Review – Baccano! (Anime)

Baccano!
Baccano!

Mais frequentemente do que seria de se esperar, alguns animes parecem cair numa estranha categoria de “muito bem recebido, mas bem pouco popular”. Baccano!, produção do estúdio Brain’s Base e baseado na série homônima de ligth novels de Ryogo Narita, é um excelente exemplo. É bastante raro vermos afirmações contra a série, que foi ao ar nas televisões japonesas em 2007, contando com 13 episódios televisionados e mais 3 OVAs incluídos na versão em DVD. Em fato, quase todos aqueles que viram o anime parecem colocá-lo em algum lugar entre “mediananamente bom” e “groundbreaking masterpiece“. Ainda assim, este ainda é um anime relativamente desconhecido, pelo menos entre aqueles que não se aprofundaram ainda tanto no meio otaku. Talvez seja por conta de sua idade ou por ele não ter tido exatamente um imenso impacto no ano em que saiu, mas independente do motivo me parece que este anime merece um pouco mais de atenção do que ele vem recebendo. Então, façamos exatamente isso e observemos um pouco mais esta excelente obra da animação japonesa /o/

Mas antes de mais nada, façamos aqui uma rápida sinopse da série. Num geral, Baccano! se passa majoritariamente nos Estados Unidos do começo da década de 1930, com três diferentes histórias ocorrendo em três diferentes anos. Em 1930 temos uma briga de gangues envolvendo alquimistas imortais. Em 1931, o expresso transcontinental Flying Pussyfoot deixa a plataforma com uma previsão dizendo que quem terminasse a viagem ou era sortudo ou não era humano. E em 1932 temos um jornal tentando organizar a fantástica história de uma série de eventos misteriosos que vêm ocorrendo desde o século XVIII. Tudo isso permeado com uma enorme gama de personagens, brigas de gangues, ação, comédia, mistério e mesmo um pouco de romance. Uma história sem protagonista, contada de forma não-linear, na qual os destinos das personagens se cruzam no tempo e no espaço, esta é a melhor forma que eu consigo pensar para definir esta série. E eu já digo: na minha opinião, vale muito a pena assistir. Isso dito, a partir daqui a postagem pode conter alguns spoilers, então prossigam por sua conta e risco.

Para começar essa review, eu gostaria de tratar primeiro não da história da série, mas sim de seu protagonista. Ou melhor: de sua falta de protagonista. Eu tenho de dizer, eu sou bastante cético com a ideia de inexistência de um protagonista. Ainda que ele nem sempre seja claro, quase toda obra tem aquele personagem mais importante, que aparece mais ou que move a história, e que frequentemente é o primeiro ou segundo personagem que vemos aparecer na tela. Mas algumas obras de fato conseguem a façanha de completamente abandonar qualquer conceito tradicional de protagonista e Baccano! é definitivamente uma delas. Com uma gama imensa de personagens, praticamente nenhum destoa como o mais importante ou como aquele que move a história. Em fato, com cada um dos três momentos históricos cruzando em si uma série de sub-tramas envolvendo os vários personagens, pode-se dizer que cada um destes é o protagonista de sua própria história e o coadjuvante na história de algum outro. Honestamente, eu não consigo agora me lembrar de outro anime que eu possa falar com tanta certeza “este anime não tem protagonista”. Por si só isso já torna Baccano! um anime destoante dentre seus pares, tendo atingido algo que poucos realmente conseguem.

Em tempo, vale apontar que, num geral, as personagens são bem interessantes. Pensando em retrospecto eu não me lembro de ter detestado ninguém, embora eu não consiga dizer que estava avidamente me importando com todos. Infelizmente, falar aprofundadamente de cada um destes personagens seria impraticável, dada a quantia absurda deles, mas tem dois que realmente despontam no anime: Isaac e Miria. Eu acho interessante que praticamente todas as reviews que eu li ou assisti a respeito deste anime insistem em citar estes dois, mas depois de terminar o anime eu meio que consigo entender porquê. No começo, eu achava eles extremamente irritantes, puros alívios cômicos que só serviam para agir feito bestas. Em fato, só de ouvir a voz deles já me irritava. Mas conforme o anime foi passando, por algum motivo eles foram ficando menos e menos irritantes. E quando, em meio a toda a carnificina em que tinha se tornado o expresso transcontinental, os dois abraçam o garoto imortal Czeslaw para protegê-lo do “mostro” que o queria “devorar” (em fato o sangue do garoto que estava voltando para o seu corpo, como ocorre com qualquer imortal na série) eu percebi o quanto efetivamente tinha passado a gostar dos dois. É, eles são irritantes, exageradamente caricatos, mesmo verdadeiros idiotas. Mas não são puro alívio cômico. São personagens altruístas, mesmo quando tentam ser egoístas. Tem um bom coração, mesmo quando tentam ser ladrões profissionais. E no final, você não consegue não colocar um sorrisinho no rosto cada vez que eles aparecem. Em fato, até pouco antes de pesquisar mais sobre o anime, para relembrar alguns pontos para esta review, Isaac e Miria eram os únicos nomes de personagens que eu conseguia me lembrar sem problemas, apenas para mostrar o quão marcantes estes dois personagens conseguem ser.

