Fullmetal Alchemist: Brotherhood – A Alquimia e a Busca Pela Pedra Filosofal

Uma não-tão-breve exposição sobre Fullmetal Alchemist e a Alquimia.
Uma não-tão-breve exposição sobre Fullmetal Alchemist e a Alquimia.

Originalmente lançado em 2001, na revista Gekkan Shounen Gangan, o mangá Fullmetal Alchemistde Hiromu Arakawa, possivelmente figura entre as obras mais famosas do meio otaku, além de ser bastante conhecido mesmo fora dele. Seu sucesso foi tanto que inspirou nada menos que duas adaptações em anime: a primeira, uma produção do estúdio Bones de 51 episódios, lançada em 2003, e a segunda, do mesmo estúdio, mas agora com 64 episódios (e seguindo mais fielmente ao mangá, ao passo que a primeira adaptação em dado momento desvia completamente a obra original), lançada em 2009. A história dos dois irmãos que tentaram a transmutação humana para reviver a sua falecida mãe, sofreram as consequências desse ato desesperado, e agora buscam pela lendária Pedra Filosofal para reaver seus corpos originais, portanto, já é bastante conhecida

Por conta disso, é inevitável que muitos otakus se sintam familiarizados com conceitos como a alquimia e a busca pela pedra filosofal. Mas é válido perguntar: o quanto de suas contrapartes reais (a ciência que imperou na europa medieval até em torno do século XVIII e a sua busca incessante pela transformação de metais comuns em ouro) Fullmetal Alchemist acerta? É a alquimia dentro do anime (e sim, para este texto eu irei tratar expecificamente do anime de 2009, Fullmetal Alchemist: Brotherhood, que adapta mais fielmente o mangá de 2001) próxima daquela que existiu no mundo real, ao menos em seus conceitos e ideias? E seria a verdadeira Pedra Filosofal próxima àquela apresentada no anime? Estas – e ainda outras – perguntas é o que iremos explorar ao longo deste texto. E sim, haverá spoilers, então considere isso antes de avançar. No mais, comecemos.

A Alquimia e a Pedra Filosofal. O quanto aquelo mostrado em Fullmetal Alchemist se aproxima do que foi a alquimia do mundo real?
A Alquimia e a Pedra Filosofal. O quanto aquilo mostrado em Fullmetal Alchemist se aproxima do que foi a alquimia do mundo real?

Agora, quando falamos em “alquimia”, o que vem à mente? Excluindo, é óbvio, Fullmetal Alchemist, quando pensamos na alquimia do mundo real, pensamos no que? As respostas talvez variem de laboratórios rústicos, onde algum senhor barbado brinca com tubos de ensaio, até seitas secretas praticando magia negra, mas para todas estas diferentes ideias sobre alquimia algumas características comum emergem, sobretudo em termos de tempo e espaço. Temos, assim, uma alquimia que surge na Europa, sobretudo na Europa continental, praticada em meados de 1600 a 1700. Contudo, a verdade é um pouco menos… “Exata”. Em fato, a alquimia europeia como a conhecemos tem seu início no século XII, e entra no continente sobretudo através da península ibérica, então território árabe. E mesmo essa alquimia árabe está longe de ser o início original de toda a alquimia. Inclusive, as origens mais antigas desta… Hum… Chamemos aqui de “ciência”, embora discutiremos um pouco mais sobre esse termo mais adiante, mas por agora ele cumpre bem nossos objetivos. Enfim, as origens antigas desta ciência podem mesmo ser notadas na palavra que lhe dá nome: Alquimia.

Como Maxwell-Stuart aponta em seu livro The Chemical Choir: A History of Alchemy (“O Coro Químico: Uma História da Alquimia”, em tradução livre), a origem da palavra “alquimia” está na palavra “kemeia“, que já num léxico bizantino do século X era definida como sendo a fabricação de prata e ouro. Mas a origem da palavra kemeia, é um pouco mais obscura. Citando ao autor, opções para a origem da palavra já nos deram “um nome para o Egito, indicando a negritude de seu solo, uma palavra também relacionada com a pupila do olho; uma palavra egípcia para ‘completude’; uma palavra grega para ‘derretendo’ ou ‘derramando’; e uma raiz semita ligada à fermentação” [1]. Grécia, Egito, mesmo a região do oriente nuclear próximo parecem implicadas nessa simples palavra, de forma que para entender o que foi a alquimia – e, consequentemente, a busca pela Pedra Filosofal – vamos ter de abandonar, por algum tempo, a Europa. Tal como a alquimia foi trazida a Amestris, em Fullmetal Alchemist: Brotherhood, assim também ela foi trazida até a Europa. Seu berço é em outro lugar, no tempo e no espaço.

Assim como a alquimia foi trazida a Amestris, ela também foi trazida à Europa: sua origem está em outro lugar.
Assim como a alquimia foi trazida a Amestris, ela também foi trazida à Europa: sua origem está em outro lugar.

Para encontrar o berço da alquimia – isto se é que exista, de fato, um berço, algo que iremos ver mais pra frente – viajemos até o oriente, da budista Índia até as planícies chinesas. Porque sim: a ideia de “alquimia oriental” é um conceito real, embora ele difira bastante do que vemos no anime. E quanto às suas origens, ela parece ser inclusive mais antiga do que a alquimia ocidental. Conforme Jean Cooper aponta em seu livro Chinese Alchemy: Taoism, the Power of God, and the Quest for Immortality (“Alquimia Chinesa: Taoismo, o Poder de Deus, e a Busca pela Imortalidade”, em tradução livre) , “enquanto as origens e datas da alquimia chinesa ainda estão sendo pesquisadas e debatidas (…), é conhecido que ela floresceu bem antes de 114 a.C, pois nesta data o imperador publicou um édito que ordenava a execução pública de qualquer um pego fazendo ouro falso” [2]. Imagino que agora a existência de Xing, no universo de Fullmetal Alchemist, faça bem mais sentido, não é? Mas é como eu disse, a verdadeira alquimia chinesa é bem diferente daquela que vemos no anime.

