Review – Mawaru Penguindrum (Anime)

Mawaru Penguindrum
Mawaru Penguindrum

O que você acha da palavra “destino”? Alguns a odeiam: se nossas vidas já estão pré-determinadas desde o momento em que nascemos, então qual o ponto em viver, afinal? Já outros a amam: encontros fortuitos que se convertem em amizade e amor, o que é isto se não o destino? Finalmente, existem também aqueles que sentem que essa palavras lhe trás algum conforto: se tudo ocorre por uma razão, então mesmo a dor e o sofrimento não são sem significado, não é? Takakura Himari já não tem muito tempo de vida. E num passeio com seus irmãos, Shouma e Kanba, ela morre. Porém, uma força misteriosa, vinda do outro lado do destino e falando através de um chapéu de pinguim, decide estender a vida da menina. Mas isso tem um preço: os irmãos devem agora encontrar ao penguindrum, ou a vida será mais uma vez tomada de Himari. Assim começa Mawaru Penguindrum, uma produção original do estúdio Brain’s Base, de 2011, com 24 episódios e dirigido por Kunihiko Ikura.

Dizer que este anime é uma experiência única ainda não transmitiria o que de fato é esta obra. Sob uma aparência inocente, com cores vibrantes e personagens bonitinhos, Mawaru Penguindrum explora ideias e conceitos bastante provocativos, mesmo traumáticos, dentre os quais a ideia de destino, o abandono infantil, e mesmo o terrorismo, tudo sob uma névoa de simbolismo e alegoria que o tornam talvez uma das obras mais complexas da animação japonesa. E claro, a história segue o mesmo caminho: “intrincada” é o mínimo que se pode dizer da mesma, contada de tal forma que nada nunca é o que parece, como que rimando, narrativamente, com o simbolismo visual do anime. É um anime que exige atenção do espectador, e muita. Isso dito, é uma obra fenomenal, mesmo que provavelmente não seja para todos. Mas dada essa introdução, spoilers a partir deste ponto. Se ainda não assistiu o anime, fica aqui a minha recomendação. E se já viu, ou se não se importa com spoilers, espero que tenha uma boa leitura. E vamos à review.

Da esquerda para a direita: Shouma, Himari, Kanba
Da esquerda para a direita: Shouma, Himari, Kanba

Talvez o mais óbvio que se possa dizer da obra – e mesmo o óbvio, aqui, não é de fato assim tão óbvio – é que ela é uma história sobre o destino. Vemos isso inclusive em seu nome. “Mawaru” (輪る, aqui escrito com o Kanji para “roda”, tecnicamente um “erro” gramatical, que certamente é bastante proposital) significa “girar”, ao passo que o penguindrum, como descobrimos ao final do anime, nada mais é do que o próprio “fruto do destino”. Quanto a este último, o “fruto do destino” ao qual o anime faz referência tem em si um caráter bastante específico: é a maçã, fruto que Kanba compartilha com Shouma, para que este não morra de fome, e que depois Shouma compartilha com Himari, para que esta não seja abandonada. O “destino” aqui apresentado, portanto, é o destino à vida ou à morte. Assim, “Mawaru Penguindrum” é um título que poderia ser “desdobrado” em algo como “O Destino à Vida e Morte que Gira como a uma Roda”. Uma possível referência, é válido apontar, ao conceito budista de Samsaara (o ciclo indefinido de nascimento, vida mundana, morte e renascimento), representado inclusive na imagem da Bhavacakra: a Roda da Vida.

A vida e morte, inclusive, é outro tema prevalente ao longo do anime. Vemos este tema aparecer de várias formas: temos a própria Himari, cuja saúde já a condena a uma vida curta; temos os vários exemplos de crianças abandonadas ou maltratadas, correndo sério risco de vida; temos inclusive a ação de um grupo terrorista cujo objetivo, recolocar o destino em seus trilhos, seria alcançado pela morte de muitos. E claro, o tema da morte se complementa pelo tema da vida, na forma de como aqueles que viveram lidam com a perda daqueles que se foram, bem na forma do legado – por vezes uma “maldição” – deixado por aqueles que partiram. Finalmente, é também interessante apontar como ambos os temas, a morte a vida, se relacionam diretamente com o tema do destino, e o questionamento de porque algumas pessoas devem morrer enquanto outras devem viver é um tema constante ao longo do anime. Em fato, podemos dizer que este tema é o próprio motivo de existência daquela história: ao repartir a maçã com Shouma, Kanba foi contra o destino então colocado, e esta ação depois repercute até o final do anime, quando o destino distorcido por Kanba precisa agora ser restaurado, ainda que em uma forma que não a sua original.

