Review – Tenshi no Tamago (Anime)

Tenshi no Tamago
Tenshi no Tamago

Com certa frequência, ao fazer a review de uma obra qualquer, eu acabo usando o adjetivo “única” para definir a obra em questão. Mas o que usar, então, ao topar com uma obra que é tão diferente, tão absurdamente díspar de tudo o que já vi, que mesmo a palavra “única” já não parece o suficiente para descrever o quão… bom, “única”, é a obra em questão? Sinceramente, eu não sei. Mas qualquer que seja essa palavra, ela certamente se aplica ao anime desta review. Uma produção da Tokuma Shoten [1], com direção de Mamoru Oshii, o OVA de 71 minutos Tenshi no Tamago foi lançado em 1985, e foi inicialmente um verdadeiro fracasso de vendas. Contudo, o tempo passou,  e hoje o filme é muito mais bem recebido. E dá para entender porque. Do ponto de vista artístico, incluindo ai elementos que vão da composição das cenas, passando pela arte (sobretudo a arte dos cenários), até o uso do simbolismo que permeia todo o filme, esta obra é claramente excelente, para dizer um mínimo. Mas dá para entender o inicial descontentamento, pois tudo o que filme tem de excelente em sua parte técnica e artística ele tem de praticamente inexistente em sua parte narrativa.

Tenshi no Tamago é a história de uma menina, cujo nome nunca chegamos a saber, que passa seu dia correndo por uma cidade, aparentemente deserta, com um enorme ovo por debaixo do vestido. Eventualmente, durante sua caminhada, ela acaba encontrando com um homem, do qual também nunca aprendemos o nome, que parece ser algum tipo de soldado ou militar. Falar mais do que isso, porém, irá exigir alguns spoilers. Agora, quem já leu outras reviews minhas deve saber que esta seria a parte em que eu recomendaria ao leito que fosse assistir a obra antes de continuar a leitura. E eu meio que mantenho isso, mas desta vez é preciso fazer uma ressalva: esse filme não é para qualquer um. Honestamente, muito me surpreendeu que eu não tenha odiado esse filme. Acima de tudo, esse filme é uma experiência e uma experimentação áudio-visual e artística. Ele é extremamente confuso, e praticamente nada nele é explicado. Além disso, ele é lotado de simbolismos que podem ou não querer dizer alguma coisa sobre alguma coisa. É, é nesse nível… Honestamente, eu só digo que vale a pena dar uma chance porque é pouco mais de uma hora de filme, então não é como se você estivesse perdendo muito mesmo que acabe não gostando. E feitos todos os avisos, vamos à review.

A protagonista da história. A garotinha sempre carrega o ovo consigo, debaixo do vestido
A protagonista da história. A garotinha sempre carrega o ovo consigo, debaixo do vestido

Agora, antes de entrarmos na review em si, eu preciso corrigir uma coisa. Eu disse no parágrafo anterior que o filme é bastante confuso, e certamente eu mantenho isso. Mas uma ressalva é necessária: a sua história, a narrativa propriamente dita, é bastante simples. Bastante direta, inclusive. Nós temos a menina, protagonista, que cuida desse ovo enorme. Ela acaba encontrando e se relacionando com o que parece ser algum tipo de soldado. Os dois caminham pela cidade, observando os prédios em ruínas, e eventualmente a menina guia o homem até sua casa. Lá eles conversam um pouco, e a menina acaba dormindo. Enquanto ela dorme, o homem pega o ovo e o destrói. Ele vai embora, e quando ela acorda e vê o ovo quebrado ela tenta ir atrás dele, mas acaba caindo de um precipício no caminho e morre. Em linhas gerais, isso é tudo o que acontece no filme (bom, excluindo aqui maiores “detalhes”, como um olho gigante feito de estátuas humanas e o povo da cidade perseguindo com arpões sombras de celacantos gigantes que “nadam” pelos prédios e ruas… Eu realmente gostaria de poder dizer que “faz sentido em contexto”, mas… não). É uma trama clara, simples e bem fácil de compreender. A confusão surge quando você tenta entender qualquer coisa para além do puro “acontecer”.

