Por que assistimos animes?

Eu adoro ver animes. E se você chegou até este blog, altas são as chances de que você também. Mas… por quê? Por que assistimos animes? O que há neles que nos faça querer vê-los? Seria talvez as ótimas tramas e histórias? Os personagens bem desenvolvidos? Boa trilha sonora? Bem, sim… e não. Não entendam mal, tudo isso é mesmo muito importante, em qualquer tipo de história aliás, não apenas animes. Mas existem dois problemas com este tipo de resposta à questão. O primeiro deles diz respeito a quando todas ou algumas dessas características enaltecedoras (“bons personagens”, “histórias épicas”, “complexidade”, etc.) simplesmente não estão presentes na obra. Muitos animes não tem personagens complexos, nem uma trama extremamente complicada e bem elaborada. Aliás, eu arriscaria dizer que grande parte das obras de maior sucesso não tem esse tipo de elemento. E hey, eu não quero dizer isso como algo ruim, de forma nenhuma. Mas é um pouco complicado defender que essas são a razão para se gostar de animes quando são tantas as obras que talvez você mesmo, leitor, goste, mas que não possuem estes elementos ou parte deles.

O segundo problema diz respeito a uma questão mais fundamental. Tudo bem, vamos supor aqui que você é uma pessoa que somente assiste animes que tenham esses elementos que muitos otakus gostam de destacar, como personagens muito bem desenvolvidos, tramas complexas e bem escritas, mensagens filosóficas e sociais profundas, etc, etc, etc. E, para o bem do argumento, vamos supor que você, por algum motivo, acredita que animes fazem essas elementos melhor do que outras mídias, como seriados ou filmes. Ta ai o motivo para ver animes, certo? Bom sim… e não. O grande problema é que esta “explicação” talvez sirva para explicar porque você talvez prefira animes a outras mídias. Mas não explica porque você teria vontade de encontrar estes elementos em primeiro lugar! Por que você quer ver bons personagens? Por que quer ver boas histórias? Seja lá qual for a sua definição de “bom”, claro. Em um nível mais fundamental, a pergunta que eu quero levantar aqui é: por que consumimos ficção?

Para começar a responder essa pergunta, voltemos um pouco no tempo… Ok, voltemos muito no tempo, para o período onde surgiram as primeiras histórias. O quanto precisamos voltar? Quem sabe… Mas voltaríamos para um tempo antes da escrita… Antes mesmo das primeira casas… E, quem sabe, talvez mesmo antes da dominação do fogo… É extremamente difícil, para não dizer categoricamente impossível, determinar onde e quando surgiram as primeiras histórias. Mas elas surgiram. Talvez contadas durante uma noite estrelada, ou em meio à comilança da caça recém abatida. Não importa. O que importa é que elas existiram. Estas primeiras histórias. Muito possivelmente, os primeiros mitos. Podemos aventar esta possibilidade projetando no passado algo que sabemos de épocas posteriores. Quando surge a escrita, dentre os primeiros textos produzidos pelo homem já se encontram mitos que certamente datavam de muito antes no tempo. A história suméria de Gilgamesh. As grandes obras do grego Homero. Todas obras que cuidavam de mencionar grandes deuses e seres sobrenaturais que regiam o universo conhecido e cujas histórias certamente já estavam profundamente enraizadas nas mentes populares quando estes textos foram criados. Por que surgiram estas primeiras histórias?

Dar o motivo de surgimento destas primeiras histórias seria arriscado, isso para dizer o mínimo. A verdade última é que não sabemos (e talvez nunca saibamos). Mas podemos dizer que funções estas obras cumpriam quando estes mitos já estavam enraizados nas culturas às quais pertenciam. E estas, até onde sei, eram duas. Em primeiro lugar, estes mitos eram cosmologias: eles explicavam o nascimento, funcionamento e destino final de todo o universo. Desde o pequeno rio protegido por uma ninfa até a criação de todo o universo pelo pensamento de Brama, estes mitos respondiam à questão fundamental “de onde viemos?”. Ao mesmo tempo, estes mitos ajudavam a reforçar o status quo vigente. Explicavam e justificavam rituais, costumes, morais, estratificações sociais, etc. A Odisseia era uma constante lembrança de que os homens deveriam prestas os costumeiros rituais aos deuses, ao passo que toda a mitologia indiana da criação cuida de legitimar todo seu sistema de castas. Guardariam as histórias modernas algumas semelhança com estas primeiras histórias?  Talvez.

