Review – K-On! (Anime)

K-On!
K-On!

Para aqueles que não conhecem, K-On! é um mangá yonkoma (ou seja, um mangá em tirinhas de quatro quadrinhos) escrito e ilustrado por Kakifly e originalmente publicado na revista seinen Manga Time Kirara entre os anos de 2007 e 2010. No Brasil, a editora New Pop foi a responsável pela publicação dos seis volumes do manga, sendo quatro deles a série “principal” e dois deles “spin-offs” contando histórias que ocorrem após o final da série original. Os mangás são todos de ótima qualidade e bastante recomendados para quem gosta de comédia e moe. Mas o que eu quero falar aqui não é sobre o mangá, mas sim sobre sua adaptação para anime. Com uma primeira temporada de 13 episódios em 2009, mais uma segunda temporada de 26 episódios em 2010, além de alguns OVAs curtos e um filme, K-On! é possivelmente aquele tipo de anime todos que gostam de anime e mangá ao menos já ouviram falar, tenham assistido ou não e gostem ou não.

Sem dar qualquer spoiler maior, a trama de K-On! se resolve em torno do clube de musica leve do colégio para meninas Sakuragoaka. Com o clube às moscas e prestes a ser declarado fechado por falta de membros, Ritsu e Mio decidem se inscrever para o clube e dar a ele um novo começo. Entretanto, elas precisam conseguir pelo menos mais dois membros para o clube ser oficializado, e é ai que entram as duas outras meninas, Tsumugi e Yui. Juntas, as garotas montam a sua própria banda e tocam em diversos eventos escolares. E… é isso. Não há qualquer trama ou projeto maior por trás, é simplesmente o dia a dia dessas quatro garotas na escola, conversando e tocando algumas músicas. Então… o que há por trás desse anime para que ele entre no rol daquelas obras tão famosas que todos pelo menos já ouviram falar? Bom, na minha opinião, a resposta está ligada aos dois principais elementos da história: o seu caráter de slice of life e o seu elemento de comédia.

Agora, eu preciso deixar claro que eu não sou nenhum especialista em slice of life. Na verdade, é um gênero que me chama bem pouca atenção, pura e simplesmente por gosto pessoal. Mas eu não tenho o menor receio em dizer que K-On! é um anime que aplica com bastante maestria o seu elemento de slice of life em seu sentido mais puro. O que eu quero dizer com isso? Bom, para qualquer um que eventualmente não saiba, o termo “slice of life” se traduziria literalmente por “recorte da vida”. Animes desse gênero são exatamente isso: um pequeno recorte da vida de um personagem. Claro, poderiamos argumentar que todo e qualquer anime faz exatamente isso, mas o slice of life é um gênero que se concentra em obras de cunho mais “realista”, ou seja, em obras cujo cenário seja o mundo real. Assim, em tese o que acompanhamos em um slice of life é a vida cotidiana de alguém como eu ou você. O problema, a meu ver, está com esse “em tese”.

Deixe-me por desta forma: é muito fácil para uma obra se deixar levar para o extraordinário. Na minha opinião, isso ocorre porque este é o estado natural de uma “boa história”, naquele sentido que muitos de nós usamos quando vamos contar algum evento para uma roda de amigos. Ao contarmos histórias, nenhum de nós fala sobre como se levantou da cama, escovou os dentes e foi para a aula. Contamos histórias sobre aquele cara estranho que gritava coisas incompreensíveis na praça, ou sobre aquele carro que quase te atropelou ao passar no farol vermelho, ou mesmo sobre aquele grande cataclismo que aconteceu em algum outro lugar do mundo. Contamos histórias sobre o extraordinário, o incomum, o surpreendente. E fazemos isso porque, para a maioria de nós, o mundano é… chato. Não necessariamente num sentido negativo, mas num sentido de ser apenas “mais do mesmo”. Sabemos como começa, sabemos como termina. Vivemos nosso dia a dia mundano milhares de vezes e o viveremos outras milhares ainda. Então quando uma história, em qualquer mídia que seja, se propõe a contar uma trama que teria algum caráter de “o dia a dia de uma pessoa” é muito fácil cair no extraordinário, a fim de garantir que não seja tedioso. Assim surgem histórias sobre amores impossíveis, sobre grandes heróis de guerra ou aquelas produções “baseadas em uma história verídica” que contam a vida de alguém que, em fato, só ganhou uma produção sobre por ter sido uma vida marcada pela excepcionalidade.

