Qual a função de um vilão?

Toda história tem o seu Herói. Aquele que deixa o mundo mundano para ingressar no ciclo da Jornada do Herói descrito por Campbell. O personagem por cujo olhos vemos aquele mundo e aquela situação se desdobrar. Ele é aquele cujos valores e ações servirão de modelo, seja daquilo que é certo, seja daquilo que deve ser evitado. Em uma palavra: o protagonista. Porém, toda história tem o seu polo oposto. Aquele ou aquilo que antagoniza o herói. Normalmente, chamamos a esse personagem de “Vilão”, dai o uso to termo no título deste post. Mas nem sempre é assim: dado o forte tom negativo da palavra, muitos preferem o termos “antagonista”, mais abrangente por permitir incluir em si personagens que não são necessariamente maus, mas sim que apenas estão contra o protagonista pelas mais variadas razões. Para mim, porém, tanto o Vilão quanto o Antagonista poderiam ser vistos como partes distintas de um todo maior. Em uma palavra, e tomando aqui, com certa liberdade, uma das etapas da Jornada do Herói para definir este “todo”: a Provação, ou o Obstáculo. Em suma, o impedimento do Herói conseguir, de imediato, aquilo que precisa conseguir, esteja este impedimento personificado (sendo uma personagem) ou não (sendo uma situação).

O que eu pretendo fazer no o post dessa semana, e aproveitando a proximidade do Halloween, é imergir um pouco nesse polo oposto ao Herói: a sua Provação. Para tanto, pensei em uma divisão desta Provação em quatro categorias menores, as quais explicitarei ao longo do texto. A divisão, por sua vez, foi pensada tomando por base a função que esta Provação tem na obra. Embora, via de regra, toda Provação seja exatamente isso, um obstáculo que o Herói deve ultrapassar a fim de obter o que Campbell chamara de “Elixir” (isto é, a recompensa no final da Jornada), especialmente nas histórias modernas foi bastante abandonado o principio de uma provação apenas pela provação. O inimigo a ser vencido, o obstáculo a ser superado, hoje, mais explicitamente do que nunca, talvez, já não é mais um fim em si, mas antes tem um propósito maior na obra e para fora dela, o qual, espero, este texto cuidará de explicitar. Assim, e sem mais delongas, vamos começar a falar dessas categorias /o/

Começando por uma que talvez seja abrangente até demais, mas ainda assim restrita o bastante para definir algo (espero…), eu chamaria esta primeira categoria de Forças da Natureza. Os filmes de Hollywood sempre souberam aplicar bem essa categoria. São os grandes desastres naturais, os grandes furacões, vulcões, maremotos e outros semelhantes. Porém, na minha opinião, não são apenas isso. Se eu precisasse definir explicitamente o que eu encaixaria nessa categoria, eu diria que nela se poderia enquadrar todo e qualquer personagem, situação ou evento cujas ações não possuem fim para além de si próprias, de forma que são Provações que agem por puro instinto (ou, para melhor dizer, de acordo puramente com a sua natureza). No mundo dos animes, um bom exemplo seriam os Titãs de Shingeki no Kyojin (Attack on Titan). Desprovidos em sua maioria de qualquer capacidade de raciocínio profunda, estes titãs apenas seguem seu mais básico instinto: devorar aos seres humanos. Não existe qualquer propósito nas ações individuais de cada um destes titãs para além disto. Outro exemplo, ainda, poderia incluir ao D-Reaper, inimigo final do anime Digimon Tamers (Digimon 3, aqui no Brasil). Sendo originalmente um anti-vírus criado para deletar tudo o que considerasse como “excedente”, quando ele evolui em poder e ultrapassa do Mundo Digital para o Mundo Real ele apenas continua seguindo a sua programação inicial.

Qual seria a função deste tipo de Provação? Bom, na minha opinião, este tipo de obstáculo tem uma função especialmente externa à obra. Ele serve para mostrar ao leitor, espectador ou ouvinte o quão devastadora a força da natureza pode ser, bem como o quão insignificante é o ser humano perante este tipo de força. Não por acaso, em muitas das obras que se utilizam deste tipo de Provação o desejo máximo do Herói é tão somente permanecer vivo. Do mundo apocalíptico de “2012” até cenários como os de “Silent Hill” ou “The Walking Dead”, o Protagonista deseja, tão somente, ficar vivo. O que não significa, claro, que não existam obras em que esta força da natureza e do instinto é combatida diretamente. O próprio Shingeki no Kyojin demonstra isso, com as personagens procurando vencer aos titãs. Mas, mesmo em casos assim, a busca final, aquilo que move ao Herói da trama, ainda é pela pura sobrevivência.

A segunda categoria, por sua vez, também é bastante ampla. Entretanto, se a anterior abria margem para a inclusão de situações ou eventos, esta irá se restringir a personificações. Trata-se, assim, da figura do Opositor. E aqui eu me refiro a todo personagem que, agindo por um justo motivo, se coloca em conflito com os ideais do Herói. Entretanto, por “justo motivo” eu não me refiro a um motivo que pareça justo somente aos olhos do Opositor. Não, este motivo deve parecer justo mesmo aos olhos do leitor. Ainda que as ações do Opositor possam ou não serem condenadas, seus motivos devem aparentar algum grau de justiça. Exemplo extremo poderia ser o do personagem L, de Death Note. Ou, ainda, os Adultos em Shinsekai Yori, cujos motivos para agir vão se tornando mais e mais compreensíveis conforme o andar da série. Ou, também, a figura já arquetípica do “Rival”, especialmente em animes de esportes.

