Sobre símbolos, referências e alegorias.

Símbolo, referência, alegoria: você sabe diferenciá-los quando vê?
Símbolo, referência, alegoria: você sabe diferenciá-los quando vê?

Não é de hoje que o uso de simbolismo é visto com bons olhos pelo público em geral, ao menos no caso dos animes. Muitas obras são extremamente elogiadas pelo seu uso de simbolismo, e enormes debates já foram iniciados para tentar entender, de fato, o que o autor quis dizer com esta ou aquela cena. Agora, eu, pessoalmente, aprecio bastante o uso de simbolismo em uma obra, especialmente quando bem feito, a exemplo de obras como Mawaru Penguindrum. Mas o que eu percebo é que existe uma espécie de confusão a respeito do que é, de fato, simbolismo. O conceito em si mesmo, que muitas vezes parece se confundir com outros tantos conceitos. Por exemplo, fala-se muito do simbolismo religioso em Neon Genesis Evangelion, mas o que temos ali é muito mais uma referência à símbolos do que um simbolismo de fato, e mais pra frente eu vou explicar melhor o que quero dizer com isso.

Conceitos como símbolos, signos, referências, alegorias, e ainda outros acabam se “misturando” baixo o termo abrangente de “simbolismo”. E sinceramente: tudo bem. Confusões nessa linha são ridiculamente comuns, e eu mesmo as mantive por muito tempo. Mas o interessante de parar para notar as nuances que esses termos podem ter (digamos, o que diferencia um símbolo de uma referência) é que você muitas vezes acaba percebendo melhor qual era de fato a intenção do autor por trás do uso de qualquer que tenha sido aquele recurso. Então vamos ver essas nuances. E para começar nós vamos ter de dar uma olhada rápida numa ciência que provavelmente a maioria dos leitores nunca se quer ouviu falar: a semiótica.

Neon Genesis Evangelion é talvez exemplo mais comum quando se fala em simbolismos em anime, mas talvez ele seja bem menos simbólico do que se imagina.
Neon Genesis Evangelion é talvez exemplo mais comum quando se fala em simbolismos em anime, mas talvez ele seja bem menos simbólico do que se imagina.

Para explicar o que é a semiótica, nós primeiro precisamos entender uma coisa: o ser humano se comunica por mais meios do que apenas a fala. Gestos corporais são uma forma de comunicação. Sinais são uma forma de comunicação. Placas e outdoors são uma forma de comunicação. E sim, símbolos são uma forma de comunicação. A semiótica é a ciência que estuda estas variadas formas de comunicação, mais especificamente sobre a visão como nós, seres humanos, damos sentido às coisas e as usamos para nos comunicar. Por exemplo, eu sei, sem ninguém me dizer, que a imagem de uma caveira e ossos significa “perigo”. Esse tipo de convenção, onde eu pego uma “coisa” (não necessariamente apenas uma imagem, que fique claro) e a uso para representar ou significar uma outra coisa é o campo de estudos da semiótica.

Indo um pouco mais a fundo (mas não muito) é importante que o leitor entenda também dois conceitos fundamentais para a semiótica: o de significante e o de significado. O significado é a “coisa” em si, é aquilo que será referenciado. No exemplo anterior, o significado seria o conceito de “perigo”. Já significante é aquilo que referencia. É a imagem, símbolo, escultura, ou o que for: ele age como um substituto, um indicativo daquilo que realmente quer dizer. No exemplo anterior, a imagem de uma caveira e ossos é o significante. É importante entender essa distinção porque basicamente tudo o que iremos ver nos próximos parágrafos são relações entre um significante e um significado, apenas em diferentes formas.

Mawaru Penguindrum é um bom exemplo de um anime lotado de simbolismo, a própria imagem da maçã sendo um símbolo para o conceito de "destino".
Mawaru Penguindrum é um bom exemplo de um anime lotado de simbolismo, a própria imagem da maçã sendo um símbolo para o conceito de “destino”.

