O Verão enquanto metonímia idealizada da infância.

“Metonímia”. Figura de linguagem que significa, grosso modo, “tomar a parte pelo todo”. Ou seja, usa-se de um aspecto do “todo” para a identificação deste próprio “todo”. “Idealização”, por sua vez, significa, como é de conhecimento comum, ver em algo não a sua integridade verdadeira, mas sim apenas as partes positivas, como se aquilo que se observa fosse perfeito em si (ou, ao menos, com menos falhas do que efetivamente teria). Ao propor aqui que o verão é uma metonímia idealizada da infância, coloco aqui um duplo recorte. Primeiramente, parece-me que o verão, no mundo do anime e mangá, tem uma íntima relação com a infância, ao ponto de costumeiramente ser usado como sua metonímia: no mundo do anime e mangá, o verão é a própria infância. E, em segundo lugar, essa infância se apresenta, normalmente, de uma forma idealizada, como sendo pura e perfeita, em grande parte justamente por conta dessa sua ligação com o verão. Mas vamos lá, acho que estou indo um pouco rápido demais. Muita exposição, pouca explicação, vamos recomeçar isso aqui…

Para tanto, eu pediria ao leitor que se lembrasse de alguma obra japonesa, qualquer que fosse, em qualquer mídia que fosse, que preenchesse dois requisitos básicos: 1) o enfoque em crianças ou adolescentes em idade escolar, e 2) o enfoque no verão. Vamos e venhamos, não é uma tarefa difícil. De cabeça, eu poderia citar animes como Digimon Adventure ou Ano Hana, mangás como a recente publicação da JBC no Brasil, Tom Sawyer, e mesmo a série de musicas Kagerou Project. Todas estas séries têm fortes ligações com a infância de um modo geral, e todas elas se passam no período do verão. E todas elas têm, também, fortes ligações com a noção do abandono da infância. Mas aqui eu já estou me adiantando. Antes de entrarmos nesse ponto, comecemos pelo princípio: por que o verão parece ter assumido esse caráter de metonímia da infância? Dentre as 4 estações do ano, o que torna o verão especialmente mais relacionado com essa fase da vida, ao menos no mundo do anime e mangá? E a resposta para isso, na minha opinião, se embrica com a resposta para uma outra pergunta: por que a infância é apresentada de forma tão idealizada?

Para começar a explicação, é preciso uma rápida explicação sobre o sistema de ensino japonês. Conforme nos informa o site do Consulado Geral do Japão em São Paulo, “O ano letivo japonês é de Abril a Março e o ano escolar é dividido em 3 períodos. Os estudantes desfrutam de 3 férias anualmente: férias de Verão (final de Julho – final Agosto), férias de Inverno (final de Dezembro – início de Janeiro) e férias de Primavera (final de Março – início de Abril)”. Esta noção, por si só, já pode nos dar um indício de porque o verão é usado como metonímia da infância: ele surge para o povo japonês como um momento de férias das crianças. É o período do ócio, onde a criança não tem qualquer responsabilidade ou preocupação e onde tudo o que precisa fazer é passar seu tempo como bem desejar, seja dormindo, brincando, ou o que for. Exatamente as qualidades pelas quais é infância é louvada! Percebem o movimento que é feito aqui? Da lembrança nostálgica da infância como momento de ócio e irresponsabilidade nasce a visão idealizada desse período da vida. Nisso, faz-se a associação do período com o momento de ócio por excelência: as férias.

Neste momento, o leitor poderia fazer a seguinte objeção: por que, se é este o caso, não vemos retratadas as férias de inverno ou de primavera como metonímias da infância? Bom, responder isso é um pouco difícil. Em primeiro lugar porque, em fato, esses momentos também aparecem como relacionados à infância. Um anime sendo exibido nesta temporada mesmo, Sora no Method, sempre que vai se referir à infância de suas personagens as coloca em um cenário de inverno, embora essa escolha possivelmente tenha relação simbólica com a “morte” da amizade do grupo de amigos, que vê a protagonista deixar a cidade, mas aqui já estou divagando. Ponto é: há, sim, associações da infância com os demais períodos de férias, mas essa associação é muito mais forte com o período do verão. Por que? A resposta disso, na minha opinião, se liga diretamente com a noção de fim da infância, constante nos animes e mangás que se usam da metonímia do verão. Pois bem, para entender isso eu gostaria de reproduzir uma entrada do Dicionário de Símbolos de Juan-Eduardo Cirlot. No verbete “calor”, o autor nos informa que “sua representação ou menção tem sempre um sentido simbólico relacionado com a maturação de um processo qualquer, seja biológico ou espiritual”[1] (grifo meu)