Para este tipo de personagem, eu diria que também aqui eles exercem uma função externa à história. No meu entender, este tipo de personagem existe para que se crie, no público, a dúvida. Quem está certo? Quem está errado? Ou mesmo o que é o “certo” ou o que é o “errado”? Excelente exemplo fica para [C]: Control, onde exatamente esta questão é levantada ao final da série. Ou, ainda, para Saki, onde cada uma das adversárias do quinteto principal possui suas próprias motivações e desejos para agir que são, em sua maioria, bastante compreensíveis. Assim, a figura do Opositor quebra com a noção de um mundo maniqueísta, onde tudo é certo ou errado e não existe qualquer possibilidade de meio termo. Por meio desses personagens, somos capazes de observar como o ser humano é capaz de tomar os caminhos errados mesmo quando suas intenção são justas. Bem como podemos entender que cada um luta por seus próprios ideais e que aqueles que estão contra nós podem ter motivos tão compreensíveis para agir quanto nós acreditamos que os nossos são.

A terceira categoria, por sua vez, é o completo oposto disso. Se a figura do Opositor procura incutir no público a dúvida de quem está certo, esta figura procura simplificar as coisas ao máximo, tirando do expectador qualquer margem de dúvida. Trata-se da figura da Encarnação do Mal, talvez a mais básica personificação da noção de Provação. Aqui, temos um personagem cujas motivações, apesar de existentes (o que já o diferencia da figura da Força da Natureza: ele não age por puro instinto, suas atitudes possuem um telos, uma finalidade para além de si próprias), são muitas vezes coisas tão básicas e vagas quanto o “domínio mundial” ou o “poder”. Figura constante nos contos de fadas e nos primeiros filmes da Disney, o mundo dos animes e mangás ainda vê surgir esta figura uma vez ou outra, especialmente em obras voltadas para o publico infantil. Neste quesito, grande parte dos vilões da série Digimon Adventure são Encarnações do Mal, tendo suas ações motivadas apenas por um desejo de poder.

Entretanto, o que me parece mais característico deste tipo de personagem (isto é, aquilo que mais o diferencia das categorias anteriores) é sua função, esta muito mais interna à obra. Estes personagens normalmente funcionam como os grandes “chefões” dos vídeo games: são barreiras a serem quebradas. Via de regra, a Encarnação do Mal já aparece como um personagem em um nível de poder bastante acima do Herói. Neste sentido, ele estabelece um objetivo ao Herói: obter o poder necessário para deter o seu adversário. É, portanto, a figura que motiva o crescimento do Herói. É o Freeza, cujas ações fizeram Goku avançar a Super Sayajin. Ou Myotismon, cujos atos motivaram os digimons das crianças escolhidas a evoluírem para o estágio Perfeito (e, depois, o Final). Tal e qual um jogador vai melhorando suas habilidades a cada novo “boss” mais difícil, assim funcionam estes personagens.

E chegamos, assim, à quarta e última das categorias que proponho: o Vilão. E aqui nós temos aqueles personagens que levam este termo com bastante mérito. Eles são vis, personagens cujas ações e motivações seriam classificadas pelo leitor como completamente inadequadas. São, também, patéticos, no sentido latino da palavra: são queles que despertam o “pathos“, a fúria e a raiva do expectador. Grande exemplo poderia vir das obras de Reki Kawahara, Sword Art Online e Accew World, mas também o mundo ocidental já viu surgirem diversos personagens do tipo, exemplo mais recente estando em Game of Thrones.

Movidos normalmente por um desejo egoísta (a ganância ou o orgulho sendo talvez os elementos mais recorrentes nestes personagens), muitas vezes eles se quer possuem uma força real maior do que o Herói, usando de artimanhas ou trapaças que muitas vezes só servem para indignar ainda mais ao público (exemplo de Sugou em Sword Art Online, cujo poder vem tão somente de seu status como Game Master, não de qualquer habilidade real). Sendo assim, possuem na história uma função bastante clara: destacar, por oposição, o quão positivos são os valores do Herói, além de provocar no público uma sensação de satisfação ao verem a derrota metafórica de todas as características humanas que consideram desprezíveis.

E ai estão, as quatro categorias que, acredito, qualquer “vilão” (agora retomando, brevemente, o sentido popular do termo) pode se encaixar, bem como as diferentes funções que ele cumpre, tanto dentro da obra quanto para fora dela. É importante dizer, porém, que estas categorias talvez sejam mais fluidas do que podem parecer. A própria distinção entre as categorias de Opositor e Vilão é embasada tão somente na emoção que cada um desperta, de forma que talvez seja uma divisa um tanto quanto subjetiva. Ainda, é perfeitamente possível que um antagonista transite entre essas categorias. O caso do Vegeta em Dragonball é interessante por isso: começando como uma clara Encarnação do Mal, o personagem avança até se tornar um Rival, figura que eu coloquei como representativa da categoria de Opositor. Apesar disso, acredito que estas categorias são suficientemente bem estabelecidas para que sejam ao menos defendidas, além de me parecerem úteis no mínimo para entender principalmente o que o autor tentou passar ao usar deste ou daquele tipo de Provação.

Por fim, e como palavras de encerramento deste post, eu gostaria de dizer brevemente por que eu preferi usar o termo Provação no lugar de Antagonista, ou por que considero que o “Antagonista” seria uma parte do todo “Provação”. Basicamente, isto se deve ao fato da própria palavra “antagonista” implicar em si uma personificação. Isso, porém, nem sempre ocorre em uma obra. Diversas histórias não possuem qualquer personagem que sirva de obstáculo ao protagonista, mas sim situações ou eventos que cumprem este papel. Assim, ainda que as categorias de Opositor, Encarnação do Mal e Vilão certamente se encaixariam na categoria mais ampla de “Antagonista”, nem todos os obstáculos descritos na categoria Forças da Natureza o faria, motivo pelo qual julguei necessário um termo que pudesse ser mais abrangente.

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