Alguns pensamentos sobre o “mimimi”.

Este post vai ser um pouco diferente dos demais do blog. Enquanto eu normalmente tento me prender a assuntos relacionados diretamente com anime, mangá e cultura pop japonesa num geral, este post vai ser sobre um problema que, embora não diretamente ligado com esses assuntos, eu vejo que vêm afetando também muito os grupos de debates e discussões sobre anime, mangá, etc. Então vamos lá: eu tenho certeza que, se você participa de algum grupo de discussões e debates, seja em alguma rede social, fórum, ou sei lá, você já disse ou viu alguém dizer algo como “isso é puro mimimi”[1]. Em fato, este “argumento” vêm se tornando mais e mais comum. Sempre que algum debate é levantado e as opiniões se dividem, ele acaba vindo à tona. Existe uma piada popular na internet que diz que quanto mais longa for a discussão, maiores as chances de alguém ser comparado a Hitler. Eu acho que esta piada pode ser atualizada: quanto mais longa for a discussão, maiores as chances de alguém dizer que a outra parte está de “mimimi”.

Mas verdade seja dita, o “argumento do mimimi”, como eu poderia chamar, é apenas uma faceta de um ponto maior, que aparece nas mais diversas formas. Quantas vezes você já não ouviu falar que um dado assunto “não se discuti”? Seja ele sobre religião, política, time de futebol, vira e meche a frase “isto não se discuti” aparece num debate. Ou, ainda, quantas vezes você, leitor, não ouviu algo como “ah, que discussão inútil”? Novamente, é uma frase que aparece com bastante frequência em discussões. Todas estas frases, e nelas eu incluo a já mencionada “isso é puro mimimi”, são apenas variações de uma estratégia argumentativa que visa “vencer” a discussão atacando a própria validade da discussão. O que é, para dizer o mínimo, uma estratégia injusta. Ao se usar deste tipo de argumentos, a contestação inicial (aquela chamada de “mimimi”) é ignorada, juntamente com todos os argumentos que a embasam. Em suma: é um “argumento” que não prova que seu adversário no debate está errado, mas sim que você tão somente não deseja discutir. É uma falácia. Mas convenhamos que falar apenas isso deixaria o post curto demais. Então, nos próximos parágrafos eu vou fazer algumas colocações sobre algumas das variantes dessa falácia e porque, na minha opinião, estes “argumentos” não devem ser usados. Então vamos lá.

Começando, a primeira variante dessa falácia que eu gostaria de falar é uma que costuma ser dita mais ou menos assim: “tanta coisa mais importante para ser discutida e fulano que discutir logo isso”. Devem haver algumas variantes dessa frase, mas na grande maioria dos casos essa é a estrutura. E a ideia aqui é bem simples: se procura deslegitimar o debate dizendo que existem problemas e questões maiores a serem debatidas (a vá). Esse tipo de colocação, porém, tem em si pelo menos três problemas fundamentais. Em primeiro lugar, raramente se diz quais seriam esses “problemas e questões maiores”. Simplesmente se diz que existem debates mais relevantes, mas quais são nem mesmo o falante da frase parece saber. Seria talvez a fome no mundo? O aquecimento global? A corrupção? Eu posso discutir sobre a corrupção enquanto tem tantas criancinhas passando fome? Posso discutir o aquecimento global com tantas pessoas morrendo por diferentes tipos de câncer? Como exatamente eu decido que o assunto X ou Y é mais legítimo para ser debatido? Claro, existe ai uma linha relativamente clara quando pensamos em extremos. Por exemplo, seria ridículo defender que discutir a cor de um vestido é mais importante do que discutir, digamos, a corrupção no país. Mas isso só funciona com extremos. Entre discutir, digamos, adaptações de um mangá para o Brasil e discutir o quão bom ou ruim foi um episódio de um anime na semana, como eu defino qual debate é mais relevante? Ou, como já mencionei lá em cima, entre discutir a fome no mundo e a corrupção, qual debate é mais legítimo? Pura e simplesmente não dá. Você pode preferir debater um ou outro, mas certamente não pode racionalmente explicar porque um é mais relevante de se debater do que o outro.

