Review – Digimon Adventure

Digimon Adventure
Digimon Adventure

Lançado em março de 1999, Digimon Adventure foi o primeiro anime de uma franquia que havia começado apenas alguns anos antes, em 1997, com um brinquedo que muito se assemelhava aos então populares tamagochis: os Digital Monsters. Produzido pelo estúdio Toei Animation em parceria com a Bandai, empresa de brinquedos então responsável pela produção dos Digital Monsters (e que seguiria como responsável por todos os brinquedos e vídeo-games da franquia Digimon), fica bastante claro o caráter de propaganda desta série. E bom, funcionou. Digimon Adventure foi um verdadeiro sucesso, tanto de recepção do público como mercadológico, firmando em definitivo as bases de uma franquia que segue sendo altamente lucrativa ainda hoje. Vídeo-games, jogos de cartas, bonecos, produtos licenciados e, obviamente, novos animes, o sucesso desta primeira série animada permitiu que a franquia se expandisse radicalmente nos anos que se seguiram. E fora do Japão, a série foi a principal porta de entrada dos demais produtos da franquia, que rapidamente se tornou um sucesso mundial. Isso dito, porém, ainda se trata de um anime de claro baixo orçamento produzido no final dos anos 1990. Nostalgia e importância histórica de lado, podemos dizer que a série se sustenta ainda hoje? Ela certamente tem importância ainda hoje, não à toa é uma série que constantemente ganha novos produtos (os mais recentes incluindo um jogo para PSP, de 2013, e a série de filmes “Digimon Adventure Tri”, começada em 2015), mas será que o anime segue sendo tão bom quanto o era mais de uma década e meia atrás?

Bom… Antes de seguir com a análise, vou dar aqui uma pequena sinopse para aqueles que ou nunca viram o anime ou simplesmente já não se lembram de mais nada a seu respeito: com 54 episódios, a série  conta a história de 7 crianças que, durante um acampamento de verão, são transportadas para o Mundo Digital, um mundo paralelo habitado exclusivamente por monstros conhecidos como “digimons”. Uma vez neste mundo, cada criança encontra com um digimon, que se torna então seu parceiro. Inicialmente, as crianças procuram um meio de voltar para casa, mas logo descobrem que para isso elas devem derrotar o mal que assola o Mundo Digital, razão pela qual elas foram levadas àquele mundo em primeiro lugar. E a forma como elas devem fazer isso é ajudando seus parceiros digimons a evoluírem, de forma a se tornarem mais e mais poderosos e poderem enfrentar os inimigos que aparecerem. E isso é o máximo que eu posso falar sem entrar em spoilers. Se você ainda não assistiu o anime, eu diria que pelo menos vale a pena dar uma chance a ele. Um bom cast de personagens, uma história simples e uma mais do que fantástica trilha sonora, ainda que a série não seja isenta de problemas (nem de longe) acredito que ainda pode no mínimo ser uma experiência divertida, especialmente se você gosta de obras mais voltadas para o público infantil. Não vai agradar a todos, é verdade, mas ei, o que consegue agradar? E dito isso, spoilers afrente. Vamos à review.

As sete crianças.
As sete crianças escolhidas.