Quem é essa menina e por que ela carrega um ovo? O nome do filme se traduz por “Ovo do Anjo”, então a menina é um anjo? Ou talvez o ovo seja de um anjo e ela está só tomando conta, seria isso? E quem é esse cara? Ele aparece em cena no que parece ser um tanque de guerra, e toda a sua roupa parece tipicamente militar. Seria ele um soldado? Se sim, contra quem ele está em guerra? Há uma guerra, para início de conversa? Porque os tanques meio que nunca aparecem novamente no filme. E o que diabos foi toda aquela cena de gente correndo atrás de sombras?! Essas pessoas se quer são humanos de fato? Fantasmas, talvez? E as próprias sombras então, de onde elas vem? Elas podem fazer algum mal, para os cidadãos da vila estarem tentando pegá-las? E por que tem tantos esqueletos fossilizados de animais gigantes nas paredes do lugar que a menina visita? E o que diabos é aquele olho gigante feito com estátuas em formato humano?! Quando o rapaz é primeiro apresentado, ele está numa espécie de plataforma xadrez em frente ao que parece ser uma arma enorme, com esse olho gigante descendo ao fundo. O olho estaria caindo? A guerra é contra esse olho? Por quê? E se não é, o olho estava só pousando, talvez? Última pergunta: por que eu me importo com isso?

Sentido é overrated /o/
Sentido é overrated /o/

Verdade seja dita, o cânone de como se fazer uma história é algo relativamente bem definido. Você tem um determinado número de personagens que habitam em um determinado mundo. Estes personagens agem ou reagem a determinadas situações conforme suas próprias motivações ou necessidades. E, eventualmente, a trama toda chega a algum tipo de conclusão. Adicione a isso que algumas histórias procuram usar deste “esqueleto” para passar algumas ideia sou mensagens, normalmente entregues a partir dos diálogos entre os personagens, e isto é basicamente o que a maioria das pessoas espera de uma história. Inclusive, você tem ai os parâmetros que normalmente se usa para julgar uma história. O personagem tem atitudes inconsistentes ou lhe falta uma motivação? Defeito. O mundo mal explorado ou confuso? Defeito. A trama não chega a nenhuma conclusão satisfatória? Defeito. Mas o que acontece quando surge uma obra que não dá a mínima para esse cânone? Porque não é que Tenshi no Tamago falha em construir seu mundo, seus personagens e por ai vai: ele nem tenta! Da pra falhar em algo que nem se tenta? Eu posso dizer que um anime de romance falha como comédia? Algo análogo acontece em Tenshi no Tamago: o impulso julgá-lo segundo esse cânone certamente não é pequeno, e é o que fazemos quando jogamos uma série de perguntas sobre o mundo e os personagens, como eu fiz acima. Mas é preciso nos perguntarmos: isso faz algum sentido, ou estamos tentando julgar um romance como sendo uma comédia?

Pessoalmente, eu tendo para o segundo caso. Inclusive, este é um filme para o qual eu não consigo dar uma nota. Claro, por princípio eu não gosto, realmente, da ideia de dar notas aos animes, e isso é um assunto do qual já tratei com um pouco mais detalhe em um texto anterior. Mas para todos os efeitos, eu nunca tive problemas em dar alguma nota numa escala de um a dez para as obras que consumo, seja essa nota com base no cânone acima mencionado, com base em puro divertimento pessoal ou com qualquer base que me parece apropriada no momento. Mas eu absolutamente não consigo dar uma nota para Tenshi no Tamago. Ele é tão diferente de tudo o que já vi, que eu simplesmente não tenho referenciais. Eu não sei como julgar essa obra. Porque qualquer julgamento que eu tente fazer, recairá naquilo que eu mencionei no trecho anterior, de julgá-la por algo que ela provavelmente nem tentou fazer em primeiro lugar. Então… É um anime bom? Ruim? Honestamente, isso vai ficar completamente a cargo de quem assiste. Uns vão achar prepotente, tedioso e cansativo, enquanto outros talvez achem profundo, filosófico e intrigante. E tem aqueles que, como eu, não acharão nada. É, pra mim, Tenshi no Tamago não é bom nem ruim: ele apenas é. Mas vamos lá, eu não faria uma review desse filme se não acreditasse que vale a pena pelo menos dar uma conferida.

O homem que a menina encontra.
O homem que a menina encontra.

