou vila, cidade, o que for – onde ocorre a história é parte de uma situação geopolítica maior.

Bom exemplo disso é a série Ghost In The Shell Stand Alone Complex. Ainda que não de forma constante, o anime faz importantes comentários da situação geopolítica do Japão de sua história, especialmente no que tange à ásia num geral. Além disso, episódios como aquele em que Kusanagi e Batou são chamados para investigar um caso no exterior são o suficiente para mostrarem que o Japão não existe sozinho naquele mundo, mas sim que ele pertence a todo um contexto maior. Tudo bem que, nesse caso, Ghost in The Shell possui a óbvia vantagem de já ter um mundo (em termos puramente geográficos, o globo terrestre mesmo) já definido: é o nosso mundo, e mesmo que décadas no futuro a sua geografia não mudou. O que só nos leva ao ponto que iniciou esse argumento: o mundo precisa ser bem definido – ou, vai, pelo menos vagamente indicado – tanto geograficamente como geopoliticamente.

Magi é um bom exemplo de um anime que sabe se aproveitar e exibir a vastidão de seu mundo.
Magi é um bom exemplo de um anime que sabe se aproveitar e exibir a vastidão de seu mundo.

Uma vez o mundo tendo sido devidamente estabelecido, outro fator importante é a ideia de diversidade. Agora, eu dividiria esse ponto em dois mais específicos: diversidade externa e diversidade interna. Novamente, um exemplo para explicar: uma das poucas coisas que me incomodam no worldbilding de Ginga Eiyuu Densetsu, mais conhecido no ocidente como Legend of The Galactic Heroes, é o fato de que todos os domínios da humanidade em todo o universo explorado estão sob o domínio de uma das duas super-potências em guerra: o Império Galático e a Aliança dos Planetas Livres. E isso é um tanto quanto difícil de imaginar. Digo, olhem para o nosso mundo: em toda a história humana não conseguimos chegar se quer perto de estabelecer um governo mundial, nunca. Não temos se quer um governo continental! A coisa mais próxima disso é a União Européia, e mesmo ela não apaga as identidades nacionais de cada um de seus membros e o coloca sob um governo único, então o que tornaria plausível assumir que isso poderia ser feito, digamos, em meia galáxia?

Claro, Ginga Eiyuu Densetsu não precisa de mais do que estas duas potências, dado que todo o ponto da série é uma crítica às formas de governo que cada uma encarna: a monarquia, e depois a ditadura populista, de um lado, e a democracia, do outro. Mas se um autor tiver a pretensão de fazer o universo de sua série soar o mais realista possível, uma substancial quantia de entidades políticas (países, nações, estados, impérios, etc.) certamente ajudaria. Eu poderia inclusive citar Magi mais uma vez esse aspecto, mas para não ficar repetindo exemplos em demasia, peguem então o exemplo do mundo de Evillious Chronicles, uma franquia multimídia que começou com musicas de vocaloid. Eu já fiz todo um artigo só apresentando a série em linhas gerais, então quem não sabe nada dela pode dar uma olhada ali, mas o ponto aqui é que o mundo dessa série é vasto, com vários países, suas próprias culturas, formas de governo, crenças religiosas e políticas, economia, e por ai vai.

Em Ginga Eiyuu Densetsu, a galáxia está dividida entre em duas potências.
Em Ginga Eiyuu Densetsu, a galáxia está dividida entre em duas potências.

Tudo isso é importante pois irá justamente dar o contexto geopolítico no qual o autor pode então encaixar o local onde a história se passa se encaixa. E quando em fim entramos nesse local, ai vem o meu segundo ponto: a diversidade interna. Nós tendemos a pensar países como homogêneos, como se todas as pessoas dentro dele compartilhassem a mesma cultura, as mesmas crenças, a mesma ideologia, a mesma língua, mas muitas vezes isso simplesmente não é verdade. Mesmo dentro de um mesmo país as pessoas podem ser drasticamente diferentes a depender da região, e desta vez Fullmetal pode nos dar o bom exemplo, com as distintas regiões de Amestris soando iguais o bastante para estarem baixo um único governo, mas diferentes o suficiente para não serem praticamente indistinguíveis.

Entretanto, diversidade interna vai também além da esfera cultural. Partidos políticos, associações, instituições, uma nação é composta por uma vasta – e por vezes bastante confusa e mal organizada – gama de diferentes esferas de poder e influência políticas. Nisso, Ghost In The Shell SAC é outro excelente exemplo, mostrando como as diferentes seções, enquanto baixo um mesmo governo, possuem jurisdições distintas, mas que por vezes podem se interpolar. O mundo é complicado, acho que esse é o ponto que eu quero traçar aqui. E quanto mais homogêneo e simples for um mundo fictício, menos verossímil ele tenderá a ser. Isso não significa que a historia obrigatoriamente precisa entrar em pormenores sobre a legislação de cada país, mas só de mostrar que o ambiente não é tão simples quanto parece já seria o suficiente. Isso é, aliás, algo que Evillious Chronicles também faz muito bem, mostrando as mais variadas instituições, associações, facções, religiões, e por ai vai, em seus vários países.

