Review – Arete Hime (Anime)

Arete Hime
Arete Hime

Contos de fadas já existem há um bom tempo, e devem continuar existindo por ainda outro tanto. Contudo, o único motivo pelo qual isto é verdade é por conta do forte caráter adaptativo destas histórias. O tempo passa, as culturas mudam, as pessoas mudam, e, finalmente, as histórias mudam. Arete Hime é, poderíamos dizer, um conto de fadas moderno, em sintonia com o mundo tal como ele é hoje. Neste sentido, é preciso, em primeiro lugar, ter em mente o público ao qual esse anime se dirige. É o público dos contos de fadas, afinal, e o filme certamente merece a classificação indicativa de “livre para todos os públicos”. Mas seria ingênuo, isso para não dizer injusto, considerar essa obra como apenas mais um desenho para crianças. Primeiro porque, como já coloquei em outros textos, é bastante preocupante a ideia que as pessoas tem de que algo ser para crianças o torna automaticamente ruim (uma ideia que, aliás, muito nos diz ao que estamos dispostos a expor as crianças). Mas em segundo lugar porque, para quem ainda não percebeu, ser “livre para todos os públicos” significa ser uma obra para toda a família: maiores inclusos.

Lançado em 2001, o filme é uma produção que aproximadamente 1h45min do estúdio 4ºC, com direção de Sunao Katabuchi. A história é inspirada em um conto de 1983, intitulado The Clever Princess, de Diana Cole. No anime, Arete é uma princesinha que deve passar seus dias em seus aposentos no castelo de seu pai, esperando pelo homem valente que prove ser capaz de a desposá-la. A menina, porém, claramente não está nada satisfeita com seu papel nesse sistema. E se essa premissa lhe parece familiar, relaxe: a obra sabe muito bem dar um tom único a este tema. É uma obra bastante introspectiva e calma, sem grandes aventuras ou contendas, o que é bastante raro quando imaginamos um filme infantil. Mas justamente por isso, é também uma obra que não subestima a sua audiência, o que, em face de alguns dos desenhos atuais, talvez seja ainda mais raro. Em adição, a forma como o anime subverte e mesmo desconstrói alguns dos clichês mais comuns dos contos de fadas fez com que o filme fosse recebido como uma obra feminista por excelência, e eu certamente consigo ver de onde viria tal afirmação. Isso dito, para falar mais eu precisarei entrar em spoilers, então já deixo aqui o aviso. Se você ainda não viu o filme, vale a pena. E no mais, vamos à review.

A princesa Arete.
A princesa Arete.

Agora, eu quero começar essa review falando de um elemento em particular da obra: a sua ambientação. Isso porque o anime é uma representação até que bastante fiel e precisa do que seria uma cidadela medieval. Por exemplo, a mesma é claramente separada em três porções: uma central, mais alta, onde ficava o castelo, protegido por uma muralha; uma mais baixa, também protegida por uma muralha, onde ficava a cidade propriamente dita; e uma terceira parte para além das muralhas, onde ficam os campos agrícolas que provêm o sustento da região. Outro exemplo: os trabalhos manuais mostrados logo no começo do filme, como olaria, vidraria e tinturaria, todos os quais ofícios passados de geração em geração, e o anime até faz uma rápida menção a uma guilda de tecelões. Mas o elemento que eu estou mais interessado em comentar é o castelo.

Existe no imaginário popular essa ideia de castelos espaçosos, ricamente decorados e iluminados, mas esse imaginário é muito mais condizente com os palácios de épocas posteriores, e não com os castelos medievais de fato. Para todos os efeitos, castelos eram uma fortaleza. Muitos deles, inclusive, eram apenas uma torre alta, de pedra, cercada por uma muralha. E esqueçam a boa iluminação: janelas demais tornariam a estrutura muito suscetível a invasões e ataques. Os castelos reais eram muito mais próximos a este onde vive a princesa Arete: grandes, sim, mas claustrofóbicos, escuros, apertados… E sim, por vezes com alguma passagem secreta para servir de rota de fuga no caso de uma invasão. Não existe nada de romântico neles: eram apenas a expressão das guerras constantes. E o interessante aqui é que, ao retratar o castelo como ele era, a sensação de aprisionamento e claustrofobia que a princesa sente é perfeitamente compreensível. Mais do que isso até: o próprio espectador é capaz ele mesmo de a sentir.