Começando então a review, vamos já tirar uma coisa do caminho: nostalgia aparte, eu acho que o anime se sustenta ainda hoje? Bom… Honestamente, sim, na minha opinião ele se sustenta. Porém, com ressalvas. Por tudo o que a obra faz de bom, ela ainda possui dois problemas que eu sei que podem ser bastante incômodos a depender de quem estiver assistindo, pelo menos considerando o cenário atual dos animes. E o primeiro destes problemas seria, sem dúvida, a sua animação. É inevitavelmente preciso considerar que a animação de Digimon Adventure é bastante datada, sendo um anime de 1999. Mas não somente isso: é bastante visível que a equipe de produção trabalhou com um orçamento apertado, e levando em consideração as diversas cenas estáticas, os momentos em que o movimento dos personagens pareceram extremamente rígidos, além dos vários, vários, vários momentos em que as expressões faciais dos personagens foram muito mal desenhadas, tudo isso nos força a considerar que a animação de Digimon Adventure não apenas é ruim para padrões atuais, mas já era ruim para os padrões de 1999. Honestamente, não seria um exagero dizer que mesmo o anime de pior animação atual ainda provavelmente teria uma animação um pouco melhor do que esta série. Isso dito, se você não se importa com a animação, ou ao menos for para o anime tendo em mente o que irá receber, isso provavelmente não será um problema. Sim, é ruim, mas não chega também a ser insultante, além de elementos como o designe (seja dos personagens, seja dos cenários) e a coloração serem bastante agradáveis aos olhos, ao menos para mim. Mas como vivemos em uma época onde as pessoas parecem esperar que todo anime tenha uma animação padrão “Fate/Zero” de qualidade, a animação de Digimon Adventure muito possivelmente iria desagradar a muitos.

O segundo problema, porém, é um pouco mais complicado de se lidar, e trata-se da estrutura narrativa adotada. Isso porque, num geral, a série é bastante previsível, ao menos no começo. Todo o primeiro arco segue, grosso modo, uma mesma estrutura: as crianças estão perdidas, encontram um inimigo, ficam em perigo, seus parceiros digimons evoluem, o digimon derrota o inimigo e as crianças partem para a próxima localidade. O segundo arco muda um pouco esta fórmula, mas no final das contas mantém uma própria: as crianças estão caminhando sem rumo, encontram com um perigo, escapam por muito pouco e no processo conseguem um dos sete brasões que procuravam. Para piorar, a primeira metade do terceiro arco retoma quase que passo a passo a fórmula do primeiro arco: crianças perdidas, encontram um inimigo, ficam em perigo e então seu brasão brilha e seu digimon evolui para o próximo estágio, assim derrotando o inimigo. A estrutura narrativa somente deixa efetivamente de ser formulística na segunda metade do terceiro arco, e nisso nós já estamos praticamente para além da metade do anime. E mesmo assim: o quarto arco ainda guarda algum nível de uma fórmula a ser seguida. Tudo isso faz com que a série soe repetitiva bem facilmente, especialmente no começo, quando muitos episódios poderiam facilmente soar como fillers, não fosse o fato de mostrarem um dos parceiros digimons evoluindo. Ou seja, se você é do tipo que espera uma história que se desenvolva rapidamente, provavelmente está no lugar errado. O ritmo de digimon é lento e muitos dos mistérios da série só serão solucionados com a história já muito avançada. Isso dito… Se você tentar assistir esse anime pela história você provavelmente está vendo com a mentalidade errada para começo de conversa.

Greymon enfrenta Shellmon. Os primeiros episódios seguem bastante a fórmula de finalizar com um dos digimons evoluindo e vencendo o inimigo do momento.
Greymon enfrenta Shellmon. Os primeiros episódios seguem bastante a fórmula de finalizar com um dos digimons evoluindo e vencendo o inimigo do momento.

Digimon Adventure… não é realmente sobre sua história. É claro, a história sempre está ali, e poderia mesmo dizer que está sempre avançando, ainda que lentamente. Mas ela não é o verdadeiro foco do anime, ou pelo menos não a uma segunda olhada. Em suma: Digimon Adventure é, para todos os efeitos, sobre os seus personagens. Agora, eu sei que toda história é, em algum nível, sobre os seus personagens, afinal são eles quem irão mover a história adiante. Mas quando eu digo que uma história é especificamente sobre seus personagens, o que eu quero dizer é que o verdadeiro foco da trama está no desenvolvimento destes personagens. Digimon Adventure é uma história desse tipo. Seu foco está em nos mostrar como estes personagens são, como interagem uns com os outros e, finalmente, como mudam conforme a história anda. Eu não pretendo entrar em muitos detalhes aqui a esse respeito porque eu já o fiz em um texto anterior, intitulado “Digimon Adventure – Crescimento, Amadurecimento e Autoconhecimento“, mas em resumo o que eu quero ressaltar é: a história é apenas uma desculpa para mostrar estes personagens evoluindo. Não é surpresa, portanto, que os personagens carregam esse anime nas costas. Sério. Se existem dois bons motivos para ver este anime, estes seriam a sua trilha sonora (que merece todos os louros possíveis) e seus personagens.