Vida, morte e destino são temas que constantemente se cruzam no anime. Destinada a morrer, uma entidade vinda do outro lado do destino estende a vida da Himari.
Vida, morte e destino são temas que constantemente se cruzam no anime. Destinada a morrer, uma entidade vinda do outro lado do destino estende a vida da Himari.

Os temas de vida, morte e destino estão inclusive expressos nas referências usadas pelo anime. A maçã, que o anime toma como o símbolo do destino da vida e da morte, é uma referência dupla. Primeiro, ao mito bíblico de Adão e Eva: ao comerem o fruto da Árvore (e sim, em nenhum lugar da bíblia se fala que era uma maçã de fato esse fruto, mas relevemos, já é um símbolo impresso na cultura popular), Adão e Eva foram banidos do Éden, perdendo a sua imortalidade e assim abrindo a própria possibilidade de existência da morte. E, também, ao filme Ginga Tetsudou no Yoru, que é inclusive comentado no anime ainda no primeiro episódio, por duas crianças que passam em frente à casa dos Takakura, com uma delas mencionando a maçã como símbolo de amor no filme. Já a presença constante de trens é uma referência a um atentado terrorista real que ocorreu no Japão, quando gás sarin (considerado uma arma de destruição em massa) foi liberado no sistema metroviário de Tokyo. O atentado, que terminou com a lamentável morte de 12 indivíduos, ocorreu em 1995, e podemos ver o número “95” aparecendo diversas vezes no anime. Mesmo toda a conversa sobre o pinguim imperador à beira de um penhasco, sem saber se é ou não seguro pular na água, pode ser interpretado como dentro desta temática de vida e morte.

Não se preocupem, eu não pretendo ficar aqui apontando o significa de cada possível símbolo ou alegoria que aparece no anime, até porque eu estou longe de ter entendido todos. Mas tudo que falei acima serve para colocar como esse caráter alegórico, simbólico e referencial do anime, longe de ser algo pontual, é antes a própria essência da obra. Como disse, vemos isso inclusive em sua narrativa. Mawaru Penguindrum certamente poderia figurar numa lista de animes com mais twists no roteiro, e é seguro dizer que neste anime nada é o que parece. Até o seu final, ele desconstrói – mesmo destrói – todo o status quo que tínhamos no início, e ele o faz mostrando como as aparências podem ser enganosas. Os três irmãos são irmãos de criação, não de sangue. Masako é a irmã de Kanba, não uma antiga namorada. Os pais de Shouma e Kanba, inicialmente mostrados como atenciosos e gentis, eram membros de uma organização terrorista. O casamento de Yuri e Tabuki era uma farsa. Tal como o símbolo e a alegoria funcionam mostrando uma coisa no lugar de outra, a narrativa de Mawaru Penguindrum continuamente revela que aquilo que é inicialmente mostrado não é, de fato, a verdade. Aliás, mesmo a arte do anime reflete isso, apresentando uma arte colorida e inocente sob a qual temos temáticas extremamente sérias e provocativas.

Tomadas no anime como símbolo do destino, as maçãs são uma dupla referência: tanto ao mito bíblico, como ao filme Ginga Tetsudou no Yoru, este por sua vez baseado em um conto infantil.
Tomadas no anime como símbolo do destino, as maçãs são uma dupla referência: tanto ao mito bíblico, como ao filme Ginga Tetsudou no Yoru, este por sua vez baseado em um conto infantil.