Mas ainda temos o caso de extremos, isso eu não nego. Entre discutir sobre o episódio da semana de algum anime e discutir o problema da violência urbana no Brasil, certamente o segundo tema é bem mais relevante para a população num geral. Mas para estes casos eu lembro ao leitor da existência de um só palavrinha: contexto. Digamos que eu estou em um fórum de debates sobre Dragonball. Por que cargas d’água eu iria debater a fome na África? Ou digamos que eu estou em um grupo no facebook de discussões sobre a violência no Brasil. Por que eu iria querer discutir a capa de alguma revista em quadrinhos? Tudo tem o seu lugar e o seu momento. Se você está em um ambiente voltado para o tema X, querer debater o tema Y até é uma ideia válida, mas querer impor que o tema Y deve ser mais debatido do que o X, que é o foco dos debates daquele ambiente, isso é ser puramente sem noção. Se você realmente acha que devemos nos preocupar em discutir apenas os temas que você julga serem relevantes (o que não deixa de ser uma postura extremamente egocentrista), então procure você um ambiente onde estes temas sejam debatidos, ao invés de querer deslegitimar aquela discussão. E é disso que eu faço o gancho para o terceiro problema: uma coisa não anula a outra. Eu posso estar em um grupo discutindo a cor dos cabelos de um personagem, e ao mesmo tempo, em uma outra janela, posso estar em outro grupo debatendo o problema da fome. No final, esse argumento do “tanta coisa mais importante” flerta muito com a falácia da falsa dicotomia, propondo que eu só posso escolher um ou outro. Ou animes, ou a fome no mundo. Ou a cor de um vestido, ou a corrupção. E por ai vai. Sendo que, na verdade, tal colocação não faz nenhum sentido lógico.

Partindo então para a segunda variante dessa estratégia argumentativa, temos o velho argumento de que “esta discussão não vai dar em nada/é inútil”. A premissa aqui é básica: como a discussão não pode, segundo esta argumentação, promover qualquer efeito na realidade concreta (ou seja, ela é “inútil”), então ela não deve ser feita. Honestamente, essa colocação é bem fácil de ser provada como pura bobagem. Se você algum dia já usou esse tipo de argumento, ou se acha ele válido de ser usado, pare e pense um momento: qual foi a última vez que um debate do qual você participou mudou alguma coisa? Mesmo pensando naquele escopo de “discussões realmente relevantes”, quando foi a última vez que debater o aquecimento global em algum post no facebook, ou a corrupção em algum fórum especializado, mudou alguma coisa? Não vou dizer que nunca, de fato destas discussões por vezes podem surgir mobilizações e manifestações reais que busquem isto ou aquilo. Mas convenhamos: a enorme maioria destes debates é tão “útil”, em termos práticos, quanto debater, digamos, como se deve posicionar o papel higiênico. Mas claro, levemos também em conta que a definição de “útil” não é exatamente estanque. Uma pessoa pode considerar útil somente aquele debate que produza um efeito real no mundo concreto, enquanto que outra pode considerar útil debates que a permitam refletir sobre si mesma e suas próprias posições e comportamentos. Isso só torna ainda mais absurdo o argumento de que “esta discussão é inútil”. Inútil para quem? Qual a sua definição de útil? E por que a sua definição é mais válida do que a de fulano ou ciclano? Só estas perguntas já cuidam de tornar no mínimo bastante frágil a afirmação de que qualquer debate é inútil.

Mas ainda assim há um outro problema com a acusação de que “este debate é inútil”. Que é: e por que ele deveria ser útil, em primeiro lugar? É engraçado ver como raramente se dá alguma justificativa. Não por acaso, imagino. Vivemos em uma sociedade onde o útil se impôs como o único aceitável. Se algo é inútil, é imediatamente ruim. Mas isso é mesmo verdade? Que utilidade há em assistir um anime? Ou em comentar o episódio da semana? Qual a utilidade de se ouvir uma musica? De se parar para olhar a paisagem? Claro, podemos tirar algum tipo de satisfação pessoal disso, mas não é como se fossemos morrer caso não ouvíssemos uma musica ou assistíssemos um anime, nem a sociedade entraria em colapso por causa disso. No final, um debate ou discussão pode ser exatamente este caso. Talvez seja inútil no sentido de criar alguma mudança na realidade, mas pode trazer alguma satisfação ou diversão aos participantes. Nem tudo precisa ter um motivo maior por trás ou uma grande causa a ser levantada e defendida. Algumas coisas simplesmente têm valor em si mesmas. Se você não vê valor naquilo, é livre para se retirar. Nem todos gostam de parar para olhar uma paisagem, da mesma forma que nem todos gostam de debater pelo puro desejo de debater. Mas dificilmente faz qualquer sentido acusar uma atividade de lazer de ser “inútil”. Afinal, em última instância, não é exatamente isso que define o lazer?