Então tá, tendo todas essas noções em mente é hora de começarmos a explorar os conceitos. E para começar nós temos o conceito de signo. Não, eu não estou falando do zodíaco: “signo”, para a semiótica, é tudo aquilo que age como um substituto para a coisa em si. Ele significa algo. Agora, a natureza desse signo é o que vai dar origem aos outros conceitos. Seguindo aqui os preceitos de Charles Peirce, considerado um dos fundadores da semiótica moderna, o signo pode assumir três formas: índice, ícone e símbolo. Todos eles são signos, isto é, todos eles são formas pelas quais uma coisa é usada no lugar de, ou como representante de uma outra coisa. Mas o que separa estes três níveis é a sua materialidade.

Explicando: no caso de um índice, existe ai uma continuidade entre o significante e o significado. Ou seja, o significante é um indício do significado. O exemplo mais claro possível é da fumaça representando o fogo: a fumaça (significante) é um subproduto direto do significado (o fogo). Já no caso do ícone, o que temos é um signo que age por semelhança. Ou seja, o significante procura imitar, visualmente, o significado. Por exemplo, o retrato de uma casa como significante para a própria casa. Finalmente, o símbolo é o meio da total representatividade. É você pegar uma “coisa” e, por pura e simples convenção com outros, dizer que ela representa uma outra coisa. A caveira com ossos cruzados é um símbolo de perigo tão somente porque as pessoas, em uma dada cultura, concorda entre si que ela é um símbolo de perigo. O desenho de uma caveira não é o subproduto direto do conceito de perigo, nem ela procura imitar visualmente o conceito: ela simboliza, por convenção, aquele conceito.

Um bom exemplo de como funciona o símbolo pode ser visto em Digimon Adventure, onde cada brasão simboliza uma virtude.
Um bom exemplo de como funciona o símbolo pode ser visto em Digimon Adventure, onde cada brasão simboliza uma virtude.

Muito bem, tudo isso dito vamos agora deixar Peirce de lado um pouco e ir pra um outro conceito, que muitos confundem com o simbolismo: a referência. Não por acaso, claro, considerando que a linha pode ser fato ser um tanto quanto “borrada”, e eu tratarei disso em breve, mas por agora a diferença que me parece ser a que separa os dois é a seguinte: o símbolo alude a uma ideia ou conceito, enquanto que a referência alude a algo muito mais específico. É um tipo de intertextualidade, quando um texto (e entendam “texto” aqui como algo absurdamente abrangente, incluindo filmes, quadrinhos, peças de teatro, folclore popular e o que mais você imaginar) faz referência a outro texto. Acho que a melhor forma de explicar a diferença entre ambos é pensar em duas obras que podem parecer semelhantes na superfície, esteticamente falando, mas que são muito diferentes no que diz respeito ao uso justamente de simbolismo e intertextualidade: respectivamente, Mawaru Penguindrum e Kyousougiga.

Mawaru Penguindrum é um anime completamente recheado de simbolismos, onde quase sempre uma coisa quer dizer outra. Maior exemplo disso talvez seja a maçã, que o anime usa como uma representação do próprio conceito de “destino”. Já Kyousougiga é uma obra intertextual por excelência. Seu próprio nome é uma referência ao Choujuu Jinbutsy Giga, uma série de pergaminhos que muitos estudiosos consideram como sendo o primeiro mangá da história, ao passo que a sua história faz diversas referências às histórias de Lewis Carroll Alice no País das MaravilhasAlice Através do Espelho e o que Ela Encontrou lá.

Kyousougiga é uma obra lotada de referências. O próprio ONA original já começa mostrando alguns quadros do Choujuu giga, uma das maiores fontes de inspiração do anime.
Kyousougiga é uma obra lotada de referências. O próprio ONA original já começa mostrando alguns quadros do Choujuu giga, uma das maiores fontes de inspiração do anime.

