Review – AKB0048 (Anime)

AKB0048
AKB0048

Alguns animes surgem apenas como divulgador de um produto. Esta frase possivelmente já é senso comum entre os fã desta mídia. De bonequinhos a jogos ou, mesmo, o material original em que o anime é baseado (mangá, light novel, vídeo game, etc.), alguma obras surgem  especificamente para fazer o mercado girar. Isso implica que estas obras são puro capitalismo em forma de anime, que está bem pouco preocupado com a qualidade do que irá entregar e mais preocupado com o retorno financeiro que pode obter disso? Bom, “AKB0048“, anime inspirado no, e certamente propaganda para o, grupo idol japonês AKB48, nos dá uma resposta: the hell no! Produzido pela Satelight e com Shouji Kawamori como diretor encarregado (yep, o cara responsável por uma porrada de animes de mecha foi o encarregado de dirigir um anime de idols. Eu não tenho ideia de quem foi essa ideia, mas certamente deu muito mais certo do que esse cara esperava), a primeira temporada do anime foi ao ar em 2012, com a segunda, “AKB0048 – Next Stage”, tendo ido ao ar em 2013.

E sobre o que é este anime? Bom, a história se passa no distante futuro de… Eu sei lá, no distante futuro, quando a humanidade deixou a Terra para colonizar o universo, estabelecendo novas sociedades em outros planetas. Mas alguns destes planetas tem uma política bastante… díspar. Sobretudo em planetas que são, acima de tudo, enorme fábricas de produção em massa, o entretenimento como um todo, incluindo ai a música, foi sumariamente proibido, proibição esta que é reforçada pela Deep Galactic Trade Organization (DGTO) e sua força militar, o Destoy Entreteinment Soldiers (DES). Não aceitando tal opressão, surge o grupo idol AKB0048. Com base em um dos poucos planetas que ainda permitem o entretenimento, Akibastar, o AKB0048 é um grupo de guerrilhas que viaja de planeta em planeta organizando shows ilegais, a fim de trazer alegria para os corações das pessoas oprimidas. Assim, numa mistura louca de “Star Wars meet magical gils, feat Idols”, surge um anime que, a princípio, eu não dava absolutamente nada. Mas, surpreendentemente, este acabou se mostrando um anime que eu considero muito bom. Bom, vamos lá, a partir daqui spoilers correrão soltos, então siga por sua conta e risco. Se você ainda não assistiu esse anime, definitivamente vale a pena. Ambas as temporadas tem apenas 13 episódios cada, em um total de 26 episódios.

Antes de entrar no anime em si, porém, é conveniente darmos uma olhada naquilo que inspirou o anime, o grupo idol japonês “AKB48“. Isso porque muitas das terminologias usadas no anime derivam diretamente do grupo idol real. Agora, é necessário conhecer o grupo para entender o anime? Não, o anime cuida bem de explicar as próprias terminologias e é bem pouco provável que o expectador se sinta perdido de alguma forma. Mas ter algumas noções pode ser interessante. Assim, a história do grupo idol começa com seu produtor, Yasushi Akimoto, que desejava criar um grupo idol que tivesse seu próprio teatro, a fim de organizar shows ao vivo continuamente, ao contrário da grande maioria das idols, que apenas se apresentam na televisão e só realizam alguns concertos uma ou outra vez. E se você não sabe o que é uma idol, em termos gerais seria uma jovem cantora (mas que também aparece com frequência como atriz) promovida pela industria da cultura pop como sendo “bonitinha” ou “fofinha” (ou qualquer tradução que o leitor julgue adequada para o termo japonês “kawaii”, que a maioria dos otakus já deve conhecer). Enfim, nascia assim, em fins de 2005, num teatro em Akihabara, um grupo idol de 48 membros, dai o nome AKB48. E este grupo cresceu. Segundo sua página na wikipedia, até agosto de 2014 o grupo contava com aproximadamente 140 membros, que eram divididos em diversos sub-grupos chamados “Team”, o que permite a existência constante de shows em seu teatro-sede, bem como concertos organizados pelo Japão e o Mundo.

