Uma Breve Análise – Kaiba: Design Como Mensagem

Kaiba
Kaiba

(Esta análise foi originalmente publicada na página do blog no facebook)

Kaiba, uma produção original de 2008 do estúdio Madhouse, certamente figura entre os animes com os designs mais únicos que eu já vi. Claramente inspirado no estilo cartoon americano, mas usando dele para construir uma história altamente provocativa e que instiga a reflexão, desde que eu vi a prévia do anime eu me perguntei qual o motivo de usar aquele traço.

Claro, a razão bem poderia ser “porque sim”. Não nego que nós, como espectadores, estamos um tanto quanto acostumados demais a um tipo bastante específico de design, e que qualquer artista pode – intencionalmente ou não – se desviar desse design “genérico” de “anime” sem precisar realmente dar qualquer satisfação. Isso dito, eu acho que existe alguma coisa por trás do caso de Kaiba.

No universo de Kaiba, as memórias de uma pessoa – e aparentemente mesmo a sua própria consciência – podem ser transferidas para um chip, que pode então ser passado de corpo a corpo. Essa é a própria premissa da série, que de certa forma já denuncia um ponto a ser levantado: a distinção entre o natural e o artificial.

Isso nunca é explicitamente dito, mas os corpos humanos para os quais os chips são transplantados, enquanto certamente artificiais, parecem não ser exatamente robóticos nem nada do tipo (bom, na maioria dos casos). Em fato, eles parece ser, de alguma forma, orgânicos. O que cria uma situação de algo que soa artificial e natural ao exato mesmo tempo. E, de certa forma, o exato mesmo pode ser dito do universo do anime.

Kaiba
Kaiba

Viajando de planeta em planeta, ao menos nos primeiros episódios, nós vemos mundos nos quais o natural e o artificial parecem quase indistinguíveis. Tecnologia e natureza se mesclam de tal forma que muitas vezes é difícil dizer onde começa um e onde termina o outro. O próprio planeta do protagonista sendo um bom exemplo, seu “núcleo” sendo o planeta original – natural – e sua “crosta” sendo uma imensa redoma artificial construída em volta do planeta.

Obviamente, o mesmo pode ser dito do design dos próprios personagens, no caso com o melhor exemplo talvez sendo o design da garota Neiro. Em particular, me refiro à sua “calça”, da qual partem duas pernas enormes quando ela bem deseja. Fica bem claro no anime, por puro contexto, de que isso é um aparato tecnológico, mas ainda assim sua aparência é muito mais a de algo mais orgânico.

O interessante é que tal mescla entre natural e artificial seria extremamente difícil, isso para não dizer completamente impossível, com um traçado mais realista. Nesse ponto, esse design mais cartoon  certamente ajuda na hora de levantar, mesmo que de forma bastante sutil, o tipo de questionamento sobre as relações entre o natural e o tecnológico que o anime deseja passar.

É um bom exemplo de como é possível transmitir – ou pelo menos enriquecer – a mensagem que se deseja passar apenas com o uso do visual. E Kaiba nem de longe é o único anime a fazer isso, apenas quis usá-lo como exemplo por ainda estar fresco na minha memória. Então da próxima vez que um design de personagem ou de cenário incomodar a você, tente se perguntar porque o autor escolheu aquele design em primeiro lugar. Você provavelmente ainda vai continuar achando ele bem estranho, mas talvez agora de uma forma um pouco mais positiva.

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Imagens: Kaiba, episódio 1

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