Outros exemplos que poderia mencionar seriam os animes Haibane RenmeiNeon Genesis Evangelion. Em Haibane temos uma forte presença do corvo, animal simbolicamente visto por muitas culturas como um mensageiro. E de fato, em Haibane ele é exatamente isso, embora eu não falo mais do que isso para não entrar em spoilers. Já Neon Genesis Evangelion é um caso interessante porque a princípio ele parece fazer uso de símbolos, mas olhando mais de perto vemos que ele é uma obra muito mais intertextual. Símbolos cristãos como a cruz, a figura do anjo ou a lança de Longino estão ali não representando as ideias e preceitos que estes símbolos representam no cristianismo, mas antes como uma referência à religião cristã. Em fato, teríamos mais sorte de achar um símbolo em Evangelion fora das referências religiosas: o AT-Field, um símbolo do próprio conceito de individualidade.

Claro, muitas obras irão provavelmente fazer uso de ambos os recursos. Em Digimon Adventure (review), elementos como a Luz e a Escuridão são respectivamente um símbolo do bem e um símbolo do mal, ao passo que os quatro Mestres das Trevas que precedem a chegada de Apocalymon são uma referência aos quatro cavaleiros do apocalipse bíblico. E sim, a distinção entre o que é um símbolo e o que é uma referência pode se tornar um tanto quanto nublada. Retomando Mawaru Penguindrum, a maçã é claramente um símbolo para destino, mas é também uma referência ao mito bíblico de Adão e Eva. Ou, ainda, temos o exemplo de Gatchaman Crowds (review), no qual as alusões a pássaros são, ao mesmo tempo, uma referência ao anime original da década de 1970, Kagaku Ninjatai Gatchaman, e um símbolo de independência, um tema recorrente ao longo do anime.

A imagem do pássaro é uma constante em Gatchaman Crowds e serve tanto como símbolo quanto como referência.
A imagem do pássaro é uma constante em Gatchaman Crowds e serve tanto como símbolo quanto como referência.

Agora, uma obra pode querer dizer algo mais com sua referência? Sem dúvida que pode. Um bom exemplo talvez seja ao mangá de Hourou Musuko (review). Sendo a história de duas crianças transexuais, o mangá contém duas grandes referências, ambas na forma de uma peça de teatro. No começo do mangá, temos uma peça que reconta o clássico mangá Rosa de Versalhes, uma história cuja protagonista, Oscar, demonstra uma preferência pelo uso de roupas masculinas, até pela forma que foi criada, bem como ocupa posições sociais que, à época em que se passa a história, eram vistas como tradicionalmente masculinas. Já mais adiante temos uma segunda peça, desta vez sobre o clássico de Shakespeare Romeu e Julieta. Nesse momento, a obra tem certo enfoque na famosa cena dos nomes, na qual os personagens se perguntam porque eles têm os nomes que têm (aludindo ao nome da família, motivo final pelo qual não podem ficar juntos). No texto original, é por aqui que temos a famosa passagem falando que uma rosa não mudaria seu perfume fosse ela chamada por outro nome.

No mangá de Hourou Musuko a peça é uma peça de troca de sexos, com os personagens masculinos sendo interpretados por garotas e vice-versa. Em adição, os protagonistas, Romeu e Julieta, são colocados como transexuais. E nesse momento, quando os personagens questionam o porque de seus nomes, eles decidem então trocá-los: Romeu oferece seu nome a Julieta e pede o dela para ele. A ideia aqui, que rima com a fala original da rosa, é a de que um nome é, afinal, apenas um nome, e que a essência de algo independe deste nome. É claramente um exemplo de referência, mas também de uso desta referência para tentar passar uma mensagem dentro dos temas do mangá.