Isaac e Miria
Isaac e Miria

Mas vamos e venhamos, o que torna esta série tão interessante não são seus personagens. Não me entendam mal, os personagens são ótimos, mas o que realmente faz esta série destoar em meio a tantos outros animes é, sem dúvida, a sua forma de narrar sua história. Enquanto o anime poderia ter contado uma história linear, passando pelos anos de 1930, 1931 e 1932 de forma sequencial, a escolha final foi por saltos temporais. Assim, um mesmo episódio irá conter trechos que se passam em três momentos históricos diferentes, desenvolvendo três tramas em paralelo, que vão se conectando conforme seus personagens extravasam os limites temporais da trama em questão (a exemplo de Isaac e Miria, que participam de alguma forma nas três tramas). Esta narrativa não linear foi o que permitiu ao anime não ter um único protagonista, bem como foi uma forma extremamente criativa de apresentar aos poucos cada um dos mistérios da série, desde a identidade dos personagens até como alguns deles se tornaram imortais. Ver este anime é como ver um quebra cabeças se formando aos poucos, com cada salto temporal colocando mais uma peça no quadro geral. Inclusive, é interessante apontar que o anime começa justamente com uma equipe de jornal tentando reconstituir os eventos bizarros dos anos anteriores, de forma que as cenas soltas e os saltos temporais conseguem com sucesso lembrar o processo de criação de uma notícia, conforme o repórter vai reunindo informações das mais variadas fontes. Neste sentido, é um anime no qual se precisa prestar bastante atenção, ficando atento aos nomes de personagens, as facções às quais estes personagens pertencem e a quando um dado evento ocorre. Não é exatamente um anime para se ver quando se está cansado ou desatento, por mais que seja extremamente divertido de assistir, bem como é um anime que seria certamente benéfico maratonar, vendo o máximo possível de episódios em sequência, antes que se tenha tempo de esquecer algum detalhe importante (rs).

Isso tudo disto, não há muito mais o que comentar da história em si. Basicamente a trama se resolve em torno de dois grupos de personagens: alquimistas imortais e gangsteres. Os primeiros fizeram um pacto com um demônio em meados do século XVIII, obtendo então a imortalidade, bem como a habilidade de “sugarem” uns aos outros (diz o demônio que esta habilidade lhes foi dada para o caso de algum deles decidir que não deseja mais viver). Isto ocorrido, os alquimistas decidem que não devem partilhar o segredo da fórmula da imortalidade, que o demônio havia concedido a um deles. Um destes alquimistas, porém, discorda, e começa a perseguir e “sugar” os demais. Os sobreviventes se espalham pelo mundo e mais de duzentos anos depois o conflito se arrasta para as ruas dos Estados Unidos da Lei Seca, onde agora alguns destes alquimistas integram famílias e facções criminosas que vez ou outra entram em conflito armado umas com as outras, sendo que uma destas vezes será justamente a bordo do expresso transcontinental Flying Pussyfoot. E junto aos gangsteres e os alquimistas, neste trem também vemos participar da confusão gangues menores e um assassino psicopata com a desilusão de que todo o mundo é fruto de sua mente. Basicamente, a base temática para uma tremenda carnificina, que é exatamente o que vai acontecer ao longo do anime, com mortos para tudo quanto é lado (ainda que o anime nunca se torne excessivamente gore. Ele tem sim cenas bastante explícitas, mas elas nunca soam como desnecessárias ou exageradas dentro daquele contexto). Quando paramos para pensar, nenhuma das histórias individuais de cada personagem é excessivamente complicada ou complexa. O que realmente torna a série extremamente difícil de se entender de primeira é a forma como estas histórias são expostas e como elas se relacionam umas com as outras, gerando uma teia que é, esta sim, bastante complicada de entender se não se estiver prestando atenção, como já mencionei.

No mais, o que certamente merece algumas palavras é o final da série. Sendo uma adaptação de uma série de mais de vinte volumes em light novel, Baccano! tinha tudo para ter um final aberto, considerando que nunca foi a proposta da série adaptar todos os volumes. Ao invés disso, porém, todas as tramas se fecham de maneira satisfatória, bem como temos boas conclusões para os personagens de maneira geral. Novamente, isto é algo que faz Baccano! destoar dentre a maioria dos animes, dado que sobretudo hoje em dia uma parcela bastante considerável destes tem um final completamente aberto que indica uma segunda temporada que quase certamente nunca virá. Sendo assim, Baccano! consegue ser satisfatório do começo ao fim, não sendo a toa que por mais que haja aquelas pessoas que não o consideram a “obra prima” que algumas insistem que ele é, praticamente não vemos ninguém criticando duramente o anime ou dizendo tê-lo odiado ou se arrependido de ter assistido. É uma história instigante, bem contada, com personagens carismáticos, em uma ambientação histórica precisa, e que soube usar cada segundo de seus episódios. Definitivamente uma obra díspar das que costumamos ver por ai e que vale muito a pena conhecer

Imagens: Baccano, episódio 2 – Setting the Old Woman’s Qualms Aside, the Flying Pussyfoot Departs

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4 comentários sobre “Review – Baccano! (Anime)

  1. Gostei do review. Pra mim Baccano é uma obra prima juntamente com Durarara do mesmo autor, que funciona do mesmo jeito tendo a falta de protagonista e tal e com uma historia que você tem q concentrar-se se não se perde. Se nunca tiver visto Durarara recomendo.

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    • Eu tenderia a dizer que Durarara tem um protagonista, ele só não é tão presente, que é o Mikado. O anime eventualmente desvia dele aqui e ali, dando espaço para outros personagens, mas numa forma geral passa muito a sensação dele ser o protagonista. É bem óbvio que o autor tentou seguir o mesmo estilo, mas na minha opinião ele não conseguiu fazer essa estrutura narrativa tão bem quanto fez em Baccano. Mas claro, ainda assim Durarara é um excelente anime, sem dúvida alguma XD

      Curtido por 1 pessoa

    • Haha, então né xD
      Eu acho que fico um pouco mais para o lado da “masterpiece” rs. Gosto bastante do anime, e é interessante como ele consegue ser tão diferente do que normalmente estamos acostumados, por conta da sua estrutura narrativa.

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