Review – Kagerou Project (Vocaloid)

Children Record, musica criada para ser a
Children Record, musica criada para ser a “abertura” da série

Atualmente, Kagerou Project é uma franquia multimídia cuja história foi contada em uma série de diferentes suportes. Somente no momento desta postagem, a franquia conta com uma série de light novels (intitulada “Kagerou Daze”, ainda em publicação), um mangá (também intitulado “Kagerou Daze” e também ainda em publicação), um anime (intitulado “Mekakucity Actors”, finalizado em 2014 e produzido pelo estúdio Shaft), além de outros materiais. Tudo começou, porém, com uma série de musicas, compostas pelo japonês Jin (também conhecido como Shizen No Teki-P) e disponibilizadas no site Nico Nico Videos, bastante similar ao ocidental Youtube. Inicialmente, as musicas foram cantadas pela vocaloid Hatsuna Miku, mas a partir da quarta musica passaram a ser cantadas pela vocaloid I.A. (e se você não sabe o que é um vocaloid, trata-se  basicamente de um software sintetizador de voz, produzido pela Corporação Yamaha e bastante usado por particulares para a produção de musicas). E para esta review, eu irei me focar justamente nesta série de musicas, ainda que trazer informações das demais mídias seja praticamente inevitável.

Mas vamos à sinopse. Unidas, as musicas contam a história do Mekakushi-dan, um grupo de crianças com poderes especiais, que se ativam quando seus olhos ficam vermelhos. Mas não se deixem enganar pela premissa simples. Trabalhando com temas como a solidão, o preconceito, o desespero, o sofrimento, a perda de entes queridos, entre diversos outros pontos, tudo isso disperso em uma história bastante complexa e pesada, a série em nada deixa a desejar. Infelizmente, eu não posso dizer muito mais, já que praticamente qualquer coisa que eu falar será spoiler. O que posso dizer, porém, é isto: vale muito a pena. Ao que parece, existe ainda muito preconceito para com vocaloids, que ainda são muito encarados como personagens cujo único propósito é capitalizar em cima de musicas pop genéricas ou moe. Kagerou Project, porém, mostra o verdadeiro potencial desta mídia, que quando bem usada pode criar histórias bastante criativas, complexas e bem desenvolvidas, tudo isso em apenas alguns minutos de musica. No caso de Kagerou, a série de musicas está finalizada e conta com um total de 22 musicas. Bom, feita a recomendação, spoilers correrão soltos abaixo. Siga por sua conta e risco o/

Começando efetivamente a análise, o primeiro ponto que eu gostaria de tratar é o formato desta série. Como eu mencionei acima, esta série de musicas mostra muito bem o que realmente se pode conseguir com vocaloids, mas permitam-me tentar explicar melhor o que eu quis dizer. Em primeiro lugar, temos que cada musica é exatamente isto, uma musica. Neste sentido, para contar sua história o autor deve apresentar os diversos fatos, eventos e personagens em formato musical, algo que de forma alguma é fácil. E apesar da dificuldade, em alguns momentos é espantosa a clareza com que o autor consegue transmitir sua mensagem apenas com a letra, a exemplo da musica Shinigami Record, onde ouvimos sobre o “monstro” (a medusa Azami) que criou o “Mundo Sem Final”. Em outros momentos, porém, a musica é propositalmente confusa e complicada de se entender, mas é fascinante o fato de que nunca é complicada demais. Musicas como Lost Time Memory ou Outer Science são relativamente difíceis de se entender mesmo quando você já viu todas as musicas e tem o quadro completo da história. Ainda assim, elas nunca parecem incompreensíveis, de forma que instigam muito mais uma reação de “eu quero saber mais” do que uma de “que se dane isso, eu não entendo nada”.

Mas indo além de puramente a letra da musica, muitas destas possuem os chamados PVs (Promotion Videos), onde uma animação simples serve de vídeo-clip para a musica. Por meio destes vídeos, podemos ter uma série de informações que somente a letra da musica não passa, tais como a aparência das personagens, suas ações em certos momentos, os cenários onde ocorrem os eventos, etc. Uma vez que se combinem vídeo e musica, a compreensão de algumas destas pode mudar bastante. Um excelente exemplo é a musica Konoha no Sekai Jijou, onde é sobretudo o vídeo o que conecta esta musica àquela que é certamente a mais famosa da série, Kagerou Days. Neste sentido, quando você termina um destes vídeos você normalmente tem uma quantia mínima de informação que te dá a sensação de ter entendido o que é contado, ao mesmo tempo que é uma sensação vaga o bastante para você se perguntar se realmente entendeu alguma coisa. E quando você termina de ver todos os vídeos e ouvir todas as musicas, esta sensação apenas se intensifica. Não é uma história clara, como muitos talvez gostariam. Mas é uma história clara o bastante para que você possa começar a criar suas próprias interpretações, teorias, explicações, etc. E isto, essa sensação mesclada de confusão e curiosidade, é algo que pode ser atingido muito por conta do formato em que a história foi contada.