Para todos os efeitos, Tenshi no Tamago é uma experiência singular, e isso não apenas do ponto de vista da história. Falando, agora, apenas da parte técnica, esse anime faz um jogo bastante interessante de ausência e presença que pouco se vê na mídia como um todo. Explicando: peguem a trilha sonora, por exemplo. Ou, no caso, a sua ausência. Sim, o filme tem uma excelente trilha sonora, e que muito bem dialoga com as cenas em que aparece. Mas em sua maioria, o filme é absurdamente silencioso, contando apenas com sons ambiente. Mesmo os diálogos são poucos: mais de vinte minutos de filme se passa antes de algum personagem falar algo, e eu não ficaria surpreso se o script desse filme tivesse apenas uma ou duas folhas (sério). Mas esse silêncio tem também o seu próprio impacto, ajudando no clima de vazio, desolação e incerteza que perpassa todo o filme. Aliás, ainda na parte técnica, o contraste entre claro e escuro é também bem forte. O filme é bastante sombrio, em um quase constante estado de penumbra, mas que ajuda a chamar atenção justamente para as poucas partes mais claras. Infelizmente, aqui é também talvez o único defeito de fato do filme: ele é escuro demais, e muitas vezes elementos e detalhes que o espectador deveria ser capaz de ver acabam passando batido devido à escuridão geral. Justamente por isso eu fortemente recomendo que o filme seja assistido na mais alta resolução possível, para que se note detalhes que de outra forma não se notaria.

E voltando ao ponto dos contrastes, mesmo a animação sofre com isso. O filme tem uma boa animação, que envelheceu muito bem e ainda se sustenta muito bem para uma obra de 1985. Mas ele também tem muitas cenas estáticas ou semi-estáticas (na qual apenas um elemento da imagem se move, e todo o resto fica parado). De novo, essas cenas paradas cumprem a mesma função que o silêncio e o escuro, que é trazer essa sensação de estranheza, suspense e ansiedade. Não a toa, muitos colocam que o filme é longo demais, e que poderia facilmente ter seu tempo reduzido no mínimo pela metade. O que é verdade do ponto de vista da trama, da narrativa, do “acontecer” que comentei acima, mas eu tendo a discordar dessa posição porque, afinal, é esse longo tempo que o filme tem que permite todos esses contrastes, sobretudo aqueles entre o silêncio e o som e entre o movimento e a estagnação. E enquanto alguns podem se perguntar o que isso adiciona à história, que relevância tem essa temática de contrastes para a trama, pensar assim é novamente cair naqueles cânones que o filme não parece realmente interessado em seguir.

Jogos de claro e escuro, som e silêncio, movimento e imagem estática perpassam todo o filme.
Jogos de claro e escuro, som e silêncio, movimento e imagem estática perpassam todo o filme.

Quem pesquisar um pouco sobre o filme, vendo outras resenhas (como esta do Dissidência Pop, ou esta do Not Loli), ou mesmo vendo a página na wikipedia do mesmo, verá que muitas vezes o filme é descrito como sendo uma “pintura animada”, e essa me parece mesmo a forma mais adequada de perceber essa obra. Não como um filme tradicional, regrado pelos cânones da narrativa e do contar de histórias, mas sim como uma pintura, como uma obra mais embasada e sustentada pelos cânones da pintura. Em fato, tem várias (e eu digo VÁRIAS) cenas desse filme que você poderia pausar e analisar cada elemento da forma que você faria com uma pintura, percebendo as relações entre os elementos, seus significados simbólicos, e por ai vai. Por exemplo, a cena em que a menina encontra com o homem pela primeira vez, talvez uma das cenas mais fáceis de se interpretar. Eu deixo uma reprodução da cena mais abaixo, e nela reparem como há uma clara separação da imagem em dois: à esquerda, numa área bem mais iluminada, temos a menina; à direita temos uma área bem mais escura, que mal podemos enxergar; e no exato limiar entre esses dois “mundos”, da luz e da sombra, temos o homem. Nós conhecemos a menina, temos acompanhado ela pelos últimos minutos, e a temos como a protagonista da história: ela está na luz. O homem, por outro lado, é um pouco mais ambíguo. Nós vimos ele antes, sim, então ele não é um completo estranho, mas ainda não sabemos nada sobre ele. Não sabemos se é confiável ou não, quais suas intenções, se vai fazer mal à menina ou não… E justamente por isso ele fica naquele limiar entre a luz e a sombra, entre o conhecido e o desconhecido, entre a segurança e a ameaça.

