A importância do começo.

“É um preceito básico: toda e qualquer narrativa, em qualquer meio conhecido, deve ter um começo, um meio e um final. Dentro desta estrutura, via de regra o começo é a “introdução”, o ponto de onde partimos. Aqui serão enunciados os pressupostos, explicitado o campo em que vamos nos aventurar. Em uma ficção, é o momento de apresentação dos personagens e do mundo em que estamos entrando. É, de certa forma, a “tese”. Já o meio vem como o espaço para o desenvolvimento. Aqui, são explicitados os conflitos, problemas a serem resolvidos. Em uma ficção, uma vez que sabemos como é o mundo e como são os personagens este é o momento de os confrontar, de colocar à prova tudo o que nos foi apresentado. É, portanto, o momento da “antítese”. Finalmente, chegamos ao final. O final é a conclusão. É o momento de observarmos os resultados dos embates e o que isso trouxe para o mundo e para as personagens. É, assim, a “síntese” de toda a obra. E é, também, o ponto para onde toda narrativa se dirige.”

O parágrafo acima é de um outro texto meu, de alguns meses atrás, intitulado “A Importância do Final“, onde procurei discutir justamente isso: o quão relevante era um final para a sua obra. Pois bem, para este texto eu pretendo ir justamente na direção oposta. Para que haja uma síntese, é preciso haver uma tese. Para que haja um final é obrigatoriamente necessário um começo. E poderíamos argumentar que, ao menos do ponto de vista comercial, o começo é talvez o momento mais importante de uma obra. É ele que irá determinar se o espectador (no caso dos animes) ou leitor (no caso dos mangás) irá continuar a acompanhar a obra ou se a deixará de lado. Neste sentido, o começo é a vitrine de uma obra, aquilo que irá determinar se seu cliente a irá comprar ou não. E isso figurativamente, mas também literalmente: quantos de nós não compramos um quadrinho ou livro após folhear as primeiras páginas? Ou compramos um DVD de uma série ou anime que só começamos a acompanhar por ter um bom primeiro episódio? Mas também do ponto de vista narrativo o começo é crucial, dado que é a partir dele que tudo na história irá se desenrolar. É nosso ponto de partida: sem ele, nada seria possível. Mas… o que faz um bom começo?

Vamos voltar a uma coisa que eu falei naquele quote do primeiro parágrafo, sobre qual é a função do começo de uma obra. Como disse, o começo é a introdução: ele serve para estabelecer o contexto. Que tipo de mundo é esse? É o mundo “real”? Um mundo de fantasia? Ficção científica? E que personagens iremos acompanhar? É um só? São vários? Se forem vários, como eles interagem? E quanto ao gênero, sobre o que é esta história? É ação? Aventura? Romance? Suspense? E que direcionamento essa história terá? Para onde ela pretende ir? Colocando assim podem parecer muitas perguntas, mas precisamos ter em mente de que tudo isso é a base, o ponto de partida sobre o qual tudo o que vier depois será construído. Por conta disso, é muito, muito, muito difícil você achar uma história que não consiga responder a estes questionamentos logo de início. Se você não delimitou, ao menos em algum nível, qual é o seu mundo, quem são seus personagens e sobre o que é sua história, como poderia falar sobre absolutamente qualquer outra coisa? Eu não vou dizer que é absolutamente impossível termos um começo onde nada disso é verdade, nem vou dizer que tal obra nunca foi feita. Não sei, não vi absolutamente toda ficção na existência para fazer afirmações generalizantes a esse nível. Mas posso dizer que definitivamente não é algo comum, caso exista. Mas digo tudo isso para fazer um ponto: servir de introdução para o que virá é todo o motivo de existência do começo de uma obra. Isso é o óbvio. Assim, um bom começo não se definirá por conseguir introduzir a história, algo que a esmagadora maioria quase inevitavelmente conseguirá, mas sim por como ele introduz essa história.

E qual seria o melhor método para fazer essas introduções? Como apresentar seu mundo, personagens e tudo mais? Obviamente, aqui é apenas a minha opinião pessoal, mas eu sou bastante a favor daquela máxima do cinema: “show, don’t tell” (algo como “não diga, mostre”, em tradução livre). Considerando especialmente mídias visuais, como o cinema, a televisão ou os quadrinhos, a ideia aqui é que o máximo que puder ser passado apenas com imagens, sons, ações e atitudes o seja, evitando sobretudo longas exposições e explicações. Por exemplo, ao introduzir o mundo, deixe o cenário ter seu papel. Frequentemente o cenário é a primeira coisa que uma obra irá mostrar, as vezes até mesmo antes dos personagens. E o cenário pode dizer muito sobre o mundo em que estamos entrando. Desde crianças somos “bombardeados” com uma série de clichês típicas de cada gênero de história. Quando eu digo “um mundo de fantasia” ou “o distante futuro” eu imagino que todos os que estão lendo já tem interiorizado o que esperam ver em cenários assim. Uma boa utilização do cenário pode mobilizar todas essas imagens e clichês interiorizados, de forma a definir todo um mundo em questão de segundos.