Se for preciso resumir as principais diferenças entre a alquimia ocidental e a oriental, estas estariam no seu objetivo final. A alquimia ocidental, como veremos mais a frente, estava muito mais voltada para a produção de ouro a partir de metais mais comuns, sobretudo o mercúrio. Já a alquimia chinesa, esta, aliás, intimamente ligada ao taoismo, estava muito mais preocupada com a busca pela imortalidade, mesmo que o édito mencionado por Cooper aponte para a existência da busca pela criação de ouro nos primórdios da alquimia chinesa. Por conta disso, enquanto os alquimistas do ocidente estavam em busca da lendária Pedra Filosofal como um catalizador da transmutação em ouro, os chineses gastaram seu tempo em busca do lendário Elixir da Vida Eterna. Uma busca, aliás, bastante contraditória para com outras tradições da época, como aponta Joseph Campbell em seu livro Mitologia Oriental, segundo volume da coleção As Máscaras de Deus.

A alquimia chinesa estava muito mais preocupada com a criação de medicamentos e elixires, ao contrário da alquimia ocidental, mais preocupada com a criação de ouro.
A alquimia chinesa estava muito mais preocupada com a criação de medicamentos e elixires para a vida eterna, ao contrário da alquimia ocidental, mais preocupada com a criação de ouro.

Próximo do final do capítulo dedicado à mitologia chinesa, numa entrada que Campbell chamou de As Seis Dinastias Chinesas: 190/221-589 d.C., ele comenta como o período parece ter visto duas formas radicalmente distintas de taoismo. De um lado, tínhamos um grupo que parecia não ter desejo nenhum pela imortalidade, com Lieh Tzu, taoista do século III d.C., inclusive incluindo a longevidade em sua lista de coisas que impedem ao homem de ter paz: para estes sábios, viver uma boa vida curta era preferível a viver uma vida longa. “Mas havia um outro lado do estilo taoista”, escreve Campbell, “também em desenvolvimento nessa época. Já no período Han tardio [dinastia Han: 202 a.C. – 220 d.C.], o milagre da ‘transformação em um hsien‘ – o que quer dizer um ‘homem da montanha’, um imortal mitológico – tinha se tornado um dos propósitos da iniciativa taoista” [3]. “Dessa maneira”, adiciona ainda, “dois objetivos diametralmente opostos estavam contidos num mesmo movimento: por um lado, nenhum desejo de vida longa e, por outro, exatamente esse desejo” [4].

E como estes alquimistas chineses planejavam alcançar a imortalidade? Seria através de avançada magia usando de pentagramas e kunais? Bom… Não. Sinto desapontar, mas a resposta é um tanto quanto menos romântica. Os métodos mais comuns em fato envolviam alguma forma de composto químico em formato de pílula (a ser ingerida em doses variadas), a prática da yôga, e Ko Hung, sábio taoista de cerca de 400 d.C., inclusive citava a necessidade de boas ações para se “ativar” as suas pílulas da imortalidade. Em suma: se quer uma vida longa, tome os medicamentos adequados, pratique exercícios e seja uma boa pessoa. Lamento pessoal, nada de raios e pentagramas, embora podemos entender porque Arakawa preferiu vincular a alquimia chinesa a isso ao invés de à pílulas e posições corporais [rs]. Ainda assim, a busca pela imortalidade como a motivação principal de ambos os grupos de personagens vindos de Xing – Mei e seu panda, Ling e seus companheiros – é certamente um pequeno tributo às intenções originais da antiga alquimia chinesa.

Ainda que a alquimia chinesa apresentada em Fullmetal seja completamente diferente daquela que existiu, a busca pela imortalidade que os personagens de Xing fazem é certamente inspirada nos objetivos originais da alquimia chinesa real.
Ainda que a alquimia chinesa apresentada em Fullmetal seja completamente diferente daquela que existiu, a busca pela imortalidade que os personagens de Xing fazem é certamente inspirada nos objetivos originais da alquimia chinesa real.

Agora, muito ainda poderia ser dito sobre a alquimia oriental, e poderíamos mesmo entrar na alquimia indiana, mais conhecida como Rasayana, e que parecia, de forma muito semelhante à alquimia chinesa, mais preocupada com o estender da vida através de uma série de elixires. Contudo, eu farei aqui um corte abrupto para que possamos avançar em direção à alquimia ocidental, puramente por uma questão de não querer tornar este texto ainda mais longo do que ele precisa ser (e considerando o quanto ainda temos a ver sobre a alquimia do ocidente, podem acreditar que ele ainda será bem longo). Assim, vamos deixar para trás as planícies chinesas e vamos em direção oeste, até aquele que já foi um dos grandes centros culturais da antiguidade: o Egito.