Evillious Chronicles é uma franquia extremamente competente em termos de lidar com o seu mundo.
Evillious Chronicles é uma franquia extremamente competente em termos de lidar com o seu mundo.

Por último – e sim, no final serão apenas três pontos – outro detalhe que é muitas vezes completamente ignorado: nenhuma nação, país, império ou instituição que for brota do absoluto nada. Tudo possui uma história, um ponto no qual passou a existir, e isso pode ser extremamente importante para a verossimilhança da obra. Por exemplo, um dos meus maiores problemas com o anime Ima Soko ni Iru Boku é com o seu antagonista, Hamdo. Ele governa a cidadela na qual se passa boa parte da história, mas age como seu típico tirano egocêntrico que não aguenta ser contrariado. Ele não demonstra nenhuma aptidão para governar, comandar ou administrar sequer a sua gaveta de meias, o que dirá uma nação. E ainda assim, ele está lá, no topo, seguido por todos ao seu redor. Como? Por que? A falta de um contexto torna bastante difícil de aceitar como verossímil uma situação como essa.

Drasticamente diferente é a situação, por exemplo, em Ginga Eiyuu Densetsu. Enquanto não dando grande diversidade espacial, o anime certamente dedica tempo considerável à história de seu universo. Ficamos sabendo como nasceu cada sistema político e porque, bem como temos uma boa noção de como cada governante chegou ao lugar em que chegou. Nesse cenário, mesmo que um inapto ou incompetente chegue a uma posição de destaque, a história faz o possível para que aquilo faça sentido (e, em fato, isso não só ocorre com frequência, como é parte integrante da crítica que a obra tece a ambos os sistemas de governo mencionados). E claro, saber o passado de uma dada nação pode ajudar na sua contextualização política no presente da história, explicando como atingiu as fronteiras que atingiu, de onde saíram suas relações de amizade ou inimizade com outras nações próximas, etc. Para não me estender muito, vou apensar adicionar aqui que tanto Magi quando Evillious Chronicles são bons exemplos disso.

Shin Sekai Yori é outro anime que soube detalhar bem a história de seu mundo.
Shin Sekai Yori é outro anime que soube detalhar bem a história de seu mundo.

E claro, não só o sistema político de forma geral, ou mesmo as relações geopolíticas de um país: a história do ambiente no qual se passa a série pode explicar crenças, instituições, costumes… Basicamente, pode explicar literalmente tudo o que forma uma civilização, e nisso dá uma maior profundidade àquele mundo. Todas as três obras citadas no parágrafo anterior – Ginga EiyuuMagi Evillious – são bons exemplos disso, mas um quarto que definitivamente merece menção é Shin Sekai Yori [review]. Se passando mil anos no futuro, a obra toma o cuidado de explicar com suficiente detalhe todo esse período que distancia o nosso tempo do tempo no qual se passa a história. E o fascinante aqui é que você consegue ver como muitos dos costumes, instituições, lendas, etc., possuem raízes profundas na história, e muitas vezes surgiram como uma reação a problemas passados, e mesmo que agora possam soar como danosas e perigosas, nós temos o contexto para saber que remover estes costumes ou instituições, por exemplo, poderia trazer enorme risco.

No final, todos estes três pontos – que poderiam ser resumidos em localização, diversidade e história – retornam ao que falei quando explicava o segundo ponto: o mundo é complicado. E um bom mundo fictício, ou pelo menos um mundo fictício mais realista e verossímil em seu funcionamento, é um mundo complicado. Claro, existem meios e meios de se transmitir isso, e não posso dizer que advogo os personagens sentarem por três episódios só pra conversarem sobre cada pormenor de seu ambiente. Em um livro, o mundo pode ser melhor explicado pelo narrador, enquanto que em mídias mais visuais, como o anime e o mangá, existem meios de você expor a complexidade de seu universo sem precisar interromper a história para falar dele. E é também como falei logo no começo: nem toda história irá exigir esse grau de detalhamento do seu mundo. Fora que outras questões também estarão em jogo, como a consistência nas regras do mundo, ou uma diversidade de cunho mais natural (terreno, clima, fauna, flora, etc), então não pensem nesse texto como uma lista que esgote o tema. Ainda assim, ficam então estas três nem-tão-breves considerações, e espero que elas ajudem o leitos a pensar um pouco mais sobre o que faz um mundo fictício parecer verossímil.

Outros artigos que podem lhe interessar:

O quanto uma história precisa explicar?

Review – Allison to Lillia

Lista – 5 Séries de Vocaloid que Valem a Pena Conferir

Imagens (na ordem em que aparecem):

1 – Allison to Lillia, episódio 1

2 – Kino no Tabi, episódio 1

3 – Fullmetal Alchemist: Brotherhood, episódio 10

4 – Magi: The Labyrinth of Magic, episódio 1

5 – Ginga Eiyuu Densetsu, episódio 2

6 – MOTHY, ft KAITO & Yuki – Handbeat Clocktower

7 – Shin Sekai Yori, episódio 4

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