Por conta de todos esses fatores, esse é um anime bem difícil de compreender. Entender a história em si já é um desafio, justamente pelos vários twists. Em adição, o anime brinca com a alegoria de uma forma que é difícil sabermos o que é real ou não dentro daquele universo. Por exemplo, o local para onde são enviadas as crianças abandonadas, um verdadeiro enorme picotador humano. Em si todo aquele local é uma alegoria para o abandono infantil, conforme as crianças se tornam parte indistinta do cenário da grande cidade, ignoradas por aqueles à sua volta. Mas é aquele de fato um local real dentro daquele universo, ou seria uma alegoria para alguma outra instituição ali dentro, um orfanato talvez? Ou, ainda, a cena recorrente nos últimos episódios, quando temos Shouma e Kanba em gaiolas. Aquilo aconteceu “de verdade”, dentro da cronologia da série, ou toda aquela ambientação é uma alegoria para alguma outra coisa, um outro evento menos “drástico”? De novo, não resta dúvidas de que é uma alegoria, neste caso para a fome que passam algumas crianças, mas é difícil, se não mesmo impossível, de dizer se é algo que aconteceu dentro da série da forma que é mostrada ou não.

E sim, elementos simbólicos e referenciais, como os já citados mais acima, certamente servem ainda como mais um nível de obscuridade que recobre a obra. E especialmente por conta deles é mesmo possível que elementos da obra passem desapercebidos não por desatenção do espectador, mas simplesmente por falta de conhecimento dos elementos que a obra referencia e dos símbolos que usa (eu mesmo não fazia ideia de que havia ocorrido um atentado real no Japão da metade dos anos 1990 até começar a ler mais sobre este anime). E esse talvez seja o único real problema maior de Mawaru Penguindrum: ele é difícil de entender. Às vezes mesmo injustamente difícil de entender, embora falar isso da perspectiva de um ocidental, não imbuído da mesma carga cultural que o público japonês do anime, talvez seja um tanto quanto injusto em si mesmo. Mas dito isso, se você consegue entender a história e as suas temáticas este anime é simplesmente fascinante.

É difícil, em Mawaru Penguindrum, dizer o que é "real" (dentro do anime) e o que não é. Por exemplo, a cena de Shouma e Kanba nas gaiolas ocorreu daquela forma de fato? Ou seria algum tipo de alegoria?
É difícil, em Mawaru Penguindrum, dizer o que é “real” (dentro do anime) e o que não é. Por exemplo, a cena de Shouma e Kanba nas gaiolas ocorreu daquela forma de fato? Ou seria algum tipo de alegoria?

Pessoalmente, eu gosto como essa forma de Mawaru Penguindrum de sempre esconder algo acaba tocando em clichês e temáticas de uma forma bastante interessante. Por exemplo, desde bem cedo é colocado que o Kanba está apaixonado pela Himari, por mais que se negue inicialmente. A princípio, isso parece remeter ao clichê do incesto, bastante comum em alguns animes. Conforme a história avança, a primeira subversão disso vem quando descobrimos que Himari não é a irmã de sangue de Kanba e Shouma. E tudo bem, nesse ponto se poderia ainda muito bem argumentar que não muda muito: sangue ou não, ainda foram criados como irmãos, então o clichê se manteria praticamente inalterado. Mas ai temos uma segunda subversão ao descobrirmos que Kanba já era apaixonado por Himari desde criança, o que ai sim modifica substancialmente o clichê. Agora não é um irmão que desenvolveu sentimentos pela irmã, é um garoto já há anos apaixonado por uma menina.

O interessante nisso é que Mawaru faz isso com vários clichês. Por exemplo, ele abre o anime falando que os três são irmãos, e só muito pra frente começa a dar pistas para questionar isso. A primeira vem quando descobrimos que Shouma e Kanba nasceram no mesmo dia, o que os colocaria como gêmeos. E aqui está o interessante: é fácil você descartar essa “dica” como “pff, anime…”. Digo, os dois não se parecem em nada. Nem de longe. Mas nós já estamos tão acostumados com designes exagerados de personagens em animes, e com irmãos não sendo nem de longe parecidos, que nós podemos nem tomar isso como dica de nada, mas sim como apenas anime sendo, bom, anime. E o mesmo vale para o clichê do incesto mencionado acima. É só quando temos mostrado o twist de que os três não são irmão de sangue que todo o bild upforeshadow de vários episódios finalmente passa a fazer pleno sentido, e não antes. Inclusive, por conta disso eu arriscaria dizer que esse anime deve ser ótimo para re-assistir, tão somente porque deve ser possível notar muita construção para eventos futuros desde o começo, dando toda uma nova visão para o que estava sendo mostrado e dito antes das revelações virem de fato.

Shouma e Kanba não são exatamente muito parecidos, em termos de aparência, mas é algo fácil de deixar passar pelo simples fato de ser algo comum em animes.
Shouma e Kanba não são exatamente muito parecidos, em termos de aparência, mas é algo fácil de deixar passar pelo simples fato de ser algo comum em animes.