Quanto surgem as primeiras histórias? Não os mitos, mas sim verdadeiramente histórias. Tramas que foram claramente percebidas como fictícias deste seu início. Novamente, é difícil dizer. Mas temos um possível candidato: as fábulas. Histórias sobre animais antropomorfizados, que serviam tanto de crítica social quanto de propagadoras e reforçadoras de uma dada moral, desde muito cedo estas pequenas histórias se enraizaram no imaginário popular. Muito possivelmente, o primeiro exemplo escrito de algo do tipo surge na atual Índia, sob o título de Panchatantra, no século terceiro antes de Cristo. Ou, talvez, com o grego Esopo, que teria vivido em torno do século sétimo antes de cristo. Onde quer que tenham surgido, a Europa medieval se viu bastante influenciada por elas. Que o digam as histórias infantis, que séculos depois seriam compiladas pelos mais variados autores, da França à Alemanha, e que muito possivelmente surgiram influenciadas tanto pelas fábulas antigas. E embora tais histórias não contenham qualquer caráter cosmogônico, elas mantém algo dos mitos antigos: seu caráter moralizante. Contadas fossem para um príncipe (como as histórias do Panchatantra), fossem para as crianças, como as histórias infantis que depois pessoas como Anderson ou os Grimm viriam a compilar, estas histórias buscavam passar lições de moral, expondo aos seus ouvintes qual seria o comportamento visto como adequado pela sua sociedade. De certa forma, muitas obras modernas mantém esse elemento, e não apenas as infantis. Os heróis e vilões modernos ajudam a reforçar estereótipos de comportamentos bem vistos ou reprováveis, ajudando assim, talvez mesmo de forma inconsciente aos seus autores, a reforçar o status quo de nossa moral, tal como os mitos antigos já o faziam. Mas esta seria uma das possíveis funções destas histórias, não o motivo pelo qual as queremos ver.

Talvez uma resposta possa vir de outras duas formas de contar histórias que surgem na Idade Média e Idade Moderna, nomeadamente as novelas de cavalaria e os relatos de viagem. As primeiras são exatamente o que parecem: histórias de grandes cavaleiros e seus feitos heroicos, similar a tramas como as várias histórias do Rei Arthur. Já o segundo grupo também é bem aquilo que seu nome sugere: relatos de viajantes que teriam caminhado pelas regiões mais remotas (e, por vezes, fantásticas) do mundo então conhecido. Em primeiro lugar, é preciso dizer que muitas dessas histórias tem em si um caráter de verdade. São relatos ou crônicas, que as pessoas podiam acreditar serem verdadeiros, pouco importando o quão fantásticos fossem esses relatos, com seus personagens encontrando objetos mágicos, forças sobrenaturais ou terríveis monstros ferozes. Neste sentido, essas histórias são fundamentalmente diferentes das histórias modernas, onde já vamos para o cinema ou a televisão tendo como pressuposto que o que veremos é fictício. Mas estas histórias antigas tem algo que é bastante atual: um enfoque no excepcional. Histórias sobre grandes aventuras, sobre viagens a mundo longínquos, sobre amores trágicos… Uma descrição assim poderia facilmente ser aplicada a muitas obras modernas. Não vemos grandes épicos sobre a plebe cultivando o feudo, da mesma forma que ainda hoje não vemos largas franquias baseadas em algum cara escovando os dentes. É o excepcional que permeia estas histórias, bem como as modernas. Um excepcional que se distancia do próximo para se aproximar do distante, do excêntrico, do incomum. Em suma, uma história que destoa e chama a atenção justamente por conta de seu irrealismo, fosse a trama irreal ou não.