Antes, porém, eu preciso fazer uma pergunta: o que é, afinal, a alquimia? Digo, nós temos usado esse termo em todo este texto, inclusive falando em coisas como “alquimia indiana” ou “alquimia chinesa”, mas o que é, de fato, a alquimia? É uma ciência? Uma arte? Uma magia? Uma filosofia? A verdade é que ela é tudo isso, e também nada disso. Vejam, enquanto hoje nós estamos acostumados com a divisão em “disciplinas”, esse é um conceito bastante moderno. No passado, a distinção entre ciência, filosofia e magia podia não apenas ser bastante tênue como também praticamente inexistente. Ritos como observar bolas de cristal ou a posição do zodíaco eram vistos como algo tão sério quanto a física, a química e a geometria. Tentar encaixar a alquimia em uma ou outra destas “caixinhas” é, como diríamos na ciência histórica, anacrônico: é querer enxergar o passado com um olhar do presente. E isso simplesmente não funciona. O que era a alquimia? Ela era ela, e é isso. E eu apenas a chamo aqui de “ciência” porque esta era a forma mais próxima de como ela era percebida e pensada no passado.

É interessante notar que mesmo sendo um alquimista, Edward considera a si mesmo um cientista. Essa forma de ver a alquimia é certamente bastante próxima de como ela era vista durante seu apogeu no mundo real.
É interessante notar que mesmo sendo um alquimista, Edward considera a si mesmo um cientista. Essa forma de ver a alquimia é certamente bastante próxima de como ela era vista durante seu apogeu no mundo real.

Isso dito, existem algumas características que mais ou menos definem o que é a alquimia, conforme vemos na entrada “alquimia” do dicionário de Oxford. A busca da imortalidade é certamente uma destas características, mas outra nada menos importante é a busca pela transmutação de metais comuns (chamados de “básicos”) em metais como prata e ouro (chamados de “superiores”). Mas essa busca pela transmutação em ouro (que tem inclusive um nome próprio: chrysopoeia) não era uma ideia tirada do nada, mas antes era embasada em um princípio filosófico bastante curioso: a de que todas as coisas – animal, vegetal e mineral – estavam em constante evolução em direção à perfeição. E no nível dos metais a máxima perfeição estaria no ouro: um metal que quase nada é capaz de corroer. Dentro desta lógica, a alquimia nada mais estava fazendo do que acelerando um processo então visto como natural. Algo, inclusive, apontado na antiga Enciclopédia, de Diderot e d’Alembert, de 1751: “Alquimia é a química do tipo mais sutil, que nos permite compreender operações química extraordinárias executando com mais rapidez aquelas coisas que exigem um longo tempo para a natureza produzir” [5]. Menos que “transformar” um metal em ouro, a ideia é “forçar” o metal a se converter em ouro antes do que seria “normal”.

E nisso somos obrigados a reconhecer algo: em essência, e com isso quero dizer em princípios filosóficos e objetivos finais, a alquimia em Fullmetal Alchemist é completamente diferente da alquimia real. Em fato, a chamada “lei da troca equivalente”, que rege a alquimia em Fullmetal, nada mais é do que uma espécie de variante da Lei da Conservação de Massa, descoberta por Lavoisier em finais do século XVIII, mais de 600 anos após chegada da alquimia à Europa, via Península Ibérica, e mais de um milênio desde o seu surgimento no Egito romano. Inclusive, se me for permitida certa liberdade poética, poderíamos até dizer que os objetivos iniciais da alquimia eram o completo oposto da lei da troca equivalente: era a produção de algo de maior valor (ouro ou prata) a partir de algo de menor (mercúrio e súlfur). Isso dito, seria chato encerrar o assunto por aqui, não é? Afinal, já chegamos tão longe, seria um desperdício não continuar e ver como era, de fato, a verdadeira alquimia. Até porque, ainda que seja diferente em princípios, objetivos e funcionamento, a alquimia em Fullmetal ainda guarda uma ou duas curiosas semelhanças com a do mundo real.

A busca pela transmutação de metais comuns em ouro foi uma das características definidoras da alquimia ocidental. Em Fullmetal Alchemist, porém, o assunto mal é comentado.
A busca pela transmutação de metais comuns em ouro foi uma das características definidoras da alquimia ocidental. Em Fullmetal Alchemist, porém, o assunto mal é comentado.

Assim, após essa “pequena” digressão, sigamos com o nosso cronograma. Chegamos agora à cidade egípcia de Panópolis (atual Akhmim), onde iremos encontrar o primeiro alquimista que podemos atestar a existência com maior segurança: Zósimo de Panópolis. Agora, eu digo “primeiro que podemos atestar a existência” porque em sua época (Zósimo viveu entre fins do século III e começo do século IV d.C.) a alquimia claramente já era algo conhecido. Contudo, os primeiros alquimistas, ou pelo menos aqueles anteriores a Zósimo, estão até hoje imersos em uma neblina de mito e lenda. Excelente exemplo é o mítico Hermes Trismegistus (“Hermes Três Vezes Grande”), que os primeiros alquimistas dizem ter sido o “verdadeiro” criador da alquimia. E caso estejam se perguntando: sim, estamos falando aqui do lendário deus grego Hermes, conhecido como Mercúrio pelos romanos e identificado com o deus egípcio da sabedoria Thoth. Então é, a real existência deste personagem pode ser praticamente descartada a priori. Já quanto a outros autores antes de Zósimos… Bom, para isso, demos uma rápida olhada no livro de Stanton J. Linden, The Alchemy Reader: From Hermes Trismegistius to Isaac Newton (“O Leitor Alquímico: De Hermes Trismegistius a Isaac Newton”, em tradução livre).

