Haters são necessariamente algo ruim?

Todos nós já devemos ter encontrado alguém que se encaixa na categoria de “hater“. Palavra da língua inglesa para definir “aquele que odeia”, o termo normalmente define as pessoas que.. bom, fazem justamente isso: odeiam. E no universo do anime e mangá, isso frequentemente significa um ódio intenso por um dado anime ou um dado mangá, a um nível no qual a pessoa sente verdadeiro prazer em dizer o quão horrível ou deprimente é uma dada obra, uma dada franquia ou mesmo um dado autor. E, normalmente, tendemos a considerar esses haters como apenas “trolls” procurando atenção, gente sem mais o que fazer que simplesmente resolve sair digitando ofensas pela internet, só com que com essas ofensas se voltando para um dado anime. E, bom, enquanto há certa verdade nisso, com toda certeza, será que haters são assim tão ruins?

Bom, vamos com mais calma. Em primeiro lugar, precisamos nos perguntas: o que é um hater? Sim, claro, eu acabei de descrever no parágrafo anterior: são pessoas que odeiam (e, mais importante de tudo, dizem aos quatro cantos do mundo que odeiam) a um dado anime. Mas essa definição é um pouco vaga, especialmente porque não faz qualquer distinção entre um hater e alguém que está simplesmente tecendo uma crítica. Então, onde traçar o limite entre criticar algo e odiar algo? Normalmente, no argumento. Via de regra, alguém que está tecendo uma crítica, não importa o quão ácida ou raivosa ela seja, tentará apresentar algum argumento para por que sua opinião é válida. “O personagem não foi bem desenvolvido”, ou “a trama é mal aproveitada”, ou qualquer coisa nessa linha. Já um hater… bom, a enorme maioria de seus comentários vai se resumir a “esse anime é lixo, vlw flws”. Agora, eu reconheço, essa distinção tem alguns problemas, mas retomarei isso mais para frente. Por hora, fiquemos, assim, com a definição mais usual internet afora.

Feito isso, precisamos pensar em que situações, normalmente, encontramos haters. E, na minha opinião, eles aparecem sobretudo em duas situações distintas: quando da adaptação de uma obra e quando da continuação de uma obra. Também aparecem em outros momentos, mas fiquemos com estes dois por hora. No primeiro caso, talvez seja conveniente usar como exemplo o último filme de Cavaleiros do Zodíaco, “A Lenda do Santuário”. Pouco depois do lançamento do filme no Brasil, a internet pareceu ser inundada por comentários que se resumiam a chamar ao filme como um todo um completo lixo, sobretudo por algumas mudanças que o filme fez em relação à obra original. Outro exemplo ilustrativo poderia ser percebido quando um mangá ganha tradução no Brasil. Não poucas vezes, os fãs da obra original literalmente procuram defeitos na versão traduzida com o único propósito de fazer troça da mesma, quando não de dizer abertamente “não comprem isso”.

Já no segundo caso, acredito que qualquer fã de franquias que possuam mais de uma série animada entendam o que eu quero dizer. Não poucas vezes, a nova série de uma franquia é fortemente atacada por, supostamente, se “desvirtuar” da obra original. Digimon viu isso com praticamente todas as séries após Adventure 02, com o “alvo” mais recente sendo “Digimon Xros Wars” (ou “Digimon Fusion”, como ficou na dublagem brasileira). Cavaleiros do Zodíaco viu isso sobretudo com a série “Omega”, criticada pelos fãs por conta das diferenças que apresenta para com a série clássica (inclusive, mesmo, no traço das personagens, que muitos fãs criticaram estar demasiado andrógeno). Yugioh viu isso com praticamente todas as séries após Duel Monsters, com ‘Yugioh ZeXal” sendo o alvo mais recente (sim, você leu direito, ZeXal. Apesar de já termos uma nova série, “Yugioh Arc-V”, a série ZeXal segue sendo a mais criticada). Enfim, ponto é: se é novo, atrai um grupo de haters. E isso é bastante interessante: haters parecem vir sobretudo da própria fanbase a qual a obra pertence!

