Protagonismo e porque ele faz mais sentido do que parece.

Então o personagem está caído no chão. Completamente derrotado, apanhou mais do que qualquer ser humano poderia aguentar. Não existe absolutamente nenhuma chance dele se quer ainda estar consciente, quanto mais de se levantar. Mas eis que algo acontece. Uma voz de incentivo. Um grito de desespero. Um poder milagroso. Em segundos, o personagem não apenas se levanta, como ainda desfere um golpe final contra o vilão, vencendo-o em definitivo. Neste momento, qualquer espectador só consegue pensar em uma coisa: mas o que diabos acabou de acontecer aqui?! Digo, sério: o que diabos aconteceu? Por que os autores parecem ter essa impressionante “mania” de colocar o protagonista em uma situação de completa e total derrota, somente para fazê-lo virar a mesa com algum tipo de deus ex machina? Quer dizer, sejamos realistas, se vc acabou de apanhar feito um saco de areia, ta caído no chão que não consegue nem lembrar seu nome, quais as chances de você se levantar e vencer uma luta?! Bom, aqui está a questão: esse tipo de questionamento é tecnicamente errado.

Vamos lá. Para falar desse tema com maior precisão, vamos definir um pouco o que é “protagonismo”. Basicamente, é o que eu mencionei acima: é quando as chances de vitória de um personagem são completamente nulas, mas algo acontece que o personagem consegue, de uma forma incrivelmente milagrosa, virar a mesa a seu favor. E é um recurso que vemos em quase todos os gêneros de anime, desde as populares lutas em Cavaleiros do Zodíaco, passando pelas jogadas milagrosas em Yu-Gi-Oh! e chegando até aqueles “encontros destinados” em tantos romances shoujo. E, via de regra, o protagonismo tem uma função bem clara: fazer a história andar. Em muitos casos, sem estes eventos de chances de uma em um milhão, a história não andaria. Ou pior: ela acabaria com a vitória do antagonista. O protagonismo, portanto, permite que a história continue, que ela avance como deve avançar, a fim de poder chegar à conclusão desejada. Ou melhor dizendo, permite que a história chegue à conclusão destinada.

Comecemos do começo. E eu quero dizer bem do começo. Quando surgiu o protagonismo? Desde quando este recurso é utilizado? Na minha opinião, a resposta é bastante clara: desde que os seres humanos começaram a contar histórias. Literalmente. Peguemos, por exemplo, algo como a Odisseia. Atribuída ao poeta grego Homero, a Odisseia narra a história de Odisseu, rei da ilha de Ítaca, enquanto este retorna para sua casa após dez anos na Guerra de Troia. Tão antiga quanto a própria escrita grega, já nesta história vemos exemplos claros do que chamaríamos de “protagonismo”, momentos em que tudo parecia perdido, mas o herói consegue dar um jeito de alguma forma, muitas vezes graças a ajuda da deusa Atena. Mas não apenas na obra de Homero encontramos bons exemplos. Toda a mitologia antiga é repleta de situação que para nós, hoje, poderiam soar como exemplos de protagonismo. Inclusive, foi com os antigos romanos que surgiu o termo “deus ex machina“. E naquela época o termo era bastante literal. Quando uma peça era executada em um dos vários teatros romanos, era comum que uma dada cena pedisse uma intervenção divina para acontecer. E uma intervenção divina era exatamente o que ocorria, com atores interpretando certos deuses aparecendo em meio aos vários dispositivos e maquinarias do palco. Literalmente um “deus a partir da máquina”.

A história humana prosseguiu, e com ela essa mania de colocar na trama algum elemento milagroso que fizesse a história andar apenas se acentuou. Ao longo da Idade Média, vemos surgir as famosas hagiografias, as histórias dos santos, que contavam seus impressionantes milagres. Mais adiante no tempo, vemos também surgir as novelas de cavalaria, onde românticos cavaleiros passavam pelas provações mais difíceis, frequentemente com algum tipo de ajuda superior. De Odisseu ao Rei Arthur e à Seiya, essa estranha capacidade do protagonista de sair das situações mais impossíveis permeia as histórias pelo menos desde que estas começaram a ser escritas. O que nos leva à pergunta de ouro: por quê? O que há neste recurso que o vemos ser utilizado desde tão cedo quanto as primeiras histórias contadas pelos seres humanos? E olha que entre mitos que explicam o funcionamento do cosmos, contos que narram os feitos de grandes homens e histórias de ficção voltadas para o entretenimento existe ai uma enorme diferença, desde estilística até a função social dessas obras. E ainda assim esse elemento em particular permanece desde o princípio. Bom, na minha opinião a resposta é relativamente simples: é porque estas histórias são exatamente isso, histórias.

