Pensamentos soltos sobre o overexposure.

Vocês não cansam de só falar disso, não?
Vocês não cansam de só falar disso, não?

Popularidade é um fenômeno curioso. Em vários aspectos ela é, claramente, boa. Mesmo desejável, sobretudo considerando a nossa sociedade atual, onde o lucro determina o que continua e o que é esquecido. E na indústria do entretenimento, popularidade repercute em vendas, que servem de incentivo para continuações, merchandising, e toda sorte de novidades. Mas a popularidade também pode ser uma faca de dois gumes. Mais e mais eu tenho percebido que as pessoas parecem ter um limite de tolerância ao quanto estão dispostas a serem expostas a algo, mesmo que seja algo que elas talvez gostem. E quando passamos desse limite, atingimos o que em inglês normalmente se chama de overexposure. E o que uma vez talvez fosse legal e interessante vai se tornando comum, monótono, e, em dado momento, até enfadonho.

Sabe quando você descobre uma musica nova e escuta ela até enjoar? Isso é overexposure. Ser exposto a algo novo é legal no começo, mas justamente por ser algo novo. E depois de um tempo de exposição você simplesmente sente que já teve o bastante. O problema é que no mundo informatizado atual raramente é você quem decide quando teve o bastante. Então você cansou de Dragon Ball? Bom, azar o seu, todos os grupos de animes só falam dele. Já não aguenta mais ouvir Let it Go? Bom, ninguém liga, aqui mais 5 paródias diferentes. Acha que não aguenta mais ouvir a abertura de Shingeki no Kyojin? Haha, aqui mais 7 vídeos misturando a musica com a abertura de algum outro anime. Não suporta mais discussões sobre se Naruto é melhor que One Piece? Bom, feche os olhos, porque aqui estão mais 47 imagens dizendo que  Luffy vence o Naruto. Ponto é, está se tornando cada vez mais difícil “parar” com algo que se gosta, pelo menos quando esse algo é popular.

Já cansou da opening de shingeki no kyojin?
Já cansou da opening de shingeki no kyojin?

Obviamente, a coisa fica ainda pior se o overexposure é de algo que você não gosta em primeiro lugar. Não precisa nem ser algo que você inicialmente odeia: ser bombardeado com imagens, gifs, paródias, piadas internas, comentários e o que mais for possível existir sobre uma obra que você talvez só não achasse tão boa pode facilmente transformar até o mais tolerante num legítimo hater. Afinal, por que diabos as pessoas estão dando tanta atenção a algo que eu não acho assim tão bom? A frase pode soar sarcástica e cínica, mas nesse caso em específico ela é mais uma observação do que uma crítica de fato. Querendo ou não, essa é a impressão que fica. Por que as pessoas se importam tanto com algo que eu simplesmente não consigo me importar? O que há de bom nessa obra ao ponto das pessoas a tratarem como se fosse a melhor do mundo?

Obviamente o problema só aumenta quando você tenta assistir ou ler a obra em questão e descobre que ela não é a melhor coisa do mundo. Porque, aqui uma pequena observação: nada é tão bom ou tão ruim quanto a internet faz parecer. O difícil é ter isso em mente quando você vai assistir um anime que todo mundo fala ser o melhor anime já feito. Eu sei muito bem que boa parte do meu desgosto por Neon Genesis Evangelion vem de como as pessoas falavam dele, tratando-o como uma das melhores coisas já saídas do Japão. E… Ok, ele tem seus acertos e seus erros, mas definitivamente não é tudo o que dizem. Mas é difícil você completamente se desligar do hype, ignorando a massa que diz o quanto este ou aquele anime é bom. O problema é que chega um ponto no qual o hype é tão grande, e isso cria no espectador uma expectativa tão grande quanto, que seria praticamente impossível para qualquer obra corresponder. E quando a obra não corresponde, vem a decepção, o que só reforça todas as perguntas que eu mencionei no parágrafo anterior.

É difícil não ser afetado de alguma forma pelo hype quando se assiste a uma obra muito famosa.
É difícil não ser afetado de alguma forma pelo hype quando se assiste a uma obra muito famosa.