Agora, isso é dizer que não existem falhas nestes personagens? É meio óbvio que não, embora isso talvez dependa do que você considere ou não uma “falha”. Para todos os efeitos, os personagens começam bastante arquetípicos e estereotipados, e assim permanecerão por um bom tempo na série. Taichi é seu típico protagonista shounen, de bom coração, mas eventualmente um pouco teimoso e esquentado. Yamato é seu típico lobo solitário. Sora é sua típica tomboy, com Mimi sendo o esperado oposto, a típica menina mimada. Jou é o “mais velho”, muitas vezes a voz da razão em meio ao grupo, mas justamente por isso também o mais medroso. Koushiro é o “nerd”, naquele sentido que a palavra tinha na década de 1990, de um aficionado por computadores. Takeru é a “criança”, o menor e mais chorão, eventualmente fazendo pequenos “bicos” como deus ex machina. E Hikari, finalmente, é a típica personagem de bom coração que não quer ser um peso a ninguém (ah, e também eventual deus ex machina). Por um lado, esse apego da série a estes arquétipos permite que a audiência entenda esses personagens praticamente logo de cara, o que é especialmente vantajoso quando estamos falando de uma série de classificação livre, majoritariamente voltada para crianças. Por outro lado, se prender a estes estereótipos implica que aquele que conhece um pouco mais deles eventualmente já terá uma boa ideia da direção que o desenvolvimento destes personagens irá tomar. Taichi aprenderá a ser mais calmo, Yamato aprenderá a não se isolar tanto, Koushiro aprenderá a deixar o computador de lado um pouco, Takeru aprenderá a não chorar, e por ai vai. Nesse sentido, o ponto final do anime é, de fato, relativamente previsível. O que torna as coisas interessantes, porém, não é  final, mas o meio.

Num geral, os personagens começam bastante arquetípicos e estereotípicos. Yamato, por exemplo, é seu típico "lobo solitário"
Num geral, os personagens começam bastante arquetípicos e estereotípicos. Yamato, por exemplo, é seu típico “lobo solitário”

Algo interessante a se notar é que, mesmo sendo uma série infantil da década de 1990, Digimon Adventure não teve realmente muita reticência de tratar de temas que talvez hoje soassem como pesados para sua audiência alvo. Com Yamato e Takeru a história fala sobre o divórcio dos pais e a separação dos dois irmão, mostrando o tipo de impacto que isso pode ter nas crianças, com Yamato se fechando para o mundo. Sora e Jou servem de exemplo de como as expectativas da família podem fazer pressão sobre as crianças, mas também mostra que cada um lida com isso de uma forma diferente: vindo de uma família de médicos, Jou abraçou a profissão da família e fortemente procura seguir a carreira médica, enquanto que Sora, por sua vez pressionada por sua mãe para ser um pouco mais feminina, vai mais para o caminho de acabar entendendo as motivações de sua mãe, mas ainda assim ser quem bem deseja ser. Koushiro, por sua vez, permite ao anime falar sobre adoção e o impacto que pode ter em uma criança quando ela descobre que é adotada. Eu não vou agir como se esses temas fossem largamente debatidos ao longo do anime, mas eles são apresentados, vemos os problemas que causam, e temos uma meio que resolução na qual de modo geral os personagens precisam aprender que esta é a realidade deles e que devem tentar seguir em frente com isso. Mas é por isso que eu digo que o meio é mais interessante do que o final. Nós vemos como os personagens são no começo e já imaginamos como eles serão no final, mas o meio cuida não apenas de mostrar essa evolução como também de tentar explicar porque eles são como são e como a convivência familiar pode ter um grande impacto na personalidade de uma criança.