Fazendo um rápido panorama dos principais alquimistas da tradição ocidental, o livro começa justamente com Hermes Trismegistus, “não por motivos de ‘real’ existência, datação científica, e absoluta cronologia, mas em virtude do profundamente enraizado apelo psicológico do mito, lenda e tradição” [6]. A seguir o autor nos trás dois personagens que nada tem de alquimistas: Platão e Aristóteles. O motivo, certamente, é a profunda influencia que o pensamento de ambos teria não apenas na alquimia posterior, mas em toda a filosofia e pensamento do mundo ocidental. Os próximos três “nomes” são anônimos. O que segue a Aristóteles é Pseudo-Demócrito, que leva esse nome pelos escritos terem sido originalmente atribuídos a Demócrito, mas que depois se descobriu terem sido escritos por algum outro autor não identificado (por isso “pseudo”, “falso”). O nome seguinte é o de uma alquimista mulher, Cleópatra (não, não é a rainha que estão pensando), cujas lendas dizem que ela teria o conhecimento de como se criar a Pedra Filosofal. Finalmente, a última entrada é dedicada a dois papiros de duas cidades, incluídos no livro por mostrarem as fortes relações da alquimia com artes como a metalurgia, a produção de tintas e a produção de jóias. E assim nós retornando a Zósimus.

Aproveitando que falamos das origens egípcias da alquimia, o primeiro país em Fullmetal a usar dela parece ter uma arquitetura um pouco helênica. Talvez uma pequena homenagem aos tempos do Egito romano, no qual viveu Zósimo..
É interessante notar como o palácio do rei de Xerxer parece ter uma clara inspiração greco-romana. Uma pequena homenagem às origem helênicas da alquimia, nascida no Egito romano? É uma possibilidade.

Temos, então, o momento propício para falar da Grande Obra da alquimia: a Magnum Opus, o processo para se criar a Pedra Filosofal. E será que ela envolvia sacrificar as almas de um grupo de pessoas em um círculo alquímico para se produzir uma pedra vermelha? Bom… não. Em fato, o processo verdadeiro era algo bem mais… “mundano”. Em um explicação bastante grosseira, o processo basicamente consistia em aquecer a chamada prima materia (da qual falarei em maior detalhe mais adiante) até surgir a Pedra Filosofal. E é isso. Sem círculos mágicos, sem almas arrancadas do corpo, sem luzes bonitas, só alguém esquentando tubos de ensaio. Conseguem entender por que esse processo não entrou no mangá e anime? [rs]. Mas enfim, a Magnum Opus era dividida originalmente em 4 estágios, os quais aparentemente já eram conhecidos por Zósimos, e parecem ter chegado até nós justamente através de escritos do mesmo. Ao falar sobre o assunto em seu livro Dictionary of Alchemy: From Maria Prophetessa to Isaac Newton (“Dicionário de Alquimia: de Maria Profetiza à Isaac Newton”, em tradução livre), Mark Haeffner comenta que estes estágios iniciais, cujos nomes derivam da cor que a mistura de metais deveria atingir naquele passo, seriam Melanosis (escurecimento), Leukosis (embranquecimento), Xanthosis (amarelamento) e finalmente Iosis (“tornar púrpuro”) [7]

Com o tempo, contudo, estes nomes foram sendo alterados. Os três primeiros retiveram o significado original: melanosis se tornou nigredoleukosis se tornou albedo, e xanthosis foi chamado citrinitas. O nível final, iosis, contudo, sofreu uma mudança, passando a se chamar rubedo: “avermelhamento”. Isso por conta da crença de que a Pedra Filosofal, a surgir no final de todo esse processo, seria vermelha, algo que Fullmetal Alchemist bem adaptou. Vale apontar, após o século XV o terceiro estágio, citrinitas, parece ter sido suprimido, com os alquimistas considerando apenas os demais três estágios. E para que serviria a Pedra Filosofal, fruto final de todo este processo? Bom, novamente Fullmetal Alchemist passou bem perto da realidade: ela seria um catalizador, porém aqui no contexto mais específico de proporcionar a transmutação em ouro ou de conceder a imortalidade, e não de possibilitar toda e qualquer transformação conforme vemos em Fullmetal.

A cor avermelhada da Pedra Filosofal, em Fullmetal Alchemist, bem representa como os alquimistas reis imaginavam que seria sua cor. E claro, Fullmetal também acerta ao dizer que a pedra poderia ter muitas formas. Além do formato de pedra e de elixir, o formato de pó também era visto como possível.
A cor avermelhada da Pedra Filosofal, em Fullmetal Alchemist, bem representa como os alquimistas reis imaginavam que seria sua cor. E claro, Fullmetal também acerta ao dizer que a pedra poderia ter muitas formas. Além do formato de pedra e de elixir, o formato de pó também era visto como possível.

Abrindo um parênteses, é um bom momento para dar uma possível explicação de como eventualmente os conceitos de Pedra Filosofal e de Elixir da Vida Eterna acabaram por se confundir. O salto lógico é até que bem simples: você tem uma substância, a Pedra, que deveria ser capaz de levar o metal básico ao seu estado “perfeito”, o Ouro. Supondo que ela pudesse ter um efeito similar no corpo humano, temo aqui o surgimento primeiro do remédio universal, e depois do Elixir da Vida Eterna. Mas é interessante notar que o ocidente parece ter demorado a pensar nessa possibilidade. Enquanto os chineses já buscavam pela imortalidade no século IV d.C., a já mencionada Enciclopédia, de Diderot e d’Alembert, coloca que “ninguém falava sobre o medicamento universal, principal objetivo da alquimia, antes de Geher, um autor árabe que viveu no século sétimo” [8].