E claro, isso cria também uma espécie de sentimento de injustiça. Afinal, por que todo mundo só sabe falar daqueles animes que você vê serem lotados de problemas, mas ignoram aquelas obras que você considera verdadeiras obras primas? Guardadas as devidas proporções, Doug Walker, encarnando ao personagem Nostalgia Critic, publicou algum tempo atrás em seu site um interessante editorial comentando sobre uma briga que parece ter surgido entre fãs de Frozen e fãs de Tangled, ambos filmes relativamente recentes da disney. E, surpresa, um dos pontos que ele levanta é justamente como as pessoas parecem ter esse sentimento de injustiça para com Tangled, um filme que, embora de forma alguma desconhecido, não chegou nem perto do sucesso estrondoso que foi Frozen. Nenhum dos dois são filmes ruins de fato, mas um receber tanta atenção enquanto o outro vai sendo esquecido é algo que parece ter incomodado algumas pessoas.

Interessantemente, o mundo dos animes tem uma versão quase idêntica dessa discussão: Sword Art Online contra Accel World. Ambos são obras do exato mesmo autor, mas a cada nova entrada na franquia de SAO parece surgir alguém para dizer algo como “porque não largam essa porcaria de SAO e vão fazer uma nova temporada de Accel World?” Obviamente, o que está em jogo aqui é um sentimento de injustiça, de favorecimento de um sobre outro que a pessoa considera ser muito melhor. Uma espécie de “efeito underdog“, algo que aliás já foi estudado mesmo cientificamente: as pessoas parecem ter uma certa predisposição por torcer pelo que tem menos chances. Nós queremos um mundo justo, com iguais oportunidades e visibilidades, e isso vai desde grupos sociais até desenhos animados. E quando um anime ganha fama em detrimento de outros até melhores, é normal que alguns comecem a se perguntar “mas por que as pessoas estão tão obcecadas com essa porcaria?!”

Por que tantas temporadas de Sword Art Online e nenhuma continuação decente para Accel World? Bom, porque um é mais popular que o outro.
Por que tantas temporadas de Sword Art Online e nenhuma continuação decente para Accel World? Bom, porque um é mais popular que o outro.

E admita, você já pensou algo parecido pelo menos uma vez. Seja com algum anime, seja com futebol, novela, alguma banda ou cantor, algum estilo musical, alguma série de livros… Todo mundo já revirou os olhos com alguma moda, tendência ou costume que você simplesmente não conseguia entender. E sim, eu definitivamente me incluo nessa: estaria mentindo se dissesse que não reviro os olhos a cada nova discussão sobre Dragon BallNaruto, One Piece, Death NoteFairy Tail, e semelhantes. Não que eu ache esses animes ruins – eu nunca os vi, para começo de conversa -, mas me incomoda como eles recebem toda a atenção, enquanto animes que eu considero serem excelentes são praticamente desconhecidos.

É um problema comigo? Talvez. Provavelmente em parte, pelo menos. Mas eu definitivamente acho que falta variedade no meio otaku, o que chega a ser ridiculamente irônico, quando você considera que a cada três meses sai entre 20 e 50 animes novos. Em fato, chega a ser surpreendente o quão pouco alguns otakus se aprofundam na própria mídia. A coisa é tão feia que eu já vi listas de “animes que você precisa conhecer” incluírem coisas como Kill la KillBoku Dake ga Inai Machi, e, pasmem, Sword Art Online. É, apenas pense sobre isso por um segundo. E tudo bem, ninguém precisa conhecer tudo, isso é óbvio. Mas quando ninguém parece conhecer nada que não aquela meia duzia de animes ultra-populares o overexposure está fadado a continuar como um problema.

Quando algo como Kill la Kill começa a integrar listas de "animes desconhecidos" ou "que você precisa conhecer" é porque a coisa ta feia.
Quando algo como Kill la Kill começa a integrar listas de “animes desconhecidos” ou “que você precisa conhecer” é porque a coisa ta feia.

Mas claro, o overexposure não se limita às obras em si. Clichês são outro território bastante propensos a causar esse efeito. Eu não vou mentir, depois de algum tempo a piada do rapaz acidentalmente ver a menina se trocando e acabar apanhando por isso simplesmente perde a graça. Fora que após tantos exemplos nos quais personagens a beira da morte foram salvos no último minuto, se tornou difícil para mim acreditar na morte de praticamente qualquer personagem importante, ao menos antes do final do anime ou mangá. E se me decepcionei com o Subaru não ter namorado com a Rem, em Re:Zero, foi tão somente pelo fato do anime não conseguir se desvencilhar do velho clichê do garoto ficar com a “main girl” da obra. Ponto é: depois de ver os mesmos clichês repetidos à exaustão, é difícil se animar quando uma obra os usa ainda mais uma vez.