Se mais nada, esse tipo de adição à série me faz vê-la como, pelo menos, um bom exemplo do que deve ser um desenho para crianças. Ainda que não seja altamente complexo, é um anime que em momento algum subestima a sua audiência e não tem vergonha de entrar em territórios que hoje mesmo uma obra do tipo talvez não entrasse. Claro, o fato de ser ainda para crianças possivelmente impediu que estes temas fossem trabalhados com a profundidade que algum espectador mais velho talvez gostasse, mas eu gostaria de lembrar a todos que ainda estamos falando de um anime propaganda. Para todos os efeitos, isso foi uma obra de baixo orçamento cujo único propósito era ser marketing  para brinquedos. Ainda assim, fica evidente que a obra tentou ser um pouco mais do que isso. Soube desenvolver seus personagens, construir seu universo e soube tocar em temas que nem precisava ter tocado para começo de conversa. O resultado final é um anime capaz de verdadeiramente agradar a todas as idades, exatamente o que uma obra de classificação livre deveria ser. No mínimo do mínimo eu afirmaria que este anime ainda se sustenta muito bem como um anime infantil e certamente recomendaria a qualquer criança, bem como a qualquer um que goste de animes infantis. Mas… Eu não acho que isso é tudo. Sim, Digimon Adventure é um bom anime infantil, ponto. Mas muitas obras infantis guardam em si uma característica bastante curiosa: a capacidade de falar com diferentes públicos de diferentes maneiras. Quem nunca pegou uma obra que leu ou assistiu na infância e, revendo aquela obra, encontrou nela mensagens, questões ou elementos que não havia reparado quando mais novo? Sabem como dizem que certas obras são boas para serem vistas na infância e depois revistas na idade adulta? Na minha opinião, Digimon Adventure é uma obra do tipo, uma obra que não consegue apenas entreter a todas as idades, mas também se comunicar com todas as idades.

Em flashback, descobrimos que Koushiro é adotado. Uma marca de Digimon Adventure é como o anime não hesitou em tratar de temas mais sérios, normalmente envolvendo o convívio familiar.
Em flashback, descobrimos que Koushiro é adotado. Uma marca de Digimon Adventure é como o anime não hesitou em tratar de temas mais sérios, normalmente envolvendo o convívio familiar.

Questões já mencionadas como a adoção e o divórcio certamente são um exemplo do que eu quero dizer, por serem elementos que crianças e adultos podem entender com relativa facilidade, mas a série ainda contém um ou dois pontos que podem muito bem ter passado em branco para aqueles que viram apenas quando menores. Por exemplo, quantos aqui ainda se lembram do discurso final que o último inimigo, Apocalymon, faz para os escolhidos? No penúltimo episódio, Apocalymon, a existência que vinha causando a distorção do Mundo Digital, se revela às crianças e define a si mesmo como a encarnação do sofrimento dos digimons que falharam em evoluir e por isso foram extintos. A isso, Koushiro responde que é natural que algumas espécies pereçam no processo evolutivo, ao que Apocalymon então pergunta se isso justifica tudo. Ele então começa a falar sobre como é injusto que alguns vivam em jubileu enquanto outros devem sofrer, que os digimons que pereceram também queriam sentir felicidade, alegria, queriam ser úteis ao mundo e… Estamos mesmo vendo uma crítica à própria evolução? Honestamente falando, a primeira vez que eu revi esta série, essa cena final em especial foi bem… Inesperada. Até então, todos os digimons inimigos simplesmente eram maus e ponto, não havia realmente muito a ser dito. E ai surge Apocalymon, que para todos os efeitos tem alguns questionamentos bastante válidos. Por que alguns devem sofrer para outros prosperar? E é certo simplesmente aceitarmos isso como “natural” só porque não somos nós mesmos aqueles que pereceram? Movido por raiva, rancor e sofrimento, as ações de Apocalymon levam ao fim do Mundo Digital, e é contra isso que as crianças de fato lutam, mas suas motivações em si são… Bom, até que válidas de reflexão, se não em um âmbito biológico (afinal realmente não podemos fazer muita coisa quanto à evolução de fato), pelo menos em um âmbito social (dentro daquela lógica de vencedores e perdedores que tanto impera na nossa sociedade atual)