Teria a alquimia conhecida por Zósimos e seus predecessores vindo da China? Ou teriam ambas as formas de alquimia surgidas em separado? No já mencionado Chinese Alchemy, Cooper comenta que esta ainda é uma questão em aberto: “algumas autoridades mantém que toda alquimia veio originalmente da China e se espalhou em direção oeste depois; outros acreditam que ela surgiu no Egito. (…) Contudo, a mais básica ideia da alquimia chinesa, o Elixir da Vida, não apareceu no oeste até o século doze, quando foi introduzida ali da China através dos árabes” [9]. Em todo caso, é interessante notar como Fullmetal Alchemist lidou com esta questão. De um lado, a alquimia parecia algo já relativamente conhecido à época de Hohenheim, mas após o evento que deu ao Homúnculo Num Fraco o seu corpo aquele parte em direção à Xing, ajudando no desenvolvimento da alquimia oriental, enquanto que o segundo funda Amestris, trazendo a alquimia para o ocidente.

Seria a alquimia ocidental fruto da oriental? O mais provável parece ser que, assim como em Fullmetal Alchemist, ambas surgiram relativamente em paralelo uma da outra.
Seria a alquimia ocidental fruto da oriental? O mais provável parece ser que, assim como em Fullmetal Alchemist, ambas surgiram relativamente em paralelo uma da outra.

Mas voltemos à nossa pequena linha do tempo, da qual já me desviei o suficiente por agora. Contudo, digo que terei de fazer ainda outro grande salto no tempo e no espaço. Novamente, não é falta do que comentar: a alquimia do mundo árabe, que sucede a do mundo da Alexandria helênica no qual viveu Zósimos, é riquíssima. Lembremos que enquanto a Europa vivia os primeiros séculos daquela que ficou depois conhecida como “Idade das Trevas” (um termo que merece muitas críticas, mas que serve aos propósitos deste texto), o mundo islâmico era um importante centro de desenvolvimento científico. É graças aos árabes, aliás, que muitos dos textos de Aristóteles foram preservados, e que depois foram re-introduzidos no continente europeu, desafiando as concepções platônicas então vigentes. Mas eu preciso ser realista: não posso tratar de toda a história da alquimia, uma história que perfaz literalmente mais de um milênio, em apenas alguns parágrafos. Cortes precisam ser feitos, e como o objetivo deste texto é vermos como Fullmetal Alchemist: Brotherhood retrata a alquimia, e o quanto se aproxima da do mundo real, é mais conveniente que pulemos “alguns” séculos e avancemos: chegamos, então, à Europa medieval.

Segundo Maxwell-Stuart, no já mencionado The Chemical Choir, a primeira menção à alquimia numa fonte ocidental (ou seja, fora do oriente próximo nuclear e do norte da áfrica muçulmana) data de cerca de 1050 d.C., e trata-se de uma queixa de transmutação fraudulenta em ouro, supostamente realizada por um judeu bizantino chamado Paul [10]. É interessante termos essa fonte porque, como o autor aponta, isso indica que a tradição alquímica de Constantinopla, vinda do Egito romano, ainda era conhecida mesmo na metade do século XI. Contudo, a entrada em peso da alquimia no mundo europeu parece ter vindo do extremos oposto ao Império Bizantino: a Península Ibérica do século XII, então território árabe. A partir dali, textos não apenas alquímicos, mas da ciência num geral, puderam entrar na Europa Cristã. Mesmo o retorno das ideias aristotélicas à Europa se deve aos árabes, conforme mencionei no parágrafo anterior.

Conforme disse, a alquimia é introduzida em Amestris assim como ela o foi na Europa: de fora. Mas é interessante que em Fullmetal ela chega à Amestris vinda do leste (Xerxes) enquanto no mundo real ela parece ter entrado pelo oeste (Península Ibérica)
Conforme disse, a alquimia é introduzida em Amestris assim como ela o foi na Europa: de fora. Mas é interessante que em Fullmetal ela chega à Amestris vinda do leste (Xerxes) enquanto no mundo real ela parece ter entrado na Europa pelo oeste (Península Ibérica)

Agora, a princípio, os autores europeus se concentraram na tradução de textos do árabe, e textos sobre alquimia próprios da Europa demorariam ainda a serem produzidos. Mas eles seriam, sem dúvida nenhuma. E com eles a alquimia europeia se aproximaria cada vez mais daquele imaginário popular ainda hoje presente, do alquimista metido em seu laboratório rustico, manipulando compostos químicos em tubos de ensaio, buscando a transmutação em ouro, a imortalidade, e outros tantos mistérios. Claro, há muito de fantasioso na memória popular atual, sobretudo por conta de uma mudança que começa em finais do século XVIII: após séculos e séculos de falhas em produzir ouro, bem como de séculos e séculos de farsantes enganando do populacho aos nobres e reis, cada vez mais a alquimia foi sendo vista como uma espécie de “ovelha negra” das ciências, relegada ao charlatanismo. Podemos inclusive ter um vislumbre do que ocorria naquela época olhando a já mencionada Enciclopédia de Diderot e d’Alembert, quando esta comenta que a “química, sem qualquer vergonha, tem se apropriado das vantagens que ganhou da alquimia; a alquimia tem sido mal vista na maioria dos livros de química” [11].

Mas aqui eu já estou me adiantando. Antes de continuarmos a falar do declínio da alquimia, falemos um pouco mais sobre aqueles que a praticaram. Infelizmente, falar de cada alquimista que passou pela história seria impensável mesmo numa publicação maior, o que dirá num texto mais simples como este. Então antes de falar de vários, eu quero tratar de dois em particular, em parte por suas ligações com o anime de Fullmetal Alchemist, mas também em parte por serem bons exemplos dos ideais e objetivos da alquimia europeia ao longo dos primeiros séculos após a sua chegada na Europa.