Já em termos temáticos, um exemplo interessante é de como o anime cria toda uma construção dos pais dos irmãos como pais gentis e amáveis, para então jogar a revelação de que eram agentes de uma organização terrorista. E de certa forma o mesmo é feito com o personagem do Sanetoshi. Mesmo que ele em si tenha uma clara aura de “vilão”, o anime constantemente mostra algumas boas ações do mesmo, como que tentando forçar o espectador a se questionar se ele é mesmo tão ruim quanto parece (um sentimento, aliás, que ajuda o espectador a se identificar com os irmãos, considerando que eles também claramente desconfiam do Sanetoshi, mesmo ele salvando e ajudando a Himari). Isso é interessante porque dá um ar humano a estes personagens que, em praticamente qualquer outra história, seriam provavelmente vilões token sem qualquer profundidade. Aqui eles se mantém como “vilões”, o anime mantém que o que fizeram foi errado e trouxe enorme sofrimento há muitos, e ainda assim mostra um lado mais gentil destes personagens. Mostra mesmo sua ideologia, e faz o espectador simpatizar com ela até certo nível, especialmente depois de toda a desgraça que vimos em episódios anteriores, incluindo ai o caso da Himari, abandonada pela mãe. É fácil ver algo de errado no mundo quando você tem esses exemplos, e nisso é fácil de entender, até certo limite, a mentalidade daqueles personagens. Se torna um constante lembrete de que, para tudo de terrível que fizeram, ainda eram humanos.

E aproveitando que entrei na questão dos personagens, num geral todos aqui são bem interessantes. O anime é bastante competente em mostrar as suas ideologias, motivações, desenvolvimentos, e por ai vai. E faz um excelente trabalho de manipular a forma como o espectador os vê. Ringo começa como uma completa obsessiva maluca que você provavelmente gostaria de ver presa, mas conforme a obra avança você percebe o quão emocional e psicologicamente fragilizada ela está, e com o tempo ela se torna uma personagem bem mais fácil de simpatizar. Tabuki já um exemplo de quase oposto: temos ele como um personagem carismático e fácil de gostar, para então um quase que verdadeiro psicopata ameaçando a vida dos irmãos, e ai a revelação do quão profundamente traumatizado e fragilizado ele é. Aliás, “profundamente traumatizado e fragilizado” meio que descreve praticamente todo mundo nesse anime, e algo interessante é ver como estas personagens vão passando de algo entre o “normal” e o “genérico” (para os padrões dos animes, digo) até personagens muito mais complexos do que pareciam inicialmente (ou seja, de novo a temática de ir revelando a verdade aos poucos, começando com a simplicidade e escalonando até uma maior complexidade)

O anime é bastante competente em lidar com seus personagens. Bom exemplo é a Ringo, que começa como uma personagem bastante desconfortável (para dizer o mínimo) e vai se tornando cada vez mais gostável.
O anime é bastante competente em lidar com seus personagens. Bom exemplo é a Ringo, que começa como uma personagem bastante desconfortável (para dizer o mínimo) e vai se tornando cada vez mais gostável.

Acho que o único personagem que eu senti que faltou um desenvolvimento apropriado foi a Momoka. Honestamente, essa personagem é um enigma. Em termos de alegoria, o fato da personagem ser colocada como a adversária última do Sanetoshi, e o fato de tanto ela quanto ele dizerem que vêm do outro lado do destino, me faz ver a ambos como alegorias para os conceitos de vida e morte, respectivamente. A função de Sanetoshi é trazer a morte, e com isso ele devolve o destino aos seus trilhos; já o poder da Momoka é intervir no destino, modificando-o e, assim, trazendo a vida, na forma de salvação para aqueles que estavam destinados a morrer. Mas enquanto ela funciona muito bem como alegoria, ela é completamente estranha como personagem. Por exemplo, nos flashbacks de Yuri e Tabuki ela é colocada como uma pessoa gentil e afetuosa, além de verdadeiramente messiânica, mas quando falando através da Himari possuída pelo chapéu Momoka é enigmática e grosseira, aparentemente pelo simples prazer de o ser. E é difícil de entender ao certo qual era o plano dela. Sabemos que seu objetivo final era deter o Sanetoshi, mas a sequência de eventos que ela coloca em marcha para tanto é no mínimo incompreensível.

