Por que Fillers são tão odiados?

Via de regra, fillers são bastante criticados. Não é raro vermos um episódio, ou mesmo todo um arco de um anime, sendo tachado de “filler” de forma pejorativa. Existem mesmo sites dedicados a informar ao espectador quais episódios de um dado anime são filler, de forma que ele possa pulá-los. E é até mesmo comum que algumas pessoas julguem um anime como ruim ou bom levando em conta a presença ou não de fillers. Isto nos permite levantar uma pergunta: por quê? Por que fillers são tão odiados? O que há neles que fazem as pessoas desejarem ignorá-los? Para tentar responder a esta pergunta, é preciso, contudo, responder a uma outra primeiro: o que é, afinal, um filler?

Originalmente, a palavra “filler” veio da língua inglesa, literalmente significando algo como “preencher”. “Preencher o que?”, poderíamos perguntar, e a resposta seria relativamente simples: tempo. Originalmente, o termo filler designava todo e qualquer episódio em uma série de anime que não tivesse sua origem na obra original. Ou seja, os eventos que ocorrem naquele episódio filler seriam eventos inexistentes no mangá, novel, game, etc. que deu origem ao anime. Em sua origem, o filler cumpria uma função prática. Antigamente, quando a maioria dos animes eram adaptações de mangás, os produtores de animações logo tiveram de lidar com um pequeno problema: com um episódio de anime podendo adaptar três, quatro, mesmo cinco capítulos de mangá por semana, ficou logo claro que cedo ou tarde o anime alcançaria o mangá e não teria mais o que adaptar. Surgiram, então, os fillers, que “preenchem” o tempo necessário para que a distância entre o anime e o mangá se torne grande o bastante para que o anime não corra o risco de alcançar o mangá. Entretanto, como eu disse, essa é a definição original do termo. Na minha opinião, hoje a coisa é um pouco diferente.

Antes de entrar nessa questão, de uma suposta mudança no significado do termo filler, porém, é preciso antes levantar uma pergunta: qual o problema com os fillers no sentido original do termo? Como eu disse, originalmente o termo filler tão somente designava um episódio, evento, personagem, ou qualquer outro elemento da história que não estivesse na obra original, normalmente o mangá. Isto por si só, porém, não é exatamente algo negativo. Eu já devo ter dito isto antes em alguns outros IMOs, mas é importante que julguemos um anime por aquilo que ele é, não por aquilo que gostaríamos que ele fosse. Uma adaptação nunca será idêntica à obra original, algumas vezes até por uma questão de limitações das mídias envolvidas. Obviamente, alguém que tenha conhecimento amplo de ambas as obras, a original e a adaptação, pode, perfeitamente, analisar e julgar o anime enquanto adaptação. Mas se for para julgar enquanto anime tão somente, a existência de um dado elemento da história na obra original é, em última instância, irrelevante. Se for um bom episódio, que contribua para a narrativa geral, que enriqueça a obra geral, então o anime seguirá tendo seus méritos, independentemente de ter um, dois, ou cem episódios fillers. Se a única razão para você não gostar de um episódio, arco ou personagem filler é porque o mesmo não existe na obra original, a minha resposta seria: então fique com a obra original. Adaptação pressupõe mudança, ponto.

Isto dito, eu não acho que o grande problema dos fillers, ou o motivo pelo qual eles são tão desprezados, é a sua inexistência na obra original. Na minha opinião, o que realmente afasta as pessoas desses fillers é o seu caráter de inutilidade. Dentro da obra, fillers estão fadados a serem esquecidos, e seus eventos a serem desconsiderados. Faz pleno sentido: imaginemos dois arcos de um mangá, um seguido do outro. O primeiro acaba de ser adaptado para anime, mas o segundo arco ainda está praticamente começando. Se os produtores tentarem adaptar este segundo arco, simplesmente não haveria material suficiente. A solução encontrada, portanto, é colocar um arco filler, que preencha o tempo necessário para que o nosso hipotético segundo arco avance o bastante para ser adaptado. O problema é que como este arco filler nunca ocorreu no mangá, quando o segundo arco do mangá for adaptado, todos os acontecimentos do arco filler serão desconsiderados. E os produtores sabem disso. Para que a história não fique confusa, portanto, os arcos fillers já são preparados de forma que ao seu final o status quo geral da obra volte ao estado em que estava antes do arco filler. Imaginemos um personagem que, por algum motivo, ficou cego no primeiro arco do mangá. Então fazem um arco filler, onde o personagem ganha a visão de volta. No mangá, o segundo arco já se inicia com o personagem cego, portanto, para que a história faça sentido o personagem precisa voltar a ser cego até o final deste arco filler. E é aqui que temos o grande problema dos fillers: para o espectador, eles parecem inúteis. Com todos os eventos nele ocorrido necessariamente precisando ser desconsiderados, com o impacto de todo um arco na obra em geral sendo praticamente zero, é natural que no espectador fique uma sensação de “pra que isso?”.

Isto explicado, agora sim vale a pena falar na mudança que eu vejo ocorrer com o termo. Se originalmente “filler” era aplicado somente a elementos de um anime inexistentes em sua fonte de inspiração, cada vez mais o termo vem sendo aplicado a todo tipo de obra, de animes a mangás, de adaptações a obras originais. Diante desse quadro, me parece claro que o sentido da palavra “filler” se alterou um pouco. Atualmente, o termo “filler” parece designar tudo aquilo que é, em última instância, inútil para o quadro geral de uma obra. Por esta definição, eu posso perfeitamente ter em um mangá, não baseado em qualquer obra prévia, arcos inteiros “fillers“, onde, do ponto de vista da história geral, “nada” está acontecendo. Esta definição torna ainda mais claro o problema que já existia nos primeiros fillers: a sensação de inutilidade, de “perda de tempo”, que fica no espectador quando ele não consegue ver sentido naquilo que está ocorrendo. E como eu tentei deixar claro no meu post sobre O Principio Da Necessidade, via de regra um elemento que não cumpre qualquer função numa obra é um problema. E a prova desse argumento possivelmente está no quanto as pessoas parecem odiar aquilo que, por definição, só serve para “encher linguiça”: os fillers.