O anime retrata muito bem o interior dos castelos medievais.
O anime retrata muito bem o interior dos castelos medievais.

Esse pequeno “banho de realidade” que o anime dá já é em si uma pequena cutucada nas histórias tradicionais, mas ele consegue ir bem mais além. Por exemplo, a história não hesita em demonstrar como a princesa é pouco mais do que um joguete político ali. Para seu pai, é alguém cuja mão ele deve entregar ao mais valoroso. Para os ministros, ela serve como motivação para os cavaleiros buscarem mais e mais tesouros, que ajudam na economia do reino. E para os cavaleiros ela é um prêmio a ser conquistado, e um que tem como “bônus” todo um reino. Para todos os efeitos, a princesa ali é apenas um objeto. E claro, outro bom exemplo de um “banho de realidade” vem na figura dos próprios cavaleiros. Por exemplo, um dos que veio falar com a princesa diz que viajou a terras longínquas, enfrentou um monstro imenso e tomou um tesouro antes de ser perseguido por ladrões. A realidade dos fatos, porém, é dada pela princesa: o “monstro” era um elefante, e os “ladrões” eram o povo do qual cavaleiro havia roubado o tesouro. Não exatamente a mais romântica das histórias.

Com exemplos assim é fácil entender porque alguns veriam esse anime como uma “desconstrução” dos contos de fadas tradicionais. Pela sua maior parte, o filme é bastante realista em seu retrato da sociedade da época, e mesmo quando entram os elementos mágicos estes são tratados de uma forma curiosamente verossímil. Por exemplo, fica implícito que os magos do passado eram uma civilização tecnologicamente bastante avançada, possuindo satélites, foguetes, e por ai vai. A velha máxima de Arthur C. Clarke, “qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia” bem poderia ser aplicada aqui. A magia não é completamente excluída, de forma nenhuma, mas tanto ela como os magos num geral são bastante racionalizados. Os motivos para tanto possivelmente foram duplos: primeiro para que mesmo as partes do anime que fazem uso de magia não soassem tão destoante do tom mais realista e menos romantizado que prevalece ao longo do primeiro terço do filme; e em segundo lugar, e talvez o motivo principal, para que mesmo a magia fosse condizente com um dos grandes temas do anime: a capacidade humana de criar e produzir.

Circuitos e um cristal mágico: a magia em Arete Hime é bastante racionalizada.
Circuitos e um cristal mágico: a magia em Arete Hime é bastante racionalizada.

É interessante que, em última instância, o que mais incomoda a princesa em toda a sua situação é que ela sente-se inútil. Mesmo incapaz. Isso porque em seu status de princesa lhe foi negada a capacidade de agir. Como princesa, ela não pode fazer nada. Isso fica incrivelmente óbvio quando contrastamos duas cenas do começo do filme. A primeira, é aquela na qual a princesa está andando pela cidade e olha as pessoas trabalhando: todos estão usando das mãos para criar algo novo. É essa capacidade humana de criar e transformar o que maravilha a princesa. Essa capacidade de fazer. Mas ai nós temos a cena dela em seu quarto, recebendo o almoço. E nessa cena, a princesa é completa e totalmente passiva. São suas damas de companhia que colocam o suco. E quando vem um barulho de fora, a princesa não pode se quer se levantar para abrir a janela: uma dama o faz por ela antes. Ao longo de todo o começo do filme, o que a obra tenta construir é a imagem de uma princesa incapaz não por não saber ou não querer fazer algo, mas antes porque lhe é negado qualquer direito de agência.