Os alquimistas europeus demoraram um pouco a criar seus próprios textos no assunto, originalmente se limitando a traduzir escritos árabes.
Os alquimistas europeus demoraram um pouco a criar seus próprios textos no assunto, originalmente se limitando a traduzir escritos árabes.

Assim, o primeiro destes nomes que quero citar é Nicolas Flamel, que viveu mais ou menos entre 1330 e 1418 d.C. Sua ligação com Fullmetal é a mais tênue: ele foi rapidamente citado por Edward na cena em que ele e Alphonse planejam decifrar os escritos do doutor Marko. No mundo real, porém, Flamel se tornou uma verdadeira lenda, ainda que apenas muito após a sua morte, a partir do século XVII mais precisamente. Escriba francês, em dado momento de sua vida ele parece ter tomado posse de uma grande quantia de dinheiro, a qual ele não deveria ter sido capaz de obter apenas com o seu trabalho. Explicações atuais sugerem que a fonte era nada menos que a sua esposa, Perenelle, mas os autores do XVII haviam pensado em uma razão diferente para toda aquela riqueza de Flamel. Assim surgem as lendas de que não apenas ele seria um alquimista, mas ainda teria afinal descoberto a receita correta para a Pedra Filosofal, transmutando metais em ouro. E não apenas isso: com textos alquímicos do século XVII sendo atribuídos a Flamel, surgem também lendas de que ele teria descoberto o Elixir da Vida Eterna, e que ele e sua esposa haviam apenas encenado suas mortes, mas seguiam vagando pelo mundo como imortais. Claro, hoje sabe-se que a fonte destes textos nada mais era do que uma antiga tradição de escritores atribuírem um nome famoso aos seus textos, na esperança de que isso incentivasse sua leitura.

Mas enquanto o status de Flamel como alquimista é provavelmente uma invenção do século XVII, ele ainda assim se mostra um bom símbolo para aquele que foi um dos principais objetivos da alquimia, a Pedra Filosofal e a busca por Ouro. E no outro espectro está uma figura ainda mais… Curiosa. E uma cuja história inclusive serve de inspiração para um dos mais relevantes personagens de Fullmetal Alchemist. Temos, então, Paracelsus, alquimista suíço que viveu entre 1493 e 1541, cujo gigantesco nome de batismo a maioria de vocês provavelmente irá reconhecer: Philippus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim. Não apenas o responsável por tentar dar um enfoque mais medicinal à alquimia, rejeitando a busca por ouro e dizendo que a alquimia deveria servir para buscar a cura de doenças, como ainda aquele que, alegadamente, teria criado vida. Vida em um frasco. Aliás, mais especificamente, um homenzinho em um fraco. Um homúnculo.

Flamel é mencionado entre os autores cujos livros Edward pede a Alphonse, quando estes tentam decifrar os escritos do profesor Marco.
Flamel é mencionado entre os autores cujos livros Edward pede a Alphonse, quando estes tentam decifrar os escritos do professor Marko.

Agora, eu não pretendo detalhar aqui qual era o processo de Paracelsus para se criar um homúnculo, basicamente porque ele é um tanto quanto nojento e indecente para os padrões modernos. Quem quiser saber qual era o método, Linden, no já mencionado The Alchemy Reader, deixa uma reprodução de um trecho da obra de Paracelsus na qual o autor explicita seu método [12]. Mas eu vou dizer que o estágio final do processo, quando já havia um pequeno ser humano no frasco, era alimentar este homúnculo com sangue, até que crescesse o bastante para ser criado como se cria qualquer outro ser humano (bom, ao menos segundo Paracelsus). Isso é interessante porque foi talvez a única parte do processo de criação do homúnculo que de alguma forma apareceu no anime de Fullmetal Alchemist, onde sabemos que Hohenheim forneceu o sangue necessário para finalizar o processo de criação do Homenzinho Num Frasco, o Homúnculo.

Obviamente, apesar de publicar a sua “receita”, Paracelsus nunca mostrou em público a sua “criação”, e o mesmo pode ser dito de outros alquimistas que afirmaram ter tido sucesso em criar um homúnculo seguindo as instruções de Paracelsus. Mas sua contribuição para a alquimia felizmente não se limitou a isso. Em fato, um elemento interessante da sua alquimia foi adicionar o sal à então dupla basilar da ciência, o mercúrio e o súlfur. Aliás, e abrindo aqui um rápido parênteses, é interessante notar como o mercúrio é um metal constante na alquimia mundial. Receitas de pílulas da imortalidade chinesas e de elixires medicinais indianos já usavam o mercúrio em sua composição, ao passo que na alquimia ocidental ele é o metal por excelência a ser transformado em ouro. Paracelsus inclusive o chama de “mãe dos metais”.

A história de Hohenheim, em Fullmetal Alchemist, é claramente inspirada pela vida e obra do alquimista Paracelsus
A história de Hohenheim, em Fullmetal Alchemist, é claramente inspirada pela vida e obra do alquimista Paracelsus, que disse ter sido capaz de criar vida humana em um frasco.