A peça de Romeu e Julieta também aparece no anime de Hourou Musuko
A peça de Romeu e Julieta também aparece no anime de Hourou Musuko

E com isso chegamos ao último elemento que eu quero tratar aqui: a alegoria. Mas para explicá-la, eu preciso antes falar sobre metáforas. Agora, eu sei que a maioria já deve ter estudado sobre isso na escola, mas aqui vai um rápido lembrete sobre o assunto: a metáfora nada mais é que quando você iguala duas “coisas” de forma que características da segunda sejam entendidas como também pertencentes à primeira. Exemplo clássico que a maioria de nós deve ter visto nos livros didáticos durantes as aulas de português é o velho poema de Camões, que começa com “amor é fogo que arde sem se ver”. Repare que o poema não diz que amor é “como” o fogo, ou “parecido com” o fogo. Ele diz que o amor é fogo. Ele iguala a ambos, e nisso nós automaticamente associamos algumas características do segundo (digamos, o calor, ou a intensidade) com o primeiro.

É bom ter isso em mente porque a alegoria é uma espécie de metáfora, na qual você também fala X quando quer dizer Y. Mas enquanto a metáfora é mais própria da escrita, a alegoria consegue ir muito além da mesma, e nisso imagens, personagens, situações ou mesmo histórias inteiras podem ter um caráter alegórico. No caso dos animes, mais uma vez Mawaru Penguindrum nos fornece um excelente exemplo: no anime, existe uma espécie de “picotador de crianças”, para onde são enviadas as crianças que foram abandonadas. É uma alegoria para o descaso da sociedade para com as crianças abandonadas, que são “esquecidas” tal como no picotador do anime. Já um outro exemplo talvez mais conhecido vem de Neon Genesis Evangelion, quando temos a história do dilema do ouriço. A história conta o comportamento de um grupo de ouriços no frio e como eles querem ficar próximos uns dos outros (para se aquecer), mas quando o fazem seus espinhos acabam machucando uns aos outros. Toda a história é uma alegoria para a condição humana de desejar o contato com outros mesmo sabendo que este pode ser emocionalmente doloroso.

O picotador de crianças de Mawaru Penguindrum
O picotador de crianças de Mawaru Penguindrum

Claro, a fronteira entre estes variados conceitos pode ser difícil de traçar a princípio. Até por uma questão de praticidade: é muito mais fácil você falar que uma dada cena é simbólica do que falar que ela é uma referência ou uma alegoria. E quando você está falando do anime como um todo, é muito mais fácil usar um termo que entendemos como abrangente, como é o caso do termo “simbolismo”. Por exemplo, é muito mais fácil falar que Evangelion tem muito simbolismos do que falar que X é simbólico, Y referencia alguma outra coisa, e Z é uma alegoria para o que quer que seja. Não espero que alguém pare de usar o termo “simbolismo” para se referir a mais do que apenas símbolos só porque leu este texto: antes de mais nada é apenas uma tentativa de mostrar estas pequenas nuances, e agora cada um faz o que quiser com esta informação [rs].

E para finalizar, encerro o texto com uma rápida recapitulação sobre a diferença entre símbolo, referência e alegoria, caso ainda estejam com alguma dúvida: um símbolo é uma imagem ou um objeto que representa uma ideia ou conceito (em Evangelion, o AT-Field é um símbolo da individualidade humana); a referência é quando algo (podendo ser uma imagem, mas também uma cena, uma situação, um personagem, etc.) faz referência a alguma obra ou evento anterior (em Kyousougiga, Koto chegando à Capital Espelhada atrás de um coelho é uma referência à Alice no País das Maravilhas); e por final, a alegoria é quando toda uma situação, evento ou história representa um conceito ou ideia (o picotador de crianças em Mawaru Penguindrum como uma alegoria para o descaso da sociedade para com crianças abandonadas).

Outros artigos que podem lhe interessar:

Por que o protagonista senta perto da janela?

Hourou Musuko – Identidade de Gênero e Transexualidade

Lista – 5 Animes que Vão te Fazer Pensar

Imagens (na ordem em que aparecem):

1 – Mahou Shoujo Madoka Magica, episódio 1

2 – Neon Genesis Evangelion, episódio 2

3 – Mawaru Penguindrum, episódio 20

4 – Digimon Adventure, episódio 15

5 – Kyousougiga, ONA.

