O princípio da necessidade.

Quando eu estou assistindo alguma coisa ou lendo alguma coisa, eu comumente presto bastante atenção no que estou vendo. Isso porque eu parto do princípio de que qualquer obra é um todo que se fecha em si mesma, no sentido de que cada elemento da obra colabora para o entendimento da mesma em algum outro aspecto. Quase como uma enorme teia, em que cada fio está ligado a outro, assim eu procuro ver os diferentes elementos daquilo que estou assistindo, lendo, ou mesmo ouvindo. Isso normalmente me leva a pensar por que um certo autor escolheu colocar na obra este ou aquele elemento, o que ele quis passar usando daquilo e como aquele elemento se liga ao resto da obra. Infelizmente, diversas vezes eu percebo que um ou outro elemento resolve-se em torno apenas de si mesmo. Como um fio que não se conecta a nada, um caminho que vai de “nenhum lugar” a “lugar nenhum”, quando eu vejo esse tipo de recurso eu só o consigo descrever em uma palavra: inútil. Então… Por que um autor o usaria?

Bom, antes de mais nada, acho melhor eu sair um pouco do campo dos termos vagos e começar a explicar melhor o que eu quero dizer. Pois bem, comecemos do começo. Até hoje, a melhor forma de expressar o que penso quando estou vendo uma história se desenrolar é a noção de forma a serviço do conteúdo. Em suma: a partir do momento que se deseja dizer algo, absolutamente tudo que representa o suporte material dessa ideia (da forma das palavras e como elas são ordenadas até as figuras de linguagem que se vai usar) deve ser usado de forma que exponha, explicite e elucide essa ideia. Em suma, uma vez que um autor faz uma escolha para a obra, eu espero que essa escolha tenha algum significado dentro da obra. Ainda confuso? Bom, vejamos então um dos melhores exemplos de quebra desse conceito: fanservice.

Agora, antes de mais nada, eu quero deixar claro que fanservice não se resume ao ecchi (caso alguém tenha caído de paraquedas no mundo dos animes e mangás e ainda não esteja familiarizado com o termo, “ecchi” se refere a toda e qualquer forma de erotização e sensualização de uma personagem ou situação, desde a personagem simplesmente ter seios grandes até aquelas cenas do vento levantando a saia da garota e por ai vai. Não deve, porém, ser confundido com pornografia, já que o ecchi por natureza nunca envolve sexo explícito). Fazendo um rápido estudo etimológico da palavra “fanservice”, ela surge da junção das palavras inglesas para “fã” e “serviço”. Quando aplicamos o uso desse termo para o mundo do anime e mangá estamos nos referindo a todo e qualquer elemento da história que só existe para agradar aos fãs.

Agora, eu não quero dizer que toda e qualquer forma de fanservice é ruim. Em fato, eu nem quero dizer que exista alguma forma de fanservice ruim. O que existe, porém, é o mau emprego desse recurso. Esse mau emprego, na minha opinião, ocorre quando o autor falha em encaixar o uso do fanservice na narrativa. Quando isso ocorre, o recurso fica “jogado” ali na história, não servindo para nada nem levando a lugar algum. Exemplos disso não faltam, com o já mencionado ecchi sendo o mais obvio deles. Raramente servindo para qualquer coisa na obra, na enorme maioria dos casos a obra não perderia nada se este recurso fosse retirado. Se o leitor duvida, faça exatamente este exercício. Pense no último anime ecchi ou com ecchi que você viu, para em seguida pensar em como ele seria se todo esse conteúdo erotizado fosse retirado. O que mudaria para a história? O que mudaria na construção da personalidade das personagens? O que mudaria na compreensão do mundo em que a história se desenrola? Se a resposta for “nada” então ai está o que eu queria dizer: um fio narrativo solto, que não se liga a nada.

Eu não vou me estender no argumento do ecchi porque se você conhece um mínimo de anime e mangá, se está minimamente inserido nesse meio, é quase certo que você já teve contato com diversas discussões em cima do tema, amado por uns e odiado por outros. Mas existem outras formas de fanservice que podem parecer igualmente “jogadas” na obra. Uma outra que eu poderia citar seria o gore (em suma, violência exacerbada, normalmente incluindo enorme derramamento de sangue, mutilações, desmembramentos e… é, bom, acho que já deu pra entender). Novamente, via de regra este recurso poderia ser facilmente “podado” de uma obra sem que absolutamente nada nela se perdesse em termos de história ou desenvolvimento. Em fato, isso tanto é verdade que um dos animes mais recentes, TerraFormars, fez exatamente isso. Contendo enorme quantia de violência explícita, a versão para a televisão foi inteiramente censurada, com enormes tarjas pretas cobrindo qualquer sinal de sangue.

