Alguns pensamentos sobre animes de viagem.

Hatenkou Yuugi, um anime no qual a protagonista é literalmente jogada em uma viagem.
Hatenkou Yuugi, um anime no qual a protagonista é literalmente jogada em uma viagem.

Antes de mais nada, eu acho justo já colocar que eu não planejo chegar a nenhum tipo de conclusão aqui neste texto. O que eu quero, aqui, é tão somente tecer alguns comentários sobre um tipo relativamente específico de história que eu tenho enorme apreço por: as histórias de viagens. Isto é, animes cujo foco – total ou parcial, como no caso de um arco ou saga, por exemplo – é o de ter os seus personagens viajando pelo mundo que habitam. E claro, entendam “mundo” aqui de forma bastante ampla, podendo ser desde um país, como a viagem através do Japão em Katanagatari (review), até literalmente o próprio universo, como em Kaiba. O importante é ser uma viagem. O vagar de um ponto a outro, muitas vezes sem um objetivo claro, visitando diversos locais, conhecendo diversas pessoas. Diria que existe algo de… especial, talvez, nesse tipo de história.

Odisseia, obra seminal da literatura ocidental, junto da Ilíada, é a história da viagem de Odisseu, desde Troia, após a guerra, até a sua cidade natal, em Ítaca, após passar por uma série de localidades. No oriente, já comentei em um texto anterior como Gilgamesh, antigo herói sumério, empreende uma jornada em sua busca pela imortalidade, e poderia citar também como Gautama, antes de se converter no Buda, viajou pelas mais variadas regiões da Índia, aprendendo e falando com sábios, reis, e outras tantas pessoas. Voltando ao ocidente, relatos de viagem foram se tornando cada vez mais populares conforme avançamos na Idade Média, e na Idade Moderna a época dos Descobrimentos trouxe ainda mais material para histórias sobre terras longínquas, habitadas por povos estranhos e criaturas ferozes. E em 1759 Voltaire lança seu satírico e cínico Cândido, ou O Otimista, no qual o personagem título faz uma verdadeira viagem pelo mundo ocidental, atravessando Europa e Américas. Isso, claro, sem esquecer da famosa obra de Julio Verne, Volta ao Mundo em 80 Dias.

Nos animes, One Piece é possivelmente o mais famoso exemplo de uma obra que lida com a ideia de viagem pelo mundo.
Nos animes, One Piece é possivelmente o mais famoso exemplo de uma obra que lida com a ideia de viagem pelo mundo.

Dizem que em uma viagem o importante não é o destino, mas a jornada. E essa máxima certamente guarda alguma verdade em praticamente todos os exemplos que citei acima, além de em uma infinidade de outros, animes inclusos. Kino no Tabi (review), MushishiHatenkou no Yuugi, mesmo, talvez, One Piece: onde iremos chegar em nossa jornada não é o ponto, mas sim todo o processo que empreenderemos até chegar lá. Isso dito, essa não é, de forma nenhuma, uma característica única deste tipo de história. Em fato, essa máxima da importância da jornada pode ser aplicada, com os devidos ajustes, a praticamente qualquer cenário. É a Jornada do Herói de Campbell, que também já discuti em um texto anterior, que descreve um processo de saída do “mundo comum”, o local onde impera um dado status quo, jornada através do “outro mundo”, figurativo ou literal, e regresso desse outro mundo com o poder ou conhecimento para mudar o mundo comum inicial.

É durante a jornada, durante esse processo de ida ao e retorno do “outro mundo” que ocorre, normalmente, todo o desenvolvimento do personagem central, toda a sua mudança. E algumas obras já citadas fazem isso muito bem. Katanagatari é a jornada de Shichika para se tornar efetivamente humano, ao invés de apenas a espada que ele foi criado para ser. E em Kaiba todo o primeiro arco do anime serve para que o protagonista entenda mais sobre si mesmo e o seu papel naquele universo, após ter perdido todas as suas memórias. Mas de novo, praticamente qualquer história mostrará o desenvolvimento de seus personagens ao longo de sua trama, isso de forma alguma é específico de histórias de viagem. Então vamos falar um pouco do que é talvez não único a esse tipo de história, mas no mínimo bem mais fácil e costumeiro de se fazer nele.

