Review – Master Keaton (Anime)

Master Keaton
Master Keaton

Lançado em 1998, Master Keaton é uma produção do estúdio Madhouse que adapta ao mangá de mesmo nome, de roteiro de Hokusei Katsushita e arte de Naoki Urasawa. A direção do anime foi entregue a Masayuki Kojima, e originalmente o anime teria apenas 24 episódios. Após seu termino, porém, 15 episódios adicionais foram lançados em formato OVA, dando um total de 39 episódios para a série. Já quanto à trama, ela é bastante simples. Nela, seguimos Taichi Hiraga-Keaton, filho de um japonês com uma inglesa e que mora na Inglaterra desde que os pais se divorciaram. Formado arqueólogo, Keaton também teve treinamento militar, tendo servido na S.A.S. e sendo um especialista em sobrevivência. Atualmente, faz alguns bicos dando palestras ao aqui e ali, mas seu trabalho principal é o de investigador para a empresa de seguros Lloyd, de Londres.

O anime é episódico, e temos basicamente dois tipos de episódios: aqueles em que Keaton é mandado para investigar algum caso em algum canto da Europa, e aqueles em que vemos o lado mais cotidiano de seu dia a dia, envolvendo normalmente o convívio com sua família (sobretudo seu pai e sua filha) ou algum acontecimento excepcional durante alguma de suas viagens como professor e pesquisador. Falar mais do que isso, porém, irá exigir alguns spoilers. Se você ainda não assistiu o anime, eu certamente recomendo. É uma obra bastante leve, com personagens carismáticos, histórias envolventes e que no quesito técnico ainda se sustenta relativamente bem para uma obra do final dos anos 1990. Sim, tem os seus problemas, mas num geral é simplesmente divertida e uma ótima forma de matar um pouco de tempo. E isso dito, vamos à review de fato. A partir daqui, spoilers.

Taichi Hiraga-Keaton, protagonista do anime.
Taichi Hiraga-Keaton, protagonista do anime.

Certamente um dos elementos mais interessantes em Master Keaton são os seus personagens, em especial seu protagonista. Keaton é simplesmente divertido de acompanhar. Ele é meio que uma combinação de Magaiver, Indiana Jones, Sherlock Holmes e James Bond, em todos os sentidos possíveis. Como um militar perito em sobrevivência, ele é capaz de usar o que houver ao seu redor para sair de qualquer enrascada. Como arqueólogo, seus conhecimentos em história geral são certamente impressionantes. Como investigador, ele é capaz de notar até os menores detalhes, fazendo deduções brilhantes mesmo quando possuindo muito pouco com o que trabalhar. Finalmente, como pessoa é simplesmente o tipo de gente que consegue se misturar bem em qualquer lugar. Aparentemente, seu único defeito é não conseguir manter um casamento, já que tal como seu pai ele é também divorciado, com sua filha morando com a mãe no Japão e o visitando na Inglaterra esporadicamente.

Os demais personagens são… Bom, eles não são ruins, mas é isso. Em todo o anime, temos apenas 3 personagens secundários recorrentes, sendo eles o pai de Keaton, Taihei, sua filha, Yuriko, e seu parceiro de escritório, Daniel. Como eu disse, eles não são exatamente ruins, mas eu diria que eles são muito mais interessantes na forma como se relacionam com o Keaton do que realmente como personagens independentes. Parte disso talvez sendo porque o anime praticamente nunca dá uma chance para eles serem independentes, e quase sempre só os conhecemos através de suas interações com Keaton. O que é uma pena, considerando que a única exceção para esse caso, um episódio dedicado à Yuriko, foi um ótimo episódio que fez ela parecer uma jovem independente, forte e decidida, além de bastante capaz e desejosa de ajudar aos outros. Mas tudo bem, o que tivemos ao menos foi interessante, e a interação entre os personagens é legal de assistir, ao menos na maior parte. Sobretudo a relação entre Keaton e Daniel é bem legal, embora ela só seja realmente trabalhada em dois ou três episódios. Ainda assim, você consegue sentir uma amizade verdadeira entre ambos, o que é bem agradável.