Tentando pegar aqui exemplos que eu sei serem bastante conhecidos, poderia citar os primeiros segundos de Sword Art Online como uma boa mostragem do que quero dizer. Logo de início a câmera é levada por uma mata fechada, para então sair para uma espécie de abismo sobre o qual flutua o castelo Aincrad. Só estes primeiros segundos do anime já definem muito bem o tipo de mundo que veremos dali para frente: um mundo de fantasia e aventura (e reparem que com isso mesmo o gênero da história já fica mais ou menos estabelecido logo de começo… se o anime cumpre com essa promessa inicial é uma história completamente diferente, mas não vou entrar nessa questão aqui rs). Outro exemplo que eu poderia usar é o anime No Game No Life: ao serem “sugados” para dentro do computador, Sora e Shiro se veem caindo sobre o mundo de Disboard. Com uma visão panorâmica de todo aquele mundo, novamente o espectador fica consciente, logo de início, do tipo de cenário em que se passará a história. Inclusive, essa técnica de usar uma visão panorâmica para introduzir o mundo em que se passa a história é algo bastante comum, e não serve apenas para obras de fantasia. Mas isso não significa que um cenário mais restrito não pode passar informações relevantes. Hourou Musuko, anime do qual já fiz uma review anteriormente, começa com nosso protagonista, Nitori, sentado sozinho na sala de aula. Com isso fica perfeitamente estabelecido o cenário de “mundo real” no qual se passará a história. E muitas obras fazem o mesmo, especialmente aquelas que se passam no que seria o “nosso mundo”. Não se trata de uma técnica ser melhor do que a outra, mas sim de que ambas podem ser ótimas se se souber dar a devida importância ao cenário.

Passando para os personagens, eu poderia dizer a mesma coisa. Quanto mais se puder mostrar destes personagens, ao invés de contar, melhor. Tomando novamente Hourou Musuko como exemplo, a primeira cena do anime também mostra nosso protagonista insatisfeito com as roupas que usa: um uniforme masculino que ele diz ser um pouco apertado. Sendo o anime uma história sobre duas crianças transexuais, com Nitori sendo uma delas, essas primeira palavras já nos permitem ter alguma noção da insatisfação do protagonista para com o seu próprio gênero. Na temporada de animes que começou agora em julho temos um outro bom exemplo no anime Game Of Laplace. Bem pouco é falado a respeito do nosso protagonista, Kobayashi, mas suas atitudes e reações para com as situações em que se meteu já nos permite tem uma boa ideia de que tipo de pessoa ele é, bem como o que podemos esperar dele em termos de futuras atitudes e ações.

É claro, eu não quero insinuar aqui que nenhum tipo de exposição é necessária nunca. Em fato, normalmente alguma exposição sempre será necessária, seja para explicar algum fundamento do mundo em que se passa a trama, o passado de algum personagem, a situação que irá se desenrolar, ou qualquer coisa do tipo. Nem tudo pode ser mostrado, as vezes contar é uma necessidade. Mas eu penso que quando a exposição se faz necessária é preciso ainda que ela soe como algo natural. Pegando mais uma vez Sword Art Online como exemplo, no primeiro episódio temos a cena em que o Kayaba explica aos dez mil jogadores que eles estão presos naquele mundo até que consigam vencer o jogo. Toda a cena é um enorme diálogo expositivo, mas funciona pois os personagens precisavam de alguma explicação. Em contraste, podemos pegar algo como Chaos Dragon, outro anime desta temporada de julho. Aqui, quase todos os diálogos soaram como puramente expositivos, mas uma exposição de assuntos que os personagens já deveriam estar plenamente cientes de. Por exemplo, temos a cena em que os dois vilões do episódio estão passando pela cidade. Neste momento, a mulher comenta sobre o que é o objeto que eles carregam e porque ele é importante. O problema é que ambos os personagens vem transportando esse objeto há tempos e sabem muito bem o que ele é e para que serve.  Fica evidente que aquele diálogo existe somente para situar o espectador no que está acontecendo, o que quebra a naturalidade da cena. Quando a exposição é dada no momento certo para um personagem que desconhece a situação, pode ser uma ótima ferramenta, mas quando é dada em um momento aleatório para personagens que já sabem o que está sendo exposto, soa forçado. Dai a minha predileção por um uso cuidadoso da exposição e por uma preferencia por mostrar mais do que falar.