Pessoalmente falando, eu vejo Apocalymon muito como uma referência ao conceito de “Sombra” dentro da vertente junguiana da psicologia. Iniciada com Carl Jung, a psicologia junguiana trabalha com a ideia de que na mente de cada pessoa existe uma “sombra”, uma parte da nossa psique que nós ignoramos e reprimimos, voluntária ou involuntariamente. Ela seria os nossos instintos mais animalescos, herdados dos seres mais primitivos que precederam o estágio evolutivo em que o ser humano se encontra. Mas ela não é apenas negativa: ela pode ocultar lados positivos de nossa personalidade, bem como, para Jung, seria o cerne de nossa criatividade. Assim, o que se deve fazer não é tentar reprimir e ignorar a “sombra”, mas sim buscar uma forma de assimilá-la à consciência. E se não o fizer… Bem, é dai que surge toda sorte de psicoses. Apocalymon guarda fortes semelhanças com esse conceito. Ele nasceu daquilo que o Mundo Digital rejeitou: formas de vida incapazes de evoluir (portanto, primitivas), e sua existência trouxe o caos àquele mundo. De certa forma, podemos ir tão longe quanto considerar que cada um dos inimigos que as crianças enfrentam, digimons cruéis que causam destruição muitas vezes apenas pelo desejo de a tudo dominar, são, em fato, psicoses do próprio Mundo Digital. Engraçado que, se pensarmos por esse lado, faz sentido esse caráter aparentemente cíclico de criação e destruição do Mundo Digital. Ao final do anime, antes da batalha contra Apocalymon, Gennai, que vinha servindo de guia para as crianças, diz que no passado outro grupo de crianças já havia enfrentado e vencido o mal que elas iam enfrentar agora. Se ele foi vencido, por que renasceu? Bom, porque a “sombra” precisa ser assimilada, não reprimida. E o que as crianças fazem é justamente reprimir, mas sem parar o fato que fez surgir aquela “sombra” em primeiro lugar: a própria evolução. Dentro dessa lógica, não seria surpresa se no futuro aparecesse um novo Apocalymon, o que certamente faz ver o final do anime com outros olhos.

Apocalymon: o último inimigo
Apocalymon: o último inimigo

E eu sei o que o leitor pode estar pensando agora: que eu estou exagerando e pensando demais tendo como única base uma fala de poucos minutos. O que seria uma crítica justa, mas também não completamente certa. Verdade seja dita, eu não tenho como saber se era mesmo nisso que os produtores estavam pensando, mas é perfeitamente possível. Isso porque uma característica interessante é que o anime é lotado de referências à praticamente tudo, passando ai pela literatura, budismo, cristianismo, e outros. Algumas destas referências certamente são propositais, como o fato de Vandemon recitar o título de um livro de Jorge Luis Borges, Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, para abrir o portal para o mundo humano (e quem quiser saber o que isso significa dentro dos conceitos da série, pode dar uma conferida neste excelente texto da Rainbow09, que analisa em maiores detalhes as ligações entre o livro de Borges e o Mundo Digital), ou, para dar outro exemplo, o fato de que a batalha contra Apocalymon é precedida pela luta contra os quatro Dark Masters, em uma referência bastante óbvia aos quatro cavaleiros do apocalipse. Mas também existem algumas “coincidências” que pode ser ou não que a equipe de produção tivesse em mente, a exemplo do fato de serem oito crianças escolhidas, talvez uma referência ao Nobre Caminho Óctuplo do budismo, bem como a já mencionada relação entre Apocalymon e a “sombra” de Jung. Mas aqui talvez venha o ponto mais controverso em toda essa minha pequena review: talvez seja possível dizer que, neste caso em específico, a intenção original dos criadores do anime não importe.

