Review – Digimon Tamers (Anime)

Digimon Tamers
Digimon Tamers

Lançado no japão em abril de 2001, Digimon Tamers, terceira série animada da franquia Digimon, talvez seja um daqueles animes bem conhecidos, mas bem pouco comentados. E isso por vários motivos. Em primeiro lugar, passados mais de 15 anos desde a exibição, este anime já pode ser considerado relativamente antigo. Em segundo lugar, o fato de ser, como todos os animes da franquia, voltado inicialmente para crianças, Digimon Tamers muitas vezes parece cair naquela estranha categoria que mescla um aspecto de nostalgia pelas tardes da infância perdidas em frente à televisão com uma mentalidade de “idade superada”. Ter sido bom para nossos “eus” de 10 anos não necessariamente significa ser bom para nós agora. Finalmente, existe também o elemento de que Digimon nunca foi, ao menos no Brasil, uma franquia imensamente popular. Claro, sempre teve uma boa quantia de fãs, mas não se pode comparar a popularidade de algo como Digimon com grandes como Dragonball Z, Cavaleiros do Zodíaco ou, mesmo, Naruto e One Piece. Entretanto, e dando aqui a minha opinião, eu acredito que este é um anime que merece um pouco mais de atenção do que a que recebe. Este não é apenas um bom anime de digimon, mas um bom anime num geral, que definitivamente consegue sobreviver ao teste do tempo. Mas vamos com um pouco mais de calma.

Produzido pela Toei Animation e escrito por Chiaki Konaka (responsável, dentre outros trabalhos, por Serial Experiment Lain), Digimon Tamers acompanha a história de Matsuda Takato, um garoto de 10 anos cujo principal passatempo é jogar um jogo de cartas de digimons. Um dia, Takato encontra entre seus pertences um digivice, por meio do qual acaba acidentalmente dando vida a seu próprio digimon: Guilmon. Inicialmente pensando que poderia apenas se divertir com um novo amigo, Takato acaba se vendo atirado numa realidade um pouco mais cruel, com digimons selvagens invadindo a cidade, outros humanos com digimons tentando lhe atacar, bem como com uma organização secreta cujo objetivo último é eliminar a todos os digimons que se quer tentem se materializar no mundo humano. E, como de costume, eu vou já deixar o aviso de que, a partir deste ponto, haverá spoilers. Num total, o anime tem 51 episódios e dois OVAs, e se por algum motivo você ainda não assistiu essa série fica dada a recomendação, mesmo para aqueles que não são gostam ou se interessam pela franquia digimon como um todo. Acreditem, Tamers é um pouco diferente dos demais animes da franquia e definitivamente merece uma chance.

Fazendo um rápido panorama da série, Digimon Tamers pode ser dividido em dois grandes “momentos”. O primeiro deles vai do primeiro episódio até mais ou menos quando Culumon, um dos digimons selvagens que vagam pelo mundo humano, é capturado por um outro digimon e levado até o digimundo. Esta primeira metade da série tem por função sobretudo nos apresentar os personagens e o mundo no qual estamos entrando. Conhecemos nosso protagonista, Takato, além de seus amigos, Kenta e Kazu, e de sua amiga / interesse romântico, Kato. Conhecemos outros humanos parceiros de digimons, como Lee e Ruki. Obviamente, conhecemos aos próprios digimons, Guilmon, Terriermon, Renamon, o já mencionado Culumon e o pequeno Impmon. E, finalmente, somos apresentados às famílias dos tamers (como são chamados os humanos parceiros de digimons), bem como à misteriosa organização governamental Ipnos. Como podem ver, é gente pra caramba para apresentar. O resultado é que essa primeira metade pode acabar soando bastante exaustiva e lenta, especialmente se você assistia o anime um episódio a cada semana: simplesmente parecia que o plot não andava (ou, no pior dos casos, que nem se quer havia um plot). Vendo aos episódios em maratona, porém, fica clara a necessidade de tanto tempo dedicado a estabelecer o contexto em que o clímax da série irá se desenrolar. Não consigo dizer que algo ali tenha sido inútil ou dispensável. Na minha opinião, foi uma decisão sábia darem metade da série apenas para desenvolver as relações entre os personagens, estabelecendo amizades, inimizades, conflitos, personalidades, etc.

Toda essa base que a primeira metade da série constrói, a segunda metade irá desenvolver de fato. Com o sequestro de culumon, as três crianças, Takato, Lee e Ruki, juntamente a Kenta, Kazu e Kato, decidem ir ao Digimundo resgatá-lo. A partir daqui, a série tomas ares um pouco mais sérios. O digimundo em Tamers não é um lugar agradável. Num geral, é uma terra inóspita, habitada por criaturas selvagens cujo único propósito é matar o que entrar em seu caminho. Mas um mundo inóspito se mostrará o menor dos problemas das crianças. Ao chegarem ao ponto mais profundo do digimundo (e é, isso é algo que vale mencionar: o mundo de digimon Tamers é dividido em uma série de camadas, cada qual distinta uma da outra, no que parece ser uma verdadeira referência ao livro “Inferno“, primeira parte do poema épico “A Divina Comédia”,  de Dante Aligheri), as crianças encontram com duas das quatro Feras Sagradas, auto-intitulados deuses dos digimons. Com elas, eles aprendem que Culumon é a encarnação da Luz da Evolução, a própria capacidade de evoluir materializada. E aprendem, também, a existência do oposto da evolução: a regressão ao nada. D-Reaper (traduzido como “O Matador” na versão brasileira) foi uma entidade do digimundo em seu início, originalmente uma espécie de anti-vírus cuja tarefa era excluir dados inúteis. Passando décadas adormecido, silenciosamente evoluindo, no momento atual D-Reaper é uma existência que ameaça à todo o mundo digital. E, muito em breve, ameaçará também a todo o mundo humano. O terço final do anime, assim, é basicamente uma longuíssima batalha, no mundo real, das crianças contra essa criatura, a fim de re-estabelecer a paz nos dois mundos.

Sendo este o plot em um geral, o que torna esse anime em especial digno de menção? Ou, pelo menos, mais digno de menção do que os que o antecederam? Bom, em primeiro lugar, surpreende o quão bem amarrada a historia é para um anime de 51 episódios. Fica claro que os criadores sabiam muito bem o que estavam fazendo, por onde iam passar e aonde pretendiam chegar. Poucos furos de roteiro poderiam ser apontados, com praticamente todos os dois ou três existentes caindo muito mais na categoria de “poderia ser melhor explicado” do que na de “incongruência” propriamente dita. Isto por si só já faz a obra se destacar mesmo entre alguns animes modernos. Mas o que realmente torna Tamers tão excepcional dentre seus pares é o tom mais “realista” da série. Enquanto praticamente todas as demais séries da franquia digimon poderiam ser facilmente classificadas como obras de fantasia, Digimon Tamers é possivelmente a única que se encaixaria no gênero de ficção científica. Conceitos que vão da computação à relatividade e física quântica são espalhados pela obra de forma direta e indireta, algo bastante surpreendente quando você considera que a audiência alvo desse anime eram crianças de uns 10 a 13 anos.

Entretanto, o ponto que eu realmente acho que merece mais destaque na obra são seus personagens. Não seria de se espantar se eu fizesse a afirmação de que os animes da franquia digimon, em um geral, são sobretudo sobre seus personagens. Como eu já havia explicitado nesta postagem sobre Digimon Adventure, já a primeira série tinha como efetivo enfoque o desenvolvimento, amadurecimento e crescimento psicológico de seus personagens. E, nesse ponto, Tamers mantém esta tradição. Mas a pratica de uma forma levemente diferente não apenas daquela das séries anteriores, como também daquele método usado por vários animes ontem e hoje. Essa fórmula a qual eu me refiro é a que eu chamaria de “explosões de sentimentos”. Sabe aquele momento, presente em vários animes shounen, em que os personagens simplesmente começam a gritar seus sentimentos, ou têm um longo monólogo interno sobre o que estão sentindo? Ou mesmo aqueles momentos em que algum personagem grita com outro, apontando as falhas desse outro e as mudanças de atitude que ele deveria ter? Este tipo de fórmula foi largamente usada em Digimon Adventure, e mais ainda em Digimon Adventure 02, bem como em uma série de outros animes. E embora útil para o espectador entender melhor os personagens, se pararmos para pensar estas são fórmulas que fazem bem pouco sentido. Digo, quando foi a última vez que você estava andando pela rua e viu uma pessoa gritar seus sentimentos a plenos polmões? Ou ainda, quando foi a última vez que gritar, ofender, ou mesmo socar alguém fez essa pessoa repensar suas atitudes e mudar sua personalidade? É, exato. Digimon Tamers, por outro lado, consegue evitar muito bem esses pequenos clichês.

Matsuda Takato, protagonista de Digimon Tamers
Matsuda Takato, protagonista de Digimon Tamers

Ao longo de toda a série, o desenvolvimento de personagem é dado muito mais pelas ações do que pela fala. Inicialmente, Takato é seu típico garoto de 10 anos. Ele não é particularmente determinado ou forte, praticamente beirando ao fraco. Ao longo da série, porém, ele vai ganhando confiança, força e determinação. Num dos primeiros episódios, quando Guilmon deixa o esconderijo em que Takato o colocou, o garotinho simplesmente sai correndo e chorando, chamando pelo parceiro. Mais para o meio da série, no entanto, quando Culumon é sequestrado e levado ao digimundo, Takato é o primeiro a decididamente propor uma viagem ao digimundo para resgatar o pequeno digimon. Ruki, por sua vez, começa o anime extremamente fria e sem emoção. Seu único objetivo é fazer sua parceira digimon, Renamon, ficar mais e mais forte, mesmo que isso inclua, eventualmente, atacar à Takato e Guilmon. Com o avançar da série, porém, ela vai se abrindo mais e mais, aceitando o convívio e, finalmente, a amizade dos demais tamers. Lee, finalmente, para ficarmos apenas em nosso trio principal, é talvez aquele que passa pelo desenvolvimento menos perceptível, mas ainda bastante marcante. No início da série, o garoto repudia a qualquer tipo de violência, mesmo explicitamente proibindo seu parceiro digimon, Terriermon, de evoluir ou lutar. Mas quando Zukkiaomon, uma das quatro Feras Sagradas, se recusa a entregar de volta Culumon, é Lee o primeiro a aceitar a força e a violência como um método por vezes necessário para se atingir a um objetivo.

Nenhuma dessas mudanças de atitude é discutida ou explicitada. Nenhuma delas se dá após longas brigas, discussões e debates. Elas simplesmente… acontecem. De forma gradual e natural, ao ponto que o espectador mal percebe como ela vai se desenvolvendo, só se dando conta quando estão as três crianças prestes a partirem para a última batalha contra D-Reaper. Neste momento, e considerando aqui a dublagem brasileira de Digimon Tamers, Takato diz aquela que talvez seja uma das minhas linhas favoritas de toda a série: “a gente não mudou” [1]. De fato, não mudaram. Cresceram, amadureceram, mas a essência de cada um permanece a mesma. Isso é o que realmente permite ao espectador aceitar a brutal diferença que existe entre estes personagens no final do anime e eles no começo do anime. E é algo que o mencionado “método explosivo” nem sempre consegue fazer, forçando no personagem uma mudança de atitude brusca que por vezes o faz perder a sua identidade inicial (seja isso algo bom ou ruim, não vou entrar nesse mérito agora).

Costuma-se dizer que Tamers tem um tom mais “dark” do que as séries que o precederam. Eu não sei até onde concordo com isso. A meu ver, o que Tamers tem, de fato, é um tom menos idealizado do que as séries que o precederam. O conceito de “monstros digitais” foi redesenhado do início, a fim de se produzirem efetivos monstros, animais com instinto assassino de alta periculosidade. O conceito de um mundo paralelo foi despido de muito de seu ideal “colorido”, sustituido por um mundo inóspito e perigoso. A ideia de vida artificial se voltando contra os humanos, seus criadores. A noção de que nenhum governo ficaria sem fazer nada enquanto monstros de outra dimensão invadem o mundo humano. Quando colocado nesses termos, Tamers de fato parece beirar uma desconstrução da ideia “crianças que ficam amigas de monstrinhos”. Mas no final, as coisas ainda acabam bem. O inimigo é derrotado. E, se alguma coisa, as crianças saíram desta experiência amadurecidas, não psicologicamente traumatizadas para toda a vida (rs). Ainda assim, é uma história que em nada subestima seu espectador, sobretudo se pensarmos que era, originalmente, um anime para crianças. Muito possivelmente foi isso o que rendeu a Tamers a fama, entre os fãs, de ser uma das séries mais “adultas” da franquia. Trata-se de uma série que se leva a sério na medida certa. E, no processo, leva o espectador a sério, deixando que ele pegue as diversas referencias e sutilezas que o anime vai lançando. E considerando o quanto parecemos estar acostumados a obras infantis tratando as crianças como verdadeiros imbecis, é natural que obras como Digimon Tamers talvez pareçam, a um primeiro olhar, demasiado “maduras” para a sua teórica audiência alvo.

Antes de encerrar a review, eu só deixou algumas poucas considerações sobre um dos elementos que, ao menos para mim, torna a série extremamente divertida de assistir: a musica. Como um todo, a franquia Digimon é bastante conhecida por suas musicas. E com toda a franquia tendo uma forte influência dos famosos tokusatsus, este é um dos poucos animes em que encontramos efetivas musicas no interior do anime, não apenas trilhas sonoras para certos momentos. E neste ponto, as musicas, via de regra, combinam perfeitamente bem com a história e as cenas. Sejam as diversas batalhas ao som de EVO, seja a despedida dos digimons ao som de Primary Colors (esta, inclusive, uma das minhas musicas favoritas em toda a franquia), a trilho sonora é algo que se destaca com bastante força no anime, dando as cenas ares que vão do épico ao melancólico. Em suma: um tipo de bom uso de uma fantástica trilha sonora que é difícil de se ver mesmo hoje em dia.

Como palavras finais, fica a minha recomendação para assistir a essa obra. Muitas vezes, tendemos a deixar o estereótipo de “obras para crianças” atrapalhar no momento de decidir assistir algo. Digimon Tamers, como toda a franquia Digimon, É para crianças. Mas isso em nada lhe é um demérito. É um anime bem planejado, bem executado, uma uma história bem amarrada, referencias bem utilizadas, personagens bem desenvolvidos e uma ótima trilha sonora. Uma obra que, ao menos na minha opinião, definitivamente vence o teste do tempo, sendo tão boa hoje quanto o era anos atrás. Definitivamente um anime que valhe a pena ver.

1 – Digimon Tamers, Episódio 50. Dublagem brasileira.

Imagens: Digimon Tamer, Episódio 1 – Nasce Guilmon.

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5 comentários sobre “Review – Digimon Tamers (Anime)

  1. Lendo a sua análise sobre o anime, você me fez pensar em algo muito interessante. Talvez, nas devidas proporções Digimon Tamers seja uma desconstrução da fórmula criada nas séries anteriores, mostrando que o digimundo não é tão belo e colorido como se pensava e que as crianças devido a conviverem com monstros correm riscos de vida.
    Também aprecio o clima mais dark da história e o fator da humanidade, no caso as autoridades do mundo tentarem eliminar algo que não compreendem por completo e que temem.
    Quanto a personalidade dos personagens, eu acho interessante eles não evoluírem a base de discursos bonitos e a base de golpes recebidos. Os personagens mudam mais pelas ações do que pelas palavras e isso é muito interessante.

    Curtido por 1 pessoa

    • Eu não sei até que ponto eu consideraria Tamers uma “desconstrução”, na verdade. Se formos parar para ver, as séries anteriores, sobretudo o primeiro Adventure, tinham já um clima bem “dark”. Em Adventure o mundo digital também é inóspito. Não tanto como em Tamers, mas ainda assim não é nenhum paraíso na terra rs. E também fica bem claro que as crianças correm um sério risco de vida, sobretudo na parte do Vandemon (Myotismon aqui), onde o objetivo final dele era MATAR a oitava criança. Ou mesmo em Apocalymon, que APAGOU as crianças da existência (e elas só voltaram porque… mágica rs). É, Tamers leva isso às últimas consequências, mostrando inclusive como essas lutas podem deixar as pessoas mentalmente instáveis (a Kato entrando em depressão ao perder o Leomon, mesmo o Takato entrando em rage mode após a morte do Leomon), mas eu não sei até que ponto isso é uma desconstrução de uma temática e até que ponto isso é uma expansão de uma temática.

      Curtido por 1 pessoa

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