6 – Gatchaman Crowds, episódio 2

7 – Hourou Musuko, episódio 6

8 – Mawaru Penguindrum, episódio 20

 

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15 comentários sobre “Sobre símbolos, referências e alegorias.

  1. “Oscar, é obrigada a se disfarçar como um homem pela maior parte da trama.”

    Uma pequena correção: Ela não é “obrigada”, a grosso modo, e não é um disfarce. Desde criança, ela sempre se identificou com a vestimenta masculina pelo modo que seu pai a criou (e até incentivou), mas todos a reconhecem como do sexo feminino, ela inclusive nunca fez questão de omitir. Aliás, ela não tem nenhum problema com sua sexualidade e gênero, mas sim com os valores de gênero daquela sociedade (e apesar de aceita no comando da guarda real dada a sua origem familiar – o que é de certo modo anormal, mas encarado com normalidade no contexto -, ela enfrenta sérios problemas quando decide integrar o Exercito, mostrando que sua situação na guarda real era encarado de modo bastante fetichista e romântica). A história dela não gira em torno de tal segredo obscuro simplesmente porque não há segredo algum. Ela se veste como homem, não pela maior parte do enredo e sim por TODA a duração deste, desde a infância você nunca a vê como com vestidos. Seu pai, por nunca ter tido um filho homem, acabou a criando como se fosse um homem. Mas todo o conflito gira exatamente em torno dela ser mulher e assumir posições masculinas, como visto no auge da história. Disse tudo isso porque não é certo dizer que ela foi obrigada a se disfarçar como homem pela maior parte da trama. Induz a uma ideia errada do que se trata a história. Do mais ótima explanação sobre algo muito corriqueiro no nosso cenário.

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    • Quero assistir! O mangá eu li até pouco antes de começar a revolução (pois é) mas a leitura é cada vez mais cansativa, ele está muito datado. Como tenho tolerância maior a animes datados, está na minha lista infinita…

      Mas sim, eu ia comentar isso, Oscar não esconde nada. A não ser que queiramos interpretar os papéis de gênero como uma forma de “esconder” a mulher e … meh, eu sempre começo a pensar demais quando leio sobre essas coisas =P

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    • Obrigado o toque, Roberta, corrigi esse erro no texto =)
      Infelizmente, ainda não li o mangá ou vi o anime (ta na minha [enorme] lista de “obras a ver um dia” ;u;), então fui com o que já ouvi falar da obra. De certa forma, foi um erro de interpretação meu, eu sabia q ela usava as roupas por conta da criação, bem como sabia q não era segredo para os demais que ela era mulher, mas por algum motivo imaginei que a personagem sofria pressão da família para seguir o caminho que seguiu, dai o “obrigada”. Bom, erro meu, e é bom ter alguém que aponte XD Agradeço o toque o/

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  2. A fronteira entre os tipos de signo é sempre fluida, e não depende só da intenção do emissor (como falamos de textos, o autor) mas também do entendimento do receptor (leitor). Sempre repito isso para me dar o direito de falar bosta sobre os animes que assisto (LOL).

    E é interessante você separar em diversos momentos do texto a semiótica do idioma (falado e escrito), sendo que o próprio idioma não é senão um conjunto de signos também. Na maioria dos casos, de símbolos, já que palavras não costumam ter significado implícito nenhum, são simplesmente definidas como são em cada idioma. Mas claro que até para isso há exceções! Bebês balbuciam, e uma teoria bastante aceita é que esse balbuciar formou as palavras “papai” e “mamãe” e seus equivalentes em diversos idiomas – nesse caso as palavras se aproximam de índices. Onomatopeias e interjeições podem ser índices também (principalmente as onomatopeias).

    Só a título de comentário solto, acho muito interessante a origem icônica dos ideogramas chineses (que dão origem aos kanjis japoneses), que em suas versões primitivas buscam ilustrar aquilo que significam. Os hieróglifos egípcios em sua maioria são ícones também. Mas mesmo nesses casos, o uso contextual e as metáforas acabam com o tempo removendo o significado original e portanto a característica icônica dos caracteres.