Agora, não, eu não estou querendo insinuar aqui algo do tipo “ah, é só ficção, não pense muito e só aceite”. Quando eu digo que o motivo do protagonismo existir é porque estas histórias são histórias, eu quero dizer no sentido de apontar que estas histórias são narrativas. Como tais, estas histórias são sempre contadas em retrospecto. Todos os eventos que estamos vendo se desenrolar na verdade já aconteceram, ao menos do ponto de vista da história. Que melhor exemplo do que quero dizer do que a já mencionada Odisseia? Neste poema, a história começa com Odisseu chegando, completamente desgastado e mesmo desnudo, a uma região frequentada pela filha de um rei, numa ilha afastada. Ao se aproximar da garota, Odisseu é levado ao rei, que logo lhe pergunta sua história. A imensa maioria do livro, portanto, é na realidade um enorme flashback do Odisseu, que conta suas aventuras para o rei. Claro que ele iria sobreviver a qualquer problema que encontrasse: ele estava ali narrando o que se passou com ele! O risco de vida que Odisseu corria em qualquer uma dessa aventuras era completamente nulo desde o princípio, ao passo que as chances de sucesso em qualquer momento serão sempre de 100%! Em certo sentido, o mesmo acontece com qualquer obra. O livro já está terminado. O filme já está gravado. Mesmo o capítulo do mangá já está escrito. Em última instância, nenhum de nós vê uma obra se desenrolar de fato, mas sim temos uma narrativa contada para nós. E é como eu disse: toda narrativa é contada em retrospecto. Isso chega a ser óbvio, embora nem sempre paremos para pensar no assunto: para uma história ser contada, ela precisa obrigatoriamente estar terminada, nem que somente na mente de seu narrador.

Por que em nenhuma história seguimos aquele secundário que só vemos por uma cena? Ou aquele outro personagem que morre no terceiro episódio? Ou aquela personagem que desaparece depois do capítulo 7? Exatamente por conta desse caráter retrospectivo que toda história tem. Vemos a trama se desenrolar pelos olhos daquele que triunfou justamente porque ele triunfou. Nunca estamos acompanhando a história de um personagem cujo destino é incerto, mas sim estamos tendo contada para nós a narrativa de um personagem cujo destino já está decidido desde o princípio, pois do ponto de vista da obra tudo aquilo já aconteceu. Agora, isto ameniza o caráter de “milagre” do protagonismo? Não, de forma nenhuma. Mas nos ajuda a entender um pouco mais a lógica por trás desse recurso. Se em cada dez mil pessoas uma é aquela que triunfa por algum tipo de milagre que a auxiliou, faz sentido que a sua história é a que seja contada, e não a daqueles outros 9.999 que falharam. Vemos isso no mundo real o tempo inteiro, com vários filmes biográficos saindo todo ano, contando histórias reais que fariam mesmo alguns exemplos de protagonismo da ficção parecerem críveis. Em fato, a história humana é repleta de momentos que somente entraram para a história por conta do quão inacreditáveis eles eram. Muitos ídolos, inclusive, surgem justamente por conseguirem fazer o impossível possível, sobretudo se pensarmos no mundo dos esportes.

Diante disso, o estranho no mundo atual não é os autores usarem do protagonismo em suas obras, mas sim a estranheza, e mesmo desgosto, das pessoas de hoje para com este recurso. Pensemos: durante a maior parte da história humana, este recurso não trouxe qualquer tipo de problema, mas atualmente a ideia de eventos milagrosos salvando o protagonista (sejam estes eventos externos, como a intervenção de alguém, ou internos, como o despertar de um novo poder) soa muito mais como um defeito da obra do que como qualquer outra coisa, já tendo virado mesmo motivo de ridicularização de obras que abusam desse recurso. Obviamente, alguma coisa aconteceu. E, na minha opinião, isto pode estar relacionado ao que Walter Benjamin chamou de “morte do narrador”. Em seu ensaio “O Narrador. Considerações Sobre a Obra de Nikolai Leskov”, o autor, que escrevia em plena Europa pós Primeira Guerra Mundial (e mesmo às portas da Segunda), assim descreveu a situação de sua época:

Com a guerra mundial tornou-se manifesto um processo que continua até hoje. No final da guerra, observou-se que os combatentes voltavam mudos do campo de batalha não mais ricos, e sim mais pobres em experiência comunicável. E o que se difundiu dez anos depois, na enxurrada de livros sobre a guerra, nada tinha em comum com uma experiência transmitida de boca em boca. Não havia nada de anormal nisso. Porque nunca houve experiência mais radicalmente desmoralizadas que a experiência estratégica da guerra de trincheiras, a experiência econômica pela inflação, a experiência do corpo pela guerra de material e a experiência étnica pelos governantes [1]

O que Benjamin vê no mundo de sua época é uma progressiva perda da intercambialidade da experiência, da capacidade humana de expressar os seus sentimentos. Como resultado, a forma narrativa, mesmo o próprio narrador, viria progressivamente se perdendo. Em seu lugar, tomou importância no mundo moderno a informação bruta. A forma da notícia substitui a forma da narrativa cada vez mais. E a notícia tem uma diferença fundamental da narrativa. Enquanto na narrativa a verdade dos fatos não se coloca, na notícia a verossimilhança é a base de tudo. Uma notícia deve, acima de tudo, ser real e verificável. Assim, no mundo moderno o conceito de “verdade” vai se tornando mais e mais relevante. Ou, se não a verdade, ao menos a verossimilhança. Cada vez mais esperamos que as coisas pelo menos pareçam soem como reais. E, na minha opinião, isto se reflete na narrativa, da qual cobramos mais e mais verossimilhança. O resultado é que aqueles elementos que quebram essa verossimilhança, como o próprio protagonismo, são cada vez mais elementos atacados ou ridicularizados.

Agora, eu não quero dizer aqui que isso é algo ruim, ou mesmo que é algo bom. A minha intenção foi somente a de apresentar uma possibilidade de explicação para este aparente descontentamento das pessoas para com o protagonismo. Certamente existem aqueles que gostam de um protagonismo bem usado, bem como existem aqueles que vêem com bons olhos a ideia de que a ficção deveria tentar ser mais verossímil ou mais próxima da realidade e nenhuma dessas posições está exatamente certa ou errada. Em última instância, fica a cargo de cada um decidir o que pensa a respeito deste assunto.

1 – Benjamin, W. Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura – Obras Escolhidas, Volume 1. Editora Brasiliense. Pág. 198.

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3 comentários sobre “Protagonismo e porque ele faz mais sentido do que parece.

  1. Excelente texto! Eu nunca tinha parado para pensar no quanto as pessoas estão perdendo a capacidade de esquecerem a realidade, mesmo apreciando obras fantasiosas. Vou procurar enxergar o protagonismo de forma diferente agora, um pouco mais flexível e mais tolerante, sem perseguir tanto a verossimilhança ou a lógica que vivemos em nossas vidas, afinal muitas obras tem justamente o propósito de resgatar nas pessoas o lado mais criativo e livre.

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  2. Achei o texto muito interessante. A ideia de contar histórias esteve sempre associada à realização de coisas “incríveis” por parte de pessoas normais. No caso da Odisseia, a coisa incrível é o regresso de Odisseu a casa depois de 10 anos.

    Sobre o protagonismo hoje em dia, o problema está na criatividade usada para o protagonismo. Eu acho que as pessoas associam normalmente o protagonismo à falta de criatividade do autor, porque é aí que começam as reclamações (pelo menos é aí que começam as minhas reclamações). Por exemplo no caso da Parte 2 de JoJo, o Joseph [de certa forma] ganha quase todas as batalhas em que participa, mesmo sendo contra monstros quase imortais, graças à sua inteligência e aos truques que usa. Quando tudo está perdido ele faz alguma coisa de forma a que consiga sobreviver à luta. Podemos considerar isso protagonismo, mas como é usado de forma inteligente quase ninguém reclama.
    No caso de Bleach, a cada luta o Ichigo quase morre, daí tira um poder do intestino grosso e ganha a luta. Isso acontece muitas e muitas vezes, logo revela falta de criatividade do autor, logo a história fica previsível, logo os fãs reclamam.

    Ou seja, o protagonista já está, desde o inicio, destinado a “grandes feitos”. Afinal de contas, é por isso que ele é o protagonista. Mas cabe ao autor saber dar credibilidade à história.

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    • Concordo plenamente. Como todo recurso de roteiro, o protagonismo pode ser bem ou mal usado e tudo depende da capacidade do autor. A ideia era mesmo mais apontar que não há nada de intrinsecamente errado com o recurso em si, mas é, quando um autor repete a exata mesma fórmula várias vezes ai fica maçante mesmo xD

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