A interação entre os personagens é quase sempre divertida de se ver, e por vezes traz momentos tocantes e interessantes.
A interação entre os personagens é quase sempre divertida de se ver, e por vezes traz momentos tocantes e interessantes.

Mas de longe os personagens melhor trabalhados são aqueles que aparecem em um só episódio. Como eu disse, Master Keaton é um anime episódico, e praticamente não existe qualquer senso de continuidade entre os episódios. Com isso, a vasta maioria dos personagens que encontramos dura por apenas o seu respectivo episódio, e ai desaparece. Mas nesse curto espaço de tempo, o anime consegue trabalhar muito bem estes personagens, desenvolvendo-os, definindo-os, e mesmo fazendo o espectador se importar verdadeiramente com eles. Em fato, em mais de uma vez é provável que o espectador se pagará menos preocupado em se o Keaton vai sair vivo da situação ou não, e mais com se estes outros personagens irão sair bem. O que é um ótimo recurso, considerando que a série não faz nenhuma tentativa de esconder que seu protagonista é basicamente invencível, ainda que talvez tenha dificuldades aqui e ali. E sim, a obra tem a sua quantia de personagens mal trabalhados e vilões genéricos, que só querem poder ou riquezas, mas num geral eu diria que o anime fez um ótimo trabalho com seu cast “terciário”.

A história, por sua vez, é como seus personagens: diversa. Com cada episódio tendo a sua própria trama, o espectro de temas e gêneros desse anime pode variar bastante. Investigação, mistério, drama, ação, aventura, slyce of life, você nunca realmente sabe o que esperar até começar a assistir o episódio. O que é certamente bem vindo, já que fazer uma obra episódica sem alguma diversidade pode facilmente fazê-la cair na previsibilidade. Não que Master Keaton seja absolutamente imprevisível, só para deixar claro. Como eu bem disse, o anime sempre deixou bem claro que seu protagonista é imbatível, e é sempre muito mais uma questão de como ele vai resolver o problema da vez do que se ele realmente vai. Além disso, sendo uma obra episódica o anime traz consigo o velho clichê de que o status quo é deus. Sendo assim é algo dado desde o começo que nada irá mudar conforme o anime passa, seja esta uma mudança física, uma mudança de carreira, o aprender de algo novo ou o que for: os personagens recorrentes terminam o anime da mesma forma que começaram, especialmente o Keaton.

As histórias de Master Keaton conseguem ser bastante diversas, com o espectador nunca sabendo bem o que esperar do próximo episódio.
As histórias de Master Keaton conseguem ser bastante diversas, com o espectador nunca sabendo bem o que esperar do próximo episódio.

Isso é um defeito do anime? Depende. Se você prefere uma trama linear, com começo, meio e final, durante a qual os personagens se desenvolvem, mudam e evoluem como pessoas, então é, provavelmente vai achar um problema o fato de nada se alterar. Mas animes como Master Keaton nunca são sobre a obra como um todo, mas sim sobre cada um de seus episódios. E eles sim funcionam muito bem isoladamente. Têm uma trama coesa, com suas próprias reviravoltas, além de personagens carismáticos que muitas vezes terminam diferentes de como começaram. A meu ver, a única grande desvantagem desse método de contar histórias é que acaba que o episódio final não dá realmente uma sensação de conclusão para nada, quer você considere o episódio final como sendo o 24º da série de televisão ou o 15º dos OVAs. O anime até tenta dar alguma sensação de encerramento, com o 24º episódio mostrando como Keaton começou a trabalhar como investigador de seguros e o 15º OVA encerrando com uma conversa entre Keaton e um antigo instrutor seu do exército, que lhe diz que o limite de Keaton era ser um Mestre. Mas no final, fica claro que essa é uma obra que poderia continuar ainda por um bom tempo, e honestamente é uma pena que não o tenha.