Por exemplo, ela pede para os irmãos buscarem ao penguindrum, que nada mais é que o Fruto do Destino que já estava com eles desde o começo. E tudo bem, podemos argumentar que ela só disse tudo isso porque queria o diário que estava com a Ringo. Ignorando completamente a falta de clareza da Momoka sem motivo nenhum, por que ela precisaria do diário? O anime deixa bem claro que a magia “vamos partilhar o fruto do destino” pode ser usada por qualquer um, e não necessita do diário para funcionar. E tudo bem, no final ela conseguiu o que queria e você pode dizer que saiu tudo como ela planejou, mas… ela planejou? De verdade? Porque eu sinceramente não faço a menor ideia do que se passa na cabeça dessa personagem. O que, justiça seja feita, talvez seja todo o ponto dela (o que me parece estranho, considerando que Sanetoshi recebe bem mais desenvolvimento mesmo sendo uma “força” similar à Momoka, sendo apenas seu oposto), mas ainda considero um problema. Mas hey, uma personagem “estranha” em um vasto cast de personagens interessantes, complexos e bem trabalhados é um desvio bastante aceitável, eu acho.

Momoka é certamente a personagem mais estranha nesse anime.
Momoka é certamente a personagem mais estranha nesse anime.

E vamos lá, resta então comentar sobre o verdadeiro elefante no armário deste anime, o ponto que todos que assistem ficam em dúvida: afinal, por que pinguins?! Ok, vamos tirar uma coisa do caminho: dentro da obra, os três pinguins que seguem os irmãos Takakura, mais a pinguim que segue a Masako, tem por função serem uma espécie de “espelho” de seus donos, uma espécie de versão exagerada deles, em fato. O pinguim do Kanba é um verdadeiro pervertido, exagerando seu lado playboy. O pinguim do Shouma está constantemente comendo, referenciando ao fato de Shouma quase ter morrido de fome. E as pinguins da Himari e da Masako basicamente fazem o que a dona estiver fazendo. Isso é relativamente óbvio, então é algo que a maioria percebe. Mas a pergunta permanece: por que pinguins? Por que não absolutamente qualquer outro animal? Mesmo qualquer outra “coisa”. O que há nos pinguins que torne esse animal ideal para o anime? Ou não haveria motivo?

Bom… É complicado. Dentro do anime, os pinguins de certa forma referenciam o próprio Sanetoshi, que os estudou em uma expedição. Mas considerando a vasta quantia de subtexto, alegorias e simbolismos do anime, sempre referenciando algo externo à ele mesmo também, é tentador assumir que há um motivo maior para a presença dos pinguins do que apenas isso. Infelizmente, se há, eu não consegui descobrir. Simbolicamente, a figura do pinguim não é exatamente homogênea, e a depender do quanto você pesquise você vai encontrar toda sorte de atributos. O mais comum parece ser o dos pinguins enquanto expressões do amor familiar, por conta de ser uma espécie monogâmica, o que de alguma forma encaixa com os irmãos na série. Outra associação feita com os pinguins é a de uma espécie com casais gays que por vezes adotam os pinguins abandonados por outros casais, o que, de novo, de certa forma se encaixa com o anime (Kanba e Himari sendo adotados, mesmo que a parte “gay” do “casal gay” acabe ficando de fora).

Por que pinguins?
Por que pinguins?

O fato de que os pinguins são aves que não voam é também um fato apontado por muitos que já fizeram análises desse anime, ligando isso à busca de um lugar ao qual pertencer, um problema que a maioria dos personagens de Mawaru Penguindrum enfrenta. Eu adicionaria ainda que isso bate com a temática geral do anime de aparências que enganam, considerando que o pinguim é uma ave que não se porta como as demais aves. Mas mesmo isso ainda me parece bastante vago, e não muito mais provável de ser a “resposta certa” do que as demais possibilidades levantadas. E no final, podemos mesmo descartar a possibilidade dos pinguins serem apenas um elemento estilístico? Algo que o autor quis colocar “porque sim”? É o problema de obras altamente imersas em simbolismo: traçar a linha entre o que é símbolo e o que é estética pode ser bastante complicada. Então infelizmente, para este caso, a resposta mais honesta que posso dar à questão de “por que pinguins?” é “eu não sei”.