Uma jornada sem rumo, em busca de 12 espadas. A "História das Espadas", Katanagatari.
Uma jornada sem rumo, em busca de 12 espadas. A “História das Espadas”, Katanagatari.

Kino no Tabi é, sem sombra de dúvidas, o meu anime favorito, e deve continuar a ser por ainda um bom tempo. E o que eu gosto tanto nele é justamente o quão profundo, provocativo e questionador o anime consegue ser. Cada episódio deixa o espectador pensando em uma série de coisas, e não no sentido de pensando sobre o que irá acontecer a seguir na história, ou sobre o significado por trás de algum mistério a ser revelado no futuro da trama. Kino no Tabi é episódico, não possuindo qualquer arco maior ou história de fundo. É tão somente uma garota e sua moto viajando pelo mundo. Então o que o anime faz o espectador pensar não é sobre o futuro, conjecturando os rumos da história ou qualquer coisa do tipo, mas antes o passado, refletindo sobre o que você acabou de ver, e que tipos de mensagens o autor esperava passar com aquele episódio. E claro, se você mesmo concorda ou não com aquelas mensagens.

E parte do que permite Kino no Tabi ser assim tão provocativo é o fato de ser um anime de viagem. É o fato dele não ser sobre absolutamente mais nada que não uma garota e sua moto viajando. É por ele ter essa estrutura que cada episódio pode tratar de um assunto diferente, de um questionamento diferente, de uma moral diferente. O que é muito, muito difícil de se fazer em uma obra que possua uma narrativa maior, ou que precise se prender a um determinado grupo de personagens com características bem definidas. Isso de forma alguma é dizer que um anime não pode ser provocativo e tocar em uma série de questões diferentes enquanto tendo uma história maior ou limitando o seu cenário a uma localidade, e animes como Gatchaman Crows (review) e Ghost In The Shell SAC estão ai para provar. Mas eu quero dizer que é muito mais difícil fazer isso dentro destes moldes, sendo inclusive ainda mais difícil de o fazer com a mesma diversidade de temas que Kino no Tabi consegue.

Você já teve vontade de sair em uma viagem?
Você já teve vontade de sair em uma viagem?

Quanto mais “sólido” for um anime – e por “sólido” aqui eu quero dizer um dado cenário muito bem definido, um grupo relativamente monolítico de personagens principais e secundários, uma trama a ser desenvolvida de forma linear e progressiva, etc. – também mais pontual tenderá a ser a sua mensagem. Já um cenário mais “fluido”, onde personagens e localidades estão em constante mudança, é mais fácil para o autor apresentar uma gama muito mais variada de temáticas. Obviamente, ser mais fácil não significa que toda obra do tipo o irá fazer, e nisso Katanagatari é um bom exemplo, com a maioria de seus temas sempre retornando à questão central de “o que nos torna humanos”. Ainda assim, as possibilidades estão ali, mesmo que o autor talvez não queira usá-la.

Mas para além de uma maior gama de temáticas e mensagens, outro elemento que me parece interessante nesse tipo de obra é a questão da alteridade. Do encontro com o “outro”, com uma vasta gama de personagens representando diversos pontos de vista, diversos arquétipos, talvez diversas culturas, formas de viver, e por ai vai. Algo que pode ser muito difícil de se conseguir em outra forma narrativa. Sim, você pode ter personagens com pontos de vista diferentes, e isso de fato ocorre na vastíssima maioria dos animes. Mas personagens com diferenças culturais? Ou com ideologias diferentes por conta de suas diferenças culturais? Todo episódio? De novo, não é uma questão de ser impossível ocorrer em uma estrutura mais “sólida”, é só que é muito mais fácil de ocorrer em uma mais “fluida”.