Inclusive, abro aqui um parênteses para tratarmos de um ponto que cometei brevemente mais acima: a prima materia, a matéria original que, após passar pelas 3 etapas do processo alquímico, se converteria na Pedra Filosofal. Infelizmente, dizer exatamente o que ela era é praticamente impossível, e algo que os próprios alquimistas nunca descobriram. Ela inclusive recebeu diversos nomes diferentes, conforme aponta o Dicionário de Símbolos, de Juan-Eduardo Cirlot, dentre os quais temos: “prata viva, chumbo, sal, enxofre, água, ar, fogo, terra, sangue, lápis, veneno, espírito, céu, orvalho, sombra, mãe, mar, lua, dragão, caos, microcosmo, etc.” [13]. E vale ainda apontar: a prima materia parece, no mínimo em épocas mais posteriores, ter tido um forte sentido metafísico. Paracelsus inclusive se refere a ela como Yliaster, representando as duas metades do cosmos: o mundo material, representando a parte de “baixo”, e as estrelas, representando a parte de “cima”. Essa noção de completude, inclusive, aparece ainda na dupla mercúrio e súlfur, identificados com o masculino e o feminino. O próprio deus Mercúrio parece ter tido alguma relação com o hermafroditismo, então essa concepção da completude, da complementaridade dos pares de opostos, parece bastante cara à alquimia, à prima matéria e, em última instância, à própria Pedra Filosofal.

Aliás, aqui poderíamos trazer à tona a  imagem do Ouroboros, a serpente ou dragão que morde a própria cauda. Isso porque esta imagem também está associada ao princípio de completude. Não por acaso, o ouroboros era muitas vezes desenhado como que tendo duas metades: sua parte de baixo era pintada de forma clara, representando a Terra, ao passo que a parte de cima era escura, representando o Firmamento. Assim, é uma imagem que, ao menos em termos de significado simbólico, se aproxima bastante da própria Pedra Filosofal, a qual, conforme nos diz Cirlot, “representa a unidade dos contrários, a integração do eu consciente com sua parte feminina ou inconsciente (fixar ou volátil) e, em consequência, é símbolo da totalidade” [14]. Então… É, surpreendentemente a Pedra Filosofal estar associada ao Ouroboros, em Fullmetal Alchemist, faz bastante sentido.

Simbolicamente, o ouroboros e a Pedra Filosofal possuem significados bastante próximos.
Simbolicamente, o ouroboros e a Pedra Filosofal possuem significados bastante próximos.

Mas só para fechar em definitivo o ponto sobre a prima materia, é importante apontar que este não é um princípio originário da alquimia. Antes, é uma noção aristotélica, de um estado no qual os quatro elementos (Terra, Fogo, Ar e Água) estavam unidos, antes da formação do universo. E que fique claro: tanto estes quatro elementos como a prima materia não devem ser vistos como “coisas”, “matéria”, mas antes como ideias, conceitos, abstrações metafísicas mesmo, completamente diferentes do que nós entendemos, hoje, como a terra, o fogo e por ai vai. E seria mesmo possível argumentar que os metais Mercúrio e Súlfur, tão caros à alquimia, podem ter atendido a um princípio filosófico semelhante: não exatamente os metais reais e materiais, que conhecemos, mas antes princípios metafísicos, abstratos. O que aparece inclusive na obra de Paracelsus, que iguala a tríade Mercúrio, Súlfur e Sal à tríada Espírito, Alma e Corpo, respectivamente.

E após todo esse desvio, tornemos agora de volta à nossa linha do tempo. Mas não se preocupem: não resta muito mais o que falar. Em termos da história da alquimia, de certa forma eu já disse como ela irá terminar. Durante muitos séculos a alquimia gozou de um status dúbio nos estados europeus: por um lado, a sua prática foi por muito tempo proibida, pelo medo do desastre econômico que se sucederia se muitas pessoas se mostrassem capaz de produzir ouro. Mas por outro lado a sua prática era perfeitamente legal se fosse feita baixo o patrocínio de algum importante monarca. Assim, chegou-se a um ponto em que praticamente toda corte europeia tinha o seu alquimista, e alguns reis chegaram a reunir mesmo dezenas de alquimistas baixo a sua proteção (obviamente, porém, isso vinha com um risco: se o alquimista se dissesse capaz de produzir ouro e falhasse, a sua sentença não seria nada leve). Contudo, conforme o tempo passava e novas descobertas foram sendo feitas nas demais ciências, como a química e a física, a transmutação do mercúrio em ouro foi se mostrando apenas uma fantasia, e a alquimia ganhou o status de pseudo-ciência que conhecemos hoje. Um fim indigno, talvez, mas também um reflexo do crescimento do nosso conhecimento científico.

É possível que a ideia de "Alquimista do Estado" tenha sido inspirada no fato de muitos alquimistas serem chamados para trabalhar nas cortes europeias, ainda que estes nada tivessem de militar.
É possível que a ideia de “Alquimista do Estado” tenha sido inspirada no fato de muitos alquimistas serem chamados para trabalhar nas cortes europeias, ainda que estes nada tivessem de militar.

Mas antes de encerrar, acho que podemos nos perguntar: o objetivo final da alquimia, a transmutação de mercurio em ouro, era mesmo impossível? Será que não haveria um método para tanto? Bom, por mais incrível que isso pareça: sim, há. Em fato, até já foi feito. Um artigo na Scientific American, intitulado Fact or Fiction?: Lead can be Transformed into Gold (“Fato ou Ficção?: Chumbo pode ser Transformado em Ouro”, em tradução livre) faz um bom panorama de experimentos usando de aceleradores de partículas que conseguiram “quebrar” átomos de um elemento próximo ao chumbo em ouro (e, segundo a revista, o mesmo processo valeria para o chumbo em si). Mas ainda mais interessante é um artigo de 1941, publicado em um um jornal sobre física teórica da universidade de Harvard, com o título de Transmutation of Mercury by Fast Neutrons (“Transmutação de Mercúrio por Nêutrons Acelerados”, em tradução livre), e que nos fornece exatamente o antigo sonho alquímico: a transformação de átomos de mercúrio em átomos de ouro, embora aqui usando de Nêutrons em altíssima velocidade para “quebrar” os átomos de mercúrio. Infelizmente, todo e qualquer um desses métodos sai ridiculamente mais caro do que o ouro que eles são capazes de produzir, mas hey, ao menos é possível.