Para entrar para este grupo, a garota deve ser jovem (o grupo é formado sobretudo por garotas que estão deixando a adolescência até mulheres em torno dos 20 anos) e, regra interessante, não pode namorar (pois as idols devem dedicar todo o seu amor aos seus fãs… ou alguma bullshit do tipo). Mas enfim, quando a garota entra no grupo ela é levada para o grupo das aprendizes e vai escalonando na carreira conforme passa o tempo no grupo. Finalmente, após uma certa idade as garotas deixam o grupo, quando então ocorre a chamada “cerimônia de graduação”, onde um membro do grupo se “gradua” (não, eu não entendo o porque do termo). A partir dai, sua vaga fica aberta para que outra garota possa tomar seu lugar e o ciclo se recomeça. E o anime irá seguir este mesmo esquema, com a história se focando na 77ª geração de aprendizes, conforme estas garotas avançam de seu status de aprendiz até se tornarem membros do grupo principal. Bem, ao menos duas delas, as personagens centrais da trama: Nagisa e Chieri (fun fact, existe uma musica do grupo AKB48 que se chama “Nagisa No Chieri”… E as personagens cantam essa musica no anime… Deve ter sido uma situação bem desconfortável para as garotas naquele momento…).

Bom, agora passemos para o anime, finalmente. Num geral, eu consideraria este anime uma espécie de mescla de slice of life com ficção científica. E eu digo “slice of life” porque, em grande medida, o anime se foca sobretudo nas relações entre as personagens, tanto as de amizade como as de rivalidade, e no dia a dia delas, não se colocando realmente nenhum grande objetivo. Embora as garotas façam shows ilegais, levando musica em planetas que não a permitem, não dá exatamente para dizer que elas tem por objetivo destruir o sistema instituído, ou pelo menos a derrubada deste sistema não é algo que o anime expõe como possível. Isso de imediato já pode causar uma certa decepção naqueles que assistem até o final. Quem esperava ver uma resolução onde as leis que proíbem o entretenimento fossem banidas ou qualquer coisa do tipo pode ficar um pouco desapontado com a conclusão. Apesar disso, eu dou crédito para o anime por não ir por esse caminho. Uma mudança dessas significaria uma mudança de mentalidade em sociedades inteiras, o que, embora nos desse o “final feliz” que muitos gostam, normalmente soa simplesmente forçado demais. Agora, eu não sei se não era planejado que houvesse mais uma temporada onde isso acontecesse. O final da segunda definitivamente é um final bastante aberto, ainda que apenas aberto o bastante, concluindo o que precisava concluir, mas definitivamente dando margem para mais história. Mas ao menos até aqui não se tem notícias de nada do tipo e não acho que vá acontecer. Independente disso, plano original ou não, foi este o final que tivemos, então acho justo dar crédito ao que foi feito.

Já a parte de ficção científica é meio obvia para quem acabou de ler a sinopse. Viagens interestelares são coisa cotidiana. O DES, a força militar que reforça a proibição ao entretenimento, é composto basicamente de usuários de mechas. E o microfone das garotas se transforma em um sabre de luz. Mas a série também tem um forte elemento de fantasia, encarnados na figura destes pequenos slimes flutuantes chamados “Kirara”, que emitem um estranho brilho com propriedades mágicas, que ao que parece fica mais intenso ao som da voz de uma certa garota com a qual o Kirara por algum motivo simpatizar. Infelizmente, fora a capacidade de abrir portais dimensionais, teleporte interestelar e criar campos de força, não muito é falado ou mostrado sobre as habilidades dessas coisinhas. Na verdade bem pouco é falado sobre muita coisa. Desde como diabos funciona essa tecnologia futurista até como funciona esse sistema político, muita coisa fica a cargo da imaginação de quem assiste. Se isso é algo positivo ou negativo vai depender da visão do espectador. Se você é daqueles que prefere que as coisas sejam mais bem explicadas e detalhadas (como eu), esse lado do anime pode ser um pouco frustrante, mas se você for daqueles que preferem que o anime mostre apenas o que é necessário, ao invés de ficar divagando longamente sobre pontos que possivelmente nem serão usados na história de qualquer maneira, então possivelmente vai gostar do que foi feito. Apesar de pouco explicativo, eu realmente não posso dizer que ele seja confuso, o que por si só já é ótimo.