Mesmo por alguém não tenha visto nada do filme, essa cena que eu descrevi ainda poderia ser interpretada desta forma, e o mesmo é válido para tantas outras cenas diferentes que eu poderia escrever um livro sobre cada frame dessa obra. E não entendam mal, eu não falo isso como alguma tentativa de exaltar qualquer pretensa genialidade do filme ou coisa do tipo. Isso não é um julgamento: é uma observação. Até onde pude ver, essa é a melhor forma de perceber, interpretar e absorver o que vemos ali, ou pelo menos a forma que me parece fazer mais sentido. Inclusive, pensando o filme como uma pintura podemos ir além de apenas entender as relações entre os elemento de uma determinada cena e começar a pensar nas alegorias e símbolos que o filme traz. Porque, e isso a maioria que viu irá notar, o filme está repleto deles. Alguns são relativamente óbvios, como o homem carregar uma espécie de arma (?) em formato de cruz, dando assim a entender que ele seria uma referência à figura de Jesus Cristo. Outros, porém, podem ser um pouquinho mais complicados de decifrar. Por exemplo, toda aquela sequência dos “pescadores” perseguindo as sombras dos celacantos. É fácil de imaginar que se trata de uma alegoria, mas para o que se torna um pouco mais complicado. Você pode partir do fato de que a menina chama as sombras de “peixes”, e com o peixe sendo tradicionalmente associado à imagem de Jesus toda a sequência se torna uma metáfora para a perseguição ao cristianismo. Ou você pode se focar no fato dos animais não estarem realmente ali, mas apenas as suas sombras, e nisso tudo pode ser uma alegoria para a futilidade do esforço humano.

A menina, na luz, e o homem, no exato limiar entre a luz e a escuridão.
A menina, na luz, e o homem, no exato limiar entre a luz e a escuridão.

Claro, vale apontar que alguns dos motivos que permeiam a obra possuem significados mais ou menos estabelecidos no campo da simbologia. A água, por exemplo, é um símbolo de purificação, junto do fogo (ainda que este segundo não faça uma aparição constante ao longo do filme). O ovo e a arca são ambos símbolos de uma nova vida ou de um novo começo, e podemos tentar usar isso para interpretar a obra. Por exemplo, ao longo do filme a arca está sempre associada ao fracasso. A menina mora numa estrutura em forma de arca (só vemos a frente da estrutura, o que pode confundir alguns espectadores, mas é a frente de uma arca), sendo esta uma arca estagnada ao solo. No clímax do filme, o homem destrói o ovo. E ao final, temos uma visão de cima daquele mundo e vemos como a “ilha” onde a história ocorre é basicamente os fundos de uma arca que parece ter virado de ponta cabeça. Estaria tudo isso tentando nos passar a ideia de que aquele é um mundo incapaz de gerar uma nova vida? Que todos os esforços de recomeçar falharam? Talvez… Mas peguem o ovo, por exemplo. Eu disse que ele é tradicionalmente o simbolo de uma nova vida, mas nada nos garante que é a este símbolo que o autor está se voltando. E se o ovo for uma alegoria para algo como a moral, ou a ideologia, ou mesmo a fé? Explicaria porque a menina o carrega consigo e sempre tão próximo a si. Uma vez quebrado, vemos apenas a casca do ovo, como se ele fosse vazio. Uma referência a uma fé, moral ou ideologia vã e vazia, talvez?

Honestamente, eu não tenho nem a mais vaga intenção de “decifrar” esse filme, e uso esses exemplos apenas para trazer a tona um problema inerente a qualquer interpretação que se tente da obra: não há uma explicação definitiva. Todas as hipóteses que eu dei fazem sentido dentro dos padrões esperados da simbologia e dentro da lógica do filme, mas no final das contas ainda são apenas hipóteses. Ninguém pode verdadeiramente clamar ter “entendido” o filme, em primeiro lugar porque nem sabemos se há algo para entender. Para uns, isso é o grande ponto forte do filme. O fato de manter a interpretação em aberto o torna uma obra para a qual é sempre interessante voltar, e é provável que cada vez que o rever surgirá uma teoria diferente, resultando numa espécie de jogo instigante de quantas diferentes interpretações você consegue pensar até achar alguma que o satisfaça. Para outros, porém, é aqui onde a obra mais falha, com sua falta de clareza a fazendo soar prepotente e pedante, “artístico” demais para o seu próprio bem, resultando em uma obra sem sentido que é pura e simplesmente tediosa. De minha parte, eu meio que entendo os dois lados e não sei realmente o que pensar desse filme no que toca a essa questão. Por um lado, eu gosto de notar referências simbólicas e alegóricas, mas por outro é certamente frustrante saber que não existe uma resposta “certa”.