O leitor talvez já tenha se encontrado anteriormente com a questão da validade do autor e o embate entre a ideia de que o autor tem a palavra final sobre sua obra e a ideia de que esse não é necessariamente o caso. Mais especificamente, é um embate aplicado sobretudo a teorias e interpretações de uma história. Se um autor diz que uma interpretação de sua história está errada, essa é a palavra final ou não? Para alguns, sim, mas para outros nem tanto. E enquanto eu tendo a concordar com o primeiro caso e dizer que sim, a intenção do autor importa, eu também sei que nem tudo o que está em uma obra foi realmente pensado pelo autor. Nenhuma homem é uma ilha, já dizia o dito. Somos todos partes de uma cultura, seja ela qual for. E muitas vezes esse contexto cultural, esse “espírito de uma época”, transparece nas produções artísticas sem que o próprio autor tenha consciência. Eu já tratei um pouco disso em um texto anterior meu sobre a originalidade, mas peguem conceitos como o Monomito de Campbell ou as Funções de Propp, trabalhos que mostram como histórias (Mitos, no caso de Campbell, e contos de fadas, no caso de Propp) separadas por quilômetros e séculos podem ainda assim guardar em si uma estrutura semelhante. Digimon Adventure, mesmo, segue o Monomito de Campbell quase que à risca, e isso que estamos falando de uma estrutura que visa descrever os mitos da antiguidade. É possível que os autores tenham pensado em absolutamente todas as referências e “coincidências” que poderíamos observar no anime? Sim, é. Mas isso não é necessário para que a interpretação faça sentido. E isso me parece ser talvez a maior força desse anime: a possibilidade de ser interpretado em diferentes níveis, conforme os conhecimentos do espectador.

No Monomito de Campbell, um dos últimos passos é chamado de "O Cruzamento do Limiar de Retorno", no qual o herói deve voltar ao seu mundo enquanto mantendo a sabedoria obtida em sua jornada. Exatamente o que vemos ao final do último episódio do anime.
No Monomito de Campbell, um dos últimos passos é chamado de “O Cruzamento do Limiar de Retorno”, no qual o herói deve voltar ao seu mundo enquanto mantendo a sabedoria obtida em sua jornada. Exatamente o que vemos ao final do último episódio do anime.

Eu considero Digimon Adventure, se não um mito, pelo menos um conto de fadas moderno. E uma das poucas obras que já vi que tem o potencial de ser atemporal. É, sua animação é problemática, para dizer o mínimo, e sua história tende a ser demasiado formulística, mas suas temáticas são (e provavelmente continuarão sendo ainda por muito tempo) bastante atuais. É uma história sobre crescimento. Sobre buscar compreender e aceitar não exatamente ao outro, mas a si mesmo. Se Apocalymon é a “sombra” negativa do Mundo Digital, podemos dizer que os brasões são a “sombra” positiva das crianças escolhidas, partes de suas personalidades que elas haviam inconscientemente reprimido. E quando elas finalmente voltam a ter contato com essa parte de si mesmos, quando finalmente assimilam sua “sombra” em sua consciência, seu brasão brilha e um novo poder surge. Autoconhecimento, autoaceitação, compreensão, esses são temas que vemos aparecer desde as primeiras narrativas míticas e que provavelmente não irão embora tão cedo. Mas como cada um irá absorver (ou se quer notar) estes temas irá depender muito de sua idade, conhecimentos e mesmo do quanto a pessoa está aberta a ver na obra algo mais do que “um desenho para crianças”. Por isso eu disse que esta é uma obra capaz não apenas de entreter, mas também de se comunicar com todas as idades. Então sim, reforço, esse anime ainda se sustenta tão bem hoje quanto em 1999. É perfeito? Não, nem de longe. Mas conquistou seu lugar na história e certamente o merece. Hey, nada mal para uma propaganda, não acham?

Imagens (na ordem em que aparecem):

1 – Digimon Adventure, episódio 1

2 – Digimon Adventure, episódio 2

3 – Digimon Adventure, episódio 2

4 – Digimon Adventure, episódio 3

5 – Digimon Adventure, episódio 31

6 – Digimon Adventure, episódio 53

7 – Digimon Adventure, episódio 54

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