Mas também existem formas menos gerais ou genéricas de fanservice. Uma delas, por exemplo, é peculiar a franquias que tenham várias séries diferentes: trazer, para uma participação especial na série atual, um personagem da série anterior. Digimon Xros Wars Hunters é o perfeito exemplo desse recurso sendo mal utilizado. Quando chegamos nos episódios finais, todos os líderes das séries anteriores de Digimon aparecem. Estes desferem alguns socos, tem umas sequências de evolução e depois… desaparecem. Em casos assim, fica bastante evidente o que eu já mencionei ao longo do texto. Qual era a necessidade disso? Que função estes personagens cumpriram para o entendimento da obra como um todo, ou ao menos de algum outro aspecto dela? Difícil dizer.

Agora, vale lembrar que o problema da falta de necessidade de um elemento da obra não se resume ao fanservice. Um bom exemplo de outras formas de quebra desse princípio que enunciei estaria no uso exacerbado de simbolismos. Notadamente, Neo Genesis Evangelion é talvez o melhor exemplo de como não empregar esse recurso. Fosse todo o simbolismo religioso retirado da obra, dos nomes referenciais a personagens bíblicos até as explosões em forma de cruz, no que se alteraria a compreensão da obra? Bom, considerando que é de conhecimento comum que mesmo o autor já disse que esse simbolismo não cumpre qualquer função na obra, e portanto nunca houve intenção de o trabalhar enquanto simbolismo religioso, a verdade é que a compreensão do anime ficaria melhor sem eles. Neste caso, não apenas o recurso é completamente inútil como ainda atrapalha o entendimento daquilo que a obra tenta passar.

Obviamente, é importante frisar que eu não tenho nada contra esses recursos em si. Animes de comédia, notadamente, são bastante capazes de aplicar ao ecchi de forma que este seja um veículo para uma piada, cumprindo assim alguma função na obra. O gore pode ser usado para criar uma situação de terror e tensão, deixando claro ao espectador o quão ameaçadora é a situação. O simbolismo bem empregado pode dar um nível a mais de compreensão das mensagens da obra, auxiliando no entendimento da mesma. Não, não se trata de não usar destes recursos ou mesmo de usar com moderação. Na minha opinião, o que é preciso é usar com sabedoria, sabendo amarrar estes recursos a trama como um todo, dando algum propósito ao recurso, seja na elucidação da história, das personagens ou do mundo.

Feitas estas considerações, agora vale a pena perguntar por que estes recursos são tão largamente utilizados. O problema é que a resposta é certamente mais complexa do que alguns gostam de fazer parecer. Responder a perguntas como “que tipo de sociedade sentiria a necessidade de se expor sexualmente em suas obras artísticas?” (como no caso do ecchi), ou “por que as pessoas sentem tamanha atração pela desgraça alheia?” (como no caso do gore), ou mesmo “o que causa o sentimento de nostalgia?” (para o caso da retomada de personagens antigos), possivelmente ajudariam a entender melhor como surgem e por que se popularizam estes recursos, com cada uma dessas perguntas podendo facilmente resultar em alguma tese de antropologia, sociologia ou psicologia. Mas, apesar disso, existe uma resposta que é capaz de dar conta de explicar praticamente todos estes recursos narrativos: porque vende.

Apesar de ser complicado dizer como e porque um recurso narrativo surge, sua manutenção está certamente ligada a seu sucesso. É, inclusive, o mesmo princípio que orienta os clichês: são fórmulas já consagradas que se provaram capazes de atrair e segurar o público, sendo normalmente vistas como garantia de retorno financeiro. O resultado disso é que muitos autores parecem tentar adicionar este tipo de conteúdo em suas obras como forma de tentar aumentar as vendas de seu produto, mesmo quando a obra em si tem pouco ou nenhum espaço para o conteúdo que o autor quer adicionar, resultando assim exatamente no que eu já mencionei: um recurso narrativo que se fecha em si mesmo. Forma a serviço puramente da própria forma. Agora… isso é algo ruim?

Quem leu o post até agora pode achar a pergunta praticamente retórica, mas não é exatamente assim tão simples. É, pessoalmente eu não gosto desse tipo de recurso e parto do principio de que se algo é inútil não deveria estar ali para começo de conversa. Mas essa é uma visão bastante simplista que considera puramente a obra em si. Como sabemos, nenhuma obra é produzida num vácuo, mas é antes feita por alguém, em uma dada sociedade, visando atingir um dado objetivo. No caso do anime e mangá, o objetivo primeiro é o da venda. Não importa o quão fantástica seja uma obra, se ela não for capaz de ser vendida ela dificilmente irá durar. Então… é condenável que um artista use de todos os recursos que puder para garantir a continuidade de sua obra, mesmo quando alguns destes recursos pudessem ser completamente dispensáveis? Não sei, e ai está um bom tema para uma publicação futura do blog. No momento, porém, deixo o leitor com a reflexão.

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