É fácil entender porque esse anime seria recebido como uma obra feminista. A sua crítica à forma como a mulher medieval era tratada, a desconstrução da ideia de uma princesa vivendo em luxuosos e belíssimos castelos, e, talvez acima de tudo, a sua ácida crítica ao tradicional cenário da princesa sequestrada que passivamente espera um cavaleiro de armadura brilhante vir lhe salvar, todos são exemplos de como essa obra tenta subverter o papel tradicional das mulheres nos contos de fadas, e mesmo em muitas produções modernas. Mas eu diria que há algo a mais ai. Em última instância, o que realmente motiva a princesa é o maravilhamento que ela sente para com a capacidade humana de criar. Dos magos da antiguidade, que produziram maravilhas tecnológicas incompreensíveis para o povo da época da princesa, até os mais simples artesãos e construtores, todas são expressões desse potencial que é, como disse, inerentemente humano. Não apenas uma obra feminista: pessoalmente eu qualificaria Arete Hime como também uma obra humanista.

A princesa constantemente olha para as próprias mãos, se perguntando se elas também são capazes de criar.
A princesa constantemente olha para as próprias mãos, se perguntando se elas também são capazes de criar.

Isso tudo dito, é preciso, porém, reconhecer que esse anseio da obra por fugir dos padrões traz consigo alguns problemas. O primeiro e mais óbvio é o ritmo da obra. Arete Hime é um anime introspectivo por excelência, e é focado em fazer o espectador refletir sobre o que está assistindo. Por um lado, essa foi uma decisão até mesmo corajosa. A quase totalidade dos filmes infantis, no ocidente e no oriente, tem algum enfoque na ação e na aventura, que aqui estão completamente ausentes. É um filme que em nada subestima a sua audiência, acreditando que mesmo algo mais calmo e lento pode prender a atenção. Infelizmente, isso funciona com variados graus de sucesso. Eu tendo a gostar de obras mais calmas e introspectivas, então para mim o ritmo do filme funcionou muito bem. Mas eu vou completamente entender aqueles que disserem que estavam morrendo de tédio durante as suas mais de duas horas e meia. Então se você não gosta de obras mais lentas e calmas esse filme talvez não seja para você. Mas claro, a recíproca também é verdadeira: se você gosta desse tipo de ritmo então isso é apenas mais um motivo para dar uma conferida.

Um problema um pouco mais sério, porém, vem de um quase furo no roteiro que me incomodou por boa parte do filme. Ainda no primeiro terço, Arete recebe de uma maga que perdeu a sua magia um objeto mágico: um anel capaz de realizar qualquer desejo. Em primeiro lugar: se a mulher tinha isso, por que diabos ela não usou um dos desejos para achar a sua fonte de magia? Eu sei que quando ela dá o anel para a princesa ela havia decidido seguir a vida como humana, mas ela já devia ter o anel há algum tempo. Já mais para frente da história, o mago que sequestrou e enfeitiçou Arete, Boax, descobre que ela tem o anel. Por que raios ele não tomou o anel dela e o usou para tentar encontrar outros magos?! Claro, fica implícito que os magos desapareceram quase todos, então mesmo que ele fizesse esse desejo ele talvez não funcionasse, mas ele nem tenta! E eu sei que isso parece apenas um nitpicking de minha parte, mas esse meu problema com o poder do anel é apenas uma faceta daquele que é talvez o único real problema do filme: seu mundo é muito pouco trabalhado.

Talvez o maior problema do filme seja o quão pouco ele se preocupa em explorar o seu próprio universo.
Talvez o maior problema do filme seja o quão pouco ele se preocupa em explorar o seu próprio universo.

Claro, existe um motivo para isso. Arete Hime é, como eu já falei bastante ao longo do texto, uma história introspectiva. Ele é um olhar para dentro, tanto no sentido literal (uma exploração da mente de seus personagens, sobretudo a princesa Arete e o bruxo Boax) quanto no sentido metanalítico (uma exploração – e, no caso, subversão – do próprio gênero narrativo no qual a obra se encaixa, os contos de fadas). Nisso, ele ignora tudo do mundo exterior que não é de vital importância para entendermos os seus personagens, e é daí que surge o seu pouco enfoque em seu próprio universo. Talvez por conta disso eu não vejo como esse problema poderia ser solucionado. Claro, você poderia argumentar que bastava tirar algumas das cenas de “nada acontece” para acrescentas outras que desenvolvessem o mundo, mas fazer isso cairia no risco de mudar completamente a própria proposta da obra de ter um olhar mais introvertido. Ainda assim, é uma pena que um cenário tão interessante acabe sendo tão pouco explorado.