Neste ponto, alguns leitores já tenham entendido aonde isso vai chegar. Sim, estou querendo entrar na questão da ficção enquanto válvula de escape da realidade. É uma explicação bastante comum: consumimos ficção porque queremos uma forma de fugir de uma realidade que desgostamos. Faz sentido, é muito mais fácil se afundar em um livro que narre os grandes feitos de algum Hobbit, ou em algum anime que nos mostre as viagens fantásticas de um garoto com rabo de macaco, do que nos aprofundarmos no jornal matinal, onde só encontramos páginas após páginas de noticias depreciativas, sensacionalistas e tendenciosas. Estamos cansados da realidade, por isso procuramos nos afundar na ficção. Faz pleno sentido, certo? Bom, sim… e não. Mesmo esta explicação tem alguns problemas. Em primeiro lugar, é difícil imaginar o papel das histórias de terror dentro deste quadro. Uma vez que a pessoa busque uma saída da realidade para um mundo mais “confortável”, como explicar a existência de tantas obras baseadas no terror e no horror, no medo e no pânico, muitas vezes com finais até mais aterradores do que mesmo a mais sangrenta notícia de jornal? Onde está o conforto nisso? Onde que isto poderia ser percebido como melhor do que a realidade? Além disso, há também um segundo problema: a existência do gosto. Supondo que nosso único objetivo fosse fugir da realidade, que tudo que queremos e um mundo mais colorido, mais bonito, mais pacífico, etc, etc, etc. Então… por que escolhemos tanto? Por que não nos satisfazemos com absolutamente qualquer coisa que cair na nossa frente, desde que ela seja melhor do que a nossa realidade atual?

Walter Benjamin, em seu ensaio “A obra da arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, escrito no entre-guerras, fala sobre um efeito curioso que ele percebia no cinema. Segundo o autor, o cinema tinha a função de permitir às pessoas extravasarem seus lados sado-masoquistas. Por meio dos personagens interpretados pelos autores, os expectadores seriam capazes de sentir júbilo, dor, tristeza, sadismo, mesmo a morte e a ressurreição. Agora, Benjamin trata do assunto em uma chave bastante marxista, que enfatiza a luta de classes: segundo o autor, o cinema funcionava assim a fim de manter as pessoas “calmas” e “dóceis”, a fim de que elas se revoltassem e se rebelassem contra o vilão do filme, não contra os donos das fábricas que as exploravam. Mas pondo esse elemento marxista de lado, e cada um que decida se concorda ou não com esta posição, eu pessoalmente acho curioso a ideia de que as pessoas vão ao cinema para terem experiências, emoções e sentimentos que, em última instância, o mundo real não as pode proporcionar. Não em uma chave necessariamente de fugir da realidade, mas sim em uma de complementar esta, buscando experiências que esta, por um motivo ou outro, simplesmente não pode oferecer.Na minha opinião, este é o motivo para consumirmos ficção, animes inclusos. Buscamos sentir certos sentimentos. Medo, alegria, tristeza, raiva, felicidade, paz… Para sentir aquilo que queremos num dado momento, buscamos a ficção. Por isso que em um dado momento de nossas vidas nos vemos procurando vários animes de comédia, para algum tempo depois estarmos com vontade de ver algo de cunho mais psicológico ou filosófico. Não é que nosso gosto mudou, o que mudou foi a nossa necessidade de sentir um determinado sentimento ou de vivenciar uma determinada experiência.

Quando falamos em ficção, muitas vezes podemos acabar esquecendo o que é, talvez, a única função da arte que se manteve ao longo de toda a história humana: despertar um sentimento naqueles que a veem. Desde as grandes estatuetas da Antiguidade, passando pelas elegantíssimas catedrais medievais, até a arte moderna, toda obra de arte procura “cutucar” algo em seu consumidor. Um sentimento de sacrossanto, ou talvez um de confusão, mesmo algum de admiração, são sentimentos que as pessoas ontem e hoje são capazes de sentir quando olham para determinadas obras de arte. Com a ficção, seja ela no formato que for (livros, filmes, séries, desenhos animados, etc.), não é diferente. Em última instância, ela é um “cutucão” nas pessoas. Uma forma de trazer a tona sentimentos, sensações e emoções que talvez seu consumidor nem soubesse que gostaria de trazer a tona. Então… Por que vemos animes? Na minha opinião, vemos animes porque estes são capazes de nos proporcionar os sentimentos, sensações e experiências que queremos, gostaríamos ou precisamos sentir naquele momento. Por isso temos gostos tão variados, que podem mesmo variar no tempo, com uma mesma pessoa apresentando gostos diferentes ao longo de sua vida. E por isso questões como desenvolvimento de personagem ou desenvolvimento da história podem parecer extremamente relevantes para alguns: pois são elementos que tornam a experiência, ao menos para estas pessoas, algo mais completo, que proporcionam “melhor” (e por “melhor” entendam “mais condizente com o gosto da pessoa”) os sentimento e sensações que a pessoa deseja sentir naquele momento.