O encontro com as mais diversas culturas é uma das facetas mais interessantes de Kino no Tabi
O encontro com as mais diversas culturas é uma das facetas mais interessantes de Kino no Tabi

Como já falei bastante de Kino no Tabi, peguemos desta vez o anime Kaiba como exemplo. No anime, o cenário é o de um mundo no qual memórias podem ser armazenadas e então transferidas de um corpo para outro, de forma que as pessoas possam viver para sempre. E o nosso protagonista, Kaiba, é alguém que perdeu as suas memórias, e que após uma série de eventos no primeiro episódio embarca em uma verdadeira jornada através do universo. Agora, diferente de KinoKaiba se foca na viagem episódica por apenas metade da série, e então desenvolve uma trama mais bem fechada. Mas todo o ponto dessa primeira metade é de mostrar como é aquele mundo e, mais importante, como vivem as pessoas daquele universo, e que tipo de implicações as novas tecnologias trouxeram. E é interessante ver o quão humanos são esses personagens, especialmente considerando as enormes diferenças corporais.

De certa foma, a própria escala de Kaiba já bem ilustra o que esse tipo de anime pode passar no que diz respeito à questão do encontro com o outro. Uma viagem pelo universo, de planeta a planeta, encontrando uma miríade de pessoas diferentes, em mundos inteiramente diferentes uns dos outros, com opiniões, preocupações e levando vidas completamente distintas, mas que ainda assim, em última instância, ainda guardam em si algum semblante do que nós talvez genericamente chamaríamos de “humanidade”, de forma que por mais diferentes que sejam de nós mesmos nós ainda conseguimos, como espectadores, nos identificar um pouco com aqueles personagens. E reforço, Kaiba é apenas um exemplo: outros animes com estrutura similar são capazes do exato mesmo.

Em Kaiba, todo o primeiro arco do anime é dedicado ao personagem vagando sem rumo pelo universo, de planeta a planeta.
Em Kaiba, todo o primeiro arco do anime é dedicado ao personagem vagando sem rumo pelo universo, de planeta a planeta.

Como eu disse logo no começo, eu não planejo chegar a qualquer tipo de maior conclusão com todo esse texto. Até porque eu acho que não existe algo a ser concluído aqui, em primeiro lugar. Eu só queria mesmo jogar alguns pensamentos a respeito desse modelo de narrativa (ou dessa estrutura narrativa, como preferirem), que é um modelo que eu gosto bastante e que vejo bastante potencial em qualquer anime ou mangá que se proponha a segui-lo, justamente por isso. E é um modelo, aliás, bastante único dos animes, em termos de mídias áudio-visuais. Sim, como eu disse, a ideia de seguir uma viajem ou jornada já é bastante antiga, remontando literalmente até a antiguidade. Mas pondo livros de mitos de lado, qual foi o último filme que você viu com essa estrutura? De termos um ou mais personagens simplesmente andando por ai? E que tal um seriado?

Eu sinceramente não consigo pensar em nenhuma obra áudio-visual ocidental que seja parecida com Mushishi ou com Kino no Tabi, e não a toa. De forma geral, seriados tendem a seguir a fórmula do drama ou do mistério episódico, a exemplo de séries como CSIHouse ou Law and Order, ao passo que os famosos sitcoms americanos seguem a linha de uma comédia que se passa, muitas vezes, em uma única casa ou escritório. Um filme até poderia colocar seus atores para viajar para várias localidades, mas fora a questão “quando foi a última vez que fizeram um filme só sobre viajar pelo mundo encontrando outras pessoas” (e uma nota curiosa: As Crônicas de Narnia: A Viagem Do Peregrino da Alvorada era para ter sido assim, do pouco que sei sobre o livro original, mas o filme acabou adicionando uma trama de fundo para que a narrativa não fosse apenas isso) existe também a questão de tempo: mesmo um épico de três horas de duração ainda não conseguiria uma mesma variedade temática que treze episódios de meia hora conseguem atingir, para novamente usar Kino no Tabi como exemplo.