Entrando então nas considerações finais, eu colocaria que a parte técnica do anime é bastante competente. A animação é boa, pelo menos para a mim (embora admita que não sou dos mais exigentes nesse quesito [rs]), mas o que realmente merece destaque nessa parte é a trilha sonora, belíssima e muito bem utilizada ao longo do anime. É um anime denso, complexo, extremamente criativo e imaginativo, quase que desconfortavelmente provocativo, muitíssimo bem executado e com uma carga de alegoria e simbolismo que o torna o tipo de obra que vale a pena pensar em revisitar de tempos em tempos, já que provavelmente sempre haverá algo de novo a ser notado nesse anime, tamanha é sua riqueza. Um anime excelente, que eu certamente gostei bastante de ter conhecido.

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Review – Tenshi no Tamago (OVA)

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Imagens (na ordem em que aparecem):

1 – Mawaru Penguindrum, episódio 1

2 – Mawaru Penguindrum, episódio 1

3 – Mawaru Penguindrum, episódio 1

4 – Mawaru Penguindrum, episódio 20

5 – Mawaru Penguindrum, episódio 24

6 – Mawaru Penguindrum, episódio 2

7 – Mawaru Penguindrum, episódio 2

8 – Mawaru Penguindrum, episódio 24

9 – Mawaru Penguindrum, episódio 1

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3 comentários sobre “Review – Mawaru Penguindrum (Anime)

  1. Olá,
    gostei muito da sua analise sobre Mawaru `Penguindrum, quando eu terminei de assistir, tive que voltar rever tudo novamente para me aprofundar mais nessa maravilhosa aventura! O Diretor se baseou em um livro chamado: “Viagem noturna no trem da via láctea”, um livro com várias lendas japonesas e um conto com o titulo do livro, onde também encontrei entre milhares de referencia ao anime, uma referencia uma que chamou a atenção sobre o Kanba e o Penguindrum. No livro conta a história de um Escorpião que sempre matava os outros insetos para comer e se recusou virar alimento de uma Fuinha, caindo dentro de um poço destinado a morrer de fome, se arrependendo de suas atitudes, ele reza a “deus” pedindo perdão por seu egoismo e que na próxima vida ele possa ser útil para ajudar outras pessoas, e deus ouvindo suas preces, o transforma na estrela “Antares”, o coração da constelação do Escorpião! E no Anime, o coração do Kanba é retratado como o “fogo do escorpião queimando”, achei uma referencia incrível!
    Sem contar outra também que achei muito interessante, o nome da primeira música de abertura é “Nornir”, que são um conjunto de 3 entidades da mitologia nórdica que cuidam do passado, presente e futuro e destino de todos os seres vivos, incluindo deuses. E em uma analise que li recentemente, o Tiple h foi comparado a essas 3 deusas.
    Esse Anime é incrível demais, toda vez que assistimos, surge novas teorias e suposições, diferente de muitas histórias “Fast food” que já vem pronta pra ver assistir e fim…
    Fico feliz em ter encontrado seu blog e uma pessoa que se encantou tao lindamente com a história, muito sucessos pra você!

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    • Eu sabia que o anime tinha bastante inspiração de um livro, mas não tinha parado para ver mais a respeito, então valeu pelos comentários :D. É mesmo impressionante o quanto de referências e de simbolismo foi colocado nessa obra, o bastante para todo mundo encontrar alguma coisa nova cada vez que assiste xD Mas bom, acho que é justamente isso que torna esse anime tão gostoso de se falar sobre rs.

      Fico feliz que tenha curtido a review, e bem legal essas informações que você trouxe. Mais uma prova de como esse anime é mesmo bem “distinto” do que sai normalmente =)

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  2. REVIEW MARAVILHOSA, esse anime com certeza é um dos melhores que já vi. Eu amei a trilha sonora, character design, a história, os simbolismos, tudo é muito bem pensado. Além dele abordar tantos temas diferentes, o desenvolvimento dos personagens é muito interessante e certamente da vontade de rever os episódios procurando detalhes que você talvez deixe passar.
    Um tipo de narrativa repleta de flashbacks que não é para todos, mas eu particularmente gostei muito. É muito bom se deparar com uma obra assim em meio a tantos clichês e animes desinteressantes.

    Curtido por 1 pessoa

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