Contudo, o que o anime entrega em termos de história ainda vale muito a pena. Como eu já disse, ele é bem rápido em fazer o espectador se sentir investido no que acontece na trama e se importar com os personagens, e nisso entrega histórias que podem ser divertidas, interessantes, tocantes, emocionantes e por ai vai. Episódios como aquele em que Keaton re-encontra com seu antigo professor de faculdade, ou aquele em que Yuriko ajuda uma senhora idosa a se re-encontrar com um homem que ela amava são genuinamente tocantes, enquanto episódios como o de um grupo de amigos saídos da ex-URSS que acabam se voltando uns contra os outros por conta das circunstâncias do momento e das escolhas de vida soam como verdadeiramente trágicos. Finalmente, os episódios mais focados na vida cotidiana de Keaton tem uma atmosfera bem mais calma, e enquanto alguns podem soar um tanto quanto “fora de lugar” em meio aos episódios de mais ação e aventura, por vezes podem ser uma boa forma de mostrar um pouco mais da personalidade e história de vida de alguns personagens mais recorrentes, especialmente o Keaton. Num geral, é um anime que muito possivelmente vai conseguir extrair uma lágrima ou duas de alguns espectadores, mas também deve tirar alguns sorrisos da maioria.

O anime apresenta uma boa variedade de histórias, algumas das quais genuinamente tocantes.
O anime apresenta uma boa variedade de histórias, algumas das quais genuinamente tocantes.

Mas deixando a parte mais narrativa de lado um pouco, do ponto de vista temático este é um anime bem interessante. Acima de tudo, esse é um anime que fala sobre passado e memória, tanto do ponto de vista pessoal como do ponto de vista de um povo ou nação. Nesse sentido, ele é um anime que claramente advoga uma ideia de um passado que se faz presente. Isso é particularmente evidente quando o anime entra em temas como a segunda guerra ou a guerra fria. Se passando em meados da década de 1990, pós-queda do Muro de Berlin, muitos episódios contam histórias individuais de pessoas que sofreram e ainda sofrem com as consequências da Guerra Fria. Uma senhora idosa cujo marido partiu para a Alemanha Ocidental e nunca mais voltou. Um senhor que abandonou a esposa e a filha na Alemanha Oriental, e desde então se martiriza pelo destino delas. Um homem imigrado da Alemanha Oriental que se viu obrigado a atuar como espião para os socialistas em prol de manter a segurança da família que ainda tinha do outro lado do muro. Histórias trágicas como essa mostram que ainda que o muro tenha caído, a guerra ainda não havia acabado de fato, ao menos não para as pessoas que a vivenciaram.

Em outros momentos, o anime se volta para o distante passado, e aqui normalmente a obra trata da importância da História para a construção da identidade de um povo. Um homem que serviu na guerra e se recusou a destruir ruínas de uma civilização pregressa por  as considerar belas demais para tanto. Uma mulher que tenta proteger um sítio arqueológico de ser destruído para a construção de uma pista de automobilismo. Uma equipe de arqueólogos que inadvertidamente profana um sítio sagrado para um povo, e se vê tendo de sofrer as consequências de uma atitude descuidada. Exemplos do tipo perpassam toda a obra, e sempre existe um sentimento de maravilhamento para com esses vestígios do passado que são as ruínas antigas. E existe também uma clara defesa da preservação do passado, e o reconhecimento de que mesmo um passado aparentemente “inútil” pode ainda ter significação para alguém. Os arqueólogos que mencionei no meu exemplo anterior decidiram destruir um muro para tentar acessar as regiões mais abaixo e prosseguir com a pesquisa, mas aquele muro ainda era considerado sagrado pelo povo local. Uma instituição de ensino na qual Keaton dava algumas palestras estava para ser destruída para dar espaço a novas construções, e isso claramente entristecia a staff e os alunos. É um anime que mostra como as pessoas podem se sentir conectadas com um local e a sua história, algo que não costuma ser explorado em outras obras da mídia.

Ruínas de civilizações antigas aparecem com frequência ao longo do anime, e se ligam à sua temática de um passado sempre presente.
Ruínas de civilizações antigas aparecem com frequência ao longo do anime, e se ligam à sua temática de um passado sempre presente.