Agora, valeria a pena perguntar: isto é algo inédito? Ou teriam os mitos antigos e as primeiras histórias algo deste desejo humano por um dado sentimento? Na minha opinião, eu diria que sim, estas histórias antigas já continham em si o desejo humano de busca de um dado sentimento. Em seu livro “Dialética do Esclarecimento”, Theodor Adorno fala sobre como a Magia, o Mito e o Iluminismo são todos partes do desejo humano de entender e controlar o mundo, desejo este motivado por um sentimento de insegurança e medo do desconhecido. Assim, penso que talvez as primeiras histórias fossem um reflexo da busca humana por um sentimento de segurança, por algo que as pudesse fazer dormir melhor a noite. O tempo passou e este elemento fundamental parece ter resistido, ainda que o mundo moderno traga consigo outros tipos de necessidades, incluindo ai necessidades sentimentais. E por isso, na minha opinião, a ficção ainda é capaz de ter tamanho impacto e importância mesmo numa sociedade tão marcada pelo racionalismo e pela ideia de verdade como a nossa.

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4 comentários sobre “Por que assistimos animes?

  1. Parabéns pelo conteúdo Diego!!! De acordo com meus parâmetros (agora sei xD) gostei muito de sua perspectiva madura que justifica nossos gostos pela animação japonesa. Me trouxe contribuições muito positivas para uma história que começo a escrever. Gratidão pelo compartilhamento o/

    Curtido por 1 pessoa

  2. Gostei demais do texto, mas acho que tenho uma ressalva no sentido de que o contexto em que somos/estamos inseridos determina algumas preferencias. Concordo que de modo geral a ficção, o mito, serve para a construção de um ideal/moral/sentido e que toda forma de expressão artística gera um sentimento. Mas aí que entra o contexto material/estrutural que eu acho que faltou citar no texto. Porque em todas as mídias encontramos conteúdos sensacionalistas que só servem pra isso mesmo que você falou: causar um sentimento sem necessariamente estimular a reflexão, a crítica.

    O sentimento é algo tão universal, só precisa ser uma entidade viva para percebe-lo, não exige critério. Então digerimos muita coisa irrelevante sob a desculpa de escape sentimentalista.

    Querendo ou não o entretenimento vazio é ferramenta do nosso sistema que almeja transformar seres humanos em bestas apáticas.

    Não acredito que tenhamos autonomia sobre alguns desejos que nos são inconscientemente impostos. Acabamos nos tornando consumistas/alienados que digerem por puro sensacionalismo qualquer tipo de fuga/escape.

    Enfim, gostei muito do texto pelo que propõe, é até difícil encontrar algum usuário de anime que consiga divagar impressões deste, acho que vc tentou bem, mas ter ignorado o contexto histórico foi pra mim a falha.

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    • Eu entendo seu ponto, mas queria problematizar um pouco essa colocação.

      Por um lado, sim, a arte pode também ser alienante, e “entretenimento vazio” pode ser problemático, MAS, na minha opinião, somente se for o único tipo de entretenimento consumido. Não acho que esse tipo de produção é ruim em si mesma, e acredito que exista valor nesse tipo de entretenimento. Consumir isso não exclui consumir algo mais provocativo, e isso eu falo como alguém que consome tanto animes mais leves e simples quanto obras bem mais provocativas.

      Algumas vezes a pessoa precisa justamente de um entretenimento fácil, algo que a distraia de um dia cansativo ou enfadonho, e não vejo nada de errado com isso.

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