Mas isso já foi praticamente um desvio do assunto central, considerando que todas essas questões envolvendo diálogos expositivos podem muito bem ser estendidas para a obra como um todo, não apenas seu começo. Voltando, então, à questão do começo de uma história, talvez o mais importante, ao menos para mim, é que este começo seja capaz de passar a sensação de começo. Ta, vou explicar melhor… Pensando aqui no monomito de Joseph Campbell, do qual já tratei com mais vagar no meu texto “Alguns Pensamentos sobre a Originalidade“, a primeira parte da Jornada do Herói seria, grosso modo, o “chamado à aventura”, que convida (ou mesmo obriga) o herói a deixar seu mundo mundano. Assim, o que eu espero de um começo é exatamente isso: que ele nos apresente de inicio uma situação inicial, que será o “mundo mundano” do(s) nosso(s) personagem(ns), mas que ao final do episódio essa situação inicial seja abandonada ou completamente subvertida, de forma a termos a entrada dos personagens no que seria o início da sua jornada. Que fique claro, não quero me referir aqui apenas a um clifhanger, um gancho que deixe o expectador curioso para o próximo episódio, mas sim um final de primeiro episódio que consiga passar a sensação de “algo está para começar”. Claro, histórias de ação e aventura tem uma facilidade muito maior para entregar este tipo de inicio, mas outros gêneros também o conseguem.

O já mencionado Game Of Laplace, anime do gênero de mistério, conseguiu isso muito bem me seu primeiro episódio, que finaliza justamente com esta sensação mencionada, reforçada até pela própria fala dos personagens, que declaram o início do “jogo”. Infelizmente, animes episódicos tem muito mais dificuldade para entregar esse tipo de sensação. Considerando que cada episódio é algo fechado em si mesmo, poderíamos dizer que cada episódio é um novo começo. Com nada realmente começando (nenhum arco de história mais longo, desenvolvimento de personagem, ou o que quer que seja) se torna difícil passar a sensação de que algo irá, isso se não realmente impossível. Mas que fique claro: de jeito nenhum eu quero dizer que animes que não entregam essa sensação são de alguma forma piores do que outros. Hourou Musuko tem um primeiro episódio que bem poderia ser um OVA isolado, tão fechado que ele é em si mesmo. Kino no Tabi, anime episódico que também já tem uma review aqui, idem: tem um primeiro episódio que funciona muito bem de forma isolada. O mesmo pode ser dito para Ghost In The Shell: Stand Alone Complex. Todos estes são animes fenomenais que em nada perdem para qualquer outro (muito pelo contrário, aliás), mas que não conseguem passar essa sensação de “este é o início” (até porque, não o é. Nos três animes citados o primeiro episódio é muito mais um vislumbre da rotina dos personagens, de seu mundo mundano, do que qualquer outra coisa, então é natural que não passem uma sensação de estarem começando algo).

Palavras finais, um bom começo, no meu entender, é aquele que consegue lhe apresentar, de forma natural e fluida, o que virá pela frente. Em que tipo de mundo estamos, que personagens iremos acompanhar, qual o objetivo inicial da história, ao final de um primeiro episódio de anime eu espero consegue saber tudo isso pelo menos em alguma medida. Além disso, eu gosto que o anime de alguma motivação para o espectador voltar a ele, que nos mostre que ele realmente foi o começo de algo e que muito ainda está por vir. Não é uma grande necessidade, visto que conseguir passar essa sensação vai depender muito inclusive da própria proposta do anime, mas se ele for capaz disso é certamente um bônus agradável, ao menos para mim. Agora, é também preciso dizer que o “começo” de uma obra pode ser algo bastante subjetivo. Para este texto eu pensei sobretudo no primeiro episódio de um anime e um pouco no primeiro capítulo de um mangá. Mas esse “começo” pode ser estendido ou encurtado. Há quem considere que os dois ou três primeiros episódios é que realmente constituem o “começo” de um anime, mas também seria defensável que a primeira página de um mangá ou o primeiro minuto de um anime são efetivamente “começos” (e nesse último caso aquele princípio “show, don’t tell” se torna ainda mais relevante, já que espera-se capturar a atenção do espectador em um espaço de tempo curtíssimo). Em todo caso, espero ter deixado claro o que eu costumo esperar do começo de uma obra e o que considero ser um bom começo.

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