Review – Phi Brain: Kami no Puzzle (Anime).

Phi Brain: Kami no Puzzle
Phi Brain: Kami no Puzzle

Uma produção original do estúdio Sunrise, o anime Phi Brain: Kami no Puzzle começou a ser exibido em 2011, no canal japonês NHK Educational TV. Inicialmente uma única temporada com 25 episódios, o anime ganhou mais duas temporadas nos dois anos que se seguiram, chegando a um final definitivo em 2013 com um total de 75 episódios. Por si só, um feito nada desprezível. Com a enorme maioria dos animes sendo adaptações de mangás, light novels e, em menor quantia, games, animes originais são a exceção à regra. E são, também, uma enorme aposta. Enquanto a maioria dos animes já vai ao ar com a obra original tendo uma fanbase consolidada, animes originais raramente dispõem de mais do que seus trailers para atrair atenção para si. Por conta disso, normalmente vemos animes originais com uma média de apenas 12 a 25 episódios, podendo ou não receber continuações a depender da popularidade. Para ter recebido mais duas temporadas de 25 episódios (exibidas, ainda, em intervalos de menos de um ano uma da outra), Phi Brain certamente deve ter atraído bastante atenção para si. Então… sobre o que é esse anime?

Bem, dar uma sinopse para esse anime é um pouco complicado, basicamente porque cada uma de suas três temporadas funcionam relativamente bem de forma isolada, com cada uma tendo sua própria trama central, com começo, meio e fim. Todas as tramas, porém, se resolvem em torno de uma temática principal: o protagonista, Daimon Kaito, e seu grupo de amigos e aliados tendo de resolver puzzles mortais a fim de salvar o mundo de alguma organização maligna. Agora, para quem não sabe, a palavra “puzzle” é uma palavra inglesa que não possui um correspondente preciso em português. Normalmente traduzido como “quebra cabeças”, a palavra na verdade pode implicar em qualquer jogo de estratégia, desde um sudoku até um jogo de xadrez. E Phi Brain certamente sabe se aproveitar dessa definição ampla. Ao longo da série, vemos desde jogos simples até verdadeiros labirintos de tamanho faraônico. Cada puzzle, porém, diferente do anterior, ao menos em algum aspecto. E se você não adivinhou ainda, eu vou deixar claro de uma vez: esse anime tem como único propósito mostrar o quão incrível é o protagonista, o colocando para resolver enigmas dos mais complexos que se pode imaginar. E isso é tudo o que eu vou dizer por hora. A partir deste ponto, haverão spoilers pesados para a série como um todo, então, se decidir continuar, esteja avisado.

Começando de verdade a review, agora, acho justo iniciar pelo que o anime diz ser seu ponto central: os puzzles. Agora, antes de mais nada, eu quero que tenham em mente o canal no qual esse anime era exibido: NHK Educational TV, canal voltado para programas de cunho mais intelectual e educativo. Isso quer dizer que Phi Brain é uma enorme brainstorm de complexidade extremamente intelectual? Bom… não. Na verdade, é bem o oposto. Como anime, ele parece claramente direcionado para crianças e adolescentes, tendo em si um estilo assumidamente shounen, só que com puzzles em vez de bolas de energia. Nesse sentido, é possível que os criadores tenham se contido em fazer enigmas extremamente complexos ou difíceis de entender, justamente para não confundir a audiência. Ao mesmo tempo, não existe quase nenhuma explicação de como o enigma é resolvido: via de regra apenas vemos as personagens terem alguma enorme epifania e descobrindo a resposta. Ainda, cheguei a ler alguns comentários de que o site oficial do anime mantinha em si pequenas réplicas dos puzzles do anime, para que qualquer um pudesse ir lá resolver, o que pode também ter tirado das costas da equipe de produção o peso de explicar em detalhes como cada enigma era resolvido: se quer saber, vá no site e resolva você mesmo, é o que parece que aconteceu (embora valha dizer que eu fui checar o site e não consegui achar nenhuma parte de jogos… mas meu japonês não é exatamente lá muito avançado, se é que me entendem…).

Então é, se você é daqueles que espera resolver os enigmas junto dos personagens esse anime pode ser uma pequena decepção na grande maioria dos casos. Até porque muitos dos puzzles são criados justamente para não terem solução, com os personagens encontrando uma pelo puro e simples poder do protagonismo. Não que isso seja ruim, eu deixo claro. Este é o tipo de anime em que o protagonista já é excessivamente bom no que faz. Nesse sentido, a verdadeira diversão está muito mais em como ele sai das situações problemáticas do que se ele vai sair ou não. E nesse quesito, na minha opinião, Phi Brain brilha. Muitas vezes a resolução dos puzzles irá deixar o espectador de queixo caído se você simplesmente se deixar sentar e aproveitar o show, antes de mais nada. Já o segundo episódio nos apresenta uma situação assim, inclusive, embora eu não pretendo entrar em detalhes até para não deixar o texto muito grande. Ponto é: quem gosta de um protagonismo bem executado e divertido esse anime tem grandes chances de agradar.