    O mesmo significante pode ser de qualquer tipo, e a metáfora/alegoria, dentre outros processos, costuma ser responsável por essas diferentes interpretações. Uma chama desenhada sobre uma lareira é um ícone, já que representa o fogo por semelhança, mas uma chama em um copo de café é apenas um símbolo para representar “quente” – ou seria um índice? “Houve fogo/calor, portanto está quente”. Semiótica é uma droga.

    Sobre a caveira com ossos por exemplo: para mim significa pirata, LOL! Mas tanto na bandeira pirata como no símbolo de perigo, a caveira com ossos é um ícone, significando por semelhança caveira e ossos reais, que por sua vez representam por extensão (indício) a morte – se há ossos, antes eles estiveram vivos.

    Credo escrevi demais.

    Curtido por 2 pessoas

    • Essas definições sempre serão bastante fluidas, é verdade, e uma mesma “coisa” pode ser mais de uma delas, ou mesmo essas categorias podem conter umas às outras (como uma alegoria formada por diversos símbolos). Mas acho que elas são mais ou menos bem definidas o suficiente para justificar as suas próprias existências, e ainda que um mesmo “objeto” (e entenda “objeto” de forma bem abrangente aqui) caia em mais de uma elas não se anulam ou eliminam, mas podem coexistir (como nos exemplos da maçã em Penguindrum ou do pássaro em Gatchaman). Mas sim, nesse ponto a interpretação conta muito, de fato.

      E eu separei a semiótica do idioma? .-. Não foi essa a intenção, a fala e escrita não deixa de ser uma forma de símbolo, acredito. Hum, talvez a impressão tenha vindo porque acabei dando maior enfoque na parte imagética, já que a ideia era explorar mais o conteúdo visual (até por estar falando de animes). Foi isso?

      Sobre a questão do copo de café, o índice atua por continuidade. Se é um desenho acredito que já não pode ser índice (salvo, sei lá, se você considerar um desenho feito a lápis como índice do próprio lápis… Bom, se bem que já vi um texto considerando a planta e uma casa como índice da casa…). No caso de um desenho de um copo de café com fumaça sobre, também seria um ícone (a menos que vc estivesse falando da fumaça real de um copo de café real, ai de fato a fumaça seria um índice XD)

      Sobre a caveira, é sempre válido lembrar que o significado de um símbolo é inteiramente cultural. A depender da sua bagagem você pode interpretar um símbolo de formas diferentes, então é normal você associar “caveira” à pirataria. Mas em todo caso, segue sendo um símbolo, não um índice, por conta de ser uma imagem que convencionalmente se associa a um conceito (a pirataria, o perigo, etc), não havendo ai uma continuidade entre o significante e o significado (digamos q mesmo q o perigo implique na sua morte, vai demorar um bom tempo até virar uma caveira, e mesmo assim ainda será uma caveira física, não o desenho de uma XD)

      Curtido por 1 pessoa

      • Semiótica é horrível de entender shaushaushuahsuahs Mas bom, talvez eu esteja sendo rígido demais mesmo, é que todos os exemplos que vi a respeito foram de elementos físicos =P (mas não cheguei a ler o Peirce em si). Mas em todo caso, no exemplo específico do café eu ainda acho que o desenho dele com a fumaça seria ícone, não índice XD

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        • É que eu costumo destrinchar os signos em camadas de significação (nem sei se isso é correto ou quão correto…):

          O desenho de fumaça é um ícone sim, para fumaça. Ele significa fumaça, porque um ícone só pode representar por semelhança. A fumaça por sua vez, não o signo original mas seu significado, é um indício de calor.

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    • Difícil, honestamente =P Eu pretendo falar mais do anime em textos futuros, mas uma review completa dele é um pouco complicado de sair.Sobretudo porque eu provavelmente teria mais críticas ao anime do que elogios, mesmo tendo gostado bastante dele. Talvez até faça um dia, mas não diria que será logo.

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