E então temos os aspectos técnicos. Honestamente, a animação poderia ser melhor, mesmo para os padrões de 2001. Não que ela seja absolutamente horrível, de forma alguma, mas está certamente abaixo do que eu esperaria de um filme, especialmente um para o cinema. E a trilha sonora também não é nada impressionante. Num geral, o anime tem diversas cenas mais silenciosas, talvez para combinar com tom mais calmo e sereno a obra, e as poucas musicas de fundo que aparecem também refletem esse tom. Como resultado, é uma trilha sonora bastante esquecível, por vezes mesmo imperceptível, com talvez uma ou duas exceções. Não sei dizer se o filme foi uma produção de baixo orçamento ou se simplesmente a equipe responsável não soube fazer o dinheiro investido refletir no produto final, mas é preciso não ter grandes expectativas para aspectos técnicos na hora de assistir esse filme.

A animação do anime certamente podia ter sido melhor. Isso dito, seus cenários ainda são muito bonitos.
A animação do anime certamente podia ter sido melhor. Isso dito, seus cenários ainda são muito bonitos.

Num geral, eu definitivamente acho que o saldo final de Arete Hime é bastante positivo. Seus personagens são bem trabalhados, devidamente aprofundados, e certamente carismáticos. E apesar da minha reclamação para com a animação, eu ainda diria que os cenários desse anime são muito bonitos, e capturam muito bem a época que tentam retratar. O mundo poderia ter sido mais explorado, sim, mas o pouco que foi nos dá uma das mais fiéis representações da Idade Média que alguém poderia encontrar (bom, tirando, é claro, toda a parte dos magos [rs]). O tom introspectivo certamente pode desagradar alguns, mas eu pessoalmente gostei bastante, e no mínimo aplaudo a coragem dos criadores de tentarem um filme infantil com um ritmo mais lento e introspectivo. E claro, tem o seu caráter de desconstrução.

Arete Hime é o perfeito exemplo de que uma obra não precisa ser excessivamente pesada ou traumatizante para desconstruir a um gênero. A princesa que vive em um castelo apertado, escuro e claustrofóbico. O cavaleiro valoroso que na verdade é apenas um ladrão a serviço do monarca. O mago cruel que no fundo é apenas uma criança que perdeu a tudo o que tinha. A princesa aprisionada que não é salva por um príncipe encantado. Nada disso é realmente passado de forma pesada ou cruel, mas é uma forma de tentar desconstruir alguns dos clichês mais comuns do gênero, resultado em uma obra que é provocativa e intelectualmente estimulante enquanto permanecendo adequada para todas as idades. É um filme que gostei de conhecer e que definitivamente recomendo a qualquer um, mesmo sabendo que muitos talvez tenham alguns bocejos ao longo dele [rs].

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Imagens: Arete Hime

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4 comentários sobre “Review – Arete Hime (Anime)

  1. Eu adorei esse filme, em alguns momentos ele é realmente um pouco cansativo, porém o seu diferencial me deixou compenetrado a não parar de assisti-lo. A trilha sonora pra mim é muito bacana, pois casa com a lentidão que o filme conta sua estoria e por ter um certo ar melancólico, outro fator que me chamou atenção pra trilha é que ela foi feita pelo Akira Senju, que também fez a trilha de Fullmetal Alchemist (na minha visão leiga ele comete até um autoplágio, pois ele reaproveita muita coisa de Arete Hime para a trilha de Fullmetal)

    Curtido por 1 pessoa

    • Juro q mal reparei na trilha sonora x_x Bom, mas acho que cada um tem a sua experiência desse tipo de coisa, afinal rs. Mas não sabia q a trilha era do Akira Senju (é bem raro eu me inteirar de compositores), e nem reparei que FMAB e Arete tivessem trilhas sonoras parecidas ou iguais. Ficar de olho nisso numa próxima vez que for ouvir as musicas de alguns dos dois animes xD.

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