Review – Shigofumi (Anime)

Shigofumi
Shigofumi

Existem animes que, mesmo depois de algum tempo após o seu final, ainda reaparecem, vez ou outra, na cabeça daqueles que o assistiram. Normalmente, isso parece ocorrer especialmente com obras que tiveram bastante longevidade. Faz sentido: quanto mais longa uma obra, mais chances ela terá de soltar aquele momento em que algo é tão incrível, tão fantástico, que simplesmente fica na cabeça do espectador muito tempo depois dele ter assistido ao evento. Outra possibilidade, porém, é a popularidade que um anime pode alcançar. É difícil não se lembrar de um anime que todos comentam e recomendam, mesmo muito depois de seu final. O anime da review de hoje, porém, não apreciou nenhum dos dois fatores. Tendo apenas 12 episódios mais um OVA (inserido apenas em seu lançamento em DVD), é um anime bastante curto para os padrões gerais. Ao mesmo tempo, não é uma obra que comumente vemos ser comentada, então “popular” certamente não seria a palavra para descrevê-lo. Ainda assim, Shigofumi é, ao menos para mim, um anime que consegue se imprimir na mente de quem o assiste. Por que? Bom, vamos do começo…

Antes de mais nada, convém dar uma breve sinopse da obra. O anime em si foi produzido pelas companhias Bandai e Genco, tendo sido criado por Tomoro Yuzawa e contando com roteiro de Ichiro Okouchi e direção de Tatsu Sato. Nele o espectador acompanha os passos da personagem Fumika, uma carteira bastante diferente do ordinário. Diferente, pois as cartas que Fumika entrega vem do “outro lado”. São, em fato, as últimas palavras daqueles que se foram, endereçadas a quem o falecido desejar. Acompanhada tão somente de seu cajado mágico Kanaka, capaz de falar, Fumika procura tão somente cumprir diligentemente sua função como carteira do outro mundo. Falar mais do que isso, porém, exigirá alguns spoilers, de forma que o leitor mais preocupado com este tipo de coisa talvez prefira parar por aqui. O anime certamente vale a pena assistir, especialmente por se mostrar bem mais profundo do que sua sinopse poderia indicar. Então se você é do tipo que odeia spoilers, vá lá e assista o anime antes de voltar aqui o/

O que há de especial em Shigofumi? Certamente tem uma premissa diferente do usual, mas o que mais para além disso? Bom, na minha opinião, algo que torna esse anime memorável é a forma como a premissa é executada. Verdade seja dita, seria extremamente fácil para este anime se tornar puramente episódico. E, de fato, no começo ele parece ser. Essa sensação se ameniza um pouco com o segundo episódio, uma clara continuação do primeiro. O terceiro, porém, já logo abandona à maioria das personagens anteriores, simplesmente “jogando” nossa protagonista, Fumika, em uma nova missão. Quem assistisse apenas os primeiros episódios certamente não esperaria que qualquer arco desse anime pudesse durar mais do que um ou dois episódios. Apesar disso, Shigofumi subverte essa expectativa. Com o andar da série vai ficando mais e mais clara a existência de uma história maior. A história que conecta as demais histórias é também a história da pessoa que conecta as pessoas. Em suma, a história da carteira, Fumika.

Ao longo do anime, mais e mais do passado da nossa protagonista vai sendo elucidado. E a cada nova informação vem junto um enorme mind blow. Primeiro, descobrimos que todos os carteiros são, na verdade, espíritos, o que já significa que a própria Fumika foi, um dia, humana. Conforme seu passado vai sendo explorado, descobrimos que ela sofria abusos físicos constantes do pai, que havia ido à loucura após ter sido deixado pela esposa. Aprendemos, também, que como mecanismo de defesa a garota Fumika desenvolveu o chamado Transtorno de Personalidades Múltiplas, se dividindo em Fumi, a garota “original”, e Mika, aquela que viria a se tornar a carteira. Finalmente, aprendemos que em uma das seções de abuso de seu pai, Mika toma o controle do corpo de Fumi, pegando uma arma e atirando em seu pai. Ele não chega a falecer, mas a ação em si causa um choque enorme à Fumi, quando esta re-emerge em seu corpo. A garota, assim, cai em um coma profundo. Deste coma, sua personalidade dividida se separa plenamente. Fumi permanece adormecida no hospital, enquanto Mika deixa o corpo em coma para se tornar a carteira do outro mundo. Cumprindo diligentemente sua função, Mika aguarda o dia em que Fumi volte a acordar.

Conforme a história vai se desenvolvendo, assim, a nossa visão da protagonista vai mudando drasticamente. Se assistíssemos apenas aos primeiros episódios, teríamos a impressão de que nossa protagonista não é exatamente importante para a história. De olhar vazio e expressão predominantemente calma, Fumika muitas vezes parece apenas uma “máquina”, um recurso do roteiro para nos apresentar todas as diferentes histórias dos diferentes personagens que recebem uma carta do além. O fato dela ter uma postura não intervencionista, ainda, apenas favorece essa impressão. Ela irá lutar para defender a si própria, mas sua única preocupação real é a de entregar a carta. Não importa o quão terrível possa ser a situação em que o destinatário está, ela não irá intervir mais do que o suficiente para fazer a entrega. No começo, assim, ela aparece para nós, espectadores, como algo que eu gosto de chamar de “encarnação do espectador”: ela apenas observa a história que se desenrola. Logo, porém, ela se torna muito mais do que isso, e quando todo o seu passado é revelado o espectador de fato passa a vê-la como a protagonista da história, uma personagem fundamental que não poderia ser simplesmente substituída por qualquer outra.