Nagisa, protagonista de AKB0048
Nagisa, protagonista de AKB0048

Mas contexto de lado, falemos um pouco destas garotas, já que o anime se foca sobretudo nelas. Agora, eu já faço a ressalva: são muitas garotas. Fora o grupo da 77ª geração de aprendizes, de presença constante temos ainda as garotas do chamado “Team A” (o grupo principal dentro do grupo AKB0048) e as duas integrantes que restaram da 76ª geração de aprendizes, isso sem contar as personagens adultas e as pessoas do planeta natal de algumas das garotas, que fazem uma ponta ou outra. Em suma, é um elenco gigantesco para ser trabalhado em apenas 26 episódios, então quem for assistir já deve ir considerando que nem todas as garotas terão a atenção que o espectador possa desejar. Em fato, o que nós poderíamos considerar como as personagens mais trabalhadas (em termos de tempo dado em tela) são nossa dupla protagonista, Nagisa e Chieri, duas garotas do Team A, Takamina e Yuuko, e as duas integrantes da 76ª geração. As demais personagens por vezes recebem episódios focados nelas ou tem os holofotes nelas por algumas cenas aqui e ali, mas são definitivamente personagens secundárias (alguma praticamente terciárias). O que não é ruim, exatamente. Honestamente, eu prefiro a consciência de que é melhor tentar trabalhar bem algumas personagens do que tentar desenvolver imensamente um grupo gigantesco em poucos episódios (e que, normalmente, resulta em um desenvolvimento muito rápido ou em ninguém sendo realmente lá muito desenvolvido). Além disso, eu pelo menos achei as personagens que receberam os holofotes bem interessantes, embora uma ou outra pudesse ser um pouco irritante em um ou outro momento (Yuko, estou olhando pra você…). Eu só não sei se gosto da Nagisa como protagonista, mas definitivamente gosto do contraste que foi feito entre a Nagisa e a Chieri.

Sobre isso, este é um dos pontos que eu acho mais interessantes no anime: o contraste entre o sonho (a Nagisa) e uma dura, ainda que não inteiramente desagradável, realidade (Chieri). Vinda de um planeta onde a musica é proibida, e tendo presenciado um show do AKB0048 quando criancinha, Nagisa tem uma visão bastante idealizada do grupo, que ela vê como um grupo de amigas se divertindo catando e dançando. Já a Chieri tem uma visão bem mais fria da situação. Ainda que tenham o mesmo sonho, o de entrar no grupo principal, Chieri vê todas como suas rivais e inimigas, o que a leva a se esforçar ao máximo para se destacar de todas. Além disso, enquanto Nagisa vê sua aceitação no grupo de iniciantes como a realização de um sonho, a Chieri vê como uma vitória. Isso é particularmente interessante quando a Chieri vai dar uma bronca naquelas que não estão se esforçando o suficiente. Ela tem plena consciência de que todas ali chegaram onde estavam após pisarem sobre os sonhos de outras. Cada uma delas está preenchendo uma vaga que poderia ser de outra menina, que teve de ser deixada de fora para que especificamente elas pudessem avançar. Neste sentido, no mínimo é obrigação de todas trabalharem e darem o melhor de si. Se realizar o seu sonho significa pisar no de outros, ao menos que esse pisar não seja em vão. Uma noção bem interessante e bem menos idealizada do que eu esperaria de um anime de idols. Aliás, como um todo esse anime é bem pouco idealizado no que diz respeito ao funcionamento de um grupo idol. Logo de cara, as iniciantes são jogada em uma rotina de treinos e exercícios e muitas realmente não conseguem dar conta. Conforme a história avança, rivalidades e problemas pessoais vão aparecendo, de forma que a imagem de um grupo perfeito, coeso e feliz se mostra exatamente isso: uma imagem que só existe no momento do show.