Agora, obviamente eu não quero insinuar aqui que somente este formato pode atingir isso, de forma nenhuma. Diversos animes, filmes, mesmo livros conseguem muito bem passar essa sentimento de “eu acho que entendi… mas será?”. Porém, um vídeo musical, ou mesmo uma letra de musica, têm uma vantagem importante neste campo: você já vai para estas mídias com um nível de aceitação do absurdo muito maior. Muitas vezes, quando um anime abusa do surrealismo e das metáforas visuais, ele tende a ser criticado por ser extremamente confuso, e eu devo dizer que me encaixo entre estes críticos. Já estamos tão acostumados com a ideia de uma história linear, cenários que são apenas ambientes, textos e diálogos claros, etc, etc, que quando pegamos um anime, filme ou série que não segue esses padrões podemos nos sentir… incomodados. Para algumas pessoas, isso é algo bom. Para outras (eu incluso) isso é muito mais um distrativo do que qualquer outra coisa. Uma clip musical, porém, é uma outra história. Você já espera uma alta carga de simbolismos e surrealismos de um vídeo musical, já espera uma certa falta de clareza de uma letra de musica, já espera uma série de coisas que antes de te fazerem pensar “isto é imbecil” te levam a pensar “o que o autor quis dizer com isso?”. Sim, eu sei, nem todo mundo é igual e certamente existem pessoas que fogem dessa minha ideia, mas ainda assim, é no mínimo sintomático que praticamente todo clip musical inclua em si alguma dose de simbolismo, enquanto que bem poucos filmes o façam de forma tão direta e escancarada, sendo ainda que quando o fazem eles recebem uma boa dose de críticas entre muitos de seus espectadores. Em suma, pelo menos pra mim, o uso deste formato em específico para contar esta história em específico não apenas foi uma boa decisão, como ainda é grande parte do que dá o “charme” da série.

Já sobre a história em si, em primeiro lugar é preciso dizer que ela é difícil de entender (e mais ainda de explicar). Eu já vou avisar: quem disser que entendeu perfeitamente a história sem recorrer a qualquer tipo de pesquisa, consulta com outros fãs, ou acesso a outros materiais da franquia (como o anime ou o mangá), está certamente mentindo. Clareza não é nem de longe o forte dessa série, ao menos no que diz respeito à trama maior, que envolve questões como o funcionamento do Mundo Sem Final, o Looping Temporal criado pela Mary, as intenções do verdadeiro vilão da série (a Serpente que possui o Kuro Konoha em Outer Science), etc. Em contraste, porém, ela é bastante clara no que diz respeito aos personagens, suas personalidades, emoções, pensamentos, história de fundo, etc. Isso ao ponto em que é bem fácil se importar com estes personagens, mesmo quando você só os está acompanhando há poucos minutos. É possível sentir a insegurança e desconfiança em si mesmo do Kano, em Yobanashi Decive, bem como a culpa e o pesar do Sintaro, em Lost Time Memory, ou o medo e a esperança do Seto, em Shounen Brave. Em fato, pra mim chega a ser fascinante o quanto eu consigo me importar com estes personagens que muitas vezes eu acabei de conhecer, enquanto que tem muitos animes que eu acompanho um dado personagem por dezenas de episódios sem dar a mínima pra ele. Mas, voltando ao ponto, ainda que a trama em si possa ser confusa e complicada em muitos aspectos, suas temáticas são bastante clara. Para mim, Kagerou Project é, sobretudo, uma história sobre solidão, perda, e aceitação.

Summertime Record, musica criada para ser o final da série.
Summertime Record, musica criada para ser o final da série.

Desde suas primeiras aparições, cada personagem apresenta algum tipo de problema para se socializar. Alguns, a exemplo de Kido, Seto e Kano, se isolaram em si próprios após serem alvos de preconceito e discriminação por conta de seus poderes, chegando mesmo a se odiarem por os possuírem, como podemos ver em Ayano no Koufuku Riron. Shintaro, por sua vez, se isolou do mundo e das pessoas sobretudo por conta da culpa que sentia por não ter sido capaz de impedir o suicídio de Ayano, como vemos em Lost Time Memory. Mesmo a Momo, a idol amada por todos, se sente sozinha, insegura, confusa se realmente merece toda a atenção que recebe. Todos são personagens que se sentem deslocados do mundo ao qual pertencem. Se sentem… sozinhos. Daí que esta seja em grande medida uma história de encontros. Ao irem se encontrando uns com os outros, lentamente estas crianças vão se socializando, se comunicando, se abrindo e, finalmente, se entendendo e se aceitando. Em certo sentido, é uma história sobre crescer. Sobre fazer amizades, sobre auto-descobertas e auto-aceitação. Nada mais normal, então, que se passe no verão, época de mudanças por excelência, como eu já havia apontado no meu texto sobre o verão enquanto metonímia idealizada da infância.