Claro, alguns animes sabem como utilizar seus clichês e ainda sair algo interessante. Eu arriscaria dizer que Boku no Hero Academia não fez absolutamente nada de novo em todos os seus 13 episódios da sua primeira temporada, mas ainda assim foi talvez um dos animes que mais me empolgou nesse ano. E sim, isso também é bastante pessoal: existem clichês que só são clichês porque as pessoas gostam, e não veem o menor problema em vê-los repetidos aqui e ali (pelo contrário: elas querem isso). Não acho que haja um certo ou errado nesse ponto, mas eu definitivamente consigo entender quem reclama que “os animes estão todos iguais”. Quanto mais obras em uma mídia você vê, mais difícil se torna achar algo que te surpreenda, o que em casos extremos pode até fazer uma pessoa abandonar o hobby.

Se bem utilizados, clichês podem trazer ótimos resultados. Boku no Hero Academia não fez nada que pudesse ser considerado "novo", e ainda assim é um excelente anime.
Se bem utilizados, clichês podem trazer ótimos resultados. Boku no Hero Academia não fez nada que pudesse ser considerado “novo”, e ainda assim é um excelente anime.

Mas de longe o momento em que o overexposure pode ser mais danoso é no caso de certas discussões, com o exemplo mais recente que eu consigo pensar sendo as discussões sobre machismo no mundo geek/ nerd/ otaku. Não entendam mal, eu sou totalmente a favor de discutirmos temas assim, mas eu estaria mentindo se dissesse que não reviro meus olhos a cada novo texto no assunto que cai no meu colo. Não por desgosto ao tema em si, mas porque raramente se fala qualquer coisa nova dentro dele. São quase sempre os exatos mesmos argumentos, repetidos ad nauseam de tal forma que só me fazem pensar naquela velha frase atribuída (erroneamente, diga-se de passagem) a Eisntein: “loucura é fazer a exata mesma coisa de novo e de novo, esperando resultados diferentes”.

E sim, o exato mesmo pode ser dito aos contra-argumentos normalmente usados. Fato é que esta é uma discussão engessada e empacada, de tal forma que já se tornou tão cansativa quanto discussões de qual anime é melhor: Naruto ou One Piece. E por conta disso, um debate interessante, mesmo necessário, acaba recebendo as mais diversas reações negativas possíveis, provavelmente de gente que também já está enfadada de ver a mesma coisa de novo e de novo (mas que não se cansam de discutir sobre Naruto, diga-se de passagem. Notem como o overexposure pode ser bastante seletivo, mesmo sem nem nos darmos conta).

A solução para tudo isso? Ah, quem me dera ter uma. Mas… Em momentos assim, quando penso sobre essas questões, não posso deixar de lembrar de uma das frases ditas pelo personagem Ego, no filme da Pixar  Ratatouille. A fala sai da review que Ego escreve ao final do filme, e diz respeito à natureza do trabalho do crítico. Mesmo assim, e guardadas as devidas comparações, acho que a frase é ideal para encerrar esse texto: “o novo precisa ser incentivado”.

Agora, normalmente, aqui eu deixaria os links para alguns outros artigos, mas desta vez vou fazer diferente.

Se, assim como eu, você já está cansado da mesmisse que tomou conta do meio otaku, e quer um espaço onde possa discutir mais sobre assuntos e obras que saiam do senso-comum, entre no grupo linkado abaixo. É a mais nova iniciativa da Blogosfera Otaku BR, uma congregação de blogs que espera com isso, justamente, criar um espaço que favoreça a interação, discussão, debate e divertimento de todos.

Vem fazer parte desse novo meio: Otakusfera – Animes, Mangás e Quejandos.

Imagens (na ordem em que aparecem):

1 – Posteres de divulgação de Dragon Ball Z, One Piece e Naruto

2 – Shingeki no Kyojin, episódio 1

3 – Neon Genesis Evangelion, episódio 22

4 – Accel World, episódio 24

5 – Kill la Kill, episódio 1

6 – Boku no Hero Academia, episódio 1

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