E claro, também no âmbito pessoal é uma obra que mostra como as escolhas que tomamos em nosso passado nos trouxeram ao nosso presente, para o bem e para o mal. Traumas passados, promessas não cumpridas, memórias de infância, amores platônicos da juventude… A memória, a história de cada indivíduo, recebe aqui bastante atenção, sendo outro elemento dentro dessa temática de um passado que se faz presente. A vasta maioria dos personagens recebe algum tipo de backstory, e flashbacks são bastante comuns ao longo do anime. A lógica de que o passado explica o presente aparece claramente em quase todo o anime, sendo talvez o único tema de fundo que perpassa a maioria dos episódios. Tema este, aliás, que ressoa muito bem com a profissão de arqueólogo do protagonista, e que acaba ajudando o espectador a talvez entender um pouco mais a própria paixão que o Keaton possui com a história e a arqueologia. Além disso, esse tema é a única razão pela qual Keaton é um arqueólogo, ao menos olhando do ponto de vista do roteiro. Considerando as situações em que o personagem se mete, ser um investigador é o que o coloca em perigo e ter servido no exército é o que tira do perigo. Mas têm algumas situações que apelam mais para o tema do anime que só se tornam possíveis com Keaton sendo um professor universitário e arqueólogo de formação, e graças a isso essa parte da vida do Keaton nunca parece “jogada” na obra, mas antes algo que tem um propósito para estar ali, sobretudo do ponto de vista narrativo.

A parte técnica, finalmente, é talvez onde a maioria das pessoas tenham algum problema. Pessoalmente, eu não achei ruim, mas também não posso dizer que é uma masterpiece. Sinceramente, eu preferiria nem falar da animação, por ser algo que eu normalmente não me importo e não sei julgar em uma obra (a menos que seja extremamente excelente, ou ridiculamente horrível), mas como eu sei que para muitas pessoas existe esse preconceito com a animação de animes mais antigos, eu acho que pelo menos vale a pena mencionar que a animação de forma alguma é horrível, e é acima de tudo competente para a fluidez da história. Mas é aquilo, não espere uma qualidade de imagem HD de um anime de 1998 para televisão. A trilha sonora, por sua vez, é talvez onde eu tenha mais problemas com a série. A OST, num geral, é bem única, e diria que se relaciona muito bem com a identidade do anime em si, mas ela nunca me pareceu que adicionou muito para as cenas em que aparece, e em boa medida você quase não percebe que ela está ali. O que é até um pouco estranho, porque a trilha sonora do anime acaba sendo bastante memorável, e é o tipo de OST que se você ouvir tocando por si mesma você imediatamente vai se lembrar do anime e talvez até de uma ou outra cena em que a musica tenha aparecido.

Graças às suas temáticas relacionadas à memória e ao passado, o anime consegue fazer bom uso temático do fato de Keaton ser um arqueólogo de formação.
Graças às suas temáticas relacionadas à memória e ao passado, o anime consegue fazer uma boa ponte entre seus temas e seu personagem, graças à formação de arqueólogo do Keaton.

A título de comentários finais, eu realmente acredito que esse anime merece ser mais conhecido. Em fato, considerando que um de seus autores, Naoki Urasawa, é também o autor de Monster, um anime e mangá extremamente famoso no meio otaku, me surpreende o quanto essa obra acabou esquecida pelo tempo. É, ele é um anime bem mais leve, e tem um ar quase que de seriado americano “genérico”, especialmente por conta do elemento episódico. Mas é um anime que faz isso muito bem. As histórias são boas, os temas por vezes tocam em assuntos bastante sérios e dignos de reflexão, os personagens que aparecem a cada episódio são gostáveis e bem aprofundados, e Keaton é extremamente carismático e simplesmente divertido de assistir. É um ótimo anime para matar algum tempo, como mencionei no começo do texto, e por ser episódico é ótimo para ir assistindo aos poucos, quando não se está com tempo para ver muitos episódios em sequência. E eu diria que é uma obra que envelheceu bem. Seus temas ainda são relevantes, sua parte técnica é ainda bastante competente, e em termos de história não deixa realmente nada a desejar aos animes modernos. Definitivamente um anime que vale a pena dar uma olhada.

Imagens (na ordem em que aparecem):

1 – Master Keaton, episódio 1

2 – Master Keaton, episódio 1

3 – Master Keaton, episódio 7

4 – Master Keaton, episódio 4

5 – Master Keaton, episódio 5

6 – Master Keaton, episódio 6

7 – Master Keaton, episódio 24

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2 comentários sobre “Review – Master Keaton (Anime)

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