Se me permitem, façamos um pequeno desvio aqui. Gostaria de falar de um anime que assisti já há algum tempo, chamado “AKB0048”. Anime inspirado pelo popular grupo idol japonês “AKB48”, a série se passa em um universo futurista, onde a humanidade conseguiu colonizar diversos planetas universo afora. Neste universo, alguns planetas, membros aparentemente de uma mesma federação, estão sob uma lei que proíbe toda e qualquer forma de entretenimento, incluindo nisso, obviamente, musica. Diante desta situação, um grupo idol rebelde intitulado o AKB0048 nasce, com o objetivo de fazer shows ao vivo em planetas em que isto não seria permitido (porque… sim…). E este grupo funciona, de certa maneira, exatamente como o grupo idol da atualidade: seus membros são recrutados entre garotas com talento para a música, que ingressam num sub-grupo destinado às iniciantes. Conforme as garotas do grupo principal crescem, elas se “graduam” do grupo (terminologia tirada diretamente do grupo real. Yep, ao deixar o AKB48 dizem que a garota se “graduou”. Eu também não entendo), deixando, assim, uma vaga aberta, a ser preenchida por alguma das garotas em treinamento. O que tudo isso tem a ver com a discussão? Bom, eu já vou chegar lá.

Ao longo do anime, as garotas iniciantes são constantemente chamadas para dar entrevista. E em uma destas, lhes é perguntado qual posição elas gostariam de tomar (ou seja, qual garota do grupo principal existente elas gostariam de substituir). E a resposta de uma delas não tem lá uma boa recepção. Pouco depois de dar a declamação, a garota recebe uma vídeo-carta exatamente de um hater, que a insulta e diz que ela jamais seria digna de tomar o lugar de quem ela desejava, acrescentando ainda que ela deveria desistir. Nesta cena, duas coisas são interessantes. A primeira delas, é a de que a ofensa parte claramente de uma criança, dando a entender o caráter de infantilidade desse tipo de crítica embasada puramente no ódio. Mas o que é realmente de chamar a atenção é uma outra coisa: a forma como a personagem é aconselhada a respeito do assunto. Agora, como podem imaginar, dado o que já disse do anime, a personagem ofendida ficou… bom, ofendida (para não dizer arrasada), se perguntando mesmo se deveria ou não tentar seguir com seu objetivo inicial. E nesse ponto ela é aconselhada por uma outra garota, que lhe dá uma visão bem diferente sobre os haters.

Diz, essa personagem, que os haters não são algo ruim, mas sim, na verdade, pessoas que amam demais aquilo que criticam. Contraditório? Bom, na verdade não. Vejam o exemplo do anime: o garoto em questão era um enorme fã da menina que estava justamente na posição que essa novata gostaria de ocupar. E é essa apreciação enorme do que que o leva a criticar, e mesmo a odiar, o que será. E foi quando eu percebi: isso é exatamente o que acontece naqueles casos que eu citei acima! Basta observarmos que é muito raro que a primeira obra de uma franquia seja fervorosamente criticada. Mesmo aqueles que preferem obras posteriores normalmente mantém um certo respeito por aquela que foi, afinal, a pioneira. Mas as obras mais recentes, as novas séries, as adaptações, as traduções, toda e qualquer modificação dessa obra original atrai a um grande grupo justamente de haters. É algo curioso. Existe a tendencia de considerar os haters como não sendo “fãs de verdade”, a tendência de dizer que você precisa gostar de tudo o que uma franquia tem a oferecer para se considerar fã dela, mas… talvez não seja esse o caso. Só para fechar esse parênteses, em AKB0048, a solução que o anime propõe não é ignorar aos haters, mas justamente ouvi-los. Ouvir a estes que detêm um carinho especial por uma obra em particular e que estão enfurecidos diante daquilo que consideram uma deturpação daquilo que amam.