Tendo isso em conta, é por esses motivos que eu diria que os puzzles não são exatamente o grande foco do anime. Apesar de terem enorme importância para o andar da história, não dá exatamente para dizer que algo que mal é explicado ou explicitado é o foco de qualquer coisa que seja. Não, eu vejo os puzzles, nesse anime, muito mais como ferramentas de roteiro do que como o foco da série. Qual seria o foco, então? Bom, de novo, voltamos àquele problema de que cada uma das temporadas é relativamente independente, com a segundo chegando mesmo a soar como filler, não fosse o fato do anime não ser baseado em nada. Apesar disso, eu acredito que existe um tema central que perpassa toda a obra. E este tema é: o juntar peças. Como um bom quebra-cabeças, o que Phi Brain realmente oferece ao espectador é a perspectiva de ir juntando as diferentes peças, a fim de formar a história que se desenrola. Na primeira temporada, essa premissa é ao mesmo tempo mais aparente e mais obscura, mas eu falarei em mais detalhes depois. A segunda e terceira temporada, porém, deixam isso mais claro, com ambas as temporadas sendo fortemente baseadas em um mal entendido. Dois lados se enfrentam porque compreendem uma situação de formas diferentes. Ao final de cada série, o que descobrimos de fato é que nenhum dos dois lados estava 100% certo ou errado, mas sim que cada um tinha uma peça de um quebra-cabeças maior, que é a situação da qual se recordam. Ademais, nas três temporadas impera a temática do reagrupamento de antigos amigos, mais uma vez remetendo à noção de montar um quebra-cabeças que, em sua origem, possuía uma imagem que o tempo cuidou de fragmentar.

Essa temática da união, ainda, fica aparente quando vemos as implicações dos poderes do Kaito, ainda na primeira temporada. Explicando melhor, ao final do primeiro episódio nosso protagonista recebe a Braçadeira de Orpheus, um artefato místico / mágico / tecnológico (sério, você escolhe, porque a série não faz nenhuma questão de te explicar XD) que amplia as capacidades cerebrais de uma pessoa, permitindo que ela processe informações de forma bem mais rápida e eficiente. Num primeiro momento, isso dá a Kaito o poder de achar saídas onde realmente parece não haver nenhuma, solucionando puzzles que nem deveriam ter solução. Com o tempo, porém, Kaito começa a ter algumas visões. Como nos é explicado depois, o que o personagem está vendo é o futuro, mas não exatamente. Nem tando uma premonição precisa, o que Kaito está vendo é a interpretação que seu cérebro dá para os eventos que estão por vir, tendo por base informações que ele coletou. Em suma, de forma inconsciente o cérebro do protagonista procura analisar, ordenar e interpretar a informação que recebe continuamente, formando uma visão daquilo que possivelmente está para acontecer. Mas essa visão não é estável: novos dados podem modificá-la drasticamente, de forma que novamente vemos aqui expressa a temática da busca por informação e união dos dados.

Daimon Kaito, o protagonista de Phi Brain
Daimon Kaito, o protagonista de Phi Brain

Nesse momento, o leitor já deve ter percebido que esse não é um anime para se levar muito a sério. É, acima de tudo, um programa divertido de assistir, nada mais, mas também nada menos. Exagera bastante no pseudo-cientificismo e tem grande parte de sua sustentação na simples frase “e se?”. Grande exemplo disso é o fato de todas as três organizações que a equipe de personagens principais enfrenta serem capazes de criar super-estruturas imensas e complexas, inclusive em locais abertos (na terceira temporada, por exemplo, temos um imenso puzzle logo atrás das Cataratas do Iguaçu! É, isso mesmo…). Como fazem isso? Só Deus sabe… mas hey, são organizações milenares multimilionárias, seria mesmo impossível para elas fazer algo assim? É isso o que eu quero dizer. O anime caminha (com sucesso, eu arriscaria dizer) naquela fina linha entre o exagero sem sentido e apenas a quantia necessária de informação para que o espectador consiga engolir as coisas que acontecem naquele mundo. O que não é nada ruim, é preciso dizer. Na verdade, em grande parte das vezes a explicação, por mais superficial que seja, basta. “Como puderam criar um labirinto gigante ai?” “Bom, é uma organização mais velha do que as pirâmides do Egito, por que NÃO poderiam ter criador um labirinto ai?” Para ser bem sincero, a questão sobre como conseguiram construir os puzzles enormes só se torna mesmo incômoda na segunda metade da terceira temporada, o que é um feito tremendo, eu diria.