É difícil pensar em uma obra ocidental semelhante a algo como Mushishi, por exemplo.
É difícil pensar em uma obra ocidental semelhante a algo como Mushishi, por exemplo.

E claro, restam os desenhos animados, que apesar de tudo ainda normalmente se mantém presos a um cenário em específico, com Ben 10, o desenho original, talvez sendo o que mais se aproximou de uma história de viagem (e ainda assim sendo uma história de ação e aventura de muito, muito mais fácil digestão do que algo como Kaiba ou Mushishi, dado o seu público alvo). O que, de certa forma, bem demonstra aquela que é talvez a maior especificidade dos animes frente a outras mídias: a sua abertura para os mais variados tipos de história, inclusive aquelas mais introspectivas e reflexivas. Obvio: eu de forma alguma quero insinuar que apenas animes que seguem esse modelo são introspectivos ou questionadores, de forma nenhuma. Mas são, me parece, os mais propensos a serem, daí eu ter escolhido fazer um texto só sobre eles.

Histórias sobre viagens apelam para o nosso senso de maravilhamento, e para a nossa curiosidade pelo exótico, não a toa os diários de viagens foram tão populares na Europa da Idade Moderna. Mas talvez justamente por isso, por exporem o quão diversificado, diferente e “estranho” pode ser o mundo – seja esse mundo o “real” ou um completamente inventado – é quase impossível que essas histórias não nos levem a refletir sobre esse mundo, e sobre as diferentes culturas, ideologias, povos, ideias e costumes espalhados por esse mundo. De certa forma, são histórias que atingem ao nosso próprio ego, nos obrigando a perceber que a forma como nós fazemos as coisas não é a única forma possível. E são, como já falei à exaustão neste texto, obras que possibilitam a abordagem de toda uma miríade de temáticas e questionamentos. Então da próxima vez que estiver procurando o que assistir, considere dar alguma atenção para aquele anime sobre alguns personagens andando por ai ai: é bem possível que ele valha a pena o seu tempo.

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Kino no Tabi – Relativismo Cultural: Descritivo, Normativo e Epistemológico

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Imagens (na ordem em que aparecem):

1 – Hatenkou Yuugi, episódio 1

2 – One Piece, episódio 1

3 – Katanagatari, episódio 1

4 – Kino no Tabi, episódio 1

5 – Kino no Tabi, episódio 1

6 – Kaiba, episódio 1

7 – Mushishi, episódio 1

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2 comentários sobre “Alguns pensamentos sobre animes de viagem.

  1. Em relação ao tema da postagem, não sei se já conhece ou tem costume de ler mangás, mas recomendo fortemente Milk Closet (de Tomizawa Hitoshi), que se trata de uma viagem por universos, planetas diferentes, por assim dizer. É mais sobre esquisitices e busca de volta para casa do que propriamente o prazer do encontro. É um olhar curioso sobre o universo (aliás, você citou Kaiba, mas não Cowboy Bebop ou Space Dandy – talvez por serem mais focados no humor?).

    Mas, especialmente, Journey to the End of the World. É incrível o que o autor faz em apenas um volume. As viagens, o que o personagem encontra pelo caminho, as lições e o que ele encontrou no fim do mundo. Tem esse quê de Mushishi, no entanto, o protagonista não é colocado como coadjuvante, e sim como o elemento central em qualquer dos encontros durante sua jornada, o que o deixa bem mais próximo à Kaiba, inclusive na densidade do existencialismo que impregna todos os seus passos. É uma obra única e penso que um dos melhores exemplos de como qualquer jornada do herói é um processo de autodescoberta do próprio individuo, que procura se encontrar – ou a algo.

    Curtido por 1 pessoa

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