Finalmente, temos a última variação desta estratégia que irei tratar aqui: “isso é só mimimi”. Este é um “argumento” que vem se tornando mais e mais popular na internet já tem alguns anos, e é talvez a mais injusta de todas as variantes das tentativas de deslegitimar a discussão. Pensem por um momento: se acusam um debate de ser infrutífero ou de ter assuntos mais importantes a discutir, ao menos é possível rebater tal acusação. Mas o que dizer quando alguém simplesmente afirmar “você só tá de mimimi”? Vai responder algo como “não estou”? Mesmo que responda, o outro poderia só reafirmar: “ta sim”. E bem vindo a um looping infinito digno de criancinhas da primeira série. Não dá: não existe argumento contra isto, sobretudo porque isto não é um argumento. É um ataque, uma ofensa pura e simples. Quem a faz não procura provar nada, só procura ridicularizar quem levanta a discussão. É o que chamamos de “ad hominem“, um ataque ao debatedor, não aos argumentos deste. Honestamente, dizer “você tá de mimimi” tem o exato mesmo valor argumentativo de algo como “você é um idiota”, ou “você é um filho da p***”, ou qualquer coisa do gênero. Quem usa deste tipo de atitude não quer discutir ou debater e dar corda pra essas pessoas é uma péssima ideia. Existe uma coisa chamada “complexo do pombo enxadrista”. Nesta metáfora, coloquemos um jogador profissional de xadrez para jogar contra um pombo. Não importa o quão bem o jogador jogue, o pombo ainda irá andar pelo tabuleiro, derrubar as peças, abrir as asas e sair cantando vitória. Quem usa deste “argumento” do “mimimi” é exatamente como o pombo. Não importa o quão competente seja seu adversário, ele irá sempre insistir na desmoralização, no desrespeito e na ofensa com o único propósito de irritar ao outro lado. De forma clara e simples: quem usa deste “argumento” é um troll. E a melhor solução, aqui, é não dar atenção.

Antes de encerrar essa postagem, porém, eu vou só deixar aqui um link para um post meu sobre haters. Isso porque outra acusação comum, ao menos no meio dos animes, mangás, quadrinhos, etc., é a de que se você está criticando algo você é “hater” daquele algo e, portanto, tem uma visão distorcida da coisa, não devendo os seus argumentos serem levados em consideração. Isso não deixa de ser outra forma de deslegitimação do debate, mas como eu já tinha feito um post só sobre esse assunto eu preferi só deixar o link aqui do que me repetir (rs). No mais, a mensagem que fica é: ao entrar em um debate, ataque aos argumentos, não ao debate em si. Se for pra entrar em uma discussão só para dizer que ela não deveria acontecer, então não entre, simples assim.

Notas:

1 – Ok, só depois de terminar a postagem que eu me toquei que existe a possibilidade de alguém não saber o que significa “mimimi”. Se por algum motivo este é o seu caso, “mimimi” é uma expressão que vem se popularizando na internet há alguns anos, sendo uma onomatopeia para a imitação jocosa do choro. É como dizer que a pessoa está chorando sem motivo, digamos assim. Infelizmente, não consegui descobrir exatamente quando ou como surgiu essa palavra, encontrando tanto explicações de que poderia ser uma corruptela do “pipipipipi”, choro característico do personagem Chavez, do seriado mexicano de mesmo nome, ou mesmo que teria surgido com o personagem Fudencio, de um programa no canal MTV (se a fala do personagem surgiu antes do termo, ou se o personagem se apropriou do termo, eu não tenho ideia). Mas em todo caso, ta ai a explicação do que é esse termo.

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3 comentários sobre “Alguns pensamentos sobre o “mimimi”.

  1. Diego, parabéns pelo excelente texto! Os três problemas que você apontou são muitos usados e acabam diminuindo ou encerrando discussões.
    Creio que o uso do “mimimi” ocorre em muitas vezes, quando a pessoa não aceita que o ponto de vista de outro é melhor desenvolvido que o seu, ou que tal ponto de vista abrange uma possibilidade que a pessoa sequer pensou.
    A nossa sociedade estimula muito a questão da competição e reconhecer as virtudes do outro, ou aceitar as diferenças são princípios pouco estimulados de forma geral, tudo muito centrado no “eu’ estou certo e as outras opiniões são descartáveis.
    Outra possibilidade que penso que pode justificar o uso de “mimimi”, é quando uma pessoa não aceita que a opinião dela pode sofrer alterações ou até ser desfeita. Isto é, tentar olhar um mesmo assunto sobre uma ótica diferente, sem o preconceito, ou verdade absoluta segurada de forma teimosa.

    Curtido por 1 pessoa

    • Legal que gostou do texto ^^. E sim, você levantou dois pontos muito relevantes. De fato vivemos em uma sociedade MUITO competitiva e talvez isso nos afete no nível até mesmo de não aceitarmos estar errados. Como se expor e aceitar que erramos fosse algum tipo de mancha na nossa reputação ou coisa assim, somos pessoas tão competitivas que a ideia de perder mesmo uma discussão leva alguns a apelarem pra coisas como ataques pessoais e ofensas =/ . E muito bem apontado também: tendemos a não aceitar que podemos mudar de ideia. Eu mesmo as vezes tenho muita dificuldade nisso e sei que é um defeito meu. Não devíamos ser tão intransigentes. Claro, não devemos mudar nosso pensamento a cada vez que alguém diz algo, mas a partir do momento que o outro lado tem melhores argumentos ou provas mais fortes… bom, ai as vezes é melhor engolir o orgulho. Antes estar errado do que ignorar a verdade, não? rs

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