Mas, como eu disse, é também uma história sobre perdas. E o tipo mais duro de perda: a de um ente querido. Vemos isso repetidas vezes na história. Como eu disse, Shintaro se trancou em seu quarto por não conseguir lidar com a morte de sua amiga, Ayano. Seto, na musica Shounen Brave, vê aquele que era praticamente seu único amigo, um cachorro, morrer. Kagerou Days é um enorme looping sem fim onde Hibiya tenta desesperadamente salvar sua amiga, apenas para vê-la morrer de novo e de novo e de novo, e o mesmo poderia ser dito sobre o Konoha em Konoha no Sekai Jijou. Aliás, e por falar em loopings, a série inteira é um gigantesco looping temporal causado pela Mary, que continuamente termina da exata mesma forma, com Konoha sendo possuído pela Serpente Que Clareia Os Olhos, matando todos os membros do Mekakushi-dan e forçando a Mary a voltar no tempo, a fim de tentar salvar seus amigos (coisa que podemos ver tanto em Outer Science como em Mary no Kakuu Sekai). Ao pensar neste personagens, estamos pensando em pessoas que estão presas ao seu passado, algumas vezes com consequências desastrosas. Em Lost Time Memory vemos que Shintaro comete suicídio, por não poder lidar com a morte de Ayano. Já o pai de Ayano é justamente aquele que, possuído pela Serpente Que Clareia Os Olhos, chega mesmo a sacrificar a vida de dois estudantes seus, tentando reabrir o portal para o Mundo Sem Fim, onde ele acredita que sua esposa ainda deva está (é algo meio complicado de explicar… Basicamente, existe uma data em especial que, se a pessoa morrer nessa data, há uma chance do Mundo Sem Fim levar essa pessoa para si. Lá, ela pode receber uma Serpente. Se receber, pode voltar à vida, além de ganhar um poder que se ativa quando seus olhos ficarem vermelhos. Se não receber, a pessoa supostamente fica presa naquele mundo). Lidar com a perda, aceitar o passado e aceitar seguir em frente é, portanto, um dos grandes temas da série, que têm seu ápice justamente em Summertime Record.

Criada para ser o final oficial da série, em Summertime vemos que as crianças decidiram que é hora de se separarem. É hora de deixarem as brincadeiras para trás e seguirem em frente. Que mudança. As crianças que até então estavam presas a seu passado, se lamentando dos laços cortados que não podem mais ser re-atados, finalmente aceitam a separação como uma parte intrínseca da vida. Nunca nos esqueçamos uns dos outros, mas é preciso seguir em frente, em grande medida esta talvez seja a mensagem final da série. Quando chegamos esse ponto, podemos ver o quanto estas crianças amadureceram. De certa forma, é um final melancólico em vários sentidos. Especialmente, aliás, quando você percebe que não recebemos qualquer informação, aqui, sobre se personagens como a Hiyori (a garota que Hibiya tenta salvar em Kagerou Days) ou a Ayano voltam ou não à vida, o que leva alguns a interpretarem que não. Muitos fãs, aliás, chegam mesmo a especular que o próprio Haruka talvez tivesse morrido, por conta da letra e vídeo de Summertime Record. E, bom, faz sentido, considerando todo o contexto da história. Claro, na adaptação em anime vemos que não é bem assim. Ao final de Mekakucity Actors, Ayano e Hiyori voltam à vida, enquanto Haruka recupera seu corpo, o anime assim encerrando em um nota bem mais positiva. Se a novel ou o mangá irão concordar com este final, isso não temos como saber ainda. Ainda assim, mesmo isso não tira o ar de melancolia que de certa forma paira sobre o final da série, afinal ainda se trata de um grupo de amigos a se separarem. Mas, ao mesmo tempo, é um final feliz em vários sentidos. Esta separação somente é possível devido ao quanto eles amadureceram. É por se aceitarem como são e por aceitarem seguir em frente que estas crianças agora podem se separar. E quem sabe, talvez um dia voltem a se encontrar, exatamente como diz a musica.

Considerações finais, Kagerou Project é uma série excelente. É uma trama instigante, que convida o espectador a prestar atenção, a teorizar e a pensar no que está acontecendo, apelando continuamente para nossa curiosidade. Ao mesmo tempo, é uma série que nos entrega muito bem temas bastante complicados de serem tratados, bem como uma vasta gama de personagens que surpreendem de tão bem construídos que são, ao menos quando você leva em consideração o quão pouco tempo o autor teve para trabalhar cada um deles. Se você não gosta de vocaloid por um ou outro motivo, eu fortemente recomendaria assistir. Se ainda assim não gostar, paciência. Mas eu sinceramente imagino que pelo menos alguns terão uma boa surpresa ao final.

Imagens:

1 – Children Record, 8ª musica da série.

2 – Summertime Record, 15ª musica da série.

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2 comentários sobre “Review – Kagerou Project (Vocaloid)

  1. É muito looping plot twits e teorias pra minha cabeça rsr . Enfim, otimo post me ajudou a entender melhor as obras (anime músicas novel e manga), é dificil achar um conteúdo desses bem explicado ainda mais de uma obra tão complexa

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