Não me entendam mal, eu não estou dizendo que isso é ruim. Algumas vidas são mesmo tão excepcionais que merecem um filme a respeito, até para que sirva como mensagem de que dadas as circunstâncias corretas qualquer um pode ter uma vida excepcional. Ao mesmo tempo, a ficção muito se beneficiou desse conceito, criando obras fantásticas especialmente na área do drama. Mas, honestamente, são bem poucas as obras que eu já tenha visto que de fato mostram o “dia a dia” de uma pessoa comum. Não alguém que estava no lugar certo e na hora certa. Não algum multimilionário e de como ele veio a ser, nem a de algum pé rapado que conseguiu ascender socialmente. Apenas alguém comum, alguém com quem a enorme maioria de nós poderia se identificar com facilidade. Alguém… “chato”, que possa nos dar aquele sensação de “é… isso é bem assim mesmo” ao invés de “mas nem em um milhão de anos que isso ia acontecer”. E, arrisco dizer, ainda menos obras conseguem fazer isso e ainda fazer com que nos importemos com esse personagem, dada a nossa tendência a procurar em uma história justamente o extraordinário.

K-On! faz isso de forma perfeita? Bom, não. Mas definitivamente está tentando. A história não é sobre algum grupo de meninas que por acaso terminam como idols, nem sobre algum triângulo amoroso impossível. É tão somente sobre um grupo de amigas e como elas interagem umas com as outras. Desse ponto de vista, a história é, mesmo, “chata”. “Chata”, pois já a vimos um milhão de vezes em nosso próprio cotidiano. Mesmo aqueles já formados certamente se lembrarão da rotina escolar a cada vez que as personagens são mostradas caminhando até a escola. Igualmente, dificilmente não se lembrarão das rodas de conversa entre amigos a cada vez que veem as meninas tomando chá e conversando umas com as outras. Sim, o anime cai muitas vezes na excepcionalidade, especialmente quando a figura da Tsumugi entra em cena. Filha de uma família rica, a garota é capaz de reservar grandes pousadas em regiões remotas das grandes cidades, além de alguns outros exageros. Mas é curioso como esses exageros são usados com sabedoria. Ao final e quando paramos para pensar, os poucos momentos em que a trama toma ares “irreais” nos remetem exatamente aos momentos mais surreais de nossas vidas, àqueles momentos que nós mesmos reservamos na mente para contar aos nossos amigos e familiares. Mesmo que não tenhamos um “amigo rico” em nossa roda, ainda provavelmente temos alguma coisa que nos faz ver esses exageros do anime não como “isso nunca iria acontecer”, mas sim como “isso é tão improvável… Mas é, bem que pode rolar”.

A própria personalidade das garotas ajuda nesse clima de “realidade”. Uma coisa que tem me incomodado um pouco nos animes, especialmente nos animes assumidamente shonen, é o quanto se usa do recurso de “trauma passado” para explicar a personalidade de uma personagem. Via de regra, qualquer maneirismo ou medo que uma personagem tenha, os animes parecem fazer questão de colocar um flashback sobre algum momento dez anos atrás em que a pessoa teve a mãe atropelada ou caiu num ninho de vespas ou qualquer coisa parecida. E embora faça bastante sentido, normalmente, este é um recurso que, ao menos para mim, está se tornando saturado. Isso porque nem todos nós temos grandes traumas do passado ou passamos por experiências traumáticas ou problemáticas. Muitos de nós temos, sim, nossas personalidades, maneirismos e “toques”, mas não necessariamente por algum grande trauma. Neste sentido, K-On! tem uma abordagem que eu consideraria muito mais interessante. Cada uma das quatro garotas tem a sua própria personalidade, mas muito pouco é dado sobre o passado de cada uma. Isso porque o passado delas não é essencialmente diferente de seu presente. Quando necessário, ele surge, sim. Mas surge de uma forma espontânea. Surge quando duas personagens explicam como se conheceram, por exemplo. Ou, mesmo, surge sim quando alguma delas apresenta algum trauma. Mas esse passado não é parte necessariamente integrante, nem único elemento definitivo, da personalidade das personagens como um todo. A maioria delas é como é simplesmente porque… sim.

