Qualidade importa?

Há pouco tempo atrás eu havia feito um post sobre se podemos comparar animes. Neste post, um dos pontos que eu tentei fazer foi o de que para comparar duas obras, e chegar à conclusão de que uma delas é melhor do que a outra, precisaríamos ter critérios objetivos para decidir sobre a qualidade de ambas. O que, argumentei, nós temos. Desenvolvimento de personagem, desenvolvimento da história, consistência na personalidade das personagens, ausência de furos de roteiro, e por ai vai, todos estes são critérios aplicados constantemente na crítica literária ou na crítica cinematográfica. Em fato, mesmo trabalhos não profissionais, a exemplo dos diversos blogs e vlogs internet afora, esperam e cobram estes critérios. O problema, e isto eu também apontei naquela postagem, porém de forma bastante breve, é que nem sempre as obras mais famosas, apreciadas ou mesmo conhecidas são aquelas que estes critérios considerariam boas.

Observemos um dos animes mais famosos e amados que podemos listar: Dragonball Z. Falando aqui expecificamente da série Z, a obra em si tem um ritmo bastante lento em sua história. Com algumas das lutas durando episódios atrás de episódios, muito mais por conta dos personagens ficarem se encarando por vários minutos antes de seguirem com a luta, cada arco de Dragonball Z é bem mais longo do que poderia ser (e Dragonball Kai está ai para provar). Se considerarmos, ainda, a série original, Dragonball Z apresenta um ou outro pequeno furo de roteiro. Já no âmbito das personagens, a série Z apresenta bem pouco desenvolvimento de personagem, com a enorme maioria deles começando e terminando o anime praticamente da mesma forma (fora, talvez, uma ou outra mudança estética). Apesar disso, Dragonball Z foi um enorme sucesso, sendo glorificado ainda hoje internet afora. Por que? Bem, um dos motivos, na minha opinião, pode estar na imprecisão de um conceito que nós normalmente usamos sem muito pensamento crítico: o conceito de “qualidade”.

Apesar de diversas tentativas de “objetivar” (isto é, de tornar objetivo) o conceito de “qualidade”, este ainda é bastante impreciso. Talvez não no campo dos materiais físicos, é verdade. É relativamente fácil concordarmos que, digamos, uma cadeira que quebra fácil não tem qualidade. Ou, para citar outro exemplo, um carro que quebre no meio da estrada logo que você sai da concessionária também seria alvo de críticas à sua “falta de qualidade”. Aqui está sub-entendido a noção de usufruto: eu compro um objeto esperando que ele sirva para uma determinada função (sentar, locomover, etc). Quando o objeto não se comporta da forma que ele foi criado para se comportar, nós dizemos que ele não tem qualidade, pois não conseguimos nos usufruir dele da forma que deveríamos poder. O problema é que fazer essa transposição materialista e utilitarista para qualquer forma de arte é… complicado.

Qual é a função da arte? Seja uma pintura, escultura, um filme ou um anime, em qualquer que seja seu suporte, o que esperamos de uma obra de arte? Verdade é que não existe uma resposta exata a isso. Diferentes pessoas podem procurar diferentes “funções” em uma obra de arte. Podem procurar um valor puramente estético (sendo que a própria noção de estética, a própria ideia de algo como bonito ou não, é totalmente subjetiva), algo bonito para por na parede. Podem procurar um valor sentimental, esperar da obra de arte que ela lhe faça sentir algo. Podem até mesmo ver a arte como desprovida de qualquer função (e se isso é algo ruim ou bom vai também depender de cada um). Mesmo que invertamos o olhar e pensemos nos autores, e não nos consumidores, que tipo de função um artista acredita que sua obra possa ter? De novo, a resposta varia. Alguns buscam um caráter educativo. Outros, um crítico. Alguns só procuram entreter e divertir. E existem, ainda, aqueles que não tem qualquer pretensão, que creem que a arte não deva ter significado ou função e ponto. Quando pensamos nessas noções, fica claro que o critério de qualidade que funciona bem para objetos não pode ser simplesmente transposto para obras de arte.