Reparem que, ao final do filme, o local onde se passa a história muito se assemelha aos fundos de uma embarcação virada de ponta cabeça.
Reparem que, ao final do filme, o local onde se passa a história muito se assemelha aos fundos de uma embarcação virada de ponta cabeça.

Sendo bastante sincero, conforme eu via o filme eu me perguntava se eu deveria ou não estar entendendo o que se passava ali. Para todos o efeitos, eu ainda sou apenas um espectador ocidental de uma obra produzida em um contexto oriental. E por mais habituado que esteja com a mídia dos animes e mangás, sempre haverá sistemas de signos, símbolos, mitos e alegorias tipicamente orientais que eu provavelmente não irei perceber. Então a princípio eu não descartei a ideia de que o filme deveria ser, se não claro, ao menos compreensível para um espectador oriental após algum tanto de interpretação. Inclusive, talvez por isso o filme, a princípio, muito me lembrou de um tipo bastante específico de arte: a arte medieval, sobretudo a arte religiosa, das igrejas e mosteiros. Qualquer um que veja uma pintura, iluminura, alto-relevo e mesmo algumas estátuas da Europa medieval provavelmente irá pensar: “mas o que diabos eu estou vendo?!” Isso porque esta é uma arte tão imersa em conjuntos de signos e símbolos típicos da época que nós, hoje, completamente desaprendemos a como interpretá-las. E nisso alguns podem descartá-las simplesmente como sem sentido ou bagunçadas, quando em fato simplesmente não possuem o conhecimento para interpretar as várias camadas de simbolismo e alegorias ali presentes. E eu não descarto que, até certo ponto, Tenshi no Tamago seja uma obra que guarde certa semelhança com esse tipo de arte, embora seja um pouco mais complicada. É possível que ali opere uma mescla de símbolos orientais e ocidentais , considerando as várias referências ao cristianismo, e nisso é plenamente possível que qualquer espectador irá apenas entender uma parte das referências ali apresentadas. Mas claro, mesmo isso é apenas uma hipótese.

Em todo caso, após pensar a respeito eu cheguei à conclusão de que não, o filme não espera que o espectador o entenda. Seja o espectador oriental, ocidental, católico, budista, xintoísta ou o que for, o filme é propositadamente ambíguo e aberto para interpretação, um pensamento que reforço apontando que os criadores nunca deram uma resposta oficial a respeito de sobre o que é essa obra e o que cada um de seus símbolos e alegorias representam. No final, está bem claro um certo convite ao espectador para imaginar por si próprio um sentido para tudo aquilo. Alguns irão adorar. Outros, odiar. E alguns, como eu, irão simplesmente dizer: “mas o que raios eu acabei de ver?” Ainda assim, penso que é uma experiência que vale a pena. Se mais nada, pelo menos pelo quão única ela é, e o quão bem ela encapsula as principais especificidades da mídia. Uma obra como essa só poderia surgir em uma mídia áudio-visual, dado o seu enfoque no imagético e nos contrastes de som e silêncio, claro e escuro, movimento e estático. Vai agradar qualquer um? Obviamente que não. Mas eu, pessoalmente, gostei de ter assistido. Foi uma experiência diferente de qualquer outra, e ainda que eu não acredite ter qualquer conhecimento para julgar a obra em si, eu pelo menos reconheço essa faceta instigante dela.

Notas:

1 – A coisa aqui é um tanto quanto confusa. A página da wikipedia do filme de fato credita a produção do mesmo a essa empresa, Tokuma Shoten. Por algum motivo, porém, o filme não aparece, na página da wikipedia dessa produtora, como uma das obras da mesma. Olhando a entrada no My Anime List do filme, temos uma possível explicação: Tokuma Shoten de fato aparece como produtora, mas os estúdios responsáveis seriam os estúdio Gallop, Deen e Hibari. Contudo, a entrada do filme no Anime News Network cita apenas o estúdio Deen como estúdio responsável.

Imagens: Tenshi no Tamago

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2 comentários sobre “Review – Tenshi no Tamago (Anime)

  1. Devo admitir: embora tenha achado o filme tecnicamente belo, não pude evitar de permanecer com certas dúvidas acerca de algumas cenas e o que as mesmas possivelmente simbolizavam.

    Enfim. Obrigado por esta excepcional review! Achei-a muito bem elaborada e extremamente esclarecedora!

    Curtido por 1 pessoa

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