Agora, de forma alguma eu quero insinuar que as garotas de K-On! são um primor em termos de complexidade de personalidade. De fato, elas são extremamente estereotípicas e comuns. Ritsu é a sua típica tomboy que gosta de azucrinar. Mio é a típica garota envergonhada e tímida. Tsumugi é aquela garota rica que nunca conheceu o mundo comum, e justamente por isso se maravilha com absolutamente tudo. Finalmente, nossa protagonista, a Yui, é a típica cabeça de vento bem humorada. São personalidades bastante simples, mas que talvez justamente por isso funcionem tão bem. Quantos de nós não conseguiríamos listar o palhaço da classe, ou aquele amigo que é mais tímido e reservado, ou mesmo aquele mais extrovertido? Em fato, não é por acaso que vira e meche surge no facebook aquelas imagens com o título “toda sala tem…”, seguida por uma enorme lista de estereótipos. Como humanos, tendemos a classificar as coisas e as pessoas e não é exatamente com frequência que paramos para pensar o quão psicologicamente complexa é uma dada pessoa. O exato mesmo pode ser dito das garotas em K-On!: nós até sabemos e temos pequenos indícios de que elas tem uma personalidade mais complexa do que apenas o que apresentam para nós, mas simplesmente nos atemos à imagem que elas nos passam, assim como nos atemos à imagens que nossos amigos nos passam, seja essa imagem a de “calmo”, “brigão” ou “cabeça de vento”. Ao final do dia, essa personalidade mais “simples”, ao meu ver, é o que permite que você se importe com essas personagens da mesma forma que se importa com um amigo. E em um tipo de história que é basicamente episódica, se importar com as personagens a esse nível é sem dúvida muito importante.

Hirasawa Yui, a protagonista de K-On!
Hirasawa Yui, a protagonista de K-On!

Mas falemos um pouco da comédia em K-On!. Ou melhor, falemos sobre a não comédia. Isso porque K-On! tem uma característica bem interessante enquanto anime de comédia: um bom balanceamento entre cenas engraçadas e cenas sérias. Obviamente, isso não é nenhuma inovação do anime. Balanços do tipo já foram feitos antes e continuaram a ser feitos depois. Mas não deixa de ser uma escolha importante que os produtores do anime fizeram, especialmente se considerarmos o quão fácil seria simplesmente colocar uma piada atrás da outra (digo, a obra original, um mangá em tirinhas, é essencialmente isso, uma piada a cada quatro quadrinhos, literalmente). E digo que foi uma decisão importante especialmente por conta do contraste que podemos traçar entre K-On! e outros animes de comédia e vida escolar, como Luck Star. Comparativamente, Luck Star tem muita piada.

Agora, antes que você, leitor, escreva-me um comentário raivoso sobre o quão idiota é criticar que um anime de comédia tem muita… bom, comédia, deixe-me dizer o seguinte: você está absolutamente certo. Animes como Luck Star, Nichijou ou Sabagebu nos prometem uma obra de comédia incessante e nos entregam exatamente isso. Não há absolutamente nada de fundamentalmente errado com essa fórmula. Entretanto, uma obra assim cria uma relação muito diferente entre as personagens e o expectador. Em obras como Luck Star, as personagens são veículo para a piada. A própria existência delas é dependente delas servirem para fazer uma piada. Neste sentido, nós enquanto expectadores acabamos vendo-as muito mais como “objetos” ou como “recurso de roteiro”. Assistimos já esperando delas uma piada. Em animes como K-On, porém, a situação é diferente. A presença de um balanço entre momentos engraçados e sérios nos faz ver aquelas personagens muito mais como “pessoas”. Nos é dado tempo para aprender mais sobre elas, para nos familiarizarmos com elas e para entendermos quando estão tristes, alegres ou o que for. Entre as piadas, existe um momento para o expectador parar, respirar e assimilar o que acabou de ver. Diferente de animes como Luck Star, onde não há pausa: quando uma piada se encerra, o expectador entra imediatamente na expectativa de uma nova. Neste sentido, se das personagens de Luck Star nós esperamos uma piada, das de K-On! nós tão somente esperamos que se comportem como seres humanos.