Mas ai eu pergunto: podemos ter fillers “bons”? Bem, dentro do conceito atual de filler, de um elemento que, por definição, não acrescenta nada na obra, eu penso que não. A partir do momento em que um filler se ligar à obra, acrescentando algo a ela, seja no entendimento das personagens ou do mundo em que as personagens vivem (se não no entendimento da história como um todo mesmo), para a definição moderna do termo o filler deixaria de ser filler. Uma situação que talvez explique porque mais e mais o termo “filler” assume um caráter quase que de “xingamento”. Contudo, a situação muda quando pensamos no sentido anterior da palavra, de “inexistência na obra original”. Dentro desta definição, é plenamente possível a existência de bons fillers. Infelizmente, ainda assim é algo difícil de se fazer. Por definição, o filler, neste caso, não poderia fornecer qualquer informação para a história geral, já que estas informações seriam desconsideradas depois. Também não poderia se focar em desenvolver um personagem central na trama, já que qualquer desenvolvimento do personagem seria abandonado depois, criando a sensação de “regressão da personagem”. Mas ainda existem possibilidades. Um filler poderia se centrar em um flashback, mostrando o passado e a história de um ou mais personagens. Ou, ainda, poderia se focar em expandir o universo da trama. Um exemplo peculiar seria o arco filler das armaduras nórdicas em Saint Seya (Cavaleiros do Zodíaco). Enquanto que os eventos em si do filler são, verdade seja dita, inúteis, o arco introduz a possibilidade de outras armaduras que não apenas aquelas baseadas na mitologia greco-romana, um elemento que será melhor explorado ao longo da série. Isso talvez seja um dos motivos pelos quais este arco em especial é bastante querido pela fanbase de Cavaleiros, ao menos no Brasil: ainda que inexistente na obra original, o arco consegue não passar aquela sensação de “inútil” à qual eu me referia.

Pensando dessa forma, seria justo colocar que as pessoas não odeiam fillers, exatamente, ou pelo menos não fillers no sentido original da palavra. O que as pessoas odeiam é a sensação de “tempo perdido” que fica quando se percebe que toda uma série de eventos não teve impacto algum na obra. Um bom filler, isto é, um filler capaz de apagar ou abrandar essa sensação de “isto é inútil” pode ser e é louvado pelos fãs de uma dada obra (bom, pelo menos por aqueles que aceitam que toda adaptação implica algum tipo de mudança. Aqueles que criticam toda e qualquer mudança vão criticar o filler pouco importa a sua qualidade). Filler, portanto, é um recurso de roteiro como qualquer outro. Se bem empregado pode trazer ótimos resultados. Mas se empregado de forma ruim só fará atiçar a raiva e a indignação do espectador, levando ao já popular ódio por todo e qualquer filler. Como qualquer outro recurso de roteiro, fillers não são necessariamente ruins: tudo dependerá da forma como serão empregados na obra.

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3 comentários sobre “Por que Fillers são tão odiados?

  1. Texto brilhante! Além da questão de tempo perdido que os fãs sentem ao acompanharem os fillers , creio que outros fatores contribuam para que eles sejam mal vistos,Entre eles eu destaco a descaracterização de traços marcantes nos personagens e o bloqueio evolutivo nos mesmos. Por exemplo nos fillers de Naruto, o protagonista usa o Rasengan praticamente para tudo e um personagem mais sério que é o Shino, aparece rindo escandalosamente em um dos episódios, o que não combina com a personalidade do personagem exibida até então.

    E creio que além disso, muitas vezes as pessoas consideram as obras originais sagradas e ignoram que em diferentes mídias as adaptações são necessárias.

    Curtido por 1 pessoa

    • Verdade, esqueci de comentar o problema com a descaracterização xD Como normalmente a equipe responsável pelo filler não tem nada a ver com o produtor original do mangá, acaba que muitos personagens são mesmo descaracterizados. Já a parte de “travar” a evolução do personagem, é bem isso mesmo. Como o filler é feito pra ser esquecido ou ignorado, acaba que mesmo algo tão básico como o desenvolvimento de personagem é esquecido, em prol de não ficar contraditório com o que vier depois =/

      E sim, MUITAS vezes as pessoas fazem exatamente isso: acham que a obra original deve ser adaptada de forma 110% fidedigna, mesmo ignorando que, em muitos casos, isso é simplesmente impossível xD

      Curtido por 1 pessoa

  2. O maior problema dos fillers é que alguns chegam a parecer um desrespeito à obra original de tão idiotas e mal feitos que são. Temos como melhor exemplo o glorioso Dragon Ball GT, que acrescenta tantos plot holes à história e ridiculariza tanto algumas personagens que a maior parte dos fãs de DB odeiam o GT.

    Depois existem aqueles fillers que são razoáveis, como os de One Piece. Dão pra entreter os fãs e não são muitos, as personagens mantêm a atitude que sempre tiveram e as personagens filler são sempre razoáveis. O único aspeto negativo é que as lutas filler são sempre completamente ridículas.

    Até agora os únicos fillers realmente bons que vi foram os de Gintama. Porquê? Porque na maioria dos episódios canon nem sequer existe evolução na história, nem nos personagens. Então, se nos fillers também não existir evolução na história nem nos personagens, e for engraçado como o resto do anime, qual é o problema de ser filler?

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