Fullmetal Alchemist: Brotherhood é um ótimo anime, e uma obra que definitivamente merece a popularidade que possui. Mas se passando no mundo fictício de Amestris, sua alquimia lembra muito pouco aquela que uma vez existiu de fato. Liberdade poética, afinal, e ainda assim foi divertido e interessante pesquisar e entender muitas das referências e inspirações do anime. E ainda assim o anime acerta muita coisa, como a cor e ideia geral da Pedra Filosofal ou o fato de alquimistas codificarem as suas pesquisas para que outros não as pudessem ler (uma forma dos alquimistas compartilharem do seu trabalho entre si sem, contudo, disponibilizá-lo para toda e qualquer pessoa, o que nos rendeu os conhecidos livros repleto de imagens alegóricas das mais bizarras). Mesmo que sua alquimia apenas vagamente lembre a real, ainda fica evidente que houve bastante pesquisa por trás da criação da obra, e isso definitivamente merece respeito. E assim, encerro então a minha fala no assunto.

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Notas:

1 – Tradução livre de: “Popular etymologies of the word witch has given us ‘alchemy’ have ranged from (…) a putative name for Egypt, indicating the blackness of its soil, a word also related to the pupil of the eye; an Egyptian word for ‘completion’; a Greek word for ‘melting’ or ‘pouring’; and a Semitic root connected with fermentation” (Maxwell-Stuart, The Chemical Choir: A History of Alchemy, 2008, pág. 29).

2 – Tradução livre de: “While the origins and dates of Chinese alchemy are still being researched and debated (…) it is known for certain that it flourished well before 114 BC, for at that date the Emperor issued and edict which ordered public execution for anyone found making counterfeit gold.” (Cooper, Chinese Alchemy: Taoism, the Power of God, and the Quest for Immortality, Weiser Books2016, pág. 1)

3 – Campbell, As Máscaras de Deus – Mitologia Oriental, Palas Athena, 2008, 6ª edição, pág. 341.

4 – Idem, pág. 342.

5 – Tradução livre de: “Alchemy is chemistry of the subtlest kind which allows us to understand extraordinary chemical operations executing at a more rapid pace those things that require a long time for nature to produce” (The Encyclopedia of Diderot and d’Alembert – Colaborative Translation Project, entrada “Alchemy“).

6 – Tradução livre de: “not for reasons of “actual” existence, scientific dating, and absolute chronology, but by virtue of the deeply rooted psycological appeal of myth, legend and tradition” (Linden, The Alchemy Reader: From Hermes Trismegistius to Isaac Newton, Cambridge University Press, 2003, pág. 27).

7 – Haeffner, Dictionary of Alchemy: From Maria Prophetessa to Isaac Newton, Aeon, 2004, pág. 137.

8 – Tradução livre de: “Nobody speaks about a universal remedy, alchemy’s main goal, before Geher, an Arab author who lived during the seventh century” (The Encyclopedia of Diderot and d’Alembert – Colaborative Translation Project, entrada “Alchemy“).

9 – Tradução livre de: “Some authorities have maintained that all alchemy came from China originally and spread westward later; others believe that it arose in Egypt. (…) However, the idea most basic to Chinese alchemy, the Elixir of Life, did not appear in the West until the twelfth century AD, when it was introduced there from China by the Arabs” (Cooper, Chinese Alchemy: Taoism, the Power of God, and the Quest for Immortality, Weiser Books2016, pág. 8).

10 – Maxwell-Stuart, The Chemical Choir: A History of Alchemy, 2008, pág. 55.

11 – Tradução livre de: “chemistry has shamelessly appropriated the advantages it has gained from alchemy; alchemy has been maligned in most chemistry books” (The Encyclopedia of Diderot and d’Alembert – Colaborative Translation Project, entrada “Alchemy“).

12 – Linden, The Alchemy Reader: From Hermes Trismegistius to Isaac Newton, Cambridge University Press, 2003, pág. 153.

13 – Cirlot, Dicionário de Símbolos, Centauro, 2005, pág. 474.

14 – Idem, pág. 452

Imagens (na ordem em que aparecem)

1 – Fullmetal Alchemist, episódio 40

2 – Fullmetal Alchemist, episódio 2

3 – Fullmetal Alchemist, episódio 15

4 – Fullmetal Alchemist, episódio 15

5 – Fullmetal Alchemist, episódio 15

6 – Fullmetal Alchemist, episódio 3

7 – Fullmetal Alchemist, episódio 38

8 – Fullmetal Alchemist, episódio 40

9 – Fullmetal Alchemist, episódio 6

10 – Fullmetal Alchemist, episódio 40

11 – Fullmetal Alchemist, episódio 14

12 – Fullmetal Alchemist, episódio 7

13 – Fullmetal Alchemist, episódio 7

14 – Fullmetal Alchemist, episódio 40

15 – Fullmetal Alchemist, episódio 10

16 – Fullmetal Alchemist, episódio 1

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Um comentário sobre “Fullmetal Alchemist: Brotherhood – A Alquimia e a Busca Pela Pedra Filosofal

  1. Fullmetal é o meu anime favorito, sem discussão. Pra mim é uma obra prima, e me inspirou a seguir a minha carreira como cientista, por despertar a minha vontade de pesquisar, aprender e evoluir!

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