História e Protagonista, assim, vão progressivamente se tornando mais complexos e mais profundos do que se dava a entender de início, levando o espectador a reconsiderar muito do que já havia visto a fim de pensar em quais detalhes não poderia ter perdido. Esse processo de repensar sobre a obra é certamente algo difícil de se fazer. E mais difícil ainda de se fazer bem: a partir do momento que o processo se inicia, é certamente muito mais gratificante ao espectador de fato encontrar pequenas pistas que indicavam o caminho que a história tomaria. Isso evita que a introdução de uma história maior em uma obra que aparente ser episódica seja vista como uma mudança brusca de roteiro, não planejada, possivelmente fruto de alguma exigência externa ou do autor não saber o que estava fazendo. Shigofumi, acredito, faz isso bem. Desde o começo diversas pistas são lançadas de que a história é muito mais do que aparenta ser a princípio. Assim, quando de fato a história central do anime se apresenta e se desenvolve, o espectador a encara como o clímax bem construído de algo que já vinha sendo anunciado.

Fumika, a protagonista de Shigofumi
Fumika, a protagonista de Shigofumi

Entretanto, Shigofumi não se destaca apenas na passagem de uma série episódica para uma com uma história que perpasse a série inteira. Individualmente, cada um dos casos isolados de entrega de cartas trata de assuntos bastante sérios, de forma que se destacam bastante ao longo da série. Do bullying ao assassinato, Shigofumi certamente não se restringe em termos de assuntos a abordar. Isso dá à série um clima bastante sombrio em sua maioria, levando o espectador a muitas vezes se perguntar “meu Deus, o que há de errado com esse mundo?!” Mas a série também possui casos menos sombrios, com algumas das cartas sendo enviadas para pessoas queridas do falecido, que procura dar a elas algumas palavras de despedida. Isso resulta em algumas situações que, embora tristes (afinal, a morte nunca é algo feliz), fazem o espectador terminar o episódio com um sorriso no rosto. Dessa forma, as histórias individuais conseguem cobrir um largo escopo de situações e emoções, o que dá a cada uma um certo “brilho” próprio. Isso é relevante de se notar pois a própria premissa da série poderia favorecer o segundo tipo de histórias que mencionei, focadas apenas na resolução de pendencias do falecido e do “final feliz” para o ente querido. Ao fugir dessa opção mais obvia (e, talvez, mesmo mais segura) o anime toma alguns riscos que, felizmente, soube controlar bem.

Tudo isso dito, o que torna o anime tão instigante, na minha opinião, são suas perguntas que ficam na cabeça do espectador quando este termina de assistir a cada episódio. Em muitos casos, quem assistir ao episódio talvez se pegue perguntando, após a carta ser lida pelo destinatário, “bom, por que o morto não disse isso antes de uma vez?”. A segunda pergunta que fica na cabeça, porém, é um tanto quanto mais tétrica: “o que eu escreveria se pudesse mandar uma carta com minhas últimas palavras? E para quem eu enviaria estas palavras?” Quando confrontamos estas duas perguntas, o espectador se vê forçado a perguntar a si mesmo “bom… e por que eu não digo isso antes de morrer?” Fazer esse tipo de pergunta não apenas nos ajuda a compreender e a nos identificarmos com as personagens da história, como ainda nos leva a uma melhor compreensão de nós mesmos e do mundo em que vivemos. Em um dado momento do começo da história, a própria Fumika diz que existem coisas que só podem ser ditas depois de morto. Por que? O que impede que alguma daquelas palavras fossem ditas ainda em vida? Não são perguntas que possuam uma resposta só (até porque, de fato, algumas das cartas entregues possuem palavras que dizem respeito a uma situação muito específica que a vítima sofreu antes de morrer, não tendo tido se quer tempo de contatar alguém), mas que só de serem colocadas já leva o espectador a questionar a si mesmo. E isto certamente tem um grande papel em tornar esse anime memorável para quem o assiste.

Agora, esse certamente não é um anime que todos iriam gostar. Como um todo, ele é bastante lento e muito mais voltado para a emoção do que para a ação. Ainda, quem não gosta da temática de slice of life possivelmente não irá se interessar muito nesse anime, já que ele é majoritariamente isso, apesar da adição de elementos de fantasia. Além disso, o anime certamente toma seu tempo no desenvolvimento das histórias individuais. Mesmo tendo uma trama maior por trás, o anime ainda é essencialmente episódico por uma grande parte de seu tempo, então quem não gosta desse tipo de anime provavelmente terá dificuldades para assistir esse. E, é claro, quem não gosta de animes que abordem temáticas um pouco mais sombrias e “desconfortáveis” possivelmente também será repelido pela obra. Se nada disso for problema para você, porém, esse anime certamente vale a pena conferir.

Imagens: Shigofumi. Episódio 2 – Foguete

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