A importância do final.

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É um preceito básico: toda e qualquer narrativa, em qualquer meio conhecido, deve ter um começo, um meio e um final. Dentro desta estrutura, via de regra o começo é a “introdução”, o ponto de onde partimos. Aqui serão enunciados os pressupostos, explicitado o campo em que vamos nos aventurar. Em uma ficção, é o momento de apresentação dos personagens e do mundo em que estamos entrando. É, de certa forma, a “tese”. Já o meio vem como o espaço para o desenvolvimento. Aqui, são explicitados os conflitos, problemas a serem resolvidos. Em uma ficção, uma vez que sabemos como é o mundo e como são os personagens este é o momento de os confrontar, de colocar à prova tudo o que nos foi apresentado. É, portanto, o momento da “antítese”. Finalmente, chegamos ao final. O final é a conclusão. É o momento de observarmos os resultados dos embates e o que isso trouxe para o mundo e para as personagens. É, assim, a “síntese” de toda a obra. E é, também, o ponto para onde toda narrativa se dirige.

Entrando mais nesse assunto: toda narrativa é teleológica. Ou seja, possui um telos, um fim, um propósito. Digo isso no sentido de que toda narrativa vai sempre em direção ao seu final. Seja o encadeamento de argumentos em um texto científico, seja o desenvolvimento de personagens e da trama em uma ficção, em todos os casos a estrutura narrativa conduz o leitor ou espectador de um ponto inicial A a uma conclusão B. E é justamente por considerar isso que, na minha opinião, o final de um anime é o mais importante. Sendo a síntese de tudo o que foi enunciado, o ponto final onde toda a obra procura chegar, o final possui a capacidade de ser o único responsável por salva ou, mais frequentemente, danar a uma narrativa, seja ela qual for. Mas eu suspeito que dizer apenas seja um tanto quanto vago demais. Assim, para este post eu pretendo dizer duas características que eu considero as mais importantes em um bom final, dando alguns exemplos do que já vi funcionar, ao menos para mim. Então, vamos lá, começando do começo…

Agora, quando eu digo que devemos começar “do começo”, eu digo literalmente. Na minha opinião, o mais importante para o final de uma narrativa é como ela começou. A partir da comparação entre o início e o final é que percebemos esse caráter de síntese do final de uma história. Através de uma série de conflitos, provações e dificuldades, uma personagem chega ao final de uma história. Nesse momento, essa personagem (no mínimo) e talvez todo o mundo da história (no máximo) estão transformados. A mudança enuncia que algo aconteceu. Esse é, na minha opinião, um dos grandes problemas que as pessoas tem com obras que encerram com “era tudo um sonho”. Um final que não demonstra que aqueles acontecimentos teve algum sentido, que tiveram algum propósito, e que como tal termina da exata mesma forma que começou, é extremamente frustrante ao espectador. A lógica aqui é simples: se nem mesmo a própria narrativa se importa com o que aconteceu nela (no sentido de ser impactada por esses eventos), como esperar que o espectador o faça? O final é, portanto, além do momento que percebemos as mudanças que aqueles eventos trouxeram, também o momento em que percebemos o que estas mudanças significaram e como impactaram a obra.

Obviamente, esse impacto em si própria pode variar bastante. Ele pode ser tão simples quanto uma pequena mudança numa personagem, seu crescimento e desenvolvimento em comparação com seu estado inicial. Shounens costumam deixar essa evolução da personagem bem clara, por vezes usando do conhecido clichê de uma personagem que começa fraca (seja “fraca” em termos de força física mesmo, seja “fraca” num sentido mais social, de ser uma pessoa tímida, isolada socialmente ou o que for) e termina visivelmente mais forte. Mas é importante dizer que esse desenvolvimento não precisa, necessariamente, ocorrer com o protagonista da série. Na série Digimon Xros Wars, o protagonista Taiki tem bem pouco desenvolvimento em termos de poder ou personalidade, mas a série compensa isso dando um maior desenvolvimento para grande parte do vasto elenco da série. Já no outro extremo, o impacto pode ser tão vasto quando alterar a todo o universo da série. Mahou Shoujo Madoka Magica é um excelente exemplo disso, mas não vou entrar em detalhes para não dar spoilers para quem não tiver assistido.