Outra coisa que eu particularmente gostei nesse anime são as diversas referencias que ele joga. Kaito é convidado a resolver um labirinto por alguém que se intitula minotauro. Dentro da Academia Root, onde o Kaito estuda, cinco alunos (os mais brilhantes da escola) possuem um “título”, um epíteto dado com base em algum grande cientista do passado. Assim, o presidente do conselho estudantil, viciado em suco de maçã, tem o título de Newton. Cubic, jovem inventor prodígio, recebe o título de Edson. Ana Gram, grande conhecedor de história da arte e pintor excepcional, recebe o título de Da Vinci. Os únicos títulos que não fazem lá muito sentido são os do próprio Kaito, que recebe o título de Einstein, e o de seu rival, Gammon, que recebe o título de Galileu. Ainda, vale ter em mente que o detentor do título de Newton já havia tentado o labirinto que Kaito iria depois solucionar, tendo fracassado. Einstein superando Newton pode vir a ser uma referencia à passagem da física newtoniana para a física einsteniana. Além disso, a própria braçadeira é uma referencia em si, dado o nome de Braçadeira de Orpheus (embora o próprio anime diga em sua terceira temporada que não existe nenhuma prova de que o Orpheus da mitologia é o responsável pela Braçadeira, podendo tudo ser apenas uma coincidência). Eu poderia ficar aqui citando outras referencias do tipo, mas de um modo geral é um anime que soube empregá-las bem. Se você as deixar passar, ótimo, não afeta em absolutamente nada a sua compreensão da série. Mas se você eventualmente as pegar, talvez lhe surja no rosto um sorrisinho do tipo “ah, eu vi o que você ai ¬u¬ “.

História e personagens jogados num mesmo bojo, o desenvolvimento do anime num geral não é nada de excepcional, embora também não deixe nada a desejar. Como eu mencionei, é claramente para uma audiência cujo único propósito com a série é se divertir. E embora especialmente a segunda e terceira temporada entrem em algumas questões bastante espinhosas (o que é a verdade? Como constituir a verdade? Fatos contraditórios se anulam ou se complementam? Se fosse possível mudar o passado, isso seria certo?), num geral a série não aprofunda em nenhuma delas, sendo uma trama bastante direta e clara. Os personagens vão no mesmo sentido. Eles tem seus momentos e levantam sim alguns pontos interessantes (por exemplo, como você se sentiria se aquilo que você ama fosse usado para matar ou ferir alguém?), mas num geral são seus típicos estereótipos de shounen. O grupo num geral, aliás, recebe relativamente mais desenvolvimento do que as personagens individualmente, conforme esse grupo de super-gênios egocêntricos e arrogantes vai tendo de aprender a trabalhar juntos e a confiarem uns nos outros (de novo, caímos na temática central de Phi Brain: a união daquilo que é fragmentado). Enfim, não é nada de excepcional ou de mindblowing, mas é certamente interessante e divertido se você simplesmente se deixar tragar para esse mundo de exageros.

Eu só deixaria aqui alguns comentários finais sobre a musica nesse anime. Longe de ser um primor, em muitos momentos a musica é totalmente imperceptível. Mas quando ela é, ela definitivamente é. Esse anime tem momentos em que a musica funciona muito bem na cena, o que é relativamente raro de se ver. Logo no primeiro episódio, a musica que toca quando Kaito recebe a Braçadeira de Orpheus já serve para dizer ao expectador que algo grande está por vir, um poder difícil de compreender, mas ainda assim respeitável e admirável. E não que isso seja importante, mas uma coisa que me surpreendeu bastante foi o fato e encontrar uma soundtrack em português brasileiro na série. Ela se chama “Quebra-Cabeça” (sim, esse é o nome original mesmo) e toca somente no segundo episódio, mas ainda assim achei um fato bastante curioso e válido de ser mencionado XD.

No mais, eu apenas retomo o que já disse. Esse anime não se leva muito a sério, então faça-lhe justiça e siga seu exemplo. É sobretudo uma obra para se divertir, para se impressionar com a monumentalidade de alguns locais, bem como com a monumentalidade da inteligência das personagens, capazes de resolver enigmas em que todos nós provavelmente morreríamos em dez minutos (rs). E, em certo sentido, o próprio anime reforça a importância de se divertir no que se faz. Apesar de não ser dito explicitamente, fica claro ao final da terceira temporada que o que faltava à Ratzel, antagonista da temporada, era a capacidade de aproveitar, apreciar e se divertir com os puzzles. Não veja esse anime esperando demais. Apenas… Tente se divertir o/

Imagens: Phi Brain: Kami no Puzzle. Episódio 1 – O Contrato Oculto no Labirinto

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