Mas não é apenas este balancear que torna a comédia em K-On! algo que serve à história, ao invés de ser o próprio propósito de ser da história. Outro elemento muito importante é o quão “inocentes” as piadas parecem ser. “Inocente”, aqui, no sentido de “espontâneo”, de “não planejado”. Sabe quando você está em uma roda de amigos e alguém simplesmente solta um comentário engraçado no momento certo, sem qualquer planejamento prévio? Em certo sentido é mais ou menos assim que as piadas de K-On! aparecem para o expectador. Ao contrário de serem personagens que fazem coisas engraçadas obviamente com o intuito de fazer o expectador rir, as personagens em K-On! simplesmente levam suas vidas, conversam entre si, trocam brincadeiras e bobagens e, em meio a esta conversa, riem e fazem o expectador rir. Isso é extremamente difícil de ser fazer. Fazer algo planejado parecer não planejado é um problema bem difícil de resolver, e mais difícil ainda em uma obra em que o planejamento é obvio (digo, é um anime, houve produção de roteiro, animação, dublagem, e tudo isso fica escancarado para o espectador), mas é onde K-On! acerta com maestria. Ao invés de parecer que há um claro script do que dizer, parece que alguém disse a estas quatro meninas “hey, vão lá e façam o que quiserem”.

Por que essa ingenuidade, essa espontaneidade, é algo relevante, você pergunta? Bom, para entender isso basta pensar nos primeiros parágrafos deste texto. Todo o anime foi construído de forma a parecer natural. De forma a parecer um grupo de amigas em suas vidas diárias em ambos os seus aspectos, o do mundano e o do excepcional. Uma comédia executada da forma que o foi é, em grande medida, a “cereja do bolo” da obra. Partindo de uma premissa simples, K-On! nos entrega uma história simples com personagens simples fazendo coisas simples. É chato exatamente como a rotina da vida pode ser, além de tão episódico quanto. Mas, ao mesmo tempo, é tão extraordinário quanto a vida pode ser. Com seus pequenos “draminhas”, sua comédia despropositada e sua premissa de ser nada mais e nada menos do que a interação dentre quatro pessoas comuns, K-On! apela para o expectador em um sentido talvez mais profundo do que os próprios criadores planejaram. Ao final, quando a série termina, não parece que estamos terminando de assistir a um episódio, mas sim que estamos nos despedindo de um grupo de amigos de longa data, com os quais compartilhamos momentos felizes, momentos dramáticos, e, por que não, momentos bobos.

Eu não quero, de forma alguma, implicar que K-On! é uma obra perfeita ou a melhor coisa já feita no Japão. Muito menos quero implicar que é uma obra que vá agradar a todos. É ainda um slice of life sobre garotas tomando chá no clube de musica do colégio, não tem como fugir muito disso. Como tudo que existe no mundo, vai agradar a uns, desagradar a outros e passar completamente em branco para ainda outros tantos. Mas se você estiver procurando um anime mais “bobinho”, algo que você possa simplesmente sentar, relaxar e deixar a trama se desenrolar, algo para rir, mas também para respirar quando necessário, essa é uma obra que certamente vale a pena dar uma olhada, nem que seja para decidir se faz ou não o seu estilo.

Imagens: K-On, Episódio 1, “Clube Abolido”.

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2 comentários sobre “Review – K-On! (Anime)

  1. Eu achei essa série uma perda de tempo da porra, eu sei que a idéia de um slyce of life é fazer uma história leve e com uma história menos ambicios mas em K-ON é foda não tem nada e incrível ele criam uma série sem nem um propósito o que dá pra perceber e que eles tentam compensar esse vazio com fanservice moe, o pior é que foi uma fórmula de sucesso comercial e se tornou uma referência quase obrigatória pro gênero. Explanação brilhante aproposito

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    • Hum, não vejo como “perda de tempo”. Ninguém tentou compensar nada, a proposta do anime desde o começo foi mostrar o dia a dia de quatro amigas, mais nada. Não é diferente de outros tantos slyce of lifes por ai que também não são movidos por nenhum grande plot maior ^^

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