Em segundo lugar, eu acredito que um final deve ser conclusivo. Falar isso chega a parecer redundante, considerando que eu mesmo defini o final como sendo a conclusão da narrativa. Infelizmente, porém, ser a conclusão não significa ser conclusivo. O que eu quero dizer com isso é que uma narrativa pode se encerrar (ou seja, chegar a uma conclusão), mas ainda deixar pontos sem explicação. Agora, teria razão quem dissesse que não é tudo que precisa ser minimamente explicado em uma narrativa (bom, a menos que você esteja escrevendo uma tese… nesse caso é bom explicar até o porque da fonte de você ta usando .-.). Entretanto, é preciso que a história se encerre sem que o espectador ou leitor perceba que algo ficou sem explicação. Nesse ponto, Neo Genesis Evangelion é um ótimo exemplo de como um final pode ser a conclusão sem ser conclusivo. Perguntas como o que são os Anjos, o que são Adão e Lilith, de onde eles vem e porque os Anjos e a Raça Humana não podem coexistir são feitas ao longo da série, mas não recebem qualquer explicação dentro da mesma. Quando chegamos ao final, temos uma conclusão para as personagens, sim, mesmo para a situação como um todo, mas essas perguntas que a própria série nos joga são deixadas de lado, de forma que quando a história se encerra fica uma sensação de que “faltou algo”.

Certamente, porém, as obras que mais sofrem com este problema são aquelas que não tem um final de fato. Costume relativamente recente na industria de animes, se tornou comum que alguns animes em cada temporada não tenham um final conclusivo, de forma a deixar aberta a possibilidade de uma nova temporada ou de modo a incentivar o expectador a ir ler o material original. Isso resulta em animes como Magi: The Labyrinth of Magic (e sua continuação, The Kingdon of Magic), Shingeki no Kyojin ou No Game No Life, onde a obra não dá qualquer conclusão para sua trama central, deixando muitos pontos em aberto. Obviamente, isso não é um problema quando de fato é feita uma nova temporada, mas infelizmente esse não é o caso da maioria das obras que se encontram nessa situação. Porém, eu não quero dizer aqui que um final não possa ser deixado em aberto o suficiente para que haja uma nova temporada. Em termos de adaptações, Sword Art Online fez um bom trabalho nesse ponto, parando o anime em um momento em que a história pareceu bastante conclusiva. Kino no Tabi segue na mesma linha, com a trama encerrando de forma bastante aberta, embora também de forma conclusiva. Como eu mencionei, o problema não é não explicar ou não concluir absolutamente tudo: o problema é o espectador perceber que a obra não concluiu tudo e sentir falta das explicações que faltaram.

O final é a última coisa que o expectador ou leitor verá. É aquilo que estará mais fresco na memória daquele que terminou a obra. Como tal, ele certamente terá um peso maior no julgamento da pessoa. Um final insatisfatório causa ao expectador ou leitor a sensação de “perda de tempo”. Isso porque a própria estrutura da narrativa já faz a pessoa assistir ou ler a uma obra esperando o seu final, dedicando seu tempo a observar a evolução de uma dada situação até seu clímax e consequente resolução. Quando essa resolução não resolve nada, a sensação que se tem é a de que a obra vai de “lugar nenhum” a “nenhum lugar”. Justamente por conta disso que um final ruim ou mal executado pode levar má fama para toda a obra, mesmo quando esta é capaz de demonstrar competência em outros aspectos. Já por outro lado, é também justamente pelos motivos descritos que um final pode salvar uma obra. Ao amarrar todas as pontas soltas, mostrar a evolução e o impacto dos eventos, enfim, ao ser um final satisfatório, ele pode passar ao expectador a noção de que valeu a pena acompanhar aquela obra em particular.

Para finalizar, nunca é demais enfatizar o caráter subjetivo de grande parte do que foi dito aqui. Nem sempre o que pareceu inconclusivo para uns o é para outros. Alguns podem considerar inconsistente ou incompleto o que outra pessoa pode pensar como tendo respondido a todas as questões importantes e deixado algumas em aberto a fim de que o expectador pensasse por si só nas respostas. O próprio exemplo que eu dei sobre obras que terminem com “era tudo um sonho” pode ter duas interpretações, com alguns apontando o caráter de não-mudança da situação inicial, enquanto que outros talvez apontem para alguma mudança interna na própria personagem que aquele sonho possa ter trazido. Não existe uma receita de como deve ser um final e o desagradar a alguns é algo bastante normal. Isso também tem relação com a natureza da narrativa. Ao criar no expectador ou leitor a expectativa da conclusão, nem sempre a conclusão que se segue será correspondente a esta expectativa, por mais conclusivo que possa ser o final.

Imagem: Kino no Tabi, episódio 13

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