Agora, o leitor poderia muito bem objetar que nem todos os haters odeiam continuações ou adaptações. Alguns pura e simplesmente odeiam a um dado anime e acabou. A isto eu diria que sim, vocês tem razão. Mas isso não invalida a minha consideração inicial. Por que? Bom, basta olhar que muito raramente alguém é hater de um anime como um todo. Na enorme maioria dos casos, o ódio é direcionado ao que a pessoa vê como uma falha da obra. Pergunte a um hater por que ele acha uma dada obra um “lixo”. “Os personagens são um lixo”, “a história é uma porcaria”, “eu odeio esse fanservice escroto”, “esse protagonista é um m&rd@”, essas e outras críticas são o que mais se vê. E é, é o que vocês leram: são críticas. Apesar de não desenvolvidas em uma tese de doutorado, comentários como estes não deixam de ser uma crítica a um ou mais elementos de uma obra (por isso eu disse a distinção dada originalmente tinha lá seus problemas. No final das contas, separar o “crítico” do “hater” é mais complicado do que parece de fato). O que isso tem a ver com atacar ao novo (o que, me parece, é a essência do conceito de hater)? Simples: essas pessoas, que tecem esse tipo de crítica, são, normalmente, grandes fãs de anime e mangá. E é no ser um grande fã dessas produções japonesas que estas pessoas sobem pelas paredes quando veem algo que, na visão delas, está deturpando tudo aquilo que o anime e mangá deveria ter de bom.

De fato, tem algo que sempre chama a atenção no que se refere a haters. Não raras vezes, a principal resposta para esse tipo de crítica embasada no ódio é “se você não gosta, por que se dá ao trabalho de comentar?” E… bom, de fato, por que? Por que alguém perderia seu tempo criticando algo que não gosta? Em fato, a resposta é uma só: indignação. Sabe quando você se depara com algo tão ultrajante, tão detestável, tão hediondo que você não consegue simplesmente deixar passar? Que você precisa expressar o quanto aquilo lhe deixou irritado? Bom… é a mesma lógica. As vezes, simplesmente não dá pra ficar calado. E é desse tipo de situação que surgem comentários que a maioria simplesmente qualifica como sendo de haters. Em suma, essas pessoas não criticam algo só porque odeiam esse algo, mas sim porque esse algo, na visão delas, mancha algo que elas consideram precioso.

Com isso eu quero dizer que é certo sair xingando toda e qualquer obra de “lixo”? Definitivamente não. Em um mundo ideal, todos deveríamos ser capazes de conter nossa raiva e, na hora de criticar algo, o fazer com argumentos bem estruturados, apontando as falhas daquilo que nos ofendeu de alguma forma. E se com isso percebermos que não temos nenhum argumento mais consistente do que “não é igual ao que era antes”, seriamos então capazes de deixar isso de lado. Mas acredito que não seja surpresa para ninguém que nós não vivemos em um mundo ideal. As pessoas tem emoções e, algumas vezes, extrapolam um pouquinho na hora de se expressar. E por mais que isso não seja uma desculpa, afinal ofensas nunca irão atrair nada além de mais ofensas, talvez fosse interessante que as pessoas fossem um pouco mais tolerantes com esses haters. Eu não disse antes, mas em AKB0048 o anime conclui que os haters são mesmo algo necessário. Em meio a uma turba de verdadeiros fanáticos, muitas vezes eles são a voz que diz o que está errado. Que diz o que precisa ser melhorado. De uma forma bastante agressiva e carecendo de boa educação, é verdade, mas nem por isso com menor verdade ou não merecendo qualquer atenção. A crítica, seja ela boa ou ruim, centrada ou emocional, gentil ou dura, é necessária para que qualquer coisa possa melhorar.

Agora, que fique claro, existe uma grande diferença entre ser um hater e ser um puro e simples troll. Enquanto um hater demonstrará indignação com algo que ele acredita ser ofensivo, um troll só deseja causar discórdia. Muitas vezes o troll se quer tem uma opinião formada ou mesmo assistiu ao anime que critica, com suas “críticas” e ofensas tendo por único propósito causar briga. Ele é do tipo que se você perguntar porque ele considera a obra ruim, ele não será capaz se quer de esboçar argumentos como “personagens ruins” ou “trama ruim”, ficando limitado a repetir “é lixo, é lixo, é lixo” como um disco riscado. Este tipo de pessoa, de fato, não merece atenção. Eles não tem qualquer interesse em ver a melhora daquilo que criticam, apenas desejam ver as pessoas brigando umas com as outras. E, acima de tudo, não adianta discutir ou argumentar com essas pessoas: elas são a própria encarnação do Pombo Enxadrista (quem não conhece, o Google está ai pra você :D ). Então… é, eu vou encerrar este post dando o já bem antigo aviso: não alimentem os trolls o/.

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