É desta incapacidade de uma transposição fácil do conceito de “qualidade” para as obras de arte que, me parece, surge uma série de regras que se espera que os artistas sigam. Nossos conceitos de “desenvolvimento de personagem”, “furo de roteiro”, entre outros, não são mais do que versões modernas das regras que ditavam como os artistas do Renascimento deveriam pintar as proporções do corpo humano. O que se cria, portanto, é uma “falsa objetividade”: usamos de critérios subjetivos para criar uma expectativa e julgamos as obras de acordo com o quanto elas respondem ou não a esta expectativa. O problema que isso cria é que, no final das contas, estes critérios para definir uma pretensa “qualidade” objetiva da obra só são úteis para aqueles que se importam com eles.

Agora, eu não quero também insinuar que estes critérios são total e completamente desprezíveis. Como eu disse, eles importam para quem se importa com eles, o que implica na enorme maioria da população ocidental, isso no mínimo. Ainda que sejam construções, puras convenções sociais (passíveis, inclusive, de todas a críticas possíveis e necessárias), estes critérios “objetivos” já estão, de fato, profundamente enraizados em nossa sociedade. Neste sentido, eles ainda tem sua utilidade e considero que ainda podemos usar destes para dizer se uma obra é ou não objetivamente boa, desde que entendamos que nem as nossas noções de “objetividade”, nem as nossas de “boa”, são, efetivamente, objetivas ou universais. Não, o que eu quero com este pequeno texto é tentar, de forma clara, explicar o que me parece estar no cerne da questão do “gosto”.

É aqui que podemos voltar a Dragonball Z. Muitos de nós temos aquela obra que adoramos, mesmo quando ela não se enquadra naqueles critérios de qualidade que eu explicitei acima. Isso porque, na minha opinião, cada um de nós tem seus próprios critérios de qualidade. Cada um de nós tem uma série de critérios que esperamos que uma obra preencha, sendo que estes variam de acordo com a obra (por exemplo, você não espera as mesmas coisas de um shonen e de um seinen). Mais do que isso, estes critérios pessoais podem variar de acordo com o momento em que vivemos. Quem nunca largou uma história por considerá-la ruim somente para depois retomá-la? E o inverso também é válido: quem nunca louvou ao máximo uma dada obra somente para nem conseguir mais suportá-la alguns anos depois? No final, o que aconteceu ai é que seus critérios pessoais para considerar algo bom ou ruim mudaram ao longo do tempo. E isso não é nem positivo nem negativo: a mudança é apenas uma consequência natural da passagem do tempo.

Com toda essa exposição, acredito que agora a pergunta do título desta postagem possa ser melhor desdobrada. Ao perguntar se a qualidade importa, o que eu estou de fato perguntando é se importa ou não que uma dada obra se encaixe naqueles critérios objetivos definidos, sendo que estes critérios são bem menos “objetivos” do que se convencionou pensar. E a resposta, na minha opinião, é a de que sim, importa… ao menos para quem se importa. Sempre haverão pessoas que pouco se importam com coisas como desenvolvimento de personagem ou furos de roteiro e estas pessoas não são “desprovidas de senso crítico”: elas apenas possuem diferentes critérios para definir se algo as agrada ou não. No final, todo critério é pessoal. Mesmo que este critério seja compartilhado por várias pessoas no mundo, isso no máximo o transforma em um consenso da maioria, não em uma lei universal.

Agora, isso tudo dito, resta-nos apenas fazer a seguinte pergunta: sendo todo critério subjetivo, qual é, então, a utilidade da crítica? Digo, se uma obra não precisa se encaixar em certos critérios, se mesmo agradando a uma parcela mínima das pessoas já está bom, então que valor tem a crítica? Como resposta, eu diria que ela tem utilidade em dois níveis. O primeiro deles é a nível pessoal: praticar ou mesmo concordar com uma crítica pode ser útil para o indivíduo expressar em palavras o que até então apenas sentia. Nesta linha, criticar poderia ajudá-lo a explicitar os seus próprios critérios pessoais de gosto, o que basicamente serviria para se buscar com melhor cuidado obras que preencham a estes critérios. Em um segundo nível, porém, a crítica pode ser ainda útil à industria como um todo. Sim, critérios de qualidade são subjetivos, mas mesmo assim muitos deles ainda são compartilhados pela maioria. Uma obra que se proponha ser acessível a um maior público provavelmente quer se encaixar nestes critérios, já que seu não cumprimento pode acarretar uma menor venda. Finalmente, ainda a nível da industria a crítica pode ajudar a identificar estes critérios e se eles se mantém os mesmos ou não, permitindo assim que a industria entregue ao consumidor aquilo que o mesmo efetivamente pediu.

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