Aceitando-se esta explicação, o “calor” representa um processo. A passagem de um estágio para outro. Quando entendemos essa noção, o fato de histórias como Tom Sawyer, de Shin Takahashi, ou Digimon Adventure se passarem no verão passam a fazer muito mais sentido. São histórias fundamentalmente sobre a passagem da infância para a vida adulta. Histórias sobre o crescimento e o amadurecimento. Podemos ver isso claramente no discurso final de Tom Swyer, quando nossa progonista, em um monólogo interno, afirma que “(…) aquele verão, foi meu último verão. Um verão como naqueles livros que li quando criança e que sempre achei que um dia teria na minha vida. Os meus ‘tempos de moleque’ que nunca mais vão se repetir”[2]. E não apenas ali. A quem assistiu ou conhece o anime Ano Hana, basta observarem a letra da musica de encerramento, “Secret Base”. Já quem conhece a série de musicas Kagerou Project, que procure a letra para a música “Summer Time Record”. Em ambos os casos, as musicas são fundamentalmente sobre a passagem da infância para a juventude, tratando de assuntos como a dissolução de grupos de amigos e o abandono de uma vida de brincadeiras e de ócio. Nesse sentido, faz ainda mais sentido que sejam canções sobre o verão, não apenas por seu significado simbólico acima mencionado, mas também por seu caráter de férias: o fim do verão representa, por excelência, a passagem do momento de ócio para o momento de responsabilidades que é o retorno à escola. Finalmente, neste mesmo blog já foi feito um post sobre Digimon Adventure, sobre como a obra aborda temas como o crescimento e o amadurecimento.

É curioso notar que essa associação do verão com um processo de amadurecimento não é exclusiva de histórias que se passem somente no verão. A conhecida figura do “episódio de praia”, presente numa enorme quantia de animes, por vezes se embrica com a figura do “episódio de treinamento”. Quem conhece ao anime CardFight Vanguard!! pode ver isso claramente. Anime sobre um jogo de cartas, em quase todas as suas temporadas o anime conta com ao menos um episódio voltado para o treinamento, sempre ocorrendo em um ambiente de veraneio, normalmente em uma casa de praia. E ele não está sozinho nesse bojo. Saki, um anime sobre majongue, conta com a exata mesma premissa de um episódio de treino que se passa em uma casa de praia. K-ON!, anime sobre uma banda de garotas do ensino médio, ainda seria um terceiro exemplo que poderia ser citado, com suas duas temporadas possuindo episódios onde as garotas vão para uma casa de praia para ensaiarem melhor. Notemos, ainda, que animes que usam desse recurso por vezes veem seu caráter de treino ser deixado de lado ou ser secundarizado. O enfoque passa, então, para as personagens brincando e se divertindo pela praia, em uma alusão bastante clara à um momento de calmaria e de irresponsabilidade, tal e qual se percebe a infância. Com base no que foi dito aqui, creio que seria ao menos passível de defesa o argumento de que esse encontro da temática de brincadeira na praia (infância) com a de de treinamento (amadurecimento) não são pura coincidência, mas talvez algo presente num suposto inconsciente coletivo.

Ao longo da história, diferentes sociedades criaram diferentes ritos de passagem, normalmente marcando a passagem da infância para a vida adulta. Todas essas sociedades, porém, davam grande importância a esses ritos, como informa o pesquisador Joseph Campbell no livro-entrevista O Poder do Mito. Na minha opinião, o verão, na dimensão do anime e mangá, surge exatamente como isso. É em si um rito de passagem, a transição por excelência de tudo o que a infância representa (o ócio, as brincadeiras, o faz de conta, o mágico, etc.) para aquilo que se apresenta como a sua antítese, a vida adulta (marcada pelas responsabilidades e pelo amadurecimento). Essa noção talvez explique porque o verão surge como a metonímia da infância. Sendo o momento de transição por excelência, sendo o final de um ciclo (ou, melhor dizendo, sendo apresentado como o final de um ciclo), o verão se apresenta como a síntese da infância, como a conclusão daquilo que um dia foi. A página final em um mangá. O episódio final em um anime. As últimas frases em uma musica. Junto da obra, acaba-se o verão. Simbolicamente, acaba-se, assim, a infância. A passagem se completa e personagem e leitor podem olhar com certo saudosismo para o passado que deixam para trás. Ao mesmo tempo, o futuro é aberto. Não dado. Um mistério irresoluto, a ser resolvido pelo próprio leitor, encarregado de imaginar como será a vida daquelas personagens após os últimos momentos que nos foram mostrados. Mas também, em um movimento inconsciente que transfere o questionamento da obra para o leitor, de pensar ao seu próprio futuro. O verão chegou ao fim. É hora de seguir em frente.

1 – Cirlot, Juan-Eduardo. Dicionário de Símbolos. São Paulo, editora Centauro, 2005. Pág. 135.

2 – Takahashi, Shin. Tom Sawyer. São Paulo, editora JBC, 2014. Pág. 368.

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Um comentário sobre “O Verão enquanto metonímia idealizada da infância.

  1. Otimo post novamente vc escreve com louvor sério da gosto de ler me fez refletir bastante gostei qndo vc citou que o inverno qndo se torna algo marcante em uma obra é por que remete a morte isso me lembrou Boku Dake. Emfim otimo trabalho! :D

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