Agora, eu de forma alguma quero colocar esse anime como algum tipo de desconstrução do gênero “Idol“, ou mesmo como algum tipo de drama psicológico. Nada disso. Num geral, o tom do anime é bastante otimista e alegre. Sim, as garotas se veem como rivais, mas muito naquele sentido já bastante clichê no mundo dos animes: só se reconhecem como rivais pois nutrem um profundo respeito e, mesmo, amizade umas pelas outras, com cada uma delas estando ali para quando a outra precisar. Além disso, o grande desejo de quase todas é o de levar alegria para as pessoas, o típico discurso de “tocar os corações” dos outros. Ainda que, eu diria, aqui este discurso assume uma forma bem mais “material” do que na maioria. Quase todas essas garotas vieram de mundos em que o entretenimento é proibido, tendo vindo a conhecer o AKB0048 por meios ilegais e se sentindo, elas próprias, tocadas por essa forma de entretenimento. Isso é interessante, pois o discurso clichê de “trazer alegria a todos” não fica vazio. Não é puro sonho, apenas palavras, é o desejo real e alguém que sentiu na pela a força daquilo que quer alcançar. Em suma, é um anime “clichê” em muitos aspectos, mas é um anime que sabe usar o clichê.

Mas o mais importante talvez seja o fato de que é um anime que se leva a sério. Não no sentido de ser uma história extremamente complexa, bem organizada, cheia de plot twists ou sei lá. Não, é tão somente no sentido de não se pensar somente como uma propaganda para um produto. É genuinamente uma obra onde podemos ver que os criadores colocaram bastante esforço nela. E isso já fica evidente na própria arte do anime, em si bastante única, conseguindo uma mescla de “colorido” e “escuro” que é bem raro de se encontrar. Para um anime que fala tanto sobre “brilhar”, é curioso como em momento algum as cores ofuscam o espectador. Pelo contrário: não estão ali para deslumbrar, mas sim para destacar as personagens. É um “show de luzes” no sentindo mais positivo que o termo possa ter, sem dúvida. Inclusive, deixo aqui uma recomendação: se puder assistir esse anime em HD, faça!

AKB0048 é, sobretudo, um drama. O seu enfoque é nas personagens e nas suas relações, seja umas com as outras, seja delas com outras pessoas. Quem for assistir esperando toneladas de ação por minuto provavelmente vai se decepcionar. Mas isso não é pra dizer que o anime não tem ação. Muito pelo contrário, ele tem uma ação bem dosada, que acontece em momentos específicos. E este momento é o show. Sempre que vão falar uma concerto, as garotas são atacadas por tropas do DES, o que leva a uma verdadeira guerra a céu aberto, enquanto as garotas tentam proteger a si mesmas, proteger a população, terminar o concerto e tudo isso apenas imobilizando os membros do DES, nunca os ferindo ou matando. Pessoalmente, é a melhor desculpa para a existência de musica ao fundo de uma batalha que eu já vi (rs). Apesar disso, cada temporada deve ter uma meia dúzia de concertos, se tanto, então quem for assistir procurando ação desenfreada possivelmente irá dormir antes do final do primeiro episódio. Já se o leitor se interessa por animes que focam muito mais nos dramas pessoais das personagens, tendo apenas algumas dosagens de ação regadas com musicas animadas, possivelmente vai achar esse anime deveras interessante.

Imagens: AKB